Inclusão perversa é a inclusão subordinada de pessoas e grupos em relações sociais que continuam explorando, humilhando e privando. O entregador que entra no aplicativo, a trabalhadora que consegue um emprego sem direitos, o morador da periferia que passa a consumir por crédito e o estudante que acessa uma política pública, mas permanece submetido à insegurança, não estão simplesmente incluídos ou excluídos: estão incluídos de maneira desigual, instável e funcional à reprodução do capitalismo. A inclusão existe, mas ocorre por baixo, com menos proteção, menor poder de decisão e maior exposição ao risco.

O conceito é importante porque rompe com uma falsa alternativa. De um lado, o discurso liberal afirma que a expansão do consumo, do emprego ou do acesso a serviços comprova a superação da exclusão. De outro, uma leitura superficial observa a pobreza e conclui que determinados grupos permanecem totalmente fora da sociedade. A inclusão perversa mostra o mecanismo intermediário: o sistema precisa incorporar trabalhadores, consumidores e eleitores, mas não precisa lhes assegurar autonomia, igualdade material ou controle sobre as condições de sua existência.

O que significa inclusão perversa

A expressão é associada ao sociólogo José de Souza Martins, cuja análise da exclusão social insiste que a exclusão nunca é absoluta. Pessoas expulsas de uma forma de participação são frequentemente incorporadas por outra, em condições mais precárias. O trabalhador que perde um emprego formal pode ser absorvido pelo trabalho informal; a família sem renda pode ser incorporada pelo endividamento; o jovem sem oportunidades pode ser capturado por ocupações intermitentes; a população sem acesso pleno à cidadania pode ser integrada como mão de obra barata e como mercado consumidor.

Isso significa que a exclusão não está fora da sociedade. Ela é produzida dentro dela. A periferia não é um espaço exterior ao capitalismo, como se estivesse apartada do centro por uma barreira natural. Ela fornece trabalho, consumo, dados, votos, serviços e disponibilidade permanente. O que muda é a forma da participação. O centro concentra renda, decisão e proteção; a periferia recebe custos, risco e obediência. A relação não é de ausência de vínculo, mas de vínculo assimétrico.

Na inclusão perversa, a pessoa é chamada a participar, mas não a decidir. Pode acessar um aplicativo, porém não conhece os critérios que definem sua avaliação. Pode conseguir crédito, mas paga juros e compromete renda futura. Pode frequentar a escola, mas encontra uma estrutura que frequentemente não oferece as mesmas condições de aprendizagem. Pode entrar no mercado de trabalho, mas como terceirizada, temporária, informal ou submetida à produtividade algorítmica. A porta se abre; o lugar reservado é inferior.

Inclusão perversa não é inclusão social

É preciso distinguir a inclusão perversa de políticas de inclusão social. A diferença não está apenas na aparência do resultado, mas na estrutura que organiza o acesso. Uma política pública pode ampliar direitos, reduzir desigualdades e criar condições para que a população tenha mais poder sobre sua vida. Outra pode apenas administrar a pobreza, mantendo intactas as relações que a produzem.

O acesso a uma renda, a uma escola, a um posto de saúde ou a uma moradia pode ser decisivo para a dignidade. Não há razão para desprezar conquistas concretas em nome de uma pureza teórica. O problema começa quando qualquer acesso é apresentado como emancipação, mesmo que venha acompanhado de endividamento, controle, dependência e ausência de direitos. Receber uma oportunidade não significa ter conquistado igualdade. Ser alcançado pelo mercado não significa ter deixado a pobreza.

Essa distinção ajuda a compreender a diferença entre políticas de proteção social e a lógica neoliberal de responsabilização individual. Quando o Estado garante renda, amplia serviços públicos, fortalece o salário, protege o emprego e reconhece direitos, cria mediações que limitam a vulnerabilidade diante do capital. Quando apenas oferece treinamento, crédito, empreendedorismo e plataformas, transfere ao indivíduo a obrigação de sobreviver em um mercado que continua concentrando riqueza e poder.

