O que significa hegemonia? A resposta crítica começa recusando a definição escolar que a reduz à superioridade de um grupo sobre os demais. Hegemonia não é somente quem possui mais força, dinheiro ou armas. É o poder de apresentar uma ordem social particular como se fosse o modo natural, racional e inevitável de organizar a vida. Quando um entregador aceita a avaliação do aplicativo como medida de seu valor, quando um trabalhador atribui o próprio fracasso à falta de esforço ou quando uma população identifica direitos sociais como privilégios, a dominação já não depende apenas da coerção. Ela opera dentro do senso comum.

Essa é a contribuição decisiva de Antonio Gramsci para compreender a política. A classe dominante não governa apenas por controlar empresas, bancos, instituições e aparelhos repressivos. Ela também disputa a formação das ideias, dos hábitos e das expectativas pelas quais as pessoas interpretam a realidade. A hegemonia combina direção cultural e poder material: convence, organiza consensos e conserva condições econômicas que beneficiam uma minoria. O consenso, nesse caso, não é uma conversa equilibrada entre iguais. É produzido em uma sociedade desigual, na qual alguns possuem os meios de comunicação, de educação, de trabalho e de decisão, enquanto outros precisam aceitar as regras para sobreviver.

O que significa hegemonia além da simples dominação

Dominação e hegemonia não são sinônimos. Um assaltante domina alguém pela ameaça imediata; um Estado pode dominar uma revolta por meio da polícia; uma empresa pode impor uma jornada porque controla o emprego. A hegemonia aparece quando essa relação de força é incorporada como normalidade e passa a ser reproduzida pelos próprios subordinados. O trabalhador não precisa amar o patrão para agir de acordo com a disciplina da empresa. Basta que considere a competição inevitável, a insegurança um estímulo e a ausência de alternativas uma falha pessoal.

Isso não significa que a coerção desapareça. O capitalismo continua dependendo da propriedade privada, da necessidade de vender a força de trabalho e da ameaça do desemprego. A novidade está em como a coerção se apresenta. O trabalhador formal submetido a metas, o professor pressionado por indicadores e o entregador controlado por uma plataforma podem experimentar a ordem empresarial como uma sequência de escolhas individuais. A empresa não precisa ordenar cada movimento quando o sistema de avaliação, a necessidade de renda e a concorrência entre trabalhadores produzem obediência antecipada.

Marx ajuda a compreender a base material desse processo. A exploração não nasce de uma opinião equivocada sobre o trabalho, mas da relação em que quem não possui meios de produção precisa vender sua capacidade de trabalhar. A ideologia atua sobre essa relação ao ocultar sua estrutura. O salário aparece como pagamento justo de todo o trabalho realizado; o lucro aparece como recompensa pelo risco e pela gestão; a pobreza aparece como resultado de escolhas pessoais. A hegemonia transforma relações históricas e sociais em fatos aparentemente naturais.

O senso comum é fabricado no trabalho cotidiano

O senso comum não é uma coleção neutra de crenças populares. Ele reúne ideias contraditórias, práticas herdadas e explicações que circulam na família, na escola, na religião, na televisão, nas redes e no local de trabalho. É justamente por ser fragmentado e cotidiano que ele se torna politicamente decisivo. Uma pessoa pode defender a solidariedade em sua comunidade e, ao mesmo tempo, acreditar que cada trabalhador deve resolver sozinho sua vida. Pode criticar a corrupção e aceitar que empresas privadas definam serviços essenciais sem controle público. Pode rejeitar a violência explícita e tolerar a violência econômica que condena milhões à insegurança permanente.

O poder hegemônico trabalha com essas contradições. Ele não precisa impor uma doutrina perfeitamente coerente. Precisa conectar experiências reais a explicações que preservem a ordem existente. O trabalhador percebe que a vida está mais cara, que o emprego é instável e que o futuro é incerto. A hegemonia neoliberal oferece uma interpretação: o problema seria a incompetência individual, o excesso de direitos, o funcionário público, o pobre que recebe auxílio, o jovem que não se esforçou o suficiente. A causa estrutural é deslocada para um inimigo disponível.

