O racismo estrutural não é apenas a soma de insultos, recusas e atitudes preconceituosas praticadas por indivíduos. Ele é uma forma de organizar a vida social, distribuir oportunidades, administrar a violência e definir quais corpos podem circular com segurança. No capitalismo brasileiro, essa estrutura aparece com nitidez quando um homem negro é assassinado por agentes de segurança dentro de uma loja, quando entregadores negros esperam pedidos na calçada enquanto clientes brancos ocupam os espaços internos, ou quando a polícia transforma a periferia em território de suspeição permanente. O problema não está somente na intenção racista de uma pessoa, mas nas instituições e relações econômicas que tornam algumas vidas mais vulneráveis, descartáveis e puníveis do que outras.
O caso de João Alberto Silveira Freitas, espancado e morto por seguranças em uma unidade do Carrefour em Porto Alegre, em novembro de 2020, concentra essa lógica. Não se trata de um episódio isolado que poderia ser explicado pela brutalidade particular de dois agentes. O assassinato ocorreu dentro de uma empresa, sob a ação de trabalhadores encarregados da segurança, diante de uma cadeia comercial que dependia da promessa de controle e proteção. O fato de a vítima ser negra não acrescenta uma circunstância exterior ao acontecimento: ajuda a explicar por que aquela violência encontrou um corpo tratado como ameaça antes mesmo de qualquer prova.
O que o racismo estrutural revela além do preconceito individual
A distinção entre racismo individual, institucional e estrutural é importante porque impede que a crítica termine na identificação de pessoas mal-intencionadas. O racismo individual se manifesta em condutas discriminatórias concretas. O institucional aparece quando órgãos públicos, empresas, escolas, polícias e tribunais funcionam de maneira a produzir resultados desiguais, ainda que seus regulamentos não declarem abertamente uma preferência racial. Já o racismo estrutural diz respeito à própria normalidade social que permite essas instituições operarem dessa maneira.
Essa formulação, desenvolvida no debate brasileiro por autores como Silvio Almeida, não significa que ninguém seja responsável por atos racistas. Significa que a responsabilidade individual acontece dentro de uma estrutura que distribui poder, renda, proteção e credibilidade de forma racializada. Um segurança que agride um homem negro responde por seu ato; a empresa que o contratou, treinou, supervisionou e protegeu também deve ser interrogada; o Estado que autoriza a terceirização da vigilância e oferece respostas seletivas à violência participa de um problema maior. A estrutura não elimina os agentes. Ela define o campo em que suas ações se tornam prováveis, toleráveis ou invisíveis.
O racismo estrutural funciona, assim, como uma engrenagem histórica. A escravidão terminou juridicamente sem que a população negra recebesse terra, renda, educação, moradia ou uma política de incorporação econômica capaz de romper a subordinação. A liberdade formal foi acompanhada pela conservação de uma ordem social que precisava de trabalhadores baratos, disciplinados e disponíveis. A cor da pele passou a operar como marca social de inferioridade, periculosidade e adequação a determinados lugares do mercado de trabalho. Não foi necessário manter uma lei declarando que negros deveriam ocupar os postos mais precários. Bastou preservar as condições que os empurravam sistematicamente para esses postos.
É nesse ponto que a análise marxista se torna indispensável. O capitalismo não explora trabalhadores apenas porque alguns patrões são gananciosos. A exploração decorre da separação entre quem possui os meios de produção e quem precisa vender sua força de trabalho para sobreviver. No Brasil, porém, essa relação de classe foi constituída por séculos de escravidão e por uma transição que preservou o poder dos proprietários. A classe trabalhadora não se distribui sobre uma superfície neutra: ela é atravessada pela raça. A população negra foi incorporada ao mercado em posições mais desprotegidas, com menor acesso a patrimônio e maior exposição à coerção.
O mercado de trabalho transforma desigualdade em destino
Um entregador negro de aplicativo não é explorado apenas porque recebe pouco e arca com os custos da motocicleta, da bicicleta, do combustível e da manutenção. Ele também trabalha sob uma expectativa social de disponibilidade corporal e resistência ao risco. A plataforma apresenta a entrega como escolha individual e remunera por tarefa, mas a cidade racializada já definiu quem mora longe dos centros, quem enfrenta abordagens policiais, quem é impedido de entrar em determinados prédios e quem pode esperar na portaria sem ser confundido com uma ameaça.
