Ser comunista no Brasil é reconhecer que a riqueza produzida pela classe trabalhadora é apropriada por uma minoria proprietária e agir politicamente para superar essa relação social, não apenas trocar o governo de turno. É defender a socialização dos meios de produção, a organização coletiva dos explorados e uma democracia substantiva, capaz de submeter a economia às necessidades humanas. Essa posição assume que a exploração de classe, o racismo, o patriarcado, a dependência econômica e a violência do Estado não são acidentes separados: formam a estrutura concreta do capitalismo brasileiro.
A pergunta costuma aparecer cercada por caricaturas. Para a direita, comunista seria alguém que odeia a liberdade, quer confiscar a casa de qualquer trabalhador ou pretende impor uma ditadura estrangeira. Para certo progressismo institucional, o comunismo vira apenas uma identidade cultural, uma sensibilidade de esquerda ou uma defesa genérica dos pobres. As duas imagens empobrecem o problema. Comunismo não é um temperamento, um estilo de roupa, uma palavra de ordem vazia nem a simples preferência por políticas públicas. É uma teoria da sociedade e um projeto político baseado na abolição da propriedade privada dos meios de produção e da divisão entre uma classe que trabalha e outra que vive da propriedade.
O que é ser comunista no Brasil
No sentido marxista, a propriedade privada decisiva não é o celular, a roupa ou a moradia usada por uma família. Trata-se da propriedade dos instrumentos que permitem organizar a produção social: terras, fábricas, bancos, redes logísticas, plataformas, sistemas de dados e grandes empresas. Quem não possui esses meios precisa vender sua força de trabalho para sobreviver. O entregador que pedala para um aplicativo pode possuir a bicicleta e o telefone, mas não controla a plataforma, o fluxo de pedidos, o preço das corridas, o sistema de bloqueios nem os dados acumulados pelas entregas. A aparência de autonomia encobre uma dependência econômica radical.
Ser comunista é começar por essa realidade material. Não basta perguntar se uma pessoa é formalmente livre para assinar um contrato. É preciso perguntar em que condições ela escolhe: entre vender sua força de trabalho ou não pagar aluguel, alimentar a família e comprar remédios. A liberdade jurídica, quando separada da propriedade e do poder econômico, pode coexistir com a compulsão social. O trabalhador é juridicamente igual à empresa no contrato, mas chega à negociação sem os recursos que permitiriam recusar a venda de seu trabalho. A igualdade perante a lei não elimina a desigualdade de classe; frequentemente a organiza e a protege.
O comunista não vê a pobreza como falha moral nem a riqueza como prova automática de mérito. O lucro nasce da apropriação do trabalho excedente, isto é, da diferença entre o valor produzido pelo trabalhador e o valor pago em salário. A empresa pode apresentar essa relação como parceria, oportunidade ou empreendedorismo, mas a linguagem não altera o mecanismo. No call center, a atendente cumpre metas de tempo e produtividade; na escola privada, o professor acumula turmas, mensagens e tarefas administrativas; no depósito, o trabalhador é pressionado por ritmos definidos por sistemas de gestão. A forma muda, mas a subordinação ao capital permanece.
Classe trabalhadora não é uma imagem do passado
Uma das mentiras mais eficientes sobre o comunismo é a ideia de que a classe trabalhadora desapareceu porque as fábricas perderam centralidade na paisagem urbana. No Brasil, ela se tornou mais fragmentada, terceirizada, racializada e atravessada por vínculos instáveis. Inclui a operária industrial, o trabalhador da construção, a empregada doméstica, o professor, a enfermeira, o motorista, o funcionário de supermercado, a pessoa desempregada e o entregador de aplicativo. Também inclui setores formalizados submetidos a metas, avaliações e medo permanente de demissão.
