A subjetividade não é um território privado que o indivíduo carrega intacto antes de entrar no trabalho, na política ou no consumo. Ela é produzida nas relações sociais, nas instituições e nas formas concretas de sobrevivência. No capitalismo brasileiro, essa produção assume uma tarefa precisa: converter a precariedade em responsabilidade pessoal, a vigilância em autonomia e a exploração em prova de mérito. O entregador que acompanha a nota no aplicativo, a professora que responde mensagens fora do horário, a operadora de telemarketing medida a cada segundo e o trabalhador que teme ser substituído não estão apenas submetidos a condições externas. Eles aprendem a se enxergar pelos critérios do capital.
É nesse sentido que a subjetividade se torna um campo de disputa política. O capital não compra somente horas de trabalho. Ele procura organizar expectativas, afetos, medos e desejos para que a reprodução da vida dependa da adaptação permanente às suas exigências. A pessoa precisa parecer disponível, resiliente, simpática, produtiva e culpada por qualquer fracasso. Quando essa forma de vida é apresentada como escolha individual, a dominação se torna mais profunda: já não é necessário que o chefe esteja sempre presente, porque o próprio trabalhador passa a administrar a si mesmo segundo a lógica da empresa.
A subjetividade como produto de relações materiais
Marx mostrou que o trabalho assalariado separa o trabalhador do produto, do processo e do sentido de sua própria atividade. A alienação não é apenas uma sensação de vazio. Ela nasce de uma relação material na qual a força de trabalho pertence ao trabalhador apenas formalmente, enquanto os meios, os objetivos e os resultados da produção são controlados pelo capital. A pessoa precisa vender sua capacidade de trabalhar para acessar os meios de vida e, ao fazê-lo, encontra uma atividade organizada para valorizar um poder que não controla.
Essa separação também atinge a maneira como cada um compreende a si mesmo. O indivíduo aparece como proprietário de competências, portador de uma marca pessoal e gestor de um projeto de vida. A existência é traduzida em currículo, avaliação, reputação, desempenho e potencial de empregabilidade. Mesmo o descanso passa a ser justificado pela ideia de recuperar energia para produzir mais. O sofrimento não é reconhecido como efeito de uma organização social; converte-se em falha de adaptação, falta de foco ou incapacidade de administrar as próprias emoções.
A ideologia meritocrática funciona justamente porque não precisa negar toda diferença social. Ela admite que alguns possuem mais recursos, mas transforma a desigualdade em resultado aparentemente legítimo de esforço, disciplina e talento. A família sem dinheiro, a escola desigual, o transporte precário, o racismo, a instabilidade do emprego e o acesso diferente à tecnologia desaparecem atrás do vocabulário da performance. O sujeito é convidado a responder individualmente por uma vida cujo horizonte foi delimitado por forças que não controla.
Do chefe visível ao algoritmo incorporado
O entregador de aplicativo oferece uma imagem concreta dessa transformação. Ele não recebe ordens de um supervisor instalado ao seu lado, mas circula por uma cidade na qual o aplicativo distribui chamadas, calcula rotas, registra tempos e produz avaliações. A plataforma afirma que ele é parceiro, não empregado. Essa linguagem não elimina a subordinação; apenas a reorganiza em uma arquitetura técnica que combina dependência econômica e aparência de autonomia.
O entregador precisa decidir quando se conectar, mas essa decisão ocorre sob a pressão do aluguel, do combustível, da manutenção da motocicleta e das contas acumuladas. Ele pode recusar uma entrega, embora não saiba exatamente como a recusa afetará seu acesso futuro às corridas. Pode escolher a rota, mas a remuneração, o tempo e a avaliação são definidos por uma lógica que permanece opaca. A liberdade anunciada pela plataforma é a liberdade de assumir sozinho os custos e os riscos de uma atividade cujo comando está concentrado em outro lugar.
O algoritmo não domina apenas porque calcula. Ele domina porque produz comportamentos previsíveis. O trabalhador passa a antecipar a avaliação, a evitar pausas, a aceitar deslocamentos ruins e a interpretar a própria exaustão como preço inevitável da flexibilidade. A vigilância é parcialmente internalizada. Mesmo sem uma ordem explícita, o entregador aprende que precisa estar disponível, responder depressa e preservar uma reputação digital que pode determinar sua renda. A plataforma administra condutas por meio de incentivos, ameaças difusas e informação desigual.
Essa forma de controle é decisiva para a produção da subjetividade neoliberal. O trabalhador deixa de se compreender como parte de uma classe com interesses comuns e passa a se enxergar como uma pequena empresa individual. Sua motocicleta vira capital, seu corpo vira ferramenta de produção, seus contatos viram rede comercial e sua disposição vira diferencial competitivo. A derrota, nesse quadro, não é atribuída à exploração de uma categoria inteira, mas à suposta incapacidade do indivíduo de se vender melhor.
