Rio de Janeiro é, ao mesmo tempo, cartão-postal e laboratório da desigualdade brasileira: uma cidade em que a beleza natural convive com o abandono estatal, a violência seletiva, o aluguel impagável e a exploração de quem sustenta sua circulação. A dúvida central sobre o Rio não deveria ser apenas por que a cidade é tão conhecida, mas que relações sociais produzem a paisagem celebrada. O mar, o carnaval, o futebol e os morros não formam uma imagem neutra. Eles integram um espetáculo que transforma conflitos de classe em cenário, enquanto trabalhadores enfrentam longos deslocamentos, renda instável, serviços precários e uma permanente disputa pelo direito de permanecer na cidade.
A cidade aparece frequentemente como exceção: excepcionalmente bonita, violenta, criativa, perigosa ou contraditória. Essa linguagem da excepcionalidade despolitiza o que é estrutural. O Rio não é caótico por natureza, nem sofre de uma suposta incapacidade cultural de se organizar. Sua forma urbana resulta de decisões políticas, interesses imobiliários, prioridades orçamentárias e mecanismos de valorização do solo. A desigualdade não está simplesmente ao lado da beleza; ela é uma das condições de produção dessa beleza como mercadoria, atração turística e patrimônio rentável.
Rio de Janeiro e a fabricação do cartão-postal
O Rio foi vendido ao mundo como uma experiência visual. A montanha, a praia, a floresta, a favela e o corpo exposto compõem uma narrativa em que a cidade parece oferecer espontaneamente aquilo que, na realidade, depende de trabalho social. Hotéis, restaurantes, transportes, serviços de limpeza, segurança privada, comércio ambulante, entregas e atividades culturais transformam a paisagem em fonte de renda. Ainda assim, os trabalhadores que tornam possível a experiência turística costumam ser mantidos fora da imagem oficial, como se fossem acessórios descartáveis do cenário.
Guy Debord ajuda a compreender esse processo por meio do conceito de sociedade do espetáculo. O espetáculo não é apenas um conjunto de imagens difundidas pela publicidade ou pelas redes sociais. É uma relação social mediada por imagens, na qual a experiência concreta é subordinada à sua aparência circulável. O Rio vendido como destino, marca e fantasia precisa ocultar o custo social de sua produção. A cidade é apresentada como prazer disponível, enquanto a vida de quem trabalha para manter esse prazer é comprimida por baixos salários, informalidade, deslocamentos exaustivos e insegurança.
O espetáculo turístico também seleciona quais territórios podem ser vistos e sob quais condições. A favela pode aparecer em um passeio, em uma fotografia ou em uma narrativa de superação, mas raramente aparece como território de trabalhadores submetidos a políticas urbanas desiguais. O morro é transformado em paisagem exótica; sua população, em personagem. Essa operação não elimina a existência da favela, mas reorganiza seu significado para o consumo de quem visita a cidade ou para a autopromoção de empresas, governos e influenciadores.
A cidade partida pelo capital
A separação entre as áreas valorizadas e os territórios populares não é um acidente geográfico. Ela é reproduzida pelo preço da terra, pela oferta desigual de serviços e pelo controle político do espaço. Quem não pode pagar para morar perto das regiões de emprego é empurrado para áreas mais distantes, onde o tempo de deslocamento substitui parte do salário. O trabalhador pode receber remuneração em dinheiro, mas também paga ao capital com horas de sua vida dentro de ônibus, trens, vans e terminais superlotados.
O aluguel periférico expressa essa contradição. A moradia mais barata não representa necessariamente uma vida mais barata. A distância aumenta os gastos de transporte, reduz o tempo de descanso, dificulta o acesso à educação e torna mais vulnerável a permanência no emprego. Para o entregador de aplicativo, morar longe das áreas de maior demanda significa gastar mais para alcançar o local em que o algoritmo distribui pedidos. Para a trabalhadora doméstica, a cidade exige uma travessia cotidiana entre o território em que mora e aquele em que a riqueza é acumulada. Para o professor, o deslocamento entre escolas comprime o intervalo entre jornadas.
O transporte revela que a exploração não termina no local de trabalho. A produção capitalista se apropria também do tempo necessário para chegar ao trabalho e voltar para casa. O cansaço produzido por esse percurso não aparece como custo empresarial, embora reduza a capacidade de descanso, convivência e participação política. A cidade se organiza para que a força de trabalho esteja disponível onde o capital precisa dela, mas não para garantir que essa força de trabalho viva com dignidade.
Marx mostrou que o trabalhador vende sua força de trabalho, não sua vida inteira, embora o capital busque ampliar continuamente o tempo e a intensidade dessa venda. No Rio, essa expansão se manifesta no emprego formal com metas crescentes, no comércio com jornadas estendidas, no trabalho por aplicativo sem horário definido e na combinação de ocupações que impede qualquer separação estável entre tempo de trabalho e tempo de vida.