A meritocracia é uma das formas mais eficientes dessa operação. Ela não afirma que todos possuem as mesmas condições de partida; afirma algo mais funcional ao capital: que a posição de cada um deve ser lida como resultado de seu desempenho. Com isso, desigualdades produzidas por classe, raça, território e gênero são convertidas em diferenças de mérito. O fracasso deixa de ser uma questão política e vira uma culpa íntima. A precariedade passa a ser suportada como projeto de empreendedorismo.

O professor que trabalha em mais de uma escola, o atendente de call center que precisa cumprir metas inalcançáveis e o jovem submetido a estágios mal remunerados não são simplesmente vítimas de uma ideia falsa. Eles vivem relações concretas que os obrigam a buscar qualquer renda. A ideologia não substitui essa necessidade; ela a interpreta de modo a impedir que a experiência individual se transforme em consciência coletiva. O sofrimento é privatizado antes de se tornar conflito social.

O entregador como figura da hegemonia algorítmica

O entregador sob algoritmo oferece um caso brasileiro particularmente revelador. Ele não recebe necessariamente uma ordem direta de um supervisor, não cumpre uma jornada fixada como a do operário fabril e pode acreditar que trabalha por conta própria. A plataforma apresenta-se como simples intermediária entre consumidor, restaurante e trabalhador. A linguagem é a da autonomia: o entregador escolhe quando conectar-se, decide quais corridas aceitar e seria, em tese, dono do próprio tempo.

Mas a autonomia formal convive com uma dependência material rigorosa. O aplicativo distribui pedidos, calcula rotas, define valores, registra desempenho, produz avaliações e pode limitar o acesso às oportunidades de trabalho. O entregador não conhece integralmente os critérios que determinam sua remuneração nem possui poder real para negociar as regras. O algoritmo transforma decisões empresariais em procedimentos técnicos que parecem impessoais. A empresa não diz apenas "obedeça"; ela organiza o ambiente no qual obedecer aparece como a maneira racional de ganhar o dia.

A hegemonia algorítmica ocorre quando o controle é aceito como neutralidade. Se uma corrida paga pouco, a explicação oferecida é a dinâmica da demanda. Se o trabalhador recebe menos pedidos, a resposta é sua avaliação, sua localização ou seu desempenho. Se ele se acidenta porque trabalhou longas horas para alcançar uma renda mínima, a responsabilidade é deslocada para sua escolha de conexão. A plataforma desaparece como empregadora e reaparece como tecnologia. A exploração não deixa de existir; torna-se difícil de nomear.

O discurso do empreendedor de si mesmo completa o dispositivo. O entregador é convidado a pensar como empresário, embora não controle preços, infraestrutura, acesso aos clientes ou condições de trabalho. Assume os custos da motocicleta, do combustível, do celular, da manutenção e dos acidentes. A propriedade da plataforma fica invisível, enquanto o risco é individualizado. O trabalhador é formalmente livre para aceitar ou recusar, mas sua liberdade é comprimida pela necessidade de pagar aluguel e comida.

Quando os entregadores organizam paralisações e o breque dos apps, produzem uma ruptura hegemônica. A experiência antes interpretada como dificuldade pessoal passa a ser reconhecida como problema comum. A reclamação sobre uma taxa baixa deixa de ser apenas insatisfação com uma corrida e se conecta à estrutura que concentra decisões, dados e renda. A luta revela que aquilo que parecia escolha privada era uma relação coletiva de exploração. O conflito trabalhista disputa o sentido da tecnologia e da autonomia.

