Ser comunista é defender, na teoria e na prática, a superação da sociedade em que uma minoria controla os meios de produção e a maioria precisa vender sua força de trabalho para sobreviver. Não se trata de uma preferência estética, de uma nostalgia histórica ou de desejar que o Estado controle cada detalhe da vida. Ser comunista é compreender que a exploração não nasce de indivíduos maus isolados, mas de uma estrutura social baseada na propriedade privada dos meios de produção, na extração de mais-valia e na subordinação das necessidades humanas à acumulação de capital. No Brasil, isso significa tomar partido da classe trabalhadora, combater o racismo e o patriarcado que organizam a exploração, defender direitos e construir força política contra o projeto capitalista e bolsonarista.
A pergunta “o que é ser comunista” costuma aparecer cercada por caricaturas. Para a propaganda anticomunista, o comunista seria alguém que odeia a liberdade, quer confiscar a casa de qualquer pessoa, pretende abolir toda iniciativa individual e deseja transformar a sociedade em uma fila administrada por burocratas. Essas imagens não explicam o comunismo: elas cumprem uma função ideológica. Ao deslocar o debate para o medo de uma suposta ameaça total, deixam de perguntar quem controla as fábricas, os bancos, as plataformas digitais, as terras, os meios de comunicação e os dados que organizam a vida social.
O que é ser comunista para além da caricatura
O comunismo parte de uma constatação material: a riqueza é produzida coletivamente, mas apropriada de modo privado. Um entregador atravessa a cidade, um professor prepara aulas fora do horário, uma operadora de call center atende dezenas de pessoas sob vigilância e uma trabalhadora de supermercado repõe mercadorias, controla estoques e enfrenta uma jornada desgastante. Nenhuma dessas pessoas produz sozinha aquilo que sustenta a empresa. A riqueza resulta de uma cooperação social ampla. Ainda assim, as decisões centrais pertencem aos proprietários e acionistas, enquanto quem trabalha recebe apenas uma parcela do valor criado.
Marx chamou de mais-valia o valor produzido pelo trabalhador além do equivalente pago em salário. A forma concreta dessa exploração mudou desde o século XIX, mas a relação permanece. O aplicativo de entrega tenta apresentar o entregador como empreendedor independente, embora determine preços, distribua chamadas, avalie desempenho e possa bloquear o acesso à plataforma. O discurso da autonomia encobre uma relação de dependência. O trabalhador não possui a infraestrutura, não controla o algoritmo e não decide as regras do mercado. Ele possui, sobretudo, sua força de trabalho e precisa colocá-la à venda em condições cada vez mais frágeis.
Ser comunista é enxergar essa relação por trás das aparências jurídicas e comerciais. O entregador não é simplesmente um usuário de aplicativo; é um trabalhador submetido a uma forma contemporânea de comando. A professora não é apenas uma prestadora de serviço vocacionada; é uma trabalhadora pressionada por metas, avaliações, burocracias e falta de condições. A operadora de call center não é uma voz neutra disponível ao consumidor; é alguém cuja fala, tempo e intervalo são monitorados. O comunismo começa quando essas experiências deixam de ser interpretadas como fracassos individuais e passam a ser compreendidas como problemas de classe.
Comunismo não é igualdade na pobreza
Uma das acusações mais repetidas afirma que o comunismo deseja nivelar todos por baixo. A formulação é conveniente porque transforma uma crítica à concentração da riqueza em uma defesa da miséria generalizada. O objetivo comunista não é repartir igualmente a escassez produzida pelo capitalismo, mas reorganizar a produção para que a riqueza social sirva às necessidades humanas. Isso exige enfrentar a propriedade dos meios de produção, a lógica do lucro e a divisão entre quem decide e quem executa.
Quando uma empresa demite trabalhadores para elevar dividendos, a decisão é considerada racional. Quando um banco cobra juros e restringe crédito para proteger sua rentabilidade, a medida é apresentada como técnica. Quando uma plataforma reduz a remuneração de uma corrida porque seu algoritmo foi alterado, o prejuízo é tratado como risco individual do trabalhador. O capitalismo chama de liberdade a liberdade do proprietário para decidir sobre a vida de milhares de pessoas. O comunismo pergunta por que decisões que afetam toda a sociedade permanecem privadas.