A empresa entra na cabeça pela linguagem do desempenho
No call center, a pressão aparece de modo diferente, mas produz efeito semelhante. A operadora tem metas, roteiros, monitoramento de chamadas, controle de pausas e indicadores de produtividade. O aparelho registra sua voz, o sistema compara seus tempos e a chefia pode transformar cada desvio em advertência. O trabalho exige uma cordialidade fabricada, inclusive diante de clientes agressivos, enquanto a empresa trata o desgaste emocional como parte natural do serviço.
A exigência de sorrir pela voz revela que a exploração alcança afetos que não são reconhecidos como trabalho. A operadora precisa demonstrar paciência quando está cansada, demonstrar interesse quando o roteiro não permite resolver o problema e demonstrar entusiasmo quando a meta se torna inalcançável. Sua subjetividade é convertida em recurso produtivo. Não basta executar uma tarefa; é preciso encenar uma disposição emocional compatível com a marca.
O professor submetido a plataformas educacionais vive uma contradição próxima. A aula é apresentada como vocação, mas a instituição exige relatórios, metas, registros e disponibilidade contínua. Mensagens de estudantes chegam fora do expediente, reuniões se multiplicam e o planejamento é comprimido por sistemas de avaliação. A linguagem da missão pedagógica pode funcionar como mecanismo de captura: quem recusa a sobrecarga aparece como pouco comprometido, enquanto a dedicação sem limite é celebrada como virtude moral.
Em todos esses casos, a subjetividade é mobilizada para preencher as lacunas deixadas pela redução de direitos e pela falta de pessoal. O trabalhador deve compensar com empenho aquilo que a empresa não oferece em estrutura, tempo e proteção. A disposição individual torna-se um subsídio oculto à acumulação. Quanto mais a organização depende do sacrifício espontâneo, menos precisa reconhecer esse sacrifício como custo do trabalho.
O espetáculo da autonomia e a fabricação do indivíduo empreendedor
Guy Debord compreendeu o espetáculo não como simples excesso de imagens, mas como uma relação social mediada por imagens. A sociedade do espetáculo apresenta as relações entre pessoas como relações entre representações, mercadorias e estilos de vida. No universo do trabalho digital, a imagem do empreendedor de si cumpre essa função. O trabalhador aparece como alguém livre, conectado e dono do próprio destino, embora dependa de plataformas que controlam dados, acesso ao mercado e critérios de remuneração.
Vídeos de influenciadores que exibem ganhos em um dia, discursos empresariais sobre liberdade financeira e propagandas de sucesso pessoal ocultam as condições que tornam possível a renda. O espetáculo não precisa afirmar que todos prosperam. Basta mostrar a exceção como se fosse a regra e transformar a precariedade em cenário para uma narrativa de superação. A motocicleta, o celular e a mochila térmica são apresentados como instrumentos de independência, quando também são os meios pelos quais o trabalhador assume despesas que antes deveriam compor a estrutura da empresa.
Essa representação produz comparação permanente. O trabalhador não avalia apenas sua remuneração; compara seu corpo, sua rotina e seu desempenho com imagens de pessoas que parecem administrar melhor a própria vida. A frustração torna-se vergonha. O cansaço não conduz necessariamente à indignação coletiva, porque cada um é levado a acreditar que os demais conseguiram vencer pela disciplina. O espetáculo interrompe a percepção da relação social e oferece biografias individuais no lugar de uma explicação histórica.
A forma contemporânea da alienação não elimina a consciência. Ela a organiza em torno de categorias fornecidas pelo próprio capital. O sujeito sabe que está cansado, mas entende o cansaço como problema de gestão pessoal. Sabe que recebe pouco, mas procura um curso, uma estratégia ou um segundo aplicativo para corrigir a própria posição. Sabe que é vigiado, mas chama a vigilância de oportunidade de crescimento. A dominação não depende de uma mentira completa; depende da incapacidade de ligar a experiência particular à estrutura que a produz.
Medo, ressentimento e a política da desagregação
Gustave Le Bon descreveu a psicologia das multidões a partir de uma perspectiva conservadora e limitada, mas seu interesse pela dissolução do indivíduo no conjunto ajuda a observar uma questão atual: as massas podem ser mobilizadas por imagens, afetos e identificações que substituem a análise das relações sociais. Nas redes, o trabalhador precarizado encontra comunidades de ressentimento que oferecem pertencimento imediato, mas frequentemente direcionam a raiva contra os alvos errados.
Quando o emprego desaparece, o salário perde valor e o futuro se torna incerto, a subjetividade não fica politicamente vazia. Ela procura explicações. O bolsonarismo ocupou esse terreno ao converter insegurança material em guerra moral, medo social em culto à autoridade e frustração econômica em hostilidade contra professores, pobres, movimentos sociais, pessoas negras, imigrantes e instituições democráticas. A estrutura capitalista permanece protegida enquanto o ressentimento é distribuído horizontalmente.
O 8 de janeiro mostrou que a fabricação política dos afetos não é um fenômeno secundário. A desinformação não apenas transmite falsidades; ela reorganiza a percepção do mundo. Produz inimigos permanentes, transforma derrota eleitoral em conspiração e faz da obediência ao líder uma prova de autenticidade. O indivíduo que se sente impotente diante da vida social encontra, na multidão digital e na identidade autoritária, uma compensação imaginária para sua perda de controle.
