Perguntar o que é comunismo no Brasil exige atravessar a caricatura que há décadas substitui o debate. Para o senso comum fabricado por jornais, escolas, partidos conservadores e redes sociais, comunismo seria apenas um governo que proíbe a propriedade, controla a vida privada ou transforma todos em funcionários do Estado. Essa imagem serve menos para explicar uma experiência histórica do que para impedir qualquer pergunta sobre quem controla a riqueza produzida por milhões de pessoas. O entregador que pedala pelas ruas de São Paulo, Recife ou Porto Alegre, conectado a uma plataforma que decide seu preço, sua rota e sua prioridade, oferece um ponto de partida mais concreto: o trabalho já é socializado, mas o resultado continua submetido a proprietários privados.
O comunismo, entendido criticamente, não é a administração mais eficiente da pobreza nem a troca de um patrão privado por um burocrata. É a possibilidade de organizar a produção a partir das necessidades coletivas, abolindo a relação social em que uma classe controla os meios de produção e outra precisa vender sua força de trabalho para sobreviver. A questão não é distribuir algumas mercadorias de modo mais justo depois que elas foram produzidas. É transformar quem decide o que produzir, como produzir e para quem deve servir a riqueza. Essa definição desloca o debate da fantasia anticomunista para a materialidade do trabalho brasileiro.
O que é comunismo diante do capitalismo de plataforma
O entregador de aplicativo não trabalha isoladamente, embora a empresa tente apresentá-lo como empreendedor individual. Seu trabalho depende de uma infraestrutura coletiva: restaurantes, cozinhas, ruas, mapas digitais, meios de pagamento, centros de distribuição, celulares, satélites, sistemas de avaliação e uma multidão de consumidores. Cada entrega incorpora conhecimentos e esforços que nenhum indivíduo possui sozinho. Ainda assim, a plataforma aparece como proprietária de uma inteligência quase invisível que coordena essa atividade. Ela não precisa possuir bicicletas, motos ou restaurantes para extrair valor da circulação econômica que organiza.
O algoritmo não é um sujeito neutro que apenas combina oferta e procura. Ele expressa decisões empresariais sobre remuneração, tempo, risco e disciplina. Ao distribuir chamadas, calcular distâncias, oferecer bônus e bloquear contas, a plataforma administra trabalhadores sem precisar reconhecê-los integralmente como trabalhadores. O entregador recebe a ordem como oportunidade, a punição como falha técnica e a remuneração como resultado de seu desempenho. A forma jurídica do autônomo encobre uma relação de dependência: sem a plataforma, seu acesso ao mercado desaparece; com ela, sua autonomia é reduzida à obrigação de aceitar riscos que antes pertenciam à empresa.
É nesse ponto que o comunismo deixa de ser uma palavra abstrata. Se a atividade de entrega é produzida por uma rede social de trabalho, por que seu comando deve permanecer nas mãos de acionistas e executivos? Se os dados de milhares de trabalhadores tornam possível calcular preços, trajetos e padrões de consumo, por que esses dados não pertencem aos próprios trabalhadores e à sociedade? Se todos dependem de uma infraestrutura digital para trabalhar, por que ela deve ser organizada para maximizar a valorização de uma empresa privada, e não para garantir alimentação, mobilidade e renda?
A produção é coletiva, a apropriação continua privada
Marx identificou no capitalismo uma contradição que permanece atual: a produção se torna cada vez mais social, enquanto os meios e os resultados dessa produção são apropriados privadamente. Uma fábrica reúne centenas de trabalhadores; uma cadeia global reúne milhares de empresas e territórios; uma plataforma concentra milhões de interações; mas a decisão final fica com quem possui o capital. O produto social aparece como propriedade de uma empresa, e a cooperação dos trabalhadores é convertida em fonte de lucro. O comunismo parte dessa contradição, não de um desejo moral de igualdade.
O entregador não cria sozinho o serviço que realiza. Seu trabalho só funciona porque existe uma cooperação ampliada, mas a empresa transforma essa cooperação em propriedade exclusiva. O aplicativo individualiza a responsabilidade e socializa o risco. Se chove, se a moto quebra, se ocorre um acidente ou se a demanda cai, o trabalhador arca com a perda. Quando a operação cresce, entretanto, a plataforma reivindica para si a renda gerada pela rede. A promessa de empreendedorismo consiste em transferir para o indivíduo os custos da atividade e preservar para a empresa o controle sobre o fluxo econômico.
Essa é uma forma contemporânea de alienação. O trabalhador não reconhece sua própria força social no produto de seu trabalho porque ela se apresenta como poder externo do aplicativo. Quanto mais dados, avaliações e trajetos a multidão produz, mais inteligente e indispensável parece a plataforma. O resultado coletivo retorna aos trabalhadores como uma autoridade estranha, capaz de ordenar seus movimentos e definir seu valor. A tecnologia não elimina a exploração; em muitos casos, torna-a menos visível e mais contínua.
