O senso comum significado não se resume a uma definição de dicionário nem a um conjunto inocente de opiniões compartilhadas. Ele é o modo pelo qual uma sociedade transforma relações históricas em evidências aparentemente naturais. Quando alguém afirma que o pobre precisa apenas se esforçar, que o entregador é um empreendedor ou que o Estado deve sair do caminho das empresas, não está apenas expressando uma preferência individual. Está reproduzindo uma visão de mundo produzida por relações materiais, instituições, meios de comunicação e formas de poder. O senso comum parece espontâneo justamente porque a ideologia conseguiu desaparecer como ideologia.

A pergunta decisiva, então, não é apenas o que significa senso comum, mas quem tem condições de definir aquilo que será considerado comum. Em uma sociedade dividida em classes, as ideias dominantes tendem a ser as ideias da classe dominante, não porque todos sejam enganados da mesma maneira, mas porque a classe proprietária controla parte decisiva das instituições que organizam a experiência social. A escola, a imprensa, a publicidade, o direito, as plataformas digitais e o próprio trabalho cotidiano oferecem explicações prontas para uma realidade que permanece desigual. Essas explicações retiram a história das coisas e apresentam como natureza aquilo que foi construído politicamente.

O senso comum significado pela hegemonia

Antonio Gramsci permite compreender esse processo por meio do conceito de hegemonia. A dominação capitalista não depende somente da coerção policial, da ameaça de demissão ou da necessidade econômica. Ela também precisa obter algum grau de consentimento, fazendo com que os dominados interpretem o mundo por categorias que preservam a ordem existente. Hegemonia não é uma lavagem cerebral absoluta. É a capacidade de organizar o campo do pensável, definindo quais perguntas parecem razoáveis, quais soluções soam maduras e quais reivindicações são tratadas como ameaça ou extravagância.

O senso comum é a forma cotidiana dessa hegemonia. Ele reúne fragmentos contraditórios: uma pessoa pode defender a igualdade em abstrato e, ao mesmo tempo, considerar natural que trabalhadores recebam salários muito diferentes; pode denunciar a corrupção e apoiar empresas que exploram entregadores; pode dizer que odeia política enquanto repete uma visão profundamente política sobre segurança, pobreza e direitos sociais. Essa contradição não é um defeito individual que se resolveria com uma aula. É o efeito de uma experiência social fragmentada, na qual os indivíduos percebem sofrimentos reais, mas dispõem de explicações isoladas para conectá-los.

O bom senso, quando existe, nasce da capacidade de confrontar essas explicações com a realidade concreta. Já o senso comum tende a funcionar como uma colagem de máximas, preconceitos e noções práticas que parecem confirmar umas às outras. A frase quem quer consegue convive com a experiência de desemprego, doença, transporte precário e salários insuficientes porque oferece uma interpretação moral para um problema estrutural. Se alguém não prosperou, a culpa é sua. Se prosperou, sua trajetória vira prova de que o sistema funciona. Assim, tanto o fracasso quanto a exceção podem ser absorvidos pela mesma narrativa.

Do sofrimento social à culpa individual

A força do senso comum neoliberal está em traduzir relações econômicas em atributos pessoais. O trabalhador não está submetido a uma relação de exploração; ele precisa administrar melhor sua carreira. A professora não está sobrecarregada por políticas de austeridade e metas administrativas; precisa ser mais resiliente. O atendente de call center não está submetido a uma organização do trabalho que mede cada pausa; precisa desenvolver inteligência emocional. O desempregado não foi atingido por uma crise e por decisões empresariais; precisa se reinventar.

Essa linguagem não elimina o sofrimento. Ela o privatiza. Cada indivíduo passa a carregar como falha pessoal aquilo que é produzido pela organização coletiva da economia. O medo de perder o emprego deixa de ser uma consequência da dependência salarial e se transforma em ansiedade de desempenho. O cansaço deixa de indicar uma jornada abusiva e aparece como incapacidade de gerir o próprio tempo. A exaustão é tratada com aplicativos de meditação, cursos de produtividade e discursos de motivação, enquanto a empresa preserva o poder de definir ritmo, remuneração e permanência.