Isso não significa reduzir o bolsonarismo a um efeito automático da precarização. A extrema direita é uma força organizada, apoiada por interesses econômicos, aparelhos ideológicos e redes de comunicação. Mas sua eficácia depende de subjetividades formadas por décadas de competição, insegurança e isolamento. A pessoa treinada para ver o outro como concorrente pode ser facilmente conduzida a enxergar o vizinho como ameaça. A política do ressentimento aproveita uma sociabilidade já fragmentada pelo mercado.
A técnica não é neutra quando organiza a vida
Heidegger analisou a técnica moderna como um modo de revelar o mundo no qual tudo tende a aparecer como recurso disponível. Embora sua abordagem não seja uma teoria marxista da exploração, ela ilumina a forma como a racionalidade técnica reduz pessoas, natureza e tempo a reservas calculáveis. Sob o capitalismo de plataformas, essa redução se articula diretamente à valorização do capital: o trabalhador é convertido em dado, o percurso em variável, a atenção em mercadoria e o tempo de espera em intervalo potencialmente monetizável.
Não existe algoritmo fora das relações de poder que definem seus objetivos. Um sistema desenhado para ampliar entregas, diminuir custos e manter clientes não é um instrumento neutro que depois produz efeitos sociais indesejados. Ele expressa prioridades empresariais. Quando classifica trabalhadores, prevê demanda e distribui oportunidades, transforma decisões econômicas em procedimentos aparentemente impessoais. A técnica retira da vista o conflito sobre quem decide e quem suporta o custo.
Mascaro, ao analisar a forma jurídica e o Estado, mostra que a igualdade formal entre sujeitos é compatível com a desigualdade estrutural do capitalismo. A pessoa aparece juridicamente livre para contratar, vender sua força de trabalho e aceitar os termos disponíveis. Essa liberdade formal é indispensável ao funcionamento do mercado, mas não dissolve a coerção material que obriga milhões a aceitar relações degradantes. No trabalho por aplicativo, a classificação de parceiro independente pode preservar a aparência jurídica de autonomia enquanto a dependência econômica continua operando.
A subjetividade jurídica do trabalhador também é moldada por essa forma. Ele é apresentado como contratante, consumidor de serviços digitais e responsável por suas escolhas, não como alguém inserido em uma relação coletiva de trabalho. A linguagem da parceria desloca o problema do direito social para a eficiência individual. A empresa afirma que oferece oportunidades; o trabalhador aparece como alguém que deve aproveitar ou abandonar a plataforma. A desigualdade é reescrita como opção contratual.
Romper a culpa individual exige reconstruir o comum
Criticar a produção capitalista da subjetividade não significa afirmar que as pessoas são marionetes sem capacidade de decisão. A própria dominação seria incompreensível se não houvesse margem de interpretação, conflito e resistência. O problema é outro: a liberdade individual não existe no vazio. Ela é exercida em condições distribuídas de maneira desigual. A capacidade de recusar uma entrega, denunciar uma empresa ou abandonar um emprego depende de renda, proteção social, vínculos coletivos e alternativas concretas.
Por isso, a resistência não pode ser reduzida a uma mudança de mentalidade. Meditação, treinamento motivacional e reorganização pessoal podem aliviar sintomas, mas não substituem a luta por direitos, tempo, salário e poder coletivo. O trabalhador não precisa aprender a suportar melhor a exploração; precisa deixar de estar sozinho diante dela. O breque dos aplicativos, as greves, as associações de entregadores e as mobilizações por reconhecimento de vínculo interrompem a narrativa de que cada trabalhador é uma empresa isolada.
A reconstrução da subjetividade passa por nomear a experiência de modo diferente. O cansaço pode ser reconhecido como efeito de uma jornada e não como falha de disciplina. A ansiedade pode ser relacionada à insegurança produzida pelo trabalho, e não apenas a um defeito psicológico individual. A irritação contra o colega pode ser deslocada para a estrutura de competição que coloca trabalhadores uns contra os outros. Essa mudança de interpretação não é pequena: ela transforma sofrimento privado em questão política.
Uma subjetividade anticapitalista não é a fabricação de um novo modelo de indivíduo puro, autossuficiente e imune à ideologia. É a capacidade coletiva de perceber que a vida não precisa ser organizada pela concorrência permanente. Ela aparece quando professores recusam a naturalização da sobrecarga, quando operadores de call center reivindicam controle sobre o ritmo de trabalho, quando entregadores se reconhecem como trabalhadores e quando usuários entendem que a conveniência de uma entrega não pode depender da invisibilidade de quem a realiza.
O capital deseja trabalhadores adaptáveis porque a adaptação reduz o custo do conflito. Quer sujeitos que transformem cada limite em oportunidade de produtividade e cada perda em lição de empreendedorismo. A crítica começa quando essa exigência deixa de ser aceita como descrição natural da vida. A subjetividade, afinal, não é uma propriedade privada isolada no interior do indivíduo. É também o resultado provisório de relações históricas. Se foi produzida por relações de exploração, pode ser reorganizada por relações de solidariedade, organização e luta.
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