Quando entregadores de aplicativo paralisaram suas atividades em diversas cidades brasileiras no Breque dos Apps de 2025, a cena pública pareceu repetir um roteiro conhecido: trabalhadores pedindo remuneração menos aviltante, empresas falando em flexibilidade, consumidores calculando o atraso do almoço. Mas havia, naquela interrupção breve da circulação de mercadorias, algo mais importante que a disputa imediata por taxas e condições de trabalho. A greve expôs a contradição que a plataforma tenta manter invisível: o entregador é vendido como empreendedor autônomo justamente porque a empresa precisa que ele não se reconheça como trabalhador.
Herbert Marcuse escreveu sobre uma sociedade capaz de integrar a crítica, o desejo e até a recusa à sua própria reprodução. No capitalismo de plataforma brasileiro, essa integração ganhou a forma banal da tela: metas, medalhas, mapas, notificações, níveis de desempenho e promessas de ganho. Não se trata de uma propaganda externa ao trabalho. O aplicativo organiza o próprio modo como o trabalhador percebe o tempo, o esforço e o fracasso. A exploração não aparece como exploração; aparece como uma corrida pessoal para “fazer render” o dia.
É nesse ponto que o homem unidimensional deixa de ser uma figura abstrata da teoria crítica e ganha corpo na motocicleta financiada, na bicicleta alugada, no celular superaquecido e na mochila carregada sob chuva. Ele não é uma pessoa incapaz de pensar por insuficiência moral ou intelectual. É alguém submetido a uma ordem que estreita, materialmente, o campo do pensável. Se a conta vence amanhã, se o combustível subiu, se uma corrida recusada pode significar menos chamadas, a pergunta sobre a transformação do sistema é empurrada para fora do horizonte. Resta decidir se vale trabalhar mais duas horas.
A plataforma administra o desejo de sair da precariedade
A força ideológica dos aplicativos não está apenas no discurso empresarial de que eles conectam “parceiros” a oportunidades. Está no fato de que oferecem uma resposta individual a problemas produzidos socialmente. Desemprego, salários rebaixados, informalidade e endividamento aparecem como dados naturais do mundo; diante deles, a plataforma se apresenta como a saída disponível. Não promete segurança, jornada limitada, descanso ou proteção coletiva. Promete acesso imediato a uma tarefa paga. E, numa sociedade em que milhões foram privados dessas garantias, a promessa parece realista.
O resultado é uma liberdade inteiramente administrada. O entregador pode, em tese, ligar e desligar o aplicativo quando quiser. Porém, não define o valor da corrida, a área de maior demanda, o critério de distribuição dos pedidos, as punições informais por recusa, nem as regras que podem mudar unilateralmente. A liberdade de entrar na plataforma convive com a ausência de poder para transformá-la. É a liberdade jurídica mínima que encobre uma dependência econômica máxima.
Marx já havia mostrado que o trabalhador livre sob o capitalismo é livre em dois sentidos: não pertence pessoalmente a um senhor, mas também está separado dos meios necessários para viver e produzir. O entregador contemporâneo parece possuir os instrumentos do próprio trabalho — a moto, o celular, a conta digital —, mas arca individualmente com seus custos enquanto a plataforma controla o acesso à clientela, aos dados e ao preço. A propriedade dispersa dos meios imediatos de trabalho não desfaz a subordinação; ela transfere para o trabalhador despesas e riscos que antes seriam reconhecidos como custos empresariais.
Daí a eficácia da palavra empreendedor. Ela faz o trabalhador imaginar que sua exposição ao risco é sinal de autonomia. Se ganha pouco, a explicação disponível passa a ser a estratégia errada, o horário escolhido, a região mal calculada ou a falta de esforço. A estrutura desaparece atrás de uma biografia. A meritocracia, nesse caso, não é somente uma mentira sobre os vencedores: é uma técnica de administração dos derrotados. Ela converte a desigualdade numa sentença íntima, produzindo culpa onde deveria haver conflito de classe.
O algoritmo não manda sozinho, mas organiza a obediência
Fala-se frequentemente em “algoritmo” como se uma entidade técnica autônoma tivesse assumido o comando da vida social. Essa linguagem é confortável para as empresas, porque dá aparência de neutralidade a decisões que atendem à acumulação de capital. O algoritmo não é um fenômeno natural. É a forma técnica de uma relação social na qual uma empresa concentra dados, define regras opacas e extrai valor do trabalho de uma multidão dispersa.
Heidegger alertava que a técnica moderna não é apenas um conjunto de ferramentas, mas um modo de enquadrar o real como reserva disponível. Nas plataformas, o trabalhador é enquadrado como disponibilidade permanente: uma unidade geolocalizada de força de trabalho que pode ser acionada, medida, classificada e substituída. Seu percurso vira dado; seu tempo de espera vira dado; sua produtividade vira dado. A cidade inteira é redesenhada pela lógica da entrega, mas o poder de decidir como essa infraestrutura funciona permanece concentrado nos proprietários da plataforma.