Marx chamou de alienação o processo pelo qual o trabalhador se separa do produto, da atividade, dos outros trabalhadores e de sua própria potência humana. No capitalismo contemporâneo, essa separação ganha uma camada subjetiva intensa: o indivíduo é levado a se reconhecer como proprietário de uma pequena empresa chamada eu. Mesmo quando vende sua força de trabalho em condições precárias, ele é incentivado a imaginar que administra um negócio pessoal. O vínculo empregatício é ocultado pela linguagem da parceria; a subordinação aparece como autonomia; a necessidade de renda é rebatizada como liberdade.

É nesse terreno que a meritocracia se torna senso comum. Ela não afirma somente que o esforço pode produzir resultados. Afirma, sobretudo, que os resultados revelam o mérito de cada um. Com isso, as desigualdades de origem, o racismo, o gênero, o território, a herança, a qualidade da educação e o poder de barganha desaparecem da explicação. O sucesso do vencedor é convertido em virtude e a derrota do trabalhador em culpa. A meritocracia não precisa provar que todos começam do mesmo ponto; basta convencer que a posição ocupada é uma medida justa do valor individual.

O entregador e a ficção do empreendedor

O entregador de aplicativo concentra uma das contradições mais visíveis desse senso comum. Ele pode escolher quando se conectar, mas não controla o preço da corrida, a distribuição dos pedidos, a avaliação dos clientes, os critérios de bloqueio nem o funcionamento do algoritmo. Pode circular pela cidade, mas precisa permanecer disponível em regiões e horários definidos pela demanda. É chamado de parceiro, embora dependa de uma empresa que organiza o mercado, retém parte do valor e pode interromper sua fonte de renda sem negociação.

A palavra empreendedor serve, nesse caso, para apagar a relação de trabalho. A bicicleta, a motocicleta, o celular, a internet, a manutenção e o combustível são apresentados como instrumentos de autonomia, embora transfiram ao trabalhador custos que antes pertenciam à empresa. O risco econômico também é individualizado. Se chove, se a moto quebra, se o aplicativo reduz chamadas ou se um cliente avalia mal, a perda recai sobre o entregador. A plataforma conserva o poder de coordenação sem assumir integralmente as responsabilidades que caracterizam o empregador.

O senso comum aceita essa situação porque confunde liberdade formal com autonomia material. O entregador não está preso a uma fábrica e pode desligar o aplicativo, mas essa possibilidade abstrata não significa que tenha liberdade real. Para quem precisa pagar aluguel e alimentação, desconectar-se pode ser apenas a liberdade de não receber. A tecnologia modifica a aparência da subordinação, não necessariamente sua existência. O algoritmo substitui parte da supervisão humana, mas continua organizando o trabalho conforme os interesses da acumulação.

Guy Debord mostrou que a sociedade do espetáculo não é apenas uma sociedade com muitas imagens. É uma forma de relação social mediada por imagens, na qual a aparência passa a organizar a experiência. A imagem do empreendedor conectado, dono do próprio tempo e livre para escolher seus caminhos, cumpre essa função espetacular. Ela torna visível uma fantasia de autonomia e invisível a infraestrutura material que sustenta a plataforma: trabalhadores disponíveis, consumidores pressionados por preços e investidores interessados em expansão e controle de mercado.

Algoritmos e a fabricação do que parece evidente

As plataformas digitais não inventaram o senso comum, mas ampliaram sua velocidade e sua capacidade de segmentação. Um comentário repetido milhares de vezes passa a parecer consenso. Uma indignação selecionada pelo sistema de recomendação apresenta-se como humor espontâneo. Uma mentira que confirma preconceitos encontra circulação contínua e se transforma em familiaridade. A repetição não prova a verdade de uma afirmação, mas produz a sensação de que ela já foi verificada pela multidão.

