O Breque dos Apps, realizado por entregadores em várias cidades brasileiras no fim de março e no início de abril de 2025, revelou uma contradição que costuma desaparecer quando o assunto é reduzido a vídeos curtos, tendências e publicidade digital. Para parar, reivindicar remuneração mínima por entrega, melhores condições e proteção diante dos bloqueios arbitrários, os trabalhadores não precisaram apenas suspender o serviço: precisaram produzir imagens, vídeos, relatos, palavras de ordem, transmissões e provas de que existiam como coletivo. Sua greve teve de disputar espaço no mesmo fluxo que vende hambúrguer, aposta, curso de empreendedorismo e a fantasia de uma vida sem patrão.
Não se trata de lamentar que uma mobilização use redes sociais. Sem elas, muitos entregadores teriam ainda menos instrumentos para atravessar a dispersão territorial imposta pelo próprio modelo de plataforma. O problema é mais fundo: a comunicação de uma classe explorada passa a ocorrer dentro de infraestruturas desenhadas para extrair valor de sua atenção, ordenar sua visibilidade e converter toda manifestação em circulação mensurável. O trabalhador que pedala para alimentar o aplicativo precisa, quando quer lutar, alimentar também o feed. A greve não aparece diante do público como conflito entre capital e trabalho; aparece como conteúdo concorrendo por segundos de retenção.
A greve precisa vencer primeiro o algoritmo
O entregador conhece a gestão algorítmica antes de conhecer qualquer seminário sobre tecnologia. Seu dia é organizado por notificações, mapas, estimativas de demanda, metas implícitas e incentivos variáveis. A tela informa onde há corrida, quanto tempo resta, qual rota parece eficiente e que recompensa pode ser alcançada se ele aceitar mais uma entrega. Mas essa aparente assistência técnica é uma forma de comando. A plataforma não precisa de um gerente gritando numa doca: ela distribui sinais, penaliza recusas, mede desempenho e mantém o trabalhador sob a pressão constante de que a próxima chamada pode compensar o dia ruim.
Quando esse mesmo entregador publica um vídeo denunciando uma tarifa insuficiente ou convocando colegas para uma paralisação, entra em outra camada da mesma maquinaria. Agora precisa formular a denúncia de modo que seja rapidamente compreensível, emocionalmente transmissível e legível para mecanismos que premiam reação. A experiência extensa da exploração deve caber em um recorte. A ameaça de bloqueio, a exaustão sob chuva, o risco de acidente, o custo da bicicleta ou da moto, a espera não remunerada e a insegurança de não saber quanto entrará no fim do dia precisam ser comprimidos em algo que vença a distração organizada.
É aí que a economia da atenção deixa de ser apenas um conceito sobre usuários capturados por telas. Ela se torna um problema de organização do trabalho e de luta política. A plataforma já toma do entregador o tempo de deslocamento, disponibilidade e espera; em seguida, o ambiente digital exige que ele invista tempo afetivo e cognitivo para tornar sua exploração visível. A indignação vira material de postagem. O sofrimento precisa provar que merece ser visto. E, mesmo quando alcança grande circulação, essa circulação permanece hospedada e monetizada por empresas cuja lógica não é a emancipação de quem trabalha, mas a manutenção de uma máquina de engajamento.
O espetáculo não é o oposto da realidade
Guy Debord escreveu que o espetáculo não é um amontoado de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. A formulação ajuda a evitar uma crítica preguiçosa à internet como simples distração. O vídeo do entregador na chuva pode ser verdadeiro, urgente e politicamente necessário. O problema não é sua imagem ser falsa. É que a relação entre quem vê e quem sofre é organizada como consumo veloz de imagem. O público pode se comover, comentar, compartilhar e, minutos depois, ser conduzido a outro estímulo. A comoção não cria por si só vínculo durável, organização ou poder material contra a empresa.