A classe não é definida por uma estética ou por uma profissão específica. Ela é definida pela posição ocupada na produção e na reprodução da vida social. Uma pessoa pode ser chamada de empreendedora, microempreendedora individual ou prestadora independente e ainda depender da venda cotidiana de sua força de trabalho. O entregador que escolhe quando ligar o aplicativo continua sujeito ao preço imposto pela plataforma, à avaliação dos clientes, à distribuição opaca das corridas e ao custo da manutenção da motocicleta. A suposta flexibilidade transfere riscos empresariais para o trabalhador.
Essa transferência é um dos traços do capitalismo brasileiro contemporâneo. A empresa preserva o controle sobre o mercado e sobre a infraestrutura digital, mas evita reconhecer a relação de emprego e os custos sociais correspondentes. O trabalhador paga combustível, equipamento, seguro, tempo de espera e desgaste físico. Quando sofre acidente, a responsabilidade é individualizada. Quando a remuneração cai, recomenda-se que ele trabalhe mais horas ou desenvolva uma atitude melhor. A exploração aparece como problema de desempenho pessoal.
Ser comunista é combater essa inversão. Não se trata de negar que existam escolhas individuais, diferenças de esforço ou habilidades distintas. Trata-se de recusar que essas diferenças sejam usadas para explicar uma estrutura inteira de desigualdade. O esforço do entregador não produz, por si só, o algoritmo, a marca, a rede de clientes e a propriedade da plataforma. O lucro depende de uma organização coletiva do trabalho, ainda que os trabalhadores sejam isolados entre si por contratos, telas e avaliações.
O capitalismo brasileiro tem história própria
Não existe um capitalismo abstrato, separado da história do Brasil. A formação econômica do país foi marcada pela escravidão, pela concentração fundiária, pelo racismo e pela inserção subordinada no mercado mundial. A riqueza de grupos dominantes foi construída com trabalho coercitivo, expropriação e controle político. A abolição não distribuiu terra, renda ou poder à população negra. A desigualdade atual não é um resíduo cultural que o desenvolvimento teria simplesmente esquecido de apagar; ela foi reproduzida por instituições, mercados e políticas de Estado.
Isso modifica o significado de ser comunista aqui. A luta contra o capital não pode tratar o racismo como uma questão lateral, a ser resolvida depois de uma transformação econômica genérica. A classe trabalhadora brasileira é profundamente negra e feminina em seus setores mais precarizados. A divisão racial do trabalho empurra pessoas negras para ocupações mais mal pagas, mais expostas à violência e menos protegidas. O trabalho doméstico, o cuidado e os serviços essenciais revelam como a exploração econômica se articula à desvalorização social de determinados corpos.
O país também ocupa uma posição dependente na economia mundial. Isso não significa que toda decisão brasileira seja controlada por uma potência estrangeira, mas que o desenvolvimento nacional ocorre sob relações desiguais de tecnologia, financiamento, comércio e propriedade. Empresas transnacionais, fundos financeiros e credores influenciam prioridades econômicas; governos disputam investimentos prometendo mão de obra barata; a política fiscal frequentemente trata direitos sociais como despesas a limitar, enquanto protege compromissos com o capital financeiro. Um comunismo brasileiro precisa compreender essa dependência sem transformar a nação em substituto da luta de classes.
Por isso, o comunista não confunde soberania popular com nacionalismo empresarial. Defender a indústria, a ciência e os serviços públicos pode ser necessário para reduzir a dependência, mas não basta trocar o controle estrangeiro por uma burguesia nacional que continue explorando trabalhadores. A questão é quem decide, quem se apropria dos resultados e para qual finalidade a produção existe. Uma empresa brasileira que paga salários baixos e destrói o ambiente não se torna progressista apenas por ter capital nacional.
Comunismo não é estatismo nem culto a um governo
Outra confusão recorrente identifica comunismo com qualquer Estado que se declare socialista ou com qualquer política de distribuição de renda. Um programa de transferência, uma universidade pública ou um sistema de saúde universal não aboliram o capitalismo. São conquistas importantes da classe trabalhadora e podem reduzir danos, ampliar direitos e criar condições de organização, mas continuam disputadas dentro de uma sociedade baseada na propriedade privada e na produção para o lucro.