A dinâmica algorítmica favorece conteúdos capazes de provocar reação imediata. O trabalhador indignado, o político agressivo, a acusação sem prova e a explicação conspiratória competem em condições vantajosas com a análise demorada. O problema não é somente que algumas pessoas recebam informação falsa. É que a forma de circulação reduz o tempo necessário para julgar, comparar e contextualizar. A experiência pública passa a ser organizada por estímulos que disputam atenção, e a atenção se torna um recurso comercial.

Heidegger compreendeu a técnica moderna como uma forma de desocultamento que tende a revelar tudo como recurso disponível. Sob a lógica das plataformas, não apenas os objetos, mas também os comportamentos humanos são convertidos em matéria calculável. Preferências, deslocamentos, conversas, pausas, compras e reações alimentam sistemas de previsão. O usuário aparece como dado; o trabalhador, como unidade de desempenho; a cidade, como mapa de demanda. Essa transformação não é neutra, porque define o que importa segundo a capacidade de medir, comparar e rentabilizar.

Quando a vida é apresentada por métricas, o que não pode ser quantificado perde legitimidade. O cuidado parece improdutivo, o descanso parece desperdício, a conversa política parece perda de tempo e o vínculo coletivo parece obstáculo à eficiência. A própria opinião passa a ser avaliada por alcance, curtidas e compartilhamentos. Nesse ambiente, o senso comum não é apenas um conjunto de ideias: é também uma arquitetura técnica que premia determinadas percepções e dificulta outras. A plataforma não determina mecanicamente o que todos pensarão, mas organiza as condições nas quais certas ideias se tornam mais audíveis que outras.

Bolsonarismo e o senso comum autoritário

O bolsonarismo encontrou nesse ambiente uma forma política para ressentimentos que já existiam. Ele não criou a insegurança, o medo da perda de status, a precarização do trabalho ou a desconfiança em relação às instituições. Sua operação consistiu em reunir experiências dispersas sob uma narrativa autoritária: a culpa seria de inimigos internos, minorias, professores, jornalistas, militantes, pobres, comunistas imaginários ou qualquer grupo apresentado como ameaça à ordem.

A psicologia das multidões, em Le Bon, ajuda a observar como a circulação coletiva de imagens e slogans pode reduzir a complexidade dos conflitos a símbolos de identificação. Embora sua teoria carregue limites e não deva ser tomada como explicação total, ela ilumina o poder da repetição, da sugestão e da simplificação afetiva. A multidão digital não é simplesmente irracional; ela é organizada por dispositivos que transformam indignação em tráfego e identidade em mercadoria política. O sujeito sente que pensa sozinho, mas frequentemente escolhe entre repertórios produzidos e distribuídos em escala.

No bolsonarismo, o senso comum autoritário aparece quando a desigualdade é interpretada como resultado da permissividade, a violência como falta de punição, o conflito trabalhista como ameaça à propriedade e a educação crítica como doutrinação. A promessa de ordem oferece uma resposta emocional a problemas reais, mas desloca suas causas. Em vez de discutir concentração de renda, precarização e abandono estatal, a narrativa seleciona inimigos e exige disciplina. A violência estrutural do capitalismo é ocultada pela celebração da violência policial, militar ou patriarcal.

Esse mecanismo não se limita às eleições. Ele atravessa a gestão cotidiana das escolas, das empresas e das cidades. O funcionário vigiado é apresentado como alguém que precisa ser controlado; o morador da periferia, como suspeito; o professor, como risco ideológico; o grevista, como inimigo do interesse público. Quando a obediência é convertida em virtude e o conflito social em desordem, a política é reduzida à administração dos que mandam. A aparência de normalidade passa a depender da invisibilidade dos que pagam o custo dessa ordem.

Direito, Estado e a aparência de neutralidade

O Estado também participa da produção do senso comum, inclusive quando se apresenta como árbitro neutro. Alysson Mascaro demonstra que o Estado moderno não é uma ferramenta exterior ao capitalismo, disponível de forma indiferente para qualquer classe. Sua forma jurídica e institucional organiza relações entre sujeitos formalmente livres e iguais, embora esses sujeitos ocupem posições materiais profundamente desiguais. O trabalhador vende sua força de trabalho como se celebrasse um contrato entre equivalentes; a necessidade que sustenta esse contrato desaparece atrás da igualdade jurídica.

