O que o comunismo significa quando um entregador trabalha muitas horas, assume os custos da moto, enfrenta o trânsito e ainda depende de um aplicativo que pode reduzir sua renda sem negociação? A pergunta não se resolve com a definição escolar de um sistema em que o Estado controla a economia. Ela começa pela contradição entre a produção social da riqueza e sua apropriação privada. O entregador, o professor, a atendente de call center e o trabalhador de fábrica produzem em relações cada vez mais coletivas, mas os instrumentos, os dados, as decisões e os resultados permanecem concentrados nas mãos de empresas e proprietários.
O comunismo é, antes de tudo, uma crítica prática a essa forma de organizar a vida. Em Marx, a questão não aparece como um desenho administrativo pronto, tampouco como uma fantasia de igualdade abstrata. Ela nasce da análise do capitalismo: um sistema no qual a maioria precisa vender sua força de trabalho para sobreviver, enquanto uma minoria controla os meios de produção e decide o destino do trabalho alheio. Comunismo, nesse sentido, nomeia a possibilidade de superar a separação entre quem trabalha e quem manda, entre a riqueza produzida por todos e o poder acumulado por poucos.
O que o comunismo enfrenta no capitalismo brasileiro
No capitalismo, a propriedade privada dos meios de produção não significa apenas possuir objetos particulares. Uma casa, um telefone ou uma bicicleta não têm o mesmo papel social que uma plataforma de entregas, uma rede de supermercados, uma empresa de transporte ou um sistema de inteligência artificial usado para administrar milhares de trabalhadores. O ponto decisivo é o poder de controlar recursos dos quais outras pessoas dependem para trabalhar e viver.
Uma plataforma digital pode não possuir a moto do entregador, mas organiza o acesso à demanda, define regras, distribui chamadas, calcula pagamentos, registra deslocamentos e pode bloquear perfis. O trabalhador aparece como suposto autônomo, embora sua atividade seja orientada por uma infraestrutura que não controla. A empresa transforma a dependência em aparência de liberdade: o entregador escolhe quando ligar o aplicativo, mas não escolhe o preço da corrida, o funcionamento do algoritmo, os critérios de punição ou a forma de utilização dos dados que produz.
Essa situação condensa a crítica comunista ao capitalismo. O trabalho é individualizado na linguagem empresarial, mas socializado na prática. Nenhum aplicativo funciona sem uma rede de programadores, servidores, restaurantes, consumidores, entregadores, sistemas de pagamento e infraestrutura urbana. O resultado depende de uma cooperação ampla, mas a decisão sobre essa cooperação é privatizada. A empresa apresenta a plataforma como propriedade de seus investidores e trata a multidão de trabalhadores como custo variável.
A exploração não desaparece porque o trabalhador recebe por tarefa, nem porque pode escolher alguns horários. A remuneração por entrega desloca para o indivíduo os riscos que antes poderiam ser assumidos pela empresa: manutenção, combustível, acidentes, doença, tempo de espera e depreciação do equipamento. O algoritmo administra a produtividade sem precisar de um supervisor visível. A autoridade permanece, mas se esconde atrás de uma interface.
Comunismo não é pobreza distribuída
O senso comum produzido pelo capitalismo costuma apresentar o comunismo como sinônimo de escassez, autoritarismo e uniformidade. Essa imagem não surgiu do nada. Experiências históricas que se reivindicaram socialistas enfrentaram burocratização, repressão política, concentração de poder e graves limites econômicos. Esses problemas devem ser analisados, não apagados por propaganda. Mas também não se pode aceitar que a história seja usada como substituto do pensamento: criticar governos que falaram em nome do comunismo não responde à questão da propriedade capitalista, da exploração ou da desigualdade brasileira.
Também é incorreto chamar de comunismo qualquer política de distribuição pública ou qualquer intervenção estatal na economia. Transporte público, escola estatal, sistema de saúde e previdência não aboliram o capitalismo. Podem limitar sua brutalidade, produzir direitos e ampliar a reprodução social, mas convivem com empresas privadas, trabalho assalariado e acumulação de capital. O Estado capitalista administra conflitos e garante condições gerais para a economia, sem deixar de proteger a estrutura de propriedade que sustenta a dominação.
Na leitura de Alysson Mascaro, o Estado não é um instrumento neutro que uma classe pode simplesmente ocupar e utilizar à vontade. Sua forma jurídica e institucional está ligada à própria dinâmica da sociedade capitalista, na qual indivíduos aparecem como sujeitos livres para contratar, vender e comprar. Essa liberdade formal esconde desigualdades materiais: o trabalhador é juridicamente livre para recusar um emprego, mas precisa vender sua força de trabalho para pagar aluguel, comida e transporte. A relação parece uma troca entre iguais porque ambos assinam um contrato; na realidade, um lado controla os meios de produção e o outro controla apenas sua capacidade de trabalhar.