Os governos de Lula devem ser defendidos justamente porque recolocam a proteção social, a valorização do trabalho e o combate à fome no campo das responsabilidades públicas. Isso não elimina a precarização nem transforma o Brasil em uma sociedade igualitária. Mas representa uma diferença política concreta diante do bolsonarismo, que tratou direitos como entraves, naturalizou a violência social e apresentou a sobrevivência individual como prova de mérito. Defender a reeleição de Lula é defender a continuidade de políticas que podem ampliar a inclusão substantiva, em vez de aceitar a inclusão perversa como destino.

O trabalho como porta de entrada subordinada

A forma mais visível da inclusão perversa aparece no trabalho. A propaganda empresarial diz que basta disposição para vencer. A realidade mostra trabalhadores incluídos no processo produtivo sem estabilidade, carreira, representação efetiva ou proteção proporcional ao valor que produzem. O call center incorpora milhares de pessoas a uma cadeia tecnológica sofisticada, mas organiza sua jornada por metas, scripts, vigilância e avaliação contínua. O professor é incluído no sistema educacional, porém pode acumular turmas, tarefas administrativas e pressão por resultados sem condições materiais adequadas. O entregador é incluído na logística urbana, mas assume os custos da bicicleta, da motocicleta, do combustível, do acidente e da espera.

O aplicativo de entrega apresenta essa relação como autonomia. O trabalhador escolhe quando se conectar, mas a escolha é limitada pela necessidade de renda. Decide aceitar ou recusar uma corrida, mas sabe que sua avaliação, sua prioridade e sua permanência podem ser afetadas. Não tem chefe visível em uma sala, porém obedece a uma chefia automatizada: preços, rotas, bloqueios e distribuição de pedidos são definidos por sistemas que não precisam justificar cada decisão. A aparência de liberdade esconde uma dependência econômica intensa.

Marx chamou de alienação o processo pelo qual o trabalhador perde o controle sobre sua atividade, sobre o produto de seu trabalho e sobre as relações sociais que produz. No trabalho plataformizado, essa alienação ganha uma forma digital. O trabalhador enxerga a tela, mas não enxerga a totalidade da regra. Recebe comandos fragmentados, trabalha sob pressão de tempo e transforma sua própria disponibilidade em mercadoria. A plataforma não precisa assumir integralmente a relação de emprego para organizar o processo produtivo como uma empresa. Ela captura valor enquanto desloca custos e riscos para quem trabalha.

A inclusão no trabalho, nesse caso, é perversa porque a pessoa está plenamente integrada à acumulação capitalista justamente por estar desprotegida. O entregador não é um trabalhador exterior à economia digital. Ele é uma peça necessária de sua operação. O problema é que sua integração ocorre sem a correspondente integração aos direitos. A empresa deseja a força de trabalho, mas recusa a responsabilidade social decorrente dela.

O consumo incorpora aquilo que o trabalho exclui

O consumo também produz uma experiência ambígua de inclusão. A publicidade promete pertencimento por meio de aparelhos, roupas, viagens, restaurantes e serviços. O crédito permite que famílias adquiram bens antes inacessíveis, mas transforma o futuro em garantia da compra presente. A pessoa aparece como consumidora, embora permaneça insegura como trabalhadora. É incluída na circulação das mercadorias e excluída das condições que permitem usufruí-las sem sofrimento.

Guy Debord mostrou que, na sociedade do espetáculo, a vida social aparece mediada por imagens e mercadorias. O espetáculo não é apenas uma coleção de anúncios; é uma relação social mediada por representações. A inclusão perversa se fortalece quando a aparência de participação substitui a participação real. Ter um celular, uma conta em uma rede social ou acesso a uma plataforma cria sinais de integração, mas não garante tempo livre, renda suficiente, privacidade ou poder político.

Essa lógica é particularmente cruel porque transforma a privação em falha individual. Se alguém não acompanha o padrão de consumo, parece desatualizado. Se compra e se endivida, é acusado de irresponsabilidade. Se não consegue trabalhar em ritmo suficiente, é chamado de improdutivo. O sistema produz a necessidade e depois responsabiliza a pessoa por não satisfazê-la. A ideologia da meritocracia cumpre esse papel: converte desigualdades estruturais em diferenças de esforço e transforma a precariedade em defeito moral.