A hegemonia também se constrói na política brasileira

No campo político, o bolsonarismo mostrou como uma força reacionária pode disputar o senso comum sem oferecer uma explicação coerente para a totalidade social. Sua eficácia não dependeu apenas de mentiras isoladas ou de propaganda eleitoral. Ela se apoiou em ressentimentos reais: insegurança econômica, descrédito das instituições, medo da perda de status, precarização do trabalho e sensação de abandono. Em vez de transformar essas experiências em crítica ao capital, canalizou-as contra inimigos culturais, minorias, professores, jornalistas, servidores e organizações populares.

A desinformação bolsonarista não funciona somente porque algumas pessoas desconhecem fatos. Ela funciona ao organizar afetos e identidades. A indignação contra a corrupção, por exemplo, pode ser separada da crítica ao financiamento empresarial da política e redirecionada para uma narrativa segundo a qual o problema estaria em indivíduos moralmente degenerados ou em uma conspiração ideológica. O conflito entre classes é substituído por uma guerra moral. Assim, trabalhadores endividados podem defender políticas que reduzem direitos, desde que reconheçam no discurso do líder uma promessa de restauração da ordem.

Guy Debord ajuda a compreender essa passagem da política para a representação espetacular. O espetáculo não é apenas excesso de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. A política passa a ser consumida como cena, antagonismo e identificação. A performance do líder importa mais do que a transformação das condições materiais. A sensação de participação pode crescer enquanto a capacidade efetiva de decisão diminui. O cidadão comenta, compartilha, reage e escolhe um lado, mas permanece distante das estruturas que definem emprego, renda, moradia e poder econômico.

Gustave Le Bon, embora parta de uma tradição conservadora e de uma compreensão problemática das multidões, permite observar como a política de massa mobiliza símbolos, simplificações e contágios emocionais. A crítica não deve aceitar sua ideia de que a multidão é naturalmente irracional. O ponto decisivo é outro: em uma sociedade fragmentada e insegura, a circulação acelerada de imagens pode condensar frustrações dispersas em uma identidade política. O bolsonarismo ofereceu pertencimento e inimigos quando a experiência social parecia sem explicação comum.

Esse movimento foi hegemônico em determinados momentos não porque convenceu todos sobre um programa econômico detalhado, mas porque conseguiu definir o que deveria ser considerado ameaça, ordem, liberdade e cidadão legítimo. A liberdade foi associada à recusa de limites coletivos, enquanto a igualdade foi apresentada como privilégio indevido. A defesa autoritária da propriedade e da hierarquia apareceu como rebeldia contra o sistema. É uma inversão poderosa: a política que protege os de cima veste a linguagem da insubordinação.

Estado, direito e a aparência de neutralidade

A hegemonia capitalista não se sustenta apenas na mídia ou nas plataformas. Ela também atravessa o Estado e o direito. Alysson Mascaro mostra que o Estado capitalista não é simplesmente um instrumento externo que uma classe manipula conforme sua vontade. Sua forma institucional separa os indivíduos em sujeitos jurídicos livres e iguais, permitindo que relações profundamente desiguais apareçam como contratos entre partes equivalentes. O trabalhador vende sua força de trabalho como se estivesse negociando em condições simétricas com a empresa.

Essa forma jurídica é indispensável à dominação porque combina igualdade formal e desigualdade material. O entregador pode aceitar os termos de uso; a empresa pode afirmar que não existe vínculo; ambos aparecem como sujeitos livres diante da lei. Mas apenas um lado controla a plataforma, os dados, o capital e a possibilidade de modificar as regras. A igualdade contratual não elimina a dependência econômica. Muitas vezes, ela é a maneira jurídica pela qual a dependência se torna legítima.

O Estado também pode reconhecer direitos e, simultaneamente, administrar sua limitação. A ausência de proteção trabalhista para novas formas de emprego não é um vazio puramente técnico. Ela decorre de disputas entre interesses sociais, de escolhas legislativas e da capacidade das empresas de influenciar a definição do que conta como trabalho. Quando a inovação é usada para suspender direitos já conhecidos, a tecnologia funciona como argumento político. O aplicativo é apresentado como algo novo demais para ser regulado, embora dependa de uma estrutura antiga: a apropriação privada do trabalho alheio.