O comunismo aponta para a superação dessa relação, não para a troca de um proprietário privado por um gerente estatal sem participação dos trabalhadores. Seu conteúdo emancipatório está no controle social e democrático da produção, na redução da separação entre decisão e execução e na transformação da riqueza em recurso comum. Se uma estrutura apenas muda o nome do dono, conserva a hierarquia e mantém os trabalhadores obedecendo a decisões que não tomam, ela preserva o núcleo da alienação.
O entregador e a propriedade da cooperação
O chamado breque dos apps tornou visível uma contradição que a publicidade das plataformas tenta ocultar. Entregadores organizaram paralisações e mobilizações para contestar remunerações, taxas, bloqueios e condições de trabalho. Mesmo sem formar uma experiência comunista, essas ações revelaram que a plataforma não produz valor sozinha. Quando os trabalhadores interrompem a circulação, a promessa de instantaneidade desaparece. O serviço depende de pessoas concretas, e não apenas do código que a empresa apresenta como sua grande inovação.
A reivindicação imediata por melhores taxas não é ainda uma transformação da propriedade. Um entregador pode conseguir uma remuneração mais alta e continuar submetido ao mesmo aplicativo. Ainda assim, a luta contém uma pergunta maior: quem decide a organização do trabalho que todos realizam? A resposta capitalista é conhecida. Decidem acionistas, executivos, investidores e equipes de gestão; os trabalhadores recebem regras prontas e podem ser avaliados por sistemas que não compreendem completamente.
Uma alternativa comunista não consistiria em entregar cada aplicativo a um ministério e conservar os trabalhadores como executores passivos. A questão seria transformar a infraestrutura em propriedade social, com gestão democrática dos trabalhadores e dos usuários, transparência sobre os critérios de distribuição das corridas, remuneração definida coletivamente e uso dos dados subordinado ao interesse público. Cooperativas de trabalhadores podem abrir uma brecha nessa direção, mas não são automaticamente comunistas. Se uma cooperativa apenas reproduz competição, jornadas extensas, pressão por produtividade e dependência de investidores, ela pode mudar a forma jurídica sem superar a lógica do capital.
A propriedade social não significa que tudo pertence indistintamente a uma autoridade abstrata. Significa que os recursos decisivos para a vida coletiva não devem funcionar como instrumentos de enriquecimento privado. Um sistema de entregas organizado como serviço comum poderia priorizar segurança, remuneração, descanso e necessidade social, em vez de acelerar cada vez mais a circulação de mercadorias. A tecnologia continuaria existindo, mas não seria tratada como uma força autônoma diante da qual todos devem se adaptar.
A alienação produz o trabalhador que o capitalismo precisa
Marx descreveu a alienação como a separação do trabalhador em relação ao produto, ao processo de trabalho, à própria atividade e aos outros seres humanos. O conceito permanece atual porque a tecnologia não eliminou essa separação; em muitos setores, tornou-a mais sofisticada. O entregador não controla a finalidade da circulação que realiza. A professora submetida a metas e plataformas de avaliação não define os critérios que medem sua atividade. A atendente de call center precisa seguir roteiros, atingir tempo médio e suportar monitoramento constante, enquanto sua experiência aparece nos relatórios como desempenho individual.
A alienação digital acrescenta uma camada decisiva. O trabalhador não apenas executa uma ordem; ele é levado a interpretar a ordem como resultado de uma máquina imparcial. Se recebe poucas chamadas, imagina que precisa melhorar sua avaliação. Se é bloqueado, procura uma falha pessoal. Se sua renda diminui, a plataforma sugere que há menos demanda ou que ele não foi eficiente. A decisão empresarial se converte em clima, pontuação, ranqueamento e probabilidade. A exploração deixa de aparecer como comando de alguém e surge como consequência técnica.
Essa transformação reorganiza também a consciência. A ideologia da meritocracia ensina que cada indivíduo é responsável por sua posição, mesmo quando as condições são distribuídas de maneira desigual. O trabalhador aceita o risco como prova de autonomia e a instabilidade como oportunidade. O fracasso é privatizado; o lucro, entretanto, continua centralizado. O aplicativo pode contar com milhares de trabalhadores disponíveis, mas cada um é convocado a pensar em si mesmo como uma pequena empresa.
É nesse ponto que a crítica comunista se distingue de uma simples defesa de melhores salários. Ela pergunta por que as pessoas precisam competir para acessar uma infraestrutura criada pela cooperação de todas. Pergunta por que uma atividade indispensável à vida urbana deve obedecer ao retorno de investidores. Pergunta por que a eficiência é medida pelo tempo de entrega, enquanto o desgaste físico, o acidente e a exaustão são tratados como problemas particulares.