O algoritmo aperfeiçoa a subordinação

A tecnologia não cria sozinha a inclusão perversa, mas amplia sua eficiência. O algoritmo de trabalho permite controlar muitos trabalhadores sem a presença contínua de um supervisor. A plataforma registra localização, tempo, velocidade, aceitação de tarefas, avaliações e padrões de uso. Esses dados são convertidos em decisões que organizam a jornada e distribuem oportunidades. Quanto mais opaco o sistema, mais difícil contestar uma punição, compreender uma queda de renda ou provar uma discriminação.

Martin Heidegger, ao discutir a essência da técnica, advertiu que ela não deveria ser reduzida a um conjunto neutro de instrumentos. A técnica moderna organiza o mundo como reserva disponível, algo que pode ser calculado, armazenado e mobilizado. No capitalismo digital, esse princípio alcança o trabalhador. Sua atenção, seu deslocamento, seu tempo de espera e sua disposição física tornam-se dados administráveis. O corpo aparece como recurso logístico; a subjetividade, como padrão de comportamento; a cidade, como superfície de extração.

A inclusão digital, quando não é acompanhada por direitos e controle social da tecnologia, pode significar apenas a inclusão no campo da vigilância. A pessoa acessa serviços, mas entrega dados. Recebe conveniência, mas perde opacidade. Ganha velocidade, mas assume a pressão do tempo. O problema não é utilizar tecnologia para ampliar direitos. O problema é permitir que a tecnologia seja controlada por empresas cuja finalidade é a acumulação privada, sem transparência, regulação e participação dos trabalhadores.

Por isso, a resposta não é demonizar o aplicativo nem imaginar que a sociedade possa retornar a uma época sem mediações técnicas. É disputar a forma social da tecnologia. Trabalhadores precisam ter acesso às regras dos sistemas que os avaliam, direito de contestação, proteção previdenciária, remuneração justa e organização coletiva. O Estado deve regular as plataformas e impedir que a inovação seja usada como argumento para abolir direitos antigos. A tecnologia pode servir à emancipação, mas não quando a sociedade aceita que a eficiência empresarial valha mais que a dignidade humana.

Estado, abandono e inclusão perversa

O Estado não está simplesmente ausente nos territórios precarizados. Ele pode aparecer de modo seletivo: falta quando deveria garantir saneamento, transporte, escola, saúde e segurança social; aparece com força para cobrar, vigiar, punir e disciplinar. Esse é o sentido do abandono estatal como forma política, não uma ausência completa de instituições. A população é deixada sem proteção e, ao mesmo tempo, responsabilizada por resolver individualmente problemas produzidos pela desigualdade.

A ideologia neoliberal chama isso de autonomia. A pessoa deve empreender, administrar o risco, qualificar-se continuamente e aceitar qualquer oportunidade. Mas não há autonomia real quando a escolha é feita sob ameaça de fome, despejo ou endividamento. A liberdade formal de aceitar uma corrida, uma vaga temporária ou um crédito não equivale à liberdade material de recusar condições degradantes. O mercado transforma a necessidade em contrato e depois usa a assinatura como prova de consentimento.

O direito também pode participar dessa inclusão subordinada. A igualdade jurídica declara que todos podem contratar, competir e buscar oportunidades, mas não elimina a desigualdade econômica entre as partes. Alysson Mascaro destaca que o Estado e o direito modernos não estão acima do capitalismo: eles organizam as condições gerais de sua reprodução. Isso não quer dizer que toda lei seja inútil ou que direitos não devam ser disputados. Quer dizer que a proteção jurídica precisa ser ampliada por conflito social e política pública; ela não nasce automaticamente da forma abstrata do contrato.

O governo Lula merece apoio porque a disputa pelo Estado define se a inclusão será tratada como direito ou como favor de mercado. Programas de transferência de renda, valorização do salário, retomada de investimentos públicos, políticas de combate à fome e reconstrução de áreas sociais não resolvem a exploração capitalista, mas podem reduzir sua violência imediata e abrir espaço para organização popular. A crítica de esquerda deve pressionar por mais direitos, não transformar a insuficiência das políticas em argumento para entregar tudo ao mercado. O bolsonarismo oferece o caminho oposto: menos proteção pública, mais armas, mais privatização da responsabilidade e mais hostilidade contra trabalhadores pobres.