O algoritmo não precisa conter uma variável chamada raça para reproduzir o racismo. Se a plataforma distribui chamadas, remunerações e avaliações a partir da localização, do tempo de resposta e da disponibilidade, ela opera sobre uma cidade em que a distância entre periferia e centro é racialmente produzida. Se o trabalhador precisa aceitar pedidos em regiões onde é mais vigiado ou constrangido, a tecnologia transforma uma desigualdade anterior em rotina operacional. A pretensa neutralidade matemática apenas esconde o fato de que os dados carregam a história das relações sociais.
O mesmo vale para o call center, para a limpeza terceirizada, para a vigilância privada e para os serviços de logística. A promessa de empregabilidade pode significar uma sequência de contratos frágeis, metas agressivas e controle permanente. Trabalhadores negros são frequentemente associados a funções de atendimento subordinado, esforço físico, vigilância e cuidado, enquanto posições de comando continuam protegidas por redes de indicação, credenciais e patrimônio. Quando a empresa chama isso de perfil profissional, ela converte uma hierarquia racial em suposta adequação técnica.
A meritocracia completa essa operação no plano ideológico. Ela transforma resultados sociais em atributos morais: quem ascende seria disciplinado, quem permanece na precariedade seria incompetente ou pouco esforçado. O trabalhador negro é responsabilizado por uma desvantagem que não produziu sozinho. A distância até uma boa escola, a necessidade de trabalhar cedo, o desemprego familiar, a ausência de patrimônio e a violência policial desaparecem do cálculo. Sobra a narrativa de que todos começaram do mesmo lugar e que o fracasso revela uma falha de caráter.
O racismo estrutural não é, então, uma camada cultural colocada sobre uma economia que funcionaria normalmente. Ele participa da própria formação do mercado de trabalho brasileiro. Ao produzir uma reserva de mão de obra submetida a salários menores, instabilidade e maior coerção, a racialização ajuda a baratear a força de trabalho. O capital não precisa acreditar em uma doutrina racista para se beneficiar de seus efeitos. Basta que empresas encontrem trabalhadores desigualmente expostos e que o Estado administre essa diferença como se fosse natural.
João Alberto e a privatização da violência cotidiana
A morte de João Alberto mostra como a violência racial atravessa a fronteira entre Estado e mercado. A cena ocorreu em um estabelecimento privado, mas a segurança privada não é uma esfera desligada da ordem pública. Ela exerce funções de vigilância, contenção e punição que se aproximam da atividade policial, frequentemente sobre trabalhadores e consumidores negros. O shopping, o supermercado e o condomínio parecem espaços de consumo e proteção; para muitos negros, são também espaços em que a presença precisa ser continuamente justificada.
O assassinato não pode ser reduzido a uma falha de treinamento corporativo, como se uma palestra sobre diversidade resolvesse o problema. Treinamentos podem ter utilidade, mas são insuficientes quando a empresa organiza a segurança para proteger mercadorias e reputações antes de proteger pessoas. A pergunta decisiva é que tipo de comportamento a instituição recompensa: a mediação de um conflito ou a demonstração rápida de força? Quem é presumido como cliente legítimo e quem é abordado como risco? Qual vida recebe mais atenção quando uma ocorrência ameaça o funcionamento da loja?
O mercado procura transformar a condenação pública em gestão de imagem. Depois de um crime racial, surgem notas de repúdio, compromissos de diversidade, comitês e campanhas institucionais. Essas medidas podem responder a pressões importantes, mas não devem encerrar a crítica. Se a empresa mantém terceirizações opacas, baixa responsabilização dos superiores, metas de redução de perdas e uma cultura de vigilância dirigida aos negros, a linguagem antirracista se torna uma camada de proteção para o próprio negócio. O problema não é a falta de uma frase correta no comunicado, mas a arquitetura material que tornou a violência possível.
A violência também se distribui de modo desigual porque a palavra de pessoas negras costuma valer menos diante da autoridade. Em uma abordagem, a versão do segurança pode ser aceita como descrição objetiva, enquanto a reação da pessoa abordada é registrada como agressividade. No trabalho, a queixa de discriminação é frequentemente tratada como sensibilidade excessiva ou conflito interpessoal. Na polícia, o medo produzido pela abordagem pode ser usado como prova de perigo. A estrutura racista não apenas agride; ela organiza quem será acreditado depois da agressão.
Estado, direito e a administração da desigualdade
O Estado não está fora dessa estrutura como árbitro neutro. Na leitura de Alysson Mascaro, o Estado capitalista possui uma forma institucional própria, separada dos interesses imediatos de cada indivíduo ou empresa, mas orientada à reprodução das relações sociais capitalistas. Isso ajuda a compreender por que o Estado pode reconhecer direitos antirracistas e, ao mesmo tempo, sustentar políticas que produzem desigualdade. A igualdade perante a lei é uma conquista necessária, mas não dissolve a desigualdade material que define quem consegue acionar a lei, contratar defesa, acessar serviços e sobreviver à violência.
