O que é egemonia? A grafia consagrada é hegemonia, mas a pergunta interessa menos como exercício de dicionário do que como problema político: por que tantas pessoas passam a defender ideias que pioram sua própria posição social? A resposta não está apenas na propaganda, na mentira ou na força policial. A hegemonia é o processo pelo qual uma classe transforma seus interesses particulares em aparência de interesse geral, fazendo uma ordem histórica parecer natural, inevitável e até desejável.
É nesse ponto que a contribuição de Antonio Gramsci se distancia da noção vulgar de poder. Dominar não significa somente mandar, punir ou controlar os meios de produção. Uma classe também domina quando consegue organizar o modo como a sociedade interpreta o trabalho, a pobreza, a autoridade, a liberdade e o futuro. O trabalhador que aceita a precarização como prova de mérito, o desempregado que culpa a si mesmo pela falta de oportunidades e o pequeno comerciante que identifica qualquer política social com ameaça comunista não estão simplesmente enganados por uma informação falsa. Estão inseridos em uma disputa pela direção intelectual e moral da sociedade.
O que é egemonia para além da propaganda
Para Gramsci, a hegemonia combina coerção e consentimento. A coerção aparece nas leis, na polícia, na demissão, na dívida, na ameaça de despejo e na necessidade de aceitar qualquer ocupação para sobreviver. O consentimento aparece quando essas relações são interpretadas como normais: o patrão seria apenas um empreendedor mais competente; o entregador seria um empresário de si mesmo; a pobreza seria consequência de escolhas individuais; o Estado deveria existir sobretudo para garantir contratos, propriedade e repressão.
Isso não quer dizer que o consentimento seja livre no sentido liberal do termo. Uma pessoa pode escolher entre aceitar uma jornada exaustiva ou ficar sem renda, mas essa escolha ocorre dentro de relações materiais que ela não controla. A hegemonia opera precisamente ao esconder essa estrutura. Ela apresenta como decisão pessoal aquilo que foi produzido por uma organização social. O trabalhador não escolhe individualmente a existência do desemprego, a concentração da riqueza ou a precarização dos aplicativos. Ainda assim, a ideologia o convence de que seu destino depende exclusivamente de disciplina, esforço e capacidade de adaptação.
A força da hegemonia está em não precisar repetir a todo instante uma ordem explícita. Quando uma ideia se torna senso comum, ela passa a circular como evidência. “Quem quer consegue”, “o Estado atrapalha”, “direitos demais quebram as empresas”, “pobre precisa aprender a empreender”: frases como essas não são apenas opiniões dispersas. Elas condensam uma visão de mundo conveniente ao capital e organizam julgamentos sobre quem merece proteção, salário, respeito ou punição.
O senso comum, entretanto, não é uma massa homogênea nem uma consciência totalmente fabricada de cima para baixo. Gramsci o compreende como um conjunto contraditório de crenças sedimentadas pela experiência cotidiana. O trabalhador pode acreditar que cada pessoa deve vencer por mérito e, ao mesmo tempo, participar de uma greve quando percebe que a exploração não é um problema individual. Pode defender a família tradicional e cobrar do poder público atendimento de saúde, moradia e escola. Essas contradições são importantes porque mostram que a hegemonia nunca está concluída. Ela precisa ser renovada, disputada e protegida.
O capitalismo brasileiro transforma privilégio em normalidade
No Brasil, a hegemonia capitalista se apoia em uma história de escravidão, concentração fundiária, racismo, dependência econômica e desigualdade extrema. A defesa abstrata da liberdade convive com a liberdade concreta de poucos controlarem terra, crédito, mídia, plataformas e decisões do Estado. A igualdade jurídica convive com mercados de trabalho marcados por diferenças raciais e regionais profundas. O discurso de que todos competem nas mesmas condições serve, nesse contexto, para ocultar que alguns começam a corrida com patrimônio, redes de proteção e acesso a oportunidades, enquanto outros começam endividados e submetidos à urgência da sobrevivência.
Essa forma de hegemonia aparece com clareza na figura do empreendedor. O trabalhador informal que vende comida, dirige por aplicativo ou presta serviços sem proteção é apresentado como alguém que administra o próprio negócio. A palavra elimina a relação de dependência econômica. Se ele é um empresário, sua jornada longa deixa de ser exploração; seu risco deixa de ser transferido pelo capital; sua ausência de férias, previdência e seguro deixa de ser uma decisão empresarial das plataformas. O fracasso também muda de nome: não é resultado de uma estrutura de mercado, mas falta de esforço, qualificação ou inteligência financeira.
O entregador de aplicativo encarna essa contradição. Ele pode escolher quando se conectar, mas não define o preço da corrida, o modo de distribuição dos pedidos, os critérios de bloqueio, a visibilidade de seu perfil ou o cálculo que determina sua remuneração. A plataforma aparece como simples intermediária tecnológica, embora organize a atividade, avalie o trabalhador e extraia valor de cada entrega. A ideologia do empreendedorismo converte subordinação em autonomia aparente. A hegemonia não precisa negar que o entregador trabalha; basta nomear esse trabalho de forma a impedir que ele seja reconhecido como relação de exploração.
