O significado do comunismo aparece com mais nitidez quando se observa a vida de um entregador de aplicativo. Ele trabalha numa cidade que depende de sua circulação, usa uma plataforma construída sobre milhares de entregas e realiza uma atividade socialmente necessária. Ainda assim, não controla o preço da corrida, o funcionamento do aplicativo, os critérios de distribuição dos pedidos ou as condições que determinam sua renda. A cooperação existe, mas seus resultados são apropriados por uma empresa. A contradição é concreta: quanto mais coletiva é a produção, mais privada se torna a decisão sobre seus frutos.

É nesse ponto que o comunismo deixa de ser um verbete escolar e volta a ser uma questão política. Não se trata de perguntar se alguém gosta ou não de um símbolo histórico, nem de repetir a caricatura segundo a qual comunismo seria simplesmente pobreza compartilhada, ausência de liberdade ou poder estatal absoluto. O significado do comunismo está na luta pela transformação das relações sociais que fazem uma maioria produzir sem decidir e uma minoria decidir sem produzir. Seu problema central é a propriedade dos meios de produção e o poder que dela deriva.

O significado do comunismo contra a caricatura liberal

A caricatura liberal apresenta o capitalismo como estado natural das coisas. O indivíduo possuiria sua mercadoria, venderia livremente sua força de trabalho e receberia, em troca, o valor correspondente ao que produziu. Essa narrativa omite que a liberdade do trabalhador é marcada por uma necessidade material: quem não possui terra, máquinas, plataformas, crédito ou meios de subsistência precisa vender sua capacidade de trabalhar para sobreviver. A escolha existe, mas dentro de uma estrutura em que a recusa ao emprego ou à corrida pode significar fome, dívida e despejo.

O comunismo começa por tornar visível essa relação escondida. Em Marx, a exploração capitalista não depende apenas de um patrão mal-intencionado. Ela surge da compra da força de trabalho por um valor inferior ao valor criado durante a jornada. O salário paga a reprodução da força de trabalho; o trabalhador, entretanto, produz mais valor do que aquele que recebe. Essa diferença, a mais-valia, não é um acidente moral do sistema. É a forma normal pela qual o capital se amplia.

Por isso, o comunismo não significa distribuir esmolas depois que a riqueza foi concentrada. Significa disputar a própria organização da produção. Quem decide o que será produzido? Para qual finalidade? Sob quais ritmos? Com qual tecnologia? Quem controla o resultado? Enquanto essas respostas forem subordinadas à valorização do capital, a sociedade continuará produzindo abundância ao lado de privação, inovação ao lado de exaustão e conexão digital ao lado de isolamento.

O que o capitalismo faz com a cooperação

Nenhuma mercadoria contemporânea é produzida por um indivíduo isolado. Um pedido entregue por aplicativo depende de restaurantes, cozinheiros, trabalhadores da limpeza, sistemas de pagamento, mapas, servidores, centrais de atendimento, produção de celulares, extração mineral e infraestrutura urbana. A imagem do empreendedor solitário é uma ficção ideológica que encobre uma cadeia extensa de trabalho social.

O entregador aparece como autônomo porque a empresa transfere para ele os custos da atividade. Bicicleta, motocicleta, combustível, manutenção, seguro, acidente, tempo de espera e desgaste físico passam a ser tratados como responsabilidade individual. A plataforma, por sua vez, controla o acesso à demanda e administra a distribuição das corridas. O trabalhador não tem chefe visível, mas recebe comandos por notificações, avaliações e bloqueios. O algoritmo converte a subordinação em aparência de liberdade.

Essa forma de gestão não elimina a classe trabalhadora; reorganiza sua experiência. O trabalhador passa a se imaginar como microempresa, embora não controle o mercado em que atua. A linguagem do empreendedorismo transforma risco empresarial em culpa pessoal. Se a renda cai, a explicação é falta de esforço. Se o corpo adoece, falta planejamento. Se o aplicativo bloqueia a conta, o problema parece ser uma falha individual de desempenho. A estrutura desaparece, e o sujeito é responsabilizado por uma relação que não controla.

O comunismo, nesse cenário, significa afirmar que a produção é social antes de ser empresarial. A plataforma só funciona porque milhares de pessoas cooperam, mas a cooperação é organizada como propriedade privada e submetida ao lucro. A pergunta comunista é simples e radical: por que uma infraestrutura construída pelo trabalho coletivo deve obedecer à decisão de investidores e acionistas, e não às necessidades de quem a faz funcionar?