O espetáculo transforma a realidade social em sequência de aparições isoladas. Assim, a greve pode ser apresentada como episódio curioso, transtorno no pedido de comida ou batalha passageira nas redes, quando é expressão de uma estrutura em que empresas transferem os custos do negócio para trabalhadores formalmente chamados de parceiros. O consumidor vê a demora do almoço; o aplicativo se encarrega de esconder a jornada fragmentada que torna a entrega possível. Quando a paralisação consegue furar esse bloqueio, a cobertura frequentemente procura o drama imediato e não a arquitetura da exploração: por que uma empresa pode coordenar milhares de pessoas, fixar preços, aplicar sanções e definir regras, mas negar que exerce poder patronal?
A resposta liberal costuma chamar isso de inovação. O trabalhador seria um empreendedor que escolhe livremente quando conectar o aplicativo. Mas liberdade de conexão não é liberdade material quando desligar-se significa não pagar combustível, aluguel, parcela da moto ou alimentação. A palavra empreendedor funciona como ideologia porque desloca o risco do capital para o indivíduo e ainda o convence de que esse risco é sinal de autonomia. Se a renda cai, faltou esforço; se a conta é bloqueada, faltou mérito; se o corpo não suporta doze horas de rua, faltou organização pessoal. A empresa desaparece como patrão e retorna como interface neutra.
A captura do olhar administra a culpa
A economia da atenção aprofunda essa ideologia ao transformar toda a vida social em vitrine de desempenhos. O trabalhador não encontra apenas anúncios entre um vídeo e outro. Ele encontra a exibição ininterrupta de pessoas que aparentam ter vencido: o entregador que diz faturar alto, o influenciador que vende disciplina financeira, o coach que converte precariedade em mentalidade, o empresário que chama exploração de oportunidade. Não é necessário que essas imagens sejam completamente inventadas para cumprirem sua função. Basta que apresentem casos excepcionais como horizonte normal e apaguem as condições coletivas que determinam quem pode, de fato, escolher.
Marx mostrou que a mercadoria encobre as relações sociais de sua produção. Na plataforma, esse encobrimento ganha uma camada audiovisual. O pedido chega em poucos cliques, a comida aparece na porta e o percurso do trabalhador é reduzido a um ponto em movimento no mapa. A eficiência visual do serviço elimina, para o consumidor, a espessura humana do trabalho. Ao mesmo tempo, o feed devolve ao entregador imagens de sucesso individual que ocultam sua posição comum com outros trabalhadores. A técnica parece apenas organizar informações; na prática, organiza percepções, expectativas e culpas em favor da reprodução do capital.
Heidegger alertava que a técnica moderna não é somente um conjunto de ferramentas, mas um modo de enquadrar o real como reserva disponível. A plataforma enquadra o entregador como disponibilidade logística: alguém que pode ser acionado, calculado, avaliado e substituído. A economia da atenção faz um movimento semelhante com quem assiste: enquadra sua percepção como recurso disponível à captura. De um lado, há corpos postos em circulação para entregar; de outro, olhos postos em circulação para clicar. A mesma racionalidade administra ambos, prometendo conveniência a uns e autonomia a outros, enquanto concentra a capacidade de definir ritmos, preços e visibilidades.
Depois de reconhecer a máquina, a distração perde inocência
Enxergar esse mecanismo não exige abandonar redes sociais, romantizar um passado sem telas ou tratar cada pessoa que compartilha um vídeo como cúmplice consciente da exploração. Exige deixar de confundir visibilidade com vitória. Uma greve que vira assunto nacional pode abrir brechas importantes, pressionar empresas e fazer trabalhadores se reconhecerem uns nos outros. Mas ela não se resolve quando a hashtag sobe, nem desaparece quando o assunto deixa de render. O que decide o conflito segue sendo a capacidade coletiva de interromper o serviço, formular reivindicações, construir organizações independentes e impor limites ao poder empresarial.
Para quem pede comida, compartilha vídeos ou trabalha conectado o dia inteiro, algo muda depois dessa percepção: o aplicativo deixa de parecer uma ferramenta inocente que apenas aproxima oferta e demanda. Sua interface passa a ser vista como parte de uma relação de classe. O entregador não está ali para realizar uma conveniência abstrata; está vendendo força de trabalho sob um regime que captura seu tempo e, quando ele reage, captura também a atenção em torno de sua reação. Recusar a distração não é fechar os olhos para a tela. É olhar através dela, até alcançar o trabalho que ela foi construída para tornar invisível.
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