A hegemonia se fortalece quando essa situação é narrada como modernização inevitável. Quem questiona a plataforma aparece como inimigo do progresso; quem exige proteção seria incapaz de compreender o futuro. O capital transforma sua própria necessidade de reduzir custos em destino histórico. A técnica, nesse discurso, parece decidir sozinha. Heidegger ajuda a perceber o problema ao mostrar que a técnica moderna não é apenas um conjunto de ferramentas, mas uma forma de enquadrar o mundo como reserva disponível. Pessoas, tempo, atenção e dados passam a ser recursos calculáveis.

Como se rompe uma hegemonia

Romper a hegemonia não significa trocar uma opinião dominante por outra em uma disputa de redes sociais. Significa construir uma interpretação capaz de ligar experiências dispersas a relações sociais concretas e, ao mesmo tempo, organizar práticas coletivas. A crítica precisa mostrar ao entregador que sua insegurança não é fracasso pessoal, ao professor que a sobrecarga não é falta de vocação, ao trabalhador de call center que a meta não é medida neutra de competência. Mas mostrar não basta. É preciso criar formas de associação que permitam agir contra a causa comum.

Gramsci chamou de senso comum crítico a elaboração de uma visão mais coerente da realidade a partir das experiências populares. Essa elaboração não nasce de uma aula abstrata imposta de fora. Surge na greve, no sindicato, no movimento de bairro, na ocupação, na organização por direitos e na disputa pública sobre o significado do trabalho. A teoria se torna força material quando ajuda a nomear o que a experiência já anuncia e quando orienta uma prática capaz de alterar as relações existentes.

Por isso, a disputa hegemônica envolve a linguagem. Dizer trabalhador em vez de parceiro não é uma simples preferência vocabular; é reconhecer uma relação social. Dizer controle algorítmico em vez de recomendação automática revela que há decisões, interesses e poder por trás do código. Dizer exploração em vez de falta de adaptação desloca a responsabilidade do indivíduo para a estrutura. Nomear corretamente não resolve o conflito, mas impede que o adversário escolha sozinho os termos nos quais ele será compreendido.

A luta também exige disputar o significado de liberdade. Para o neoliberalismo, liberdade é poder escolher entre aceitar uma corrida mal paga, contrair dívida ou ficar sem renda. Para uma política emancipatória, liberdade exige tempo, segurança, direitos, acesso aos meios de vida e capacidade coletiva de decidir sobre a produção. Não se trata de substituir a autonomia individual por obediência a uma organização. Trata-se de superar uma sociedade em que a sobrevivência obriga cada indivíduo a competir contra os demais.

A hegemonia capitalista nunca é completa. Se fosse, não haveria greves, revoltas, solidariedade entre trabalhadores ou rejeição cotidiana às regras da empresa. Toda ordem precisa ser renovada porque contém conflitos que não consegue eliminar. O mesmo aplicativo que individualiza o entregador pode aproximá-lo de outros trabalhadores; a mesma rede que espalha desinformação pode divulgar denúncias; a mesma crise que alimenta o ressentimento pode abrir espaço para uma explicação anticapitalista. O poder disputa o senso comum porque sabe que ele pode mudar.

O que significa hegemonia, afinal, não é perguntar quem manda em uma sociedade como se o poder estivesse concentrado em um único chefe. É investigar como a mando econômico, a autoridade política e os hábitos cotidianos se tornam aceitáveis, desejáveis ou invisíveis. No Brasil, a hegemonia aparece quando a exploração do entregador é chamada de autonomia, quando a desigualdade é chamada de mérito e quando o autoritarismo é vendido como liberdade. A tarefa crítica começa ao interromper essas traduções. Onde a dominação se apresenta como escolha, é preciso reconstruir a relação social que foi apagada.