O comunismo e a experiência do entregador brasileiro

As mobilizações conhecidas como breque dos apps revelaram uma dimensão importante dessa disputa. Quando entregadores interrompem as corridas, discutem taxas, bloqueios, jornadas e segurança, mostram que a suposta autonomia individual depende de uma relação coletiva. Um trabalhador isolado pode aceitar qualquer condição para obter uma renda naquele dia. Trabalhadores organizados podem interromper o fluxo que sustenta a plataforma e tornar visível sua dependência do trabalho humano.

O breque dos apps não é automaticamente comunista. Uma reivindicação por melhores taxas pode caber numa reforma do capitalismo, assim como um sindicato pode negociar sem questionar a propriedade da empresa. Mas a mobilização contém uma verdade que o discurso empresarial tenta apagar: o aplicativo não entrega nada. Quem entrega é o trabalhador. O sistema de informação coordena a atividade, mas não substitui a força física, o tempo, a atenção e o risco assumido por quem está na rua.

Essa diferença permite compreender a alienação no trabalho. O entregador produz uma atividade cuja organização lhe é estranha. Seu percurso é calculado por uma lógica que não domina; sua avaliação é convertida em dado; seu rendimento depende de critérios que podem mudar sem negociação. O próprio instrumento de trabalho, o celular, funciona simultaneamente como ferramenta e mecanismo de vigilância. A tecnologia aparece como poder externo, embora dependa da atividade daquele que vigia.

Uma perspectiva comunista não romantiza a solidariedade espontânea entre trabalhadores nem transforma qualquer ajuda mútua em sociedade emancipada. Ela procura organizar essa cooperação de modo consciente. Uma cooperativa de entregadores, por exemplo, pode avançar ao colocar decisões sobre preços, jornadas e distribuição sob controle dos próprios trabalhadores. Mas, se continuar submetida a bancos, grandes plataformas, publicidade e necessidade de competir num mercado desigual, sua autonomia será limitada. A propriedade coletiva precisa alcançar também crédito, infraestrutura, dados e condições de reprodução da vida.

O comunismo não é a simples estatização de tudo

Uma das confusões mais úteis ao anticomunismo é identificar comunismo com qualquer Estado que tenha usado esse nome. Essa identificação permite evitar a análise histórica e transformar experiências distintas numa única imagem. O problema não é apenas semântico. Quando o Estado administra empresas sem que trabalhadores e população decidam efetivamente sobre a produção, a propriedade pode mudar de forma sem que a alienação desapareça.

O Estado pode ser proprietário e, ainda assim, manter hierarquias, burocracias e metas de produção separadas das necessidades concretas. Pode planejar a economia de modo autoritário e conservar o trabalhador como objeto de decisões tomadas por uma camada dirigente. A estatização, isoladamente, não realiza o comunismo. Ela pode ser uma medida de transição, uma defesa contra o poder privado ou uma forma de reorganização produtiva, mas não equivale à emancipação social.

O comunismo exige que a riqueza produzida coletivamente seja controlada coletivamente. Isso não significa imaginar assembleias permanentes decidindo cada detalhe da vida social, nem negar a necessidade de coordenação, técnica e planejamento. Significa subordinar a coordenação às finalidades sociais e aos mecanismos democráticos de decisão, em vez de subordinar a sociedade à rentabilidade de proprietários privados ou à autoridade incontestável de uma burocracia.

A diferença pode ser observada no debate sobre serviços públicos. Um hospital público não é comunista apenas por não pertencer a uma empresa privada. Uma escola estatal não é comunista apenas por ser financiada pelo Estado. Esses espaços podem reproduzir relações autoritárias e condições precárias de trabalho. Mas a ideia de que saúde, educação, transporte e moradia não devem depender da capacidade individual de pagamento aponta para uma direção antagônica à mercantilização. Ela reconhece necessidades comuns onde o mercado enxerga consumidores separados.

O Brasil mostra o conflito entre mercadoria e necessidade

O Brasil oferece exemplos cotidianos dessa contradição. Em bairros periféricos, moradores organizam cozinhas solidárias, associações, mutirões e redes de apoio quando a renda não basta e o Estado abandona a população. Nas enchentes, a solidariedade de vizinhos e trabalhadores frequentemente garante comida, abrigo, transporte e resgate antes que a resposta institucional alcance todos os atingidos. Essas práticas não são comunismo pronto. São formas de cooperação social que revelam a capacidade coletiva de produzir proteção fora da lógica imediata do lucro.

O capitalismo, porém, tende a converter essa capacidade em recurso gratuito. O cuidado realizado por mulheres, famílias, vizinhos e comunidades sustenta trabalhadores sem aparecer como riqueza. O voluntariado é celebrado justamente quando substitui direitos. A solidariedade é convocada para compensar a ausência de políticas públicas, enquanto empresas continuam vendendo segurança, alimentação, transporte e assistência a quem pode pagar. A sociedade produz meios de vida coletivos, mas o capital tenta capturá-los e transformá-los em serviços rentáveis.