Isso não significa negar a existência de bens pessoais ou defender que cada objeto cotidiano pertença ao Estado. A distinção importante é entre propriedade pessoal e propriedade privada dos meios de produção. A casa em que alguém vive, suas roupas ou seus livros não são equivalentes a uma rede de supermercados, a uma mineradora, a um banco ou a uma empresa de tecnologia que controla a atividade de milhões. A crítica comunista se dirige à propriedade que permite a uma classe comandar o trabalho de outra e apropriar-se do resultado coletivo.
Ser comunista é tomar partido da classe trabalhadora
Classe trabalhadora não é apenas o operário industrial de uniforme azul. Ela inclui a trabalhadora doméstica, o professor contratado, o técnico de enfermagem, a pessoa que trabalha em logística, o funcionário terceirizado, o entregador, a caixa de supermercado, o autônomo dependente de plataformas e quem alterna empregos precários para pagar as contas. Inclui também trabalhadores desempregados ou subocupados, porque a ameaça do desemprego disciplina aqueles que ainda estão empregados.
No Brasil, essa classe é atravessada por raça, gênero e território. A exploração não atinge todos de maneira idêntica. Trabalhadores negros estão mais expostos à informalidade, ao desemprego, à violência e aos empregos de menor remuneração; mulheres acumulam trabalho remunerado e trabalho doméstico; moradores das periferias gastam mais tempo e dinheiro para chegar ao emprego; migrantes e trabalhadores sem documentação enfrentam formas específicas de vulnerabilidade. Ser comunista exige compreender que a unidade da classe trabalhadora não é uma abstração que apaga diferenças. Ela é uma construção política contra os mecanismos que usam essas diferenças para dividir e baratear a força de trabalho.
Por isso, o comunismo não pode ser reduzido a uma defesa genérica de “pobres”. A caridade administra a desigualdade sem questionar sua origem. A solidariedade de classe transforma necessidades individuais em reivindicações coletivas. Um trabalhador não precisa ser convencido de que merece ajuda porque fracassou; precisa reconhecer que seu salário, seu tempo, sua saúde e sua segurança são resultados de relações sociais e podem ser defendidos por organização, sindicato, movimento popular e ação política.
O comunista não rejeita a democracia: quer ampliá-la
Outra caricatura identifica comunismo e ditadura como se a democracia existente fosse plena e o capitalismo não limitasse a participação popular. Na sociedade burguesa, todos são formalmente iguais perante a lei, mas possuem poderes materiais radicalmente diferentes. O dono de um conglomerado de comunicação, um banqueiro e uma pessoa endividada podem ter o mesmo direito abstrato de votar, mas não dispõem da mesma capacidade de influenciar eleições, pautar debates ou pressionar governos.
O Estado não é um árbitro acima das classes. Como explica Alysson Mascaro, o Estado capitalista apresenta-se como espaço universal de cidadania, embora sua forma jurídica organize relações sociais adequadas à circulação de mercadorias e à reprodução do capital. Isso não quer dizer que toda política pública seja inútil ou que o Estado seja apenas uma marionete consciente dos empresários. Quer dizer que a disputa institucional ocorre dentro de limites estruturais e que direitos precisam ser arrancados, defendidos e ampliados pela luta social.
Ser comunista, nesse contexto, não é abandonar a disputa eleitoral em nome de uma pureza revolucionária. É participar dela sem acreditar que a urna, sozinha, transforme a estrutura social. É defender políticas que reduzam o sofrimento e ampliem a capacidade de organização popular, ao mesmo tempo em que se denuncia a propriedade e o poder que produzem a desigualdade. Por isso, apoiar o governo Lula e defender sua reeleição não contradiz uma perspectiva comunista. A reeleição de Lula representa a defesa de um campo democrático e de políticas sociais contra o projeto bolsonarista, autoritário, privatista e inimigo dos direitos.
Essa posição não exige transformar o governo em algo que ele não é. O governo Lula não aboliu o capitalismo, não rompeu com o poder financeiro e não realizou um programa comunista. A crítica de esquerda precisa reconhecer isso. Mas também precisa distinguir limites e diferenças reais. A reconstrução de políticas públicas, a defesa da democracia, a valorização do salário mínimo, a retomada de programas sociais e a recomposição de direitos não são equivalentes ao projeto de destruição institucional, privatização e perseguição política associado ao bolsonarismo. Dizer que os governos são iguais porque nenhum deles superou o capitalismo é uma forma de abstenção política que favorece o mais reacionário.