Do mesmo modo, ser comunista não é defender burocracias estatais como se todo Estado estivesse acima das classes. Para Marx, o Estado moderno garante uma forma de igualdade jurídica entre proprietários desiguais e assegura as condições gerais de reprodução da sociedade capitalista. Isso não significa que todas as políticas estatais sejam idênticas ou que não existam disputas reais em torno delas. Significa compreender que o Estado não é um árbitro neutro, separado das relações sociais. Ele pode ser pressionado por trabalhadores, financiar direitos e limitar abusos, mas sua estrutura está vinculada à ordem que organiza a propriedade.
A crítica de Alysson Mascaro ajuda a aprofundar esse ponto: o Estado capitalista não é simplesmente um instrumento que a burguesia liga e desliga conforme sua vontade. Sua forma jurídica e institucional produz uma separação entre economia e política, apresentando como interesses gerais relações que favorecem a acumulação. É por isso que governos eleitos podem ampliar direitos em certos momentos e, ainda assim, administrar limites impostos pela propriedade, pela dívida, pelo investimento e pela concorrência. O comunista participa das disputas institucionais sem imaginar que a urna, sozinha, desmonte o poder econômico.
Defender democracia, nesse quadro, não significa aceitar a democracia burguesa como ponto final. A democracia eleitoral é uma conquista que a extrema direita tenta destruir e deve ser preservada contra golpes, autoritarismo e violência política. Mas ela é insuficiente quando a maioria vota enquanto uma minoria controla bancos, meios de comunicação, plataformas, terras e locais de trabalho. A democracia comunista amplia a decisão para a economia: trabalhadores e comunidades precisam poder decidir o que produzir, como produzir e como distribuir.
Contra a meritocracia e a culpa individual
A meritocracia é uma das principais ideologias que impedem a compreensão comunista do Brasil. Ela transforma posições sociais desiguais em resultados individuais aparentemente justos. O trabalhador que não consegue comprar uma casa é acusado de não se esforçar; o professor exausto é aconselhado a administrar melhor o tempo; o jovem desempregado deve desenvolver competências; o entregador deve aceitar mais pedidos. A estrutura desaparece atrás de uma narrativa de aperfeiçoamento pessoal.
O comunismo não nega a importância do conhecimento, da disciplina ou da responsabilidade. Ele pergunta quem tem acesso a esses recursos e quem se beneficia do discurso que os transforma em obrigação privada. Uma criança que estuda em uma escola precária não enfrenta a mesma trajetória que o filho de uma família com tempo, segurança, rede de contatos e formação de qualidade. Um trabalhador que precisa fazer jornadas extensas não dispõe das mesmas condições para frequentar cursos ou disputar concursos. A desigualdade não elimina a ação individual, mas estabelece o campo de possibilidades em que ela ocorre.
Na sociedade administrada por plataformas, a meritocracia ganha uma aparência matemática. Uma nota, uma taxa de aceitação, um índice de produtividade ou uma classificação automatizada parece medir objetivamente o valor de cada pessoa. Mas o algoritmo incorpora decisões empresariais e interesses econômicos. Se um entregador recebe menos chamadas, não se pode concluir que sua capacidade caiu; é preciso investigar como a plataforma distribui oportunidades e como usa a avaliação para disciplinar comportamentos. A tecnologia não substitui a dominação. Ela a torna menos visível e mais difícil de contestar.
Ser comunista é organizar a vida coletiva
Uma posição comunista não se esgota em consumir produtos considerados de esquerda, publicar críticas ao capitalismo ou votar no candidato menos pior. Essas ações podem ter importância, mas não substituem organização. A exploração cotidiana só se transforma em força política quando trabalhadores reconhecem problemas comuns, constroem formas de solidariedade e disputam as instituições que regulam sua vida. Sindicato, associação de bairro, movimento de moradia, organização estudantil, coletivo de trabalhadores de plataforma e partido podem cumprir funções diferentes nessa construção.