É nesse sentido que o comunismo não deve ser confundido com uma distribuição administrativa da pobreza. Sua questão é por que a sociedade brasileira aceita que alimentos, casas vazias, terras, medicamentos e tecnologias existam ao lado de pessoas privadas do acesso a eles. A escassez capitalista não é simplesmente falta física. Muitas vezes, é o resultado de uma abundância organizada para atender à solvência, não à necessidade. Há comida onde não há renda para comprá-la, moradia onde há gente sem casa e conhecimento onde o acesso é restringido por preço e propriedade intelectual.

O discurso conservador transforma essa contradição em julgamento moral. O pobre aparece como irresponsável; o desempregado, como incompetente; o morador de periferia, como ameaça; o usuário de serviço público, como dependente. A ideologia da meritocracia cumpre a função de esconder a apropriação privada do trabalho social. Se alguns acumulam e outros não conseguem sobreviver, a explicação oferecida é o mérito desigual dos indivíduos, não a estrutura desigual da propriedade.

O fetiche da liberdade de consumo

O capitalismo costuma se apresentar como liberdade porque oferece escolhas de consumo. O trabalhador pode escolher entre aplicativos, marcas, planos, cursos e formas de crédito, desde que tenha renda para acessá-los. Essa liberdade, entretanto, convive com a falta de poder sobre as condições que produzem todas essas opções. Escolher entre plataformas não é controlar a plataforma. Escolher um emprego precário não é decidir sobre a organização do trabalho.

Guy Debord ajuda a compreender por que essa aparência se torna tão poderosa. Na sociedade do espetáculo, as relações sociais são mediadas por imagens e representações que se autonomizam diante das pessoas. O trabalhador não vê a totalidade da cooperação que sustenta uma mercadoria; vê a marca, a interface, a promessa de conveniência. O aplicativo aparece como solução tecnológica, e o entregador desaparece como sujeito produtor. A imagem de modernidade encobre uma relação antiga de exploração.

O consumidor também é capturado nessa dinâmica. Ele pode sentir que está apenas usando uma ferramenta prática, sem participar da estrutura de trabalho que torna a entrega possível. O problema não é atribuir culpa individual a cada usuário, mas compreender a forma social que transforma necessidades legítimas em operações lucrativas. O comunismo não propõe eliminar a cooperação tecnológica; propõe retirar a tecnologia do comando do capital e colocá-la a serviço de finalidades decididas socialmente.

Entre o medo do comunismo e a defesa da propriedade

O anticomunismo brasileiro raramente debate propriedade, exploração ou poder econômico de maneira direta. Prefere associar o comunismo a uma ameaça moral abstrata: destruição da família, perseguição religiosa, confisco da casa e caos social. Essa propaganda funciona porque desloca a discussão da estrutura para o medo. Enquanto trabalhadores são convencidos a temer uma transformação que não conhecem, a propriedade concentrada aparece como proteção natural da liberdade.

O bolsonarismo atualizou esse mecanismo. Ao apresentar qualquer política de proteção social, regulação trabalhista ou defesa de direitos como sinal de comunismo, transformou a palavra em insulto automático. A operação é ideológica porque usa o termo para impedir que se discutam questões reais: quem controla as plataformas, por que o salário perde poder, por que a moradia é tratada como ativo financeiro, por que trabalhadores adoecem tentando cumprir metas e por que o Estado protege determinados patrimônios enquanto limita direitos.

O medo também se alimenta da confusão entre igualdade e uniformidade. O comunismo não precisa significar que todos tenham os mesmos gostos, capacidades ou formas de vida. A igualdade comunista se refere à superação de relações em que alguns têm poder estrutural sobre os meios de vida de outros. Uma sociedade sem proprietários privados de plataformas não seria uma sociedade sem diferenças individuais. Seria uma sociedade em que essas diferenças não permitiriam comprar o tempo, a moradia e a sobrevivência alheia.

O Estado, o direito e os limites da igualdade formal

A crítica comunista também precisa enfrentar o papel do Estado. O Estado capitalista não é apenas um instrumento que qualquer classe pode usar sem transformação. Como analisa Alysson Mascaro, suas formas jurídicas e institucionais estão ligadas à reprodução das relações capitalistas. A igualdade perante a lei convive com desigualdades materiais profundas porque trabalhadores e proprietários aparecem formalmente como sujeitos livres que celebram contratos, embora tenham posições econômicas radicalmente distintas.