Comunismo e liberdade contra a liberdade do capital
O anticomunismo costuma falar em liberdade como se o capitalismo fosse seu proprietário natural. Mas que liberdade existe para quem precisa aceitar qualquer jornada para não perder o aluguel? Que liberdade tem o trabalhador de aplicativo quando recusar chamadas reduz sua avaliação ou quando uma conta bloqueada elimina sua renda? Que liberdade possui a família que escolhe entre comprar remédio, pagar transporte e colocar comida na mesa?
O capitalismo oferece liberdade jurídica para vender a força de trabalho, mas não garante as condições materiais para recusá-la. A pessoa pode, em tese, escolher entre diferentes patrões, desde que aceite trabalhar para sobreviver. Essa é a liberdade formal que esconde a coerção econômica. O comunismo não deseja substituir essa escolha por uma obediência cega ao Estado. Deseja que as condições de produção e reprodução da vida sejam submetidas ao controle democrático de quem trabalha.
Essa questão aparece com nitidez no chamado empreendedorismo. O trabalhador é levado a interpretar a si mesmo como uma pequena empresa: administra sua reputação, investe em ferramentas, calcula riscos, vende sua disponibilidade e atribui a si a culpa por cada fracasso. A ideologia meritocrática converte desigualdades estruturais em diferenças de mérito. Se alguém não consegue pagar as contas, a explicação dominante procura uma falha de esforço, planejamento ou atitude, não a remuneração insuficiente e a concentração da riqueza.
Ser comunista é recusar essa individualização permanente. Não porque indivíduos não tenham responsabilidades, mas porque nenhuma responsabilidade individual explica sozinha o desemprego, a informalidade, o endividamento, o racismo, a precarização e a insegurança alimentar. A liberdade real depende de tempo, renda, moradia, saúde, educação e poder coletivo. Sem essas condições, a liberdade vira uma palavra usada para proteger o poder de quem já possui recursos.
O comunismo diante da tecnologia e do trabalho digital
A tecnologia não é neutra nem automaticamente emancipadora. Martin Heidegger mostrou que a técnica moderna tende a enquadrar o mundo como um conjunto de recursos disponíveis para exploração. No capitalismo digital, pessoas, comportamentos, deslocamentos e relações são convertidos em dados úteis à valorização. O algoritmo aparece como uma autoridade técnica, embora seja criado dentro de empresas que definem objetivos, métricas e critérios de rentabilidade.
O comunista não é contra máquinas, internet ou inovação. É contra a forma social que transforma toda inovação em instrumento de controle, desemprego ou apropriação privada. Uma plataforma poderia reduzir o tempo de trabalho, melhorar a distribuição de mercadorias e ampliar a comunicação. Sob o comando do capital, ela frequentemente intensifica ritmos, vigia trabalhadores, transfere riscos e concentra poder em poucas empresas.
Guy Debord descreveu a sociedade do espetáculo como uma relação social mediada por imagens. Hoje, essa mediação se articula à administração algorítmica da atenção. A pessoa não apenas trabalha sob avaliação: também aprende a apresentar sua vida como mercadoria, a medir reconhecimento por números e a competir por visibilidade. O comunismo precisa enfrentar essa dimensão subjetiva da exploração. Não basta socializar fábricas se a vida continuar organizada pelo imperativo de desempenho, pela vigilância e pela comparação permanente.
Uma política comunista para a tecnologia deve defender transparência e controle social dos algoritmos, proteção de dados, direitos trabalhistas para quem atua em plataformas, redução da jornada e uso público da infraestrutura digital. O conhecimento técnico produzido socialmente não pode permanecer trancado como propriedade exclusiva de empresas que lucram com o trabalho de milhões. A questão não é voltar a um passado sem tecnologia, mas decidir quem controla a tecnologia e para qual finalidade ela existe.