O abandono estatal não é ausência de poder
Falar em abandono estatal não significa imaginar que o Estado desapareceu. Ele se ausenta quando deve garantir moradia, saneamento, transporte, educação e saúde, mas se faz presente com força quando protege propriedades, disciplina territórios e reprime populações pobres. O abandono é seletivo. Não é falta absoluta de Estado; é uma distribuição desigual da proteção e da violência estatal.
Alysson Mascaro, ao analisar a forma política do Estado capitalista, mostra que o Estado não é um instrumento exterior às relações econômicas, pronto para ser usado de maneira neutra por qualquer grupo. Ele organiza juridicamente a separação entre trabalhadores e meios de produção, assegura contratos e propriedade e administra conflitos produzidos pela própria acumulação. No Rio de Janeiro, essa função aparece quando a ordem urbana protege a valorização imobiliária ao mesmo tempo que tolera a precariedade habitacional e laboral.
O Estado pode remover uma ocupação em nome da legalidade, conceder incentivos a grandes empreendimentos em nome do desenvolvimento e intensificar operações policiais em territórios populares em nome da segurança. Em cada caso, a linguagem é administrativa ou jurídica, mas os efeitos são políticos: determinados interesses ganham estabilidade, enquanto determinados grupos vivem sob instabilidade permanente. A lei não precisa declarar que alguns cidadãos valem menos para produzir esse resultado. Basta que direitos sejam distribuídos segundo a renda, o território e a capacidade de pressão de cada classe.
Esse padrão se agravou em momentos de grandes obras e megaeventos. A cidade foi reorganizada para atender à circulação de turistas, investimentos e imagens internacionais. Obras viárias, reformas urbanas e projetos imobiliários foram apresentados como modernização, embora frequentemente deslocassem comunidades e elevassem o valor de áreas antes acessíveis. A acumulação por despossessão ocorre quando direitos, territórios e formas de uso coletivo são convertidos em oportunidades privadas de valorização. A remoção não é apenas uma mudança de endereço; é a perda de vínculos, redes de cuidado e possibilidades de permanência.
Segurança pública e gestão dos pobres
A militarização do Rio é frequentemente tratada como resposta inevitável à violência. Mas a violência não nasce de um vazio social. Ela se relaciona com desigualdade, mercados ilegais, circulação de armas, ausência de políticas públicas e formas históricas de controle racial e territorial. A política de guerra transforma moradores de determinadas áreas em suspeitos permanentes e reduz a questão social a um problema de policiamento.
Essa lógica produz uma cidade com diferentes regimes de cidadania. Em regiões valorizadas, a segurança deve garantir circulação, consumo e patrimônio. Em áreas populares, a presença estatal pode significar incursão, bloqueio, revista, interrupção de aulas e medo. O mesmo Estado que não assegura saneamento ou atendimento médico aparece armado para controlar a população. A promessa de ordem, nesse contexto, não é a eliminação da violência, mas sua administração seletiva.
O discurso da guerra também oferece uma solução ideológica para a crise social. Ele permite atribuir a insegurança a indivíduos ou territórios, evitando perguntar por que a cidade produz tanta vulnerabilidade. O trabalhador informal, o jovem negro, o morador da favela e o vendedor ambulante deixam de ser sujeitos de direitos e passam a ser vistos como riscos. A criminalização substitui a política, e a punição ocupa o espaço deixado pela cidadania incompleta.
Essa gestão não precisa ser defendida apenas por autoridades. Ela pode se espalhar como senso comum entre grupos que sofrem, direta ou indiretamente, com a precarização. Gustave Le Bon descreveu a psicologia das multidões a partir de uma visão conservadora e hierárquica, mas seu conceito de contágio ajuda a entender como medos e imagens circulam socialmente. No ambiente digital, vídeos de crimes, relatos isolados e discursos de vingança são compartilhados como se fossem diagnósticos completos da cidade. A indignação é organizada para exigir mais força, não mais direitos.
Trabalho precarizado no Rio de Janeiro
O mercado de trabalho carioca não pode ser compreendido apenas pela existência ou não de emprego formal. O que importa é a forma como a renda, o tempo e o risco são distribuídos. O entregador de aplicativo assume os custos da motocicleta ou da bicicleta, do combustível, da manutenção, do celular e do adoecimento. A plataforma apresenta a relação como autonomia, mas controla a atividade por meio de avaliações, bloqueios, distribuição de pedidos e variação de remuneração. A subordinação não desaparece porque o chefe foi convertido em interface.
O algoritmo de trabalho transforma decisões empresariais em aparente neutralidade técnica. Se o aplicativo reduz a remuneração, altera a prioridade de um trabalhador ou bloqueia sua conta, a mudança pode ser apresentada como resultado automático de dados. O trabalhador, porém, não tem acesso efetivo aos critérios que definem sua sobrevivência. A opacidade algorítmica impede a negociação, individualiza o fracasso e faz parecer que cada dificuldade decorre de uma falha pessoal de desempenho.