O entregador pode aceitar os termos de uso de uma plataforma como se negociasse em condições equivalentes às da empresa. No plano jurídico, há consentimento. No plano material, há dependência. A forma contratual individualiza uma relação cuja força é coletiva e empresarial. Quando o direito reconhece o trabalhador apenas como parceiro comercial, ajuda a naturalizar a transferência de custos e riscos para quem está na posição mais vulnerável.

Isso não torna os direitos trabalhistas irrelevantes. Ao contrário: salário mínimo, descanso, previdência, indenização e organização sindical são conquistas decisivas contra o poder do capital. Mas a defesa desses direitos não deve ser confundida com a abolição da exploração. O direito pode limitar a jornada sem eliminar a subordinação; pode regular o contrato sem eliminar a propriedade privada dos meios de produção. A política comunista atua nessas lutas sem abandonar a transformação mais profunda.

Comunismo como controle social do tempo

Uma maneira concreta de compreender o comunismo é pensar no tempo. No capitalismo, o tempo de vida é dividido entre o tempo vendido ao trabalho e o tempo necessário para recuperar a capacidade de trabalhar. O entregador espera pedidos sem receber integralmente por esse período; o professor prepara aulas fora da jornada; o trabalhador de call center permanece submetido a metas, scripts e avaliações que invadem sua atenção. A tecnologia promete economizar tempo, mas frequentemente intensifica seu controle.

Comunismo significaria ampliar o controle social sobre esse tempo. Reduzir jornadas sem reduzir a renda, repartir o trabalho necessário, garantir descanso, cuidar de crianças, idosos e doentes como responsabilidade coletiva e orientar a produção pela suficiência, não pela acumulação ilimitada. Não é uma promessa de vida sem trabalho. É a defesa de que o trabalho necessário não deve ocupar a existência inteira nem ser organizado para enriquecer quem não participa diretamente dele.

Essa questão aparece de modo evidente na jornada dos entregadores. A espera, a circulação sem pedido, a busca por horários de maior demanda e a permanência conectada não são momentos livres no sentido real. O aplicativo pode não registrar cada minuto como jornada formal, mas o trabalhador organiza sua vida em torno da possibilidade de ser chamado. A disponibilidade é convertida em disciplina. O comunismo exige que a sociedade reconheça esse tempo, reduza o trabalho necessário por meio da técnica e distribua seus benefícios, em vez de usar a inovação para exigir disponibilidade permanente.

Não basta trocar o proprietário da plataforma

Uma transformação comunista não se resolve apenas com a criação de uma plataforma pública que repita a mesma lógica de avaliação, vigilância e competição. Se os trabalhadores continuarem pressionados por metas, se os dados permanecerem inacessíveis, se o preço for definido sem participação e se o sucesso depender da expansão permanente, a propriedade pública poderá conservar uma forma capitalista de gestão.

A questão é combinar propriedade coletiva, democracia econômica e redução da dependência mercantil. Os trabalhadores precisam participar da definição dos critérios tecnológicos, das prioridades produtivas e da distribuição dos resultados. Os dados produzidos na atividade não podem ser tratados como propriedade exclusiva de uma empresa. A inovação deve diminuir o tempo de trabalho e os riscos, não aumentar a cobrança por produtividade. A plataforma precisa ser infraestrutura social, não um proprietário invisível da circulação urbana.

Esse horizonte não nasce acabado. Ele é construído por greves, sindicatos, cooperativas, serviços públicos, movimentos de moradia, lutas por transporte e experiências de autogestão. Cada uma dessas formas tem limites e pode ser incorporada pelo capital. Ainda assim, elas produzem aprendizado político quando deixam de ser apenas respostas emergenciais e passam a disputar quem decide sobre a riqueza, a técnica e o tempo.

O significado do comunismo, então, não está numa fórmula para administrar uma sociedade perfeita. Está no movimento que enfrenta a separação entre produtores e poder social. O entregador que interrompe a plataforma, a trabalhadora que exige reconhecimento, a comunidade que defende um serviço público e o movimento que transforma moradia em direito revelam a mesma questão: a vida coletiva não pode continuar subordinada à propriedade de quem a explora.

O capitalismo depende da cooperação dos trabalhadores e, ao mesmo tempo, precisa apresentá-los como indivíduos isolados. O comunismo começa quando essa mentira deixa de organizar a percepção do mundo. Não é a promessa de que o Estado fará tudo, nem a fantasia de que a técnica resolverá a desigualdade. É a decisão de fazer com que os meios pelos quais a sociedade produz sua existência sejam controlados por aqueles que produzem e orientados por necessidades comuns. A palavra permanece atual porque a contradição que a originou permanece diante de nós, em cada corrida aceita por necessidade e em cada riqueza criada sem que seus produtores possam decidir sobre ela.