O falso conflito entre liberdade e igualdade
Uma das objeções mais repetidas ao comunismo afirma que qualquer tentativa de igualdade destruiria a liberdade. O argumento usa como liberdade aquilo que o capitalismo distribui de modo desigual: a liberdade contratual. O trabalhador pode aceitar ou recusar a corrida, o emprego ou o contrato, mas não possui condições equivalentes às da empresa. A liberdade de quem depende da renda imediata não é idêntica à liberdade de quem pode esperar, investir, demitir ou transferir capital.
O comunismo não deveria ser defendido como uma sociedade em que todos recebem exatamente a mesma coisa independentemente de suas necessidades e contribuições. Essa caricatura substitui a discussão sobre poder por uma discussão sobre uniformes. A questão central é quem decide o que produzir, como produzir e para quem produzir. A igualdade relevante não é a eliminação mecânica de toda diferença, mas a abolição das relações que permitem a uma classe viver do trabalho de outra.
Liberdade real exige tempo, segurança material, acesso à educação, saúde, moradia e participação política. Quem trabalha doze horas por dia em jornadas fragmentadas tem formalmente direitos políticos, mas dispõe de menos condições para exercê-los. Quem teme um bloqueio, uma demissão ou o despejo não negocia em pé de igualdade. A sociedade capitalista chama de escolha aquilo que muitas vezes é apenas a administração individual da necessidade.
O comunismo diante da crise ecológica e tecnológica
A crise climática torna ainda mais insustentável a lógica de produzir para acumular, mesmo quando a produção destrói as condições de existência. A competição entre empresas exige expansão permanente, obsolescência, aceleração logística e consumo renovado. A tecnologia é incorporada conforme sua capacidade de reduzir custos e ampliar controle, não conforme sua contribuição para uma vida menos exaustiva.
Heidegger mostrou que a técnica moderna tende a enquadrar o mundo como reserva disponível: a floresta vira estoque, o rio vira energia, o trabalhador vira recurso humano. No capitalismo digital, essa transformação alcança a experiência cotidiana. A atenção vira dado, o deslocamento vira informação, o comportamento vira previsão e a disponibilidade do trabalhador vira capacidade operacional. O problema não é a existência de máquinas, mas sua submissão a uma racionalidade que mede tudo pela valorização do capital.
Uma sociedade comunista teria de enfrentar esse problema sem prometer uma abundância infinita produzida por dispositivos miraculosos. Seria necessário decidir coletivamente quais atividades são necessárias, quais podem ser reduzidas e quais formas de consumo são sustentadas à custa do trabalho invisível de outros. Menos jornada, mais tempo livre e distribuição racional dos recursos seriam critérios superiores à expansão interminável do mercado.
O nome do futuro não basta
Nenhuma palavra garante uma sociedade emancipada. Comunismo pode ser convertido em doutrina rígida, propaganda oficial ou justificativa para novas hierarquias. Por isso, seu sentido não deve ser protegido por reverência, mas testado nas relações concretas. Onde trabalhadores não controlam a produção, onde a burocracia decide por eles, onde a crítica é reprimida e onde a desigualdade de poder permanece intacta, a promessa comunista foi traída, qualquer que seja o discurso utilizado.
O mesmo vale para o capitalismo que se apresenta como moderno, flexível e inovador. Ele pode trocar a fábrica pelo aplicativo, o chefe pelo algoritmo e o salário mensal pelo pagamento por tarefa, mas conserva a separação fundamental entre quem controla as condições do trabalho e quem precisa se submeter a elas. A novidade tecnológica não altera automaticamente a relação social. Um entregador conectado ao celular continua alienado se a conexão apenas aperfeiçoa sua dependência.
O comunismo interessa porque recoloca a pergunta que o capitalismo tenta eliminar: por que os produtores não governam a produção? No caso brasileiro, essa pergunta não é abstrata. Ela está na mão que segura o guidão sob a chuva, na professora que prepara aulas fora do horário, na atendente avaliada por segundos, no trabalhador que transforma sua própria casa em extensão do escritório. Todos participam de uma riqueza social que não controlam.
A resposta comunista começa quando essa experiência deixa de ser interpretada como fracasso individual e passa a ser compreendida como relação social. O entregador não precisa apenas de uma taxa melhor; precisa deixar de ser peça descartável de uma infraestrutura privada. O professor não precisa apenas de elogio; precisa de tempo, autonomia e condições materiais para decidir seu trabalho. A sociedade não precisa de mais uma promessa de empreendedorismo, mas de poder coletivo sobre os recursos que determinam a vida.
O comunismo, então, não é o fantasma usado para defender a ordem existente nem o nome de uma burocracia que pretende falar no lugar dos trabalhadores. É a hipótese política de que a cooperação humana pode deixar de ser capturada como lucro privado. Sua medida não está na quantidade de bandeiras vermelhas, mas na capacidade de abolir a submissão do trabalho ao capital e devolver à maioria o controle sobre a riqueza que ela produz.
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