A inclusão perversa produz subjetividades

A precariedade não atinge apenas a renda. Ela modifica a maneira como as pessoas percebem a si mesmas e aos outros. Quem vive sob avaliação permanente aprende a desconfiar do colega, a competir por uma tarefa, a esconder o cansaço e a interpretar o fracasso como culpa própria. A solidariedade é dificultada porque cada trabalhador é apresentado como microempresa concorrente. A vida comum é dissolvida em perfis, notas, currículos e desempenhos.

Esse processo cria uma subjetividade disponível ao comando. O trabalhador não precisa ser obrigado a cada instante; ele internaliza a meta. Responde mensagens fora do horário, aceita jornadas imprevisíveis, mantém-se permanentemente qualificável e teme desaparecer do sistema de oportunidades. O controle mais eficaz não é aquele que apenas proíbe, mas o que faz a pessoa administrar a própria exploração como se fosse um projeto pessoal.

A inclusão perversa também atinge quem tem alguma ascensão. Um trabalhador pode melhorar sua renda e ainda permanecer dependente de jornadas extensas, crédito caro e instabilidade. Pode adquirir bens e continuar sem tempo, descanso ou segurança. A mobilidade individual não dissolve a estrutura de classe. Ao contrário, pode ser utilizada como prova de que todos poderiam subir, ocultando quantos permanecem submetidos e quais condições coletivas tornariam a vida digna para a maioria.

Como transformar acesso em emancipação

O primeiro passo é abandonar a linguagem que confunde presença com participação. Estar empregado não basta; é necessário ter direitos, remuneração adequada, jornada suportável e poder coletivo. Estar matriculado não basta; é preciso aprender em condições dignas. Ter acesso à internet não basta; é necessário controlar os dados, compreender os sistemas e não ser convertido em objeto de vigilância. Receber benefício não basta; é preciso construir proteção social permanente, serviços públicos e autonomia econômica.

O segundo passo é reconhecer que direitos são instrumentos de luta, não concessões naturais do mercado. A regulamentação do trabalho em plataformas, o fortalecimento dos sindicatos, a proteção previdenciária, a tributação dos setores mais ricos e a ampliação dos serviços públicos enfrentam diretamente a inclusão subordinada. Essas medidas não eliminam o capitalismo, mas diminuem o poder de chantagem do capital sobre quem precisa trabalhar para viver.

O terceiro passo é disputar o sentido político da inclusão. A esquerda não deve aceitar que qualquer conexão seja celebrada como progresso. Inclusão social significa ampliar a capacidade coletiva de decidir sobre o trabalho, a renda, o território, a tecnologia e o tempo. Se a pessoa entra no mercado apenas para ser mais facilmente explorada, trata-se de integração capitalista, não de emancipação. Se acessa o Estado apenas para ser cadastrada, vigiada e devolvida à insegurança, trata-se de administração da pobreza.

A reeleição de Lula deve ser defendida nesse horizonte concreto. Não porque um governo progressista possa, sozinho, superar as contradições do capitalismo, mas porque a disputa institucional altera as condições em que trabalhadores e movimentos sociais lutam. Entre um projeto que amplia políticas públicas e outro que transforma desigualdade em guerra contra pobres, a escolha não é indiferente. Apoiar Lula não exige silenciar críticas: exige criticar pela esquerda, pressionar por mais direitos e impedir que a extrema direita destrua as mediações sociais que ainda protegem a maioria.

A inclusão perversa revela o limite de uma sociedade que considera suficiente integrar pessoas ao consumo, ao trabalho e às plataformas. A questão decisiva não é se alguém foi incluído, mas em que posição, sob quais regras e com qual poder. Uma sociedade democrática não deve oferecer apenas a chance de participar da própria exploração. Deve garantir as condições materiais para que trabalhadores deixem de ser objetos de decisões alheias e possam controlar coletivamente a riqueza, a técnica e o tempo social.