O mesmo princípio aparece em call centers, supermercados, centros de distribuição e empresas terceirizadas. Metas, rankings, avaliações e indicadores produzem uma vigilância contínua que não precisa de supervisão presencial constante. O trabalhador passa a monitorar a si mesmo porque sabe que qualquer pausa pode ser convertida em queda de produtividade. A técnica, nesse caso, não é apenas ferramenta. Ela estrutura uma relação de poder.
Heidegger advertiu que a essência da técnica moderna não está somente nos instrumentos utilizados, mas em uma forma de revelar o mundo como reserva disponível. Pessoas, territórios, rios e tempos de vida passam a ser vistos como recursos mobilizáveis. No Rio, essa racionalidade transforma a cidade em plataforma de circulação: o morador é força de trabalho, a praia é ativo turístico, a favela é experiência vendável, o imóvel é investimento e o deslocamento é custo privado.
A precarização ainda aparece no trabalho cultural e no carnaval, frequentemente celebrados como expressões espontâneas da identidade carioca. Blocos, escolas de samba, técnicos, costureiras, músicos, ambulantes e trabalhadores da montagem sustentam uma economia cultural complexa. A celebração pública, no entanto, pode ocultar relações de trabalho instáveis e desigualdades na apropriação dos recursos. O produto simbólico é reconhecido mundialmente, enquanto muitos dos que o produzem permanecem sem proteção e sem poder de decisão.
Quando a técnica administra a vida urbana
A digitalização promete tornar a cidade mais eficiente, mas eficiência para quem? Aplicativos de transporte organizam trajetos, plataformas distribuem entregas, câmeras monitoram espaços e sistemas de crédito filtram acessos. Essas tecnologias podem resolver problemas concretos, mas também ampliam a capacidade de empresas e governos de observar, classificar e dirigir comportamentos. A cidade inteligente corre o risco de ser apenas a cidade em que a exploração se tornou mais precisa.
O trabalhador passa a receber instruções em tempo real, mas não participa da definição das regras. O passageiro é orientado por mapas, mas não decide como o transporte coletivo será financiado. O morador é identificado por câmeras, mas não controla os critérios de vigilância. A promessa de conveniência encobre a transferência de poder para sistemas técnicos administrados por empresas e instituições pouco transparentes.
Essa administração tecnológica combina controle externo e autocontrole. O motorista evita cancelar corridas para não perder sua avaliação. O entregador aceita pedidos ruins para preservar sua pontuação. O funcionário responde mensagens fora do expediente para demonstrar comprometimento. A professora prepara relatórios e alimenta plataformas depois da aula para cumprir exigências burocráticas. A exploração se torna menos visível porque cada indivíduo é levado a interpretar a própria submissão como escolha estratégica.
O Rio que resiste não cabe no espetáculo
Se o Rio é produzido pela desigualdade, ele também é disputado por quem vive e trabalha nele. Associações de moradores, movimentos por moradia, trabalhadores ambulantes, sindicatos, coletivos de entregadores, organizações negras e iniciativas culturais constroem formas de solidariedade que não aparecem na narrativa turística. Essas práticas não devem ser romantizadas: resistir em condições precárias não elimina a violência nem substitui direitos públicos. Mas elas revelam que a cidade não é apenas objeto de administração; é campo de conflito.
A solidariedade dos trabalhadores confronta a ideologia da meritocracia. Não há mérito individual capaz de compensar uma estrutura em que alguns começam com patrimônio, mobilidade e proteção, enquanto outros começam com dívida, distância e insegurança. O entregador que trabalha mais horas não controla a tarifa. A trabalhadora doméstica dedicada não controla o preço do aluguel. O jovem que se qualifica não controla a concentração das oportunidades. A ideologia meritocrática converte relações sociais em julgamentos morais sobre indivíduos.
O direito à cidade, nesse contexto, não pode ser reduzido ao direito de circular por áreas turísticas ou de consumir seus serviços. É o direito de morar, trabalhar, descansar, participar das decisões e usufruir de infraestrutura sem ser expulso pela valorização imobiliária. É também o direito de não ser tratado como ameaça por viver em um território popular. Sem enfrentar a propriedade da terra, o financiamento urbano, a lógica dos megaeventos e a precarização do trabalho, a expressão permanece apenas como promessa administrativa.
O Rio de Janeiro não precisa ser salvo de sua suposta natureza contraditória. Precisa ser transformado nas relações que fazem da contradição uma forma de governo. A beleza não deve desaparecer, mas deixar de funcionar como cobertura para a exploração. A praia, o morro, o carnaval e o futebol podem continuar existindo sem que a cidade seja organizada para o consumo de poucos. Isso exige enfrentar a concentração da riqueza, fortalecer serviços públicos, garantir direitos trabalhistas, democratizar o planejamento urbano e interromper a política que reserva proteção aos proprietários e suspeita aos pobres.
A cidade que aparece como paisagem é, antes de tudo, trabalho acumulado e conflito social. Quando esse conflito é apagado, o Rio vira espetáculo. Quando é reconhecido, a cidade deixa de ser cenário e passa a ser uma questão política: quem pode permanecer, quem pode circular, quem decide e quem paga o preço da vida urbana.
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