Essa administração produz uma nova forma de isolamento. O entregador encontra outros entregadores nos restaurantes, nos semáforos e nos pontos de espera, mas a concorrência é continuamente reintroduzida pela tela. Cada qual recebe pedidos diferentes, calcula seu próprio desempenho e teme perder renda. A experiência comum existe, porém aparece fragmentada. É por isso que a organização coletiva é tão incômoda para as empresas: ela faz reaparecer aquilo que o aplicativo trabalha para dissolver, a percepção de que a condição individual é partilhada e tem um responsável social.
A plataforma precisa vender a ideia de que cada entrega é uma escolha individual; a greve começa quando essa escolha revela a dependência coletiva que a sustenta.
O Breque dos Apps teve esse sentido político antes mesmo de qualquer resultado formal. Ao interromper o serviço, entregadores recusaram o papel que lhes é atribuído na sociedade do espetáculo: o de infraestrutura invisível para a conveniência alheia. Debord ajuda a compreender o contraste. O consumidor vê no celular a comida chegando, a rota em movimento, o tempo estimado. Vê uma representação fluida do serviço, mas não as horas sem corrida, o risco no trânsito, o desgaste físico e a renda incerta. A mercadoria chega acompanhada de imagens de eficiência; o trabalho que a torna possível deve permanecer sem imagem ou aparecer apenas como história individual de superação.
A crítica capturada pela linguagem da eficiência
A unidimensionalidade também opera quando a crítica ao aplicativo é aceita apenas nos termos da eficiência. Discute-se se a entrega pode ser mais rápida, se o suporte pode responder melhor, se a taxa pode ser ajustada, se o capacete é adequado. Essas questões importam, mas tornam-se insuficientes quando impedem a pergunta decisiva: por que uma infraestrutura social tão central deve obedecer ao lucro privado e a regras que os trabalhadores não controlam?
O capitalismo contemporâneo tolera muitas reclamações, desde que elas não avancem até a propriedade, o comando e a finalidade da produção. A empresa pode incorporar campanhas publicitárias sobre segurança, diversidade ou bem-estar; pode oferecer benefícios seletivos; pode chamar seus trabalhadores de comunidade. O que ela não pode admitir é que essa comunidade se reconheça como classe, reivindique direitos trabalhistas e intervenha sobre a gestão que determina sua sobrevivência. Marcuse não descrevia uma sociedade sem descontentamento. Descrevia uma sociedade capaz de transformar o descontentamento em ajuste administrável.
Isso vale também para quem recebe a entrega. A comodidade não torna o consumidor culpado individualmente pela precarização, assim como deixar de usar um aplicativo não desmonta uma estrutura de exploração. Mas a comodidade pode funcionar como anestesia política quando nos faz exigir rapidez sem perguntar quais condições tornam essa rapidez possível. O trabalhador atrasado, o professor que sai de uma segunda jornada, a operadora de call center que pede comida entre metas e o entregador que aceita mais uma corrida não ocupam lados morais opostos. São frações de uma mesma classe submetidas, por meios diferentes, à aceleração e à insegurança do trabalho.
Recuperar a dimensão que a tela comprime
Depois de olhar para a paralisação dos entregadores, muda algo na leitura da tela cotidiana. A notificação deixa de ser apenas um aviso de consumo; torna-se o ponto visível de uma cadeia de comando. A expressão “renda extra” deixa de soar inocente quando substitui salário, descanso e proteção social. E a narrativa do empreendedorismo perde seu brilho quando se percebe que ela serve para nomear como escolha aquilo que, para tantos, é falta de escolha.
Recuperar a dimensão negada não significa aguardar uma consciência pura, externa à vida material. Significa reconhecer, nas experiências de trabalho, os interesses comuns que a concorrência tenta apagar. A greve, a associação, a conversa no ponto de espera, a reivindicação por transparência e direitos não são complementos humanitários de uma economia digital inevitável. São formas de quebrar a linguagem que reduz pessoas a usuários, parceiros e indicadores de desempenho.
O homem unidimensional pedala quando acredita que só lhe resta pedalar mais. A ruptura começa quando ele, e também quem depende de seu trabalho, enxerga que a ordem apresentada como técnica é uma escolha de classe. A partir daí, a pergunta deixa de ser como sobreviver melhor dentro do aplicativo e passa a ser quem deve controlar o trabalho, a cidade e a tecnologia que organizam a vida comum.
Comentários
Seja o primeiro a comentar.
Deixe um comentário
Seu comentário será publicado após aprovação.