Quando entregadores organizam um breque dos apps, essa aparência começa a ruir. A paralisação revela que a suposta liberdade individual depende de uma infraestrutura coletiva e que a plataforma não é um espaço neutro de encontro entre consumidores e prestadores. O trabalhador que se conecta sozinho descobre que só consegue negociar quando muitos interrompem, juntos, o fluxo que mantém o aplicativo funcionando. A ação coletiva produz uma interpretação alternativa da realidade: aquilo que era apresentado como escolha privada aparece como relação social e conflito de classe.
O bolsonarismo disputou o senso comum nas ruas e nas telas
O bolsonarismo não pode ser reduzido a um conjunto de mentiras eleitorais ou a uma personalidade autoritária. Ele foi uma forma de organização hegemônica da crise brasileira. Sua força esteve em conectar ressentimentos reais a explicações falsas e soluções autoritárias. A precarização, a violência cotidiana, o medo do desemprego, a perda de referências coletivas e a desconfiança das instituições foram reorganizados por uma narrativa que identificava inimigos internos: professores, universidades, artistas, militantes, jornalistas, comunistas, ministros do Supremo e qualquer força social capaz de limitar a autoridade do líder.
Essa operação não inventou todos os conflitos. O que fez foi deslocar suas causas. Em vez de discutir a concentração econômica, a captura do Estado por interesses empresariais ou a destruição de políticas públicas, o bolsonarismo ensinou a localizar o problema no comportamento de minorias, na suposta corrupção moral dos adversários e na existência de direitos sociais. Em vez de questionar por que a vida se tornou mais insegura, ofereceu a promessa de uma autoridade sem freios. A frustração social foi canalizada contra a democracia e contra os grupos apresentados como beneficiários de uma proteção indevida.
O episódio de 8 de janeiro mostra o resultado extremo dessa disputa. A invasão das sedes dos poderes não foi uma explosão sem linguagem política. Os participantes levaram consigo a crença de que defendiam a nação contra uma conspiração e de que a destruição institucional seria uma forma de salvação. A violência foi precedida por uma construção cotidiana de realidade, alimentada por discursos políticos, comunidades digitais, mensagens religiosas e circuitos de desinformação. A hegemonia autoritária transforma o ataque à democracia em gesto de patriotismo e converte a derrota eleitoral em prova de fraude.
Isso não significa atribuir a cada indivíduo a mesma responsabilidade ou imaginar que toda pessoa exposta a uma mensagem se torna automaticamente fascista. Significa compreender que ações políticas dependem de um ambiente social no qual certas interpretações ganham credibilidade. O bolsonarismo trabalhou para construir esse ambiente. Sua linguagem não precisava ser coerente em termos teóricos; precisava oferecer um mapa afetivo para uma sociedade atravessada por medo, ressentimento e abandono. O inimigo era mutável, mas a estrutura permanecia: um povo moralmente puro, um líder que encarna sua vontade e instituições tratadas como obstáculos.
As plataformas não criaram a hegemonia, mas aceleram sua circulação
As redes sociais são frequentemente apresentadas como ferramentas neutras que apenas distribuem opiniões produzidas pelos usuários. Essa descrição esconde o papel econômico das plataformas. Elas organizam a visibilidade por meio de sistemas de recomendação, retenção de atenção e coleta de dados. O que aparece na tela não é simplesmente o retrato espontâneo da sociedade: é o resultado de infraestruturas privadas que classificam comportamentos e priorizam conteúdos capazes de manter a interação.
O algoritmo não possui uma ideologia no sentido de ter crenças pessoais, mas opera dentro de objetivos empresariais. Se a indignação, a ameaça e a humilhação aumentam o tempo de permanência, esses afetos podem receber tratamento favorável na disputa por atenção. A plataforma não precisa desejar o fascismo para favorecer condições de circulação úteis à extrema direita. Basta que sua lógica de monetização recompense a produção incessante de conflito e que seus critérios sejam opacos, privados e orientados pela acumulação.
O problema, então, não é apenas que alguém publica uma mentira. É que existe uma arquitetura social capaz de transformar mentira em repetição, repetição em familiaridade e familiaridade em senso de verdade. A hegemonia digital trabalha com velocidade, segmentação e personalização. Ela oferece a cada grupo uma versão do mesmo mundo, ajustada a seus medos e desejos, enquanto mantém intocada a estrutura que lucra com a atenção de todos.
Essa tecnologia também alcança o trabalho. No aplicativo de entrega, o trabalhador recebe comandos sem encontrar um chefe visível. Na rede social, o usuário é conduzido sem perceber o conjunto de decisões que ordena seu campo de visão. Em ambos os casos, a administração aparece como cálculo automático. O poder se torna menos identificável e, por isso, mais difícil de contestar. A avaliação algorítmica produz uma nota, um bloqueio ou uma recomendação que parecem resultados técnicos, não decisões sociais. A técnica serve para despolitizar relações que continuam sendo econômicas e políticas.