Ser comunista é organizar-se, não apenas declarar uma opinião
Uma pessoa pode concordar com a crítica ao capitalismo e ainda não saber como agir. Isso é compreensível: a própria sociedade fragmenta trabalhadores, dificulta encontros e apresenta a política como espetáculo de especialistas. Mas ser comunista não é somente possuir uma opinião correta sobre a economia. É construir organização, solidariedade e consciência coletiva. A leitura de Marx é importante, mas não substitui a participação em sindicatos, movimentos de moradia, coletivos populares, associações comunitárias e lutas concretas.
A organização transforma uma reclamação privada em força social. O entregador isolado tem pouca capacidade de negociar com uma plataforma; trabalhadores organizados podem paralisar entregas, exigir remuneração digna e pressionar por regulação. O professor sozinho enfrenta a sobrecarga como culpa pessoal; uma categoria mobilizada pode disputar orçamento, condições de trabalho e projeto educacional. A organização não elimina conflitos internos, mas permite que eles sejam enfrentados sem aceitar a regra capitalista de que cada um deve competir contra todos.
Isso também exige disputar o senso comum. Gustave Le Bon descreveu a multidão de maneira marcada por preconceitos de sua época, mas sua obra ajuda a lembrar que comportamentos coletivos não são explicados apenas pela racionalidade individual. Hoje, a extrema direita explora medos, ressentimentos e desinformação para direcionar a revolta contra pobres, negros, imigrantes, mulheres, professores e militantes de esquerda. O bolsonarismo oferece uma falsa comunidade baseada no inimigo interno e na defesa agressiva da autoridade. Ser comunista é construir uma comunidade política fundada não no ódio aos de baixo, mas na solidariedade de quem trabalha.
A resposta comunista ao bolsonarismo não pode ser apenas moralista. É preciso disputar as condições materiais que alimentam o ressentimento: emprego precário, serviços públicos insuficientes, abandono das periferias, insegurança e sensação de desamparo. O autoritarismo cresce quando a população é abandonada e, depois, convencida de que seus problemas foram causados por direitos sociais ou por grupos vulneráveis. A defesa do governo Lula e de sua reeleição, nesse cenário, é parte da disputa contra a regressão autoritária. Ela deve vir acompanhada de cobrança por reformas, organização popular e crítica aos limites do governo.
O comunismo como projeto de emancipação
Ser comunista é querer que a humanidade deixe de ser governada por forças que ela mesma produz, mas não controla. O mercado, o dinheiro, o Estado e a tecnologia aparecem como poderes externos, embora resultem de relações sociais. A alienação ocorre quando os produtos do trabalho e das decisões coletivas se voltam contra seus próprios produtores. O objetivo comunista é tornar consciente e democrática essa produção da vida.
Isso implica reduzir a jornada de trabalho, socializar decisões econômicas, garantir moradia, saúde e educação, combater o racismo estrutural, reconhecer o trabalho doméstico e de cuidado, proteger a natureza e democratizar a tecnologia. Não existe uma lista pronta capaz de resolver todos os conflitos de uma sociedade futura. O comunismo não é um desenho administrativo acabado, mas um movimento histórico e político que nasce das contradições do presente e busca abolir as condições que transformam pessoas em instrumentos de lucro.
A pergunta “o que é ser comunista” não deve ser respondida apenas com uma definição de dicionário. É ser contra a exploração mesmo quando ela se apresenta como contrato; contra a dominação mesmo quando se apresenta como escolha; contra a desigualdade mesmo quando se apresenta como mérito; contra o autoritarismo mesmo quando se apresenta como ordem. É defender a democracia sem confundi-la com o poder dos proprietários, apoiar avanços concretos sem abandonar a crítica estrutural e reconhecer que nenhuma emancipação será concedida espontaneamente por quem lucra com a subordinação.
Ser comunista, no Brasil de hoje, é ficar ao lado de quem trabalha e de quem é descartado pelo capital. É derrotar eleitoralmente o bolsonarismo, defender a reeleição de Lula e, ao mesmo tempo, ampliar a pressão popular para que políticas públicas se convertam em direitos permanentes, não em concessões frágeis. É compreender que a luta não termina na eleição, mas também que eleições importam quando definem se a extrema direita avançará ou será contida. O comunismo começa na recusa de aceitar a exploração como destino e continua na organização capaz de transformar essa recusa em poder coletivo.
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