O comunismo não propõe simplesmente colocar um aplicativo público no lugar de um aplicativo privado. Uma estatal pode reproduzir hierarquias, metas abusivas e decisões tomadas sem participação dos trabalhadores. A mudança decisiva envolve o controle social da infraestrutura e a democratização das decisões. Quem trabalha precisa participar da definição das tarifas, das jornadas, dos critérios de distribuição e do uso dos dados. Consumidores, entregadores e estabelecimentos também precisam disputar a finalidade da rede. O problema não é a existência de coordenação, mas quem coordena e em benefício de quem.
A caricatura anticomunista protege relações muito concretas
No Brasil, a palavra comunismo costuma ser mobilizada como ameaça antes mesmo de qualquer proposta ser examinada. Um professor que reivindica salário, um movimento por moradia, uma organização de trabalhadores sem terra ou uma política de taxação dos mais ricos podem ser acusados de comunismo porque a acusação não descreve o programa do adversário: ela procura deslegitimar a própria ideia de conflito social. A extrema direita utiliza esse expediente com especial intensidade. Durante o bolsonarismo, a palavra serviu para converter a defesa de direitos em sinal de traição nacional e para proteger interesses econômicos apresentados como liberdade.
A operação ideológica é simples e eficaz. Primeiro, identifica-se comunismo com qualquer forma de intervenção coletiva. Depois, associa-se essa intervenção a escassez, violência e autoritarismo. Por fim, o capitalismo existente passa a parecer natural, apesar de produzir fome, desemprego, endividamento e abandono. A liberdade que se defende é, na prática, a liberdade do proprietário de decidir sobre o trabalho alheio. O trabalhador aparece como livre porque não pertence legalmente ao patrão, mas precisa aceitar o emprego disponível para comprar os meios de sua sobrevivência.
A crítica comunista não deve apagar os autoritarismos cometidos em nome do socialismo nem tratar toda experiência estatal como emancipatória. O século XX mostrou que a estatização sem poder efetivo dos trabalhadores pode consolidar uma nova separação entre dirigentes e produtores. Mas reconhecer essa contradição não autoriza a conclusão liberal de que o capitalismo seria o horizonte definitivo da liberdade. O capitalismo também concentra poder, apenas o faz sob a forma menos reconhecida da propriedade, do contrato e do mercado. O Estado que se declara neutro protege essa concentração por meio do direito, da polícia, da tributação e das políticas econômicas.
Comunismo não é pobreza distribuída
Outra caricatura apresenta o comunismo como uma defesa da escassez: todos receberiam as mesmas coisas, independentemente de suas necessidades ou contribuições. Essa imagem mistura experiências históricas distintas e ignora o núcleo do problema. A igualdade comunista não significa transformar pessoas concretamente diferentes em unidades idênticas. Significa retirar do proprietário privado o poder de converter necessidades sociais em oportunidade de lucro. Uma sociedade comunista não aboliria a diferença entre uma criança, uma pessoa idosa, um trabalhador saudável e alguém que necessita de cuidados; ao contrário, precisaria organizar a produção considerando essas diferenças.
Marx não tratava a emancipação como distribuição caritativa de bens. Sua crítica atingia a forma social que transforma a força de trabalho em mercadoria e faz o acesso à vida depender da renda. Quando moradia, saúde, transporte e alimentação são submetidos à solvência individual, a liberdade formal convive com a dependência material. O indivíduo pode escolher entre empresas, mas não pode escolher deixar de comer. Pode recusar uma entrega, mas não pode recusar indefinidamente o trabalho sem perder a renda. A liberdade do mercado começa depois que a necessidade já encurralou o trabalhador.
Por isso, a discussão comunista envolve a desmercantilização de condições fundamentais da existência. Não se trata de prometer abundância mágica nem de negar os limites materiais da produção. Trata-se de decidir coletivamente quais recursos devem ser garantidos como direitos e quais atividades precisam deixar de obedecer à rentabilidade. Um sistema de transporte pode ser planejado para mobilizar pessoas, e não para extrair tarifas máximas. Uma rede de alimentação pode priorizar a segurança alimentar, e não a expansão de uma marca. Uma plataforma de trabalho pode servir à cooperação, e não à vigilância permanente.
O trabalho cooperativo já anuncia outra possibilidade
As experiências de cooperativismo não são automaticamente comunistas. Uma cooperativa inserida em um mercado dominado por grandes empresas pode reproduzir jornadas extensas, precarização e competição entre seus próprios membros. Ela pode ser obrigada a agir como uma empresa convencional para sobreviver. Ainda assim, revela algo que a ideologia do empreendedorismo tenta ocultar: os trabalhadores são capazes de administrar atividades complexas quando deixam de ser tratados como simples executores de ordens.