A legislação antidiscriminatória pode responsabilizar agentes e empresas, e essa responsabilização não deve ser relativizada. O limite aparece quando o direito é tratado como solução completa. Uma condenação posterior não devolve a vida a João Alberto nem altera, por si só, a organização da segurança privada. Uma política de cotas pode abrir portas decisivas, mas não substitui a transformação das condições de trabalho, moradia, educação e saúde. A igualdade formal é frequentemente mobilizada para preservar a desigualdade real: se todos são juridicamente livres, as diferenças passam a parecer resultado de escolhas particulares.
O abandono estatal também é uma forma ativa de governo. Quando o transporte público conecta precariamente a periferia ao emprego, quando escolas recebem recursos insuficientes, quando postos de saúde não dão conta da demanda e quando a política habitacional empurra famílias para áreas distantes, o Estado está produzindo uma geografia de oportunidades desiguais. A população negra não sofre apenas por ser excluída de determinados espaços; ela é obrigada a atravessar distâncias maiores, aceitar empregos mais instáveis e negociar diariamente com instituições que a tratam como suspeita.
Na outra ponta, a presença estatal pode ser intensiva e violenta. A ausência de direitos sociais convive com a presença ostensiva da polícia, do sistema penal e da vigilância. Essa combinação não é contraditória: o Estado se retrai na garantia de bem-estar e se expande na contenção dos pobres. Como a pobreza brasileira foi racializada, a gestão punitiva da desigualdade atinge de maneira concentrada a população negra. O Estado que não garante creche, emprego protegido e moradia aparece para revistar, prender, expulsar e controlar.
Contra a redução do racismo a comportamento e identidade
Há uma forma liberal de falar sobre racismo que reconhece a diversidade, celebra executivos negros e incentiva empresas a criar campanhas internas, mas evita tocar na propriedade, no salário e no poder. Essa linguagem pode converter a luta antirracista em uma política de representatividade compatível com a exploração. Uma empresa pode colocar pessoas negras na publicidade e manter trabalhadores negros submetidos a metas abusivas. Pode contratar uma diretora negra e continuar terceirizando funções precárias para uma maioria negra. A visibilidade de alguns não corrige a estrutura que vulnerabiliza muitos.
Isso não torna a representação irrelevante. A presença negra em universidades, redações, tribunais, parlamentos e diretorias modifica disputas concretas e rompe monopólios simbólicos. O erro está em confundir acesso individual com transformação social. Quando a exceção bem-sucedida é apresentada como prova de que o sistema funciona, ela serve para culpar quem permanece do lado de fora. O capitalismo absorve trajetórias individuais de ascensão e as utiliza como propaganda de uma igualdade que não existe para a maioria.
A crítica ao racismo estrutural precisa unir reconhecimento e redistribuição. É necessário enfrentar práticas discriminatórias, responsabilizar agentes públicos e privados, ampliar políticas de ação afirmativa e proteger vítimas. Mas também é necessário disputar a organização econômica que depende de trabalho barato, a cidade que separa moradia e emprego, a empresa que transfere riscos ao trabalhador e o Estado que trata a precariedade como destino. Sem essa dimensão, o antirracismo corre o risco de pedir inclusão em uma ordem que continua produzindo exploração racializada.
O assassinato de João Alberto não foi um acidente na superfície de uma sociedade essencialmente igualitária. Foi uma manifestação extrema de relações ordinárias: o controle sobre corpos negros, a suspeita como procedimento, a segurança subordinada à mercadoria e a desigualdade tratada como mérito. O racismo estrutural aparece tanto no golpe visível quanto na fila invisível de oportunidades negadas, no salário menor, no deslocamento exaustivo e na certeza de que a denúncia talvez não seja ouvida.
Reconhecer essa estrutura muda a pergunta política. Em vez de perguntar apenas qual indivíduo precisa ser punido ou qual pessoa precisa aprender a não discriminar, é preciso perguntar que instituições produzem a suspeita, que empresas lucram com a vulnerabilidade, que políticas públicas distribuem proteção e risco, e que relações de classe tornam a vida negra mais barata de explorar. A luta antirracista deixa de ser uma exigência de boa conduta e passa a ser uma luta contra a forma social que transforma diferença racial em desigualdade, disciplina e morte.
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