Quem controla a cultura controla os limites do possível
Hegemonia não é somente convencer as pessoas de que o capitalismo é justo. É delimitar previamente quais alternativas parecem realistas. Quando a privatização é apresentada como modernização, a exploração como flexibilidade e o corte de direitos como responsabilidade fiscal, propostas anticapitalistas são empurradas para o campo do impossível ou do infantil. A discussão já começa dentro de uma fronteira estabelecida por interesses dominantes.
Essa fronteira é produzida por escolas, meios de comunicação, igrejas, empresas, partidos, instituições jurídicas e plataformas. Não se trata de afirmar que todos esses espaços obedecem a uma coordenação secreta. Eles cumprem funções diferentes e entram em conflito entre si. Mas, em uma sociedade capitalista, tendem a reproduzir uma imagem do mundo na qual a propriedade privada e a concorrência aparecem como bases naturais da vida social. A hegemonia funciona por meio desse conjunto de práticas, hábitos e instituições, e não somente por uma mensagem oficial.
O Estado ocupa lugar central nessa engrenagem. Ele não é um árbitro acima das classes, distribuindo neutralidade entre interesses equivalentes. Ao garantir contratos, propriedade, moeda, infraestrutura e disciplina jurídica do trabalho, o Estado organiza as condições gerais da acumulação. Também pode reconhecer direitos e atender reivindicações populares, mas o faz dentro de limites pressionados pela reprodução do capital. A hegemonia burguesa passa pela capacidade de apresentar esse Estado como representante universal, mesmo quando suas decisões protegem de maneira sistemática os grupos que controlam riqueza e poder.
A linguagem jurídica participa dessa operação. Uma empresa de aplicativo pode tratar o entregador como parceiro autônomo; o contrato transforma a relação material de dependência em igualdade formal entre contratantes. Na aparência, ambos têm liberdade para aceitar ou recusar termos. Na realidade, um controla a plataforma e o outro precisa vender sua força de trabalho para sobreviver. A forma jurídica não é uma simples mentira, mas uma forma social que organiza a desigualdade sob o signo da igualdade. É assim que a dominação se torna compatível com a imagem de uma sociedade de indivíduos livres.
A contra-hegemonia começa quando a experiência ganha outro nome
Se a hegemonia disputa o senso comum, a luta política não pode se limitar a desmentir frases isoladas na internet. É preciso construir uma interpretação capaz de ligar experiências separadas. O entregador que sofre bloqueio, a professora submetida a metas, o operador de call center vigiado por produtividade e a família que enfrenta aluguel alto não vivem problemas idênticos, mas podem reconhecer uma mesma lógica: a transferência dos riscos do capital para quem trabalha.
Essa ligação não surge automaticamente da pobreza. A exploração pode produzir revolta, mas também isolamento, competição e culpa. A contra-hegemonia exige organização capaz de transformar sofrimento privado em questão coletiva. Um sindicato, uma associação de entregadores, um movimento de moradia, uma greve ou uma escola popular não oferecem apenas reivindicações pontuais. Eles produzem linguagem, memória e capacidade de ação. Fazem o trabalhador deixar de se enxergar como fracasso individual e passar a compreender sua condição como parte de uma estrutura modificável.
É nesse terreno que a esquerda precisa disputar o senso comum sem abandonar a materialidade. Não basta trocar uma propaganda empresarial por uma propaganda progressista. É necessário demonstrar, na experiência concreta, que o problema não é a falta de adaptação do indivíduo, mas a organização social que depende de sua adaptação permanente. O trabalhador não precisa aprender a amar a precariedade; precisa reconhecer que sua vida pode ser organizada por outros princípios, nos quais tecnologia, produção e riqueza estejam submetidas às necessidades sociais.
A resposta à hegemonia autoritária também não pode ser uma defesa abstrata das instituições existentes. A democracia que preserva a exploração e tolera a desigualdade continua vulnerável ao fascismo. Defender direitos democráticos significa ampliar a capacidade popular de decidir sobre trabalho, renda, território, comunicação e tecnologia. Significa enfrentar tanto a violência aberta da extrema direita quanto a violência cotidiana de uma ordem que naturaliza fome, endividamento e insegurança.
O que é egemonia, afinal? É o poder quando deixa de parecer apenas poder e passa a se apresentar como realidade, bom senso ou destino. É a vitória de uma classe no terreno das interpretações, antes mesmo de cada conflito ser resolvido pela força. No Brasil, essa vitória é disputada todos os dias: no discurso que chama exploração de oportunidade, na tela que transforma ressentimento em audiência, no contrato que chama subordinação de parceria e na política que promete autoridade em lugar de direitos.
Mas nenhuma hegemonia é eterna. O senso comum também guarda experiências que não cabem na ordem dominante. Quando a injustiça deixa de ser vivida como culpa pessoal, quando a tecnologia é reconhecida como instrumento de controle e quando trabalhadores encontram meios de agir coletivamente, abre-se uma fissura. A tarefa política não é preencher essa fissura com outra frase pronta. É organizar, a partir dela, uma força social capaz de transformar o que hoje parece inevitável.
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