Imagine uma rede de entregas organizada pelos próprios entregadores, com regras definidas em assembleias, remuneração transparente, proteção contra acidentes, limites de jornada e controle coletivo dos dados. O exemplo não resolveria, sozinho, o problema do trabalho sob o capitalismo. A rede ainda precisaria de políticas públicas, financiamento, infraestrutura e articulação com restaurantes e consumidores. Mas sua lógica seria distinta da plataforma que transforma cada trabalhador em concorrente e cada avaliação em instrumento disciplinar. A cooperação deixaria de ser apropriada por uma empresa para se tornar critério de organização da atividade.
O ponto não é romantizar a autogestão nem afirmar que basta criar uma cooperativa para superar o capital. O mercado pressiona cooperativas a reduzir custos; bancos podem negar crédito; grandes plataformas podem praticar preços predatórios; o Estado pode regulamentar a atividade em favor das empresas dominantes. A emancipação exige uma transformação mais ampla das relações de propriedade e do poder político. Mas experiências cooperativas tornam visível a diferença entre uma atividade coordenada para remunerar investidores e uma atividade coordenada para atender aqueles que a realizam e dela necessitam.
Essa diferença também aparece nas lutas concretas dos entregadores. O breque dos apps não é apenas uma reivindicação salarial isolada. Quando trabalhadores interrompem a circulação que sustenta a plataforma, mostram que o poder não está somente no código ou no capital investido. Ele também está na cooperação humana que faz o serviço existir. A empresa pode controlar a interface, mas não consegue entregar comida sem trabalhadores, restaurantes, ruas e consumidores. A paralisação revela a dependência do capital em relação ao trabalho que ele tenta tornar invisível.
A tecnologia pode ampliar a dominação ou o tempo livre
O capitalismo apresenta a inovação como destino inevitável. Se um algoritmo permite acelerar entregas, a pergunta empresarial é como elevar a quantidade de pedidos por trabalhador. Se uma inteligência artificial automatiza uma tarefa, a pergunta costuma ser quantos empregos podem ser eliminados ou como reduzir salários. A tecnologia é tratada como força autônoma, embora seja desenvolvida dentro de relações sociais determinadas. Ela não decide sozinha se servirá à redução da jornada ou à intensificação do trabalho. Essa decisão pertence à estrutura de propriedade e às lutas que a enfrentam.
Em uma sociedade orientada pelo lucro, o aumento da produtividade pode produzir desemprego para alguns e pressão sobre todos. O tempo que poderia ser liberado para a vida aparece como ameaça ao salário. A riqueza técnica cresce, mas a segurança material não acompanha esse crescimento. O trabalhador é informado de que precisa aprender continuamente, aceitar novas metas e adaptar-se a cada mudança de sistema, enquanto os ganhos da inovação permanecem concentrados. A tecnologia, nesse contexto, funciona como mecanismo de controle porque subordina o conhecimento coletivo à valorização do capital.
O comunismo reivindica outra finalidade para a técnica: reduzir o trabalho necessário, distribuir o tempo livre e ampliar a capacidade de decisão social. Isso não significa eliminar toda atividade produtiva nem imaginar um mundo sem esforço. Significa impedir que a necessidade de lucro determine a duração e a forma da vida. Se uma plataforma consegue coordenar milhares de pedidos em tempo real, essa capacidade poderia ser usada para garantir jornadas menores, remuneração estável e serviços acessíveis. O obstáculo não é técnico; é político e econômico.
O comunismo como conflito contra a naturalização do capital
A pergunta sobre o que é comunismo só ganha força quando deixa de procurar uma definição escolar descolada da experiência. Comunismo é o nome de uma ruptura com a naturalização da propriedade capitalista, da exploração e da separação entre quem decide e quem executa. Ele não é uma promessa de igualdade administrada por cima nem um programa de obediência coletiva. É a possibilidade histórica de que a produção social seja governada por aqueles que a realizam, em função das necessidades que a sociedade reconhece.
No cotidiano brasileiro, essa possibilidade aparece justamente onde o discurso dominante enxerga fracasso individual. O entregador que não alcança a meta, a professora que precisa acumular vínculos, a trabalhadora de call center submetida a scripts e avaliações, o jovem que alterna bicos e cursos sem estabilidade: todos são responsabilizados por uma precariedade produzida por relações econômicas. A ideologia da meritocracia converte uma estrutura em defeito pessoal. A crítica comunista devolve o problema ao terreno coletivo: quem possui os meios, quem controla o tempo, quem fica com o resultado e quem paga o custo?
A resposta não está em encontrar um governante virtuoso, uma empresa mais humana ou um aplicativo com interface mais amigável. Está na organização política dos que vivem do trabalho e na disputa por formas de propriedade, planejamento e participação capazes de superar a dependência do lucro. A palavra comunismo assusta porque aponta para essa inversão: não mais a sociedade a serviço da acumulação, mas a riqueza social submetida à vida comum. O que a propaganda chama de ameaça é, para quem trabalha, a possibilidade de deixar de produzir um mundo que se volta contra seus próprios produtores.
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