Organizar não significa apagar divergências nem exigir pureza ideológica. A classe trabalhadora não é homogênea: há diferenças de raça, gênero, território, religião, geração e vínculo profissional. O desafio comunista é transformar essas diferenças em compreensão da totalidade, e não permitir que sejam usadas para dividir os explorados. A unidade não nasce de negar conflitos internos, mas de enfrentá-los politicamente e construir objetivos compartilhados: salário digno, redução da jornada, moradia, transporte, saúde, educação, proteção social e controle sobre o trabalho.
Essa organização precisa enfrentar o bolsonarismo sem reduzir o fenômeno a uma anomalia eleitoral. O bolsonarismo canalizou medo, ressentimento e insegurança social para uma política autoritária, antipopular e anticomunista. Sua propaganda apresenta direitos trabalhistas como privilégios, sindicatos como inimigos e violência policial como solução. Ao mesmo tempo, preserva a liberdade real dos proprietários de explorar e acumular. O trabalhador que acredita estar defendendo sua liberdade ao atacar políticas sociais frequentemente está defendendo a liberdade do capital de decidir sem limites.
Ser comunista no Brasil inclui combater essa captura do sofrimento popular pela extrema direita. Não basta ridicularizar quem vota em Bolsonaro ou tratá-lo como ignorante. É necessário disputar as condições materiais e as ideias que produzem adesão ao autoritarismo: o abandono estatal, o desemprego, a insegurança, a precarização, o racismo, o ressentimento contra políticas de igualdade e a ação permanente de aparelhos ideológicos como igrejas empresariais, meios de comunicação e redes sociais. A crítica precisa ser firme, mas também capaz de construir pertencimento coletivo onde hoje existe isolamento.
Um projeto para além da sobrevivência
O comunismo não promete uma versão mais eficiente da corrida atual. Não quer apenas um aplicativo mais justo, um chefe mais humano ou uma empresa responsável. Seu horizonte é uma sociedade em que a produção não seja organizada para garantir a acumulação de poucos, mas para atender necessidades socialmente definidas. Isso exige transformar a propriedade e o poder, não apenas corrigir seus excessos.
Na prática, essa perspectiva começa por reivindicações concretas. Reduzir a jornada sem reduzir salários, garantir direitos a trabalhadores de plataformas, assegurar renda e proteção social, ampliar serviços públicos, enfrentar a concentração fundiária, democratizar o sistema financeiro e proteger a organização sindical são medidas que limitam o poder do capital. Elas não constituem, isoladamente, o comunismo, mas podem ampliar a capacidade coletiva de luta e revelar que aquilo apresentado como inevitável é uma decisão política.
O objetivo não é voltar a uma imagem idealizada do passado industrial nem esperar que a história produza automaticamente uma revolução. É compreender que cada ganho duradouro depende de correlação de forças e que o capital reage sempre que sua margem de controle é ameaçada. O comunista precisa combinar defesa imediata da vida com estratégia de transformação. Quem espera a sociedade perfeita para lutar abandona os trabalhadores à exploração; quem aceita administrar eternamente a exploração abandona o próprio sentido da emancipação.
Ser comunista no Brasil, enfim, é tomar partido da classe trabalhadora sem romantizá-la, compreender o capitalismo sem tratá-lo como destino e defender a igualdade sem reduzi-la à distribuição de oportunidades individuais. É reconhecer que a riqueza social já é produzida coletivamente, embora seus frutos sejam apropriados privadamente. A tarefa política consiste em fazer com que a organização da produção corresponda à forma coletiva da vida. Enquanto um entregador depender da próxima corrida, uma professora trabalhar além do limite, uma atendente for medida por segundos e uma minoria decidir sobre o destino de todos, a palavra comunismo continuará nomeando não um fantasma, mas a necessidade de uma ruptura.
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