Essa igualdade formal é indispensável para o funcionamento capitalista e, ao mesmo tempo, contribui para o senso comum. Se todos são juridicamente livres para contratar, a exploração parece resultado de uma escolha privada. Se todos podem abrir uma empresa, a propriedade parece acessível a todos. Se todos podem disputar uma vaga, o desemprego aparece como falha de qualificação. O direito reconhece indivíduos abstratos e, ao fazê-lo, tende a esconder as classes concretas. Não se trata de negar a importância dos direitos, mas de compreender seus limites dentro de uma forma social que reproduz desigualdade.

A crítica não deve terminar na denúncia da manipulação. Dizer que as pessoas foram enganadas pode reproduzir uma postura elitista, como se a consciência correta estivesse naturalmente nas mãos de quem observa de fora. O senso comum contém experiências verdadeiras, ainda que conectadas por explicações insuficientes. O trabalhador sabe que precisa se esforçar para sobreviver; o erro está em transformar essa necessidade em prova de que a sociedade é justa. A tarefa política é relacionar a experiência imediata às estruturas que a produzem, não substituir a vida concreta por uma doutrina abstrata.

Romper o comum fabricado

A transformação do senso comum exige uma disputa pela interpretação da experiência. Um entregador pode compreender que sua exaustão não é incapacidade pessoal quando conversa com outros trabalhadores e identifica padrões de bloqueio, remuneração e risco. Uma professora pode perceber que a sobrecarga não é falha de organização individual quando relaciona sua rotina às políticas de metas, cortes e terceirização. Um operador de call center pode reconhecer que sua ansiedade não é defeito psicológico isolado quando observa a vigilância, o controle do tempo e a ameaça permanente de demissão.

Essa passagem da experiência isolada à compreensão coletiva é uma forma de práxis. Não basta conhecer o funcionamento do algoritmo se esse conhecimento não se converte em capacidade de organização. Não basta denunciar a meritocracia se os trabalhadores continuam obrigados a disputar individualmente cada oportunidade. Não basta desmentir a propaganda autoritária se não forem construídas instituições, sindicatos, escolas e meios de comunicação capazes de produzir outra visão de mundo. A crítica ganha força quando deixa de ser apenas interpretação e se torna prática coletiva.

A disputa pelo senso comum também passa pela linguagem. Chamar o entregador de empreendedor não é uma descrição neutra; é uma escolha que define direitos e responsabilidades. Chamar a demissão de desligamento, a vigilância de gestão, a exploração de parceria e a greve de transtorno reorganiza a percepção do conflito. Nomear corretamente não resolve a desigualdade, mas impede que a dominação determine sozinha o vocabulário pelo qual será compreendida. A luta política começa muitas vezes na recusa de aceitar o nome que o poder dá às coisas.

O senso comum significado pela crítica social revela, enfim, uma disputa permanente entre aparência e estrutura. A aparência diz que cada um é empresário de si, que a plataforma apenas aproxima pessoas, que o algoritmo é objetivo, que o sucesso comprova mérito e que a ordem depende da punição dos indesejáveis. A estrutura mostra trabalhadores dependentes, empresas que controlam infraestruturas, decisões técnicas atravessadas por interesses, desigualdades acumuladas e conflitos de classe.

O comum não é destino nem substância eterna da sociedade. Ele pode ser reorganizado porque foi produzido historicamente. Quando trabalhadores deixam de interpretar seu sofrimento como fracasso privado e passam a reconhecê-lo como problema coletivo, a hegemonia sofre uma ruptura. A crítica não oferece a tranquilidade de uma resposta individual pronta. Ela devolve à sociedade aquilo que o senso comum capitalista tenta retirar: a capacidade de compreender que o mundo não é natural, que a exploração não é inevitável e que a realidade pode ser transformada por aqueles que hoje são obrigados a suportá-la.