Pejoração é a mudança de sentido pela qual uma palavra ou expressão passa a carregar uma avaliação mais negativa, ofensiva ou depreciativa do que carregava antes. Não se trata simplesmente de usar um termo como xingamento: a pejoração é um processo histórico e social, no qual relações de poder, preconceitos e conflitos de classe transformam significados. Quando uma sociedade passa a associar “subalterno”, “periférico”, “assistido” ou “vagabundo” a uma suposta falha moral, a língua não está apenas descrevendo o mundo; está ajudando a organizá-lo segundo uma hierarquia social.

A palavra não nasce isolada da vida material. Seus sentidos se formam no uso, circulam por instituições, meios de comunicação, escolas, empresas, tribunais, igrejas e plataformas digitais. Por isso, compreender a pejoração exige ir além da definição de dicionário. É preciso perguntar quem tem o poder de nomear, quais grupos são nomeados de modo depreciativo, que interesses essa classificação protege e quais comportamentos ela torna aceitáveis. A linguagem participa da produção do consentimento: antes de explorar alguém, muitas vezes é preciso convencer os demais de que essa pessoa merece menos.

Pejoração não é apenas uma palavra “feia”

Em linguística, a pejoração é uma mudança semântica que atribui a uma palavra um valor mais negativo. O movimento inverso é chamado de valorização ou melhoria semântica: uma expressão pode perder parte de sua carga negativa ou adquirir prestígio. Esses processos não acontecem por decisão individual de um falante. Eles se consolidam pela repetição social, pela autoridade de determinados grupos e pela disputa em torno do significado.

Isso explica por que uma palavra pode ser ofensiva em determinado contexto e neutra em outro, ou por que um termo antes descritivo passa a funcionar como insulto. “Ignorante”, por exemplo, pode significar literalmente alguém que não sabe algo, mas, em muitos usos cotidianos, tornou-se uma acusação moral de incapacidade, inferioridade ou indignidade. “Pobre” designa uma condição econômica, porém frequentemente aparece como sinônimo de mau gosto, perigo, desordem ou fracasso pessoal. A pejoração não está apenas na forma sonora da palavra; está na rede de associações sociais que ela acumula.

O problema é agravado quando se finge que essas associações são naturais. A sociedade capitalista apresenta desigualdades produzidas historicamente como se fossem características individuais. O desempregado vira “incompetente”; o trabalhador informal vira “desorganizado”; o morador da periferia vira “suspeito”; a pessoa que recebe uma política social vira “encostada”. O vocabulário da acusação transforma uma posição social em defeito de caráter. Assim, a pejoração funciona como uma pequena máquina ideológica: desloca a causa de um problema coletivo para a suposta culpa de quem sofre seus efeitos.

Como a pejoração transforma desigualdade em culpa

O capitalismo precisa de trabalhadores disponíveis, disciplinados e dispostos a aceitar condições cada vez mais instáveis. Mas não basta organizar materialmente essa disponibilidade. É necessário também produzir uma interpretação moral da precariedade. O trabalhador que vende sua força de trabalho por hora, tarefa ou entrega precisa ser apresentado como alguém que “escolheu a liberdade”, não como alguém submetido a um mercado que reduziu suas alternativas.

É nesse ponto que termos como “vagabundo” e “encostado” cumprem uma função política. Eles não descrevem simplesmente a ausência de trabalho. Condenam a pessoa por não ocupar a posição esperada na engrenagem produtiva. O sujeito que não encontra emprego é acusado de não querer trabalhar; aquele que rejeita uma jornada abusiva é chamado de preguiçoso; quem precisa de benefício social é tratado como dependente. A pejoração cria uma fronteira moral entre os “merecedores” e os “indignos”.

Essa fronteira aparece também na oposição entre “trabalhador de verdade” e beneficiário de direitos. O primeiro seria disciplinado, produtivo e autossuficiente; o segundo, suspeito de explorar a sociedade. O discurso parece defender o valor do trabalho, mas frequentemente serve para atacar o próprio trabalhador. Ao elogiar a disposição para suportar qualquer condição, transforma a exploração em virtude. Ao ridicularizar quem reivindica descanso, salário ou proteção, protege o poder de quem compra a força de trabalho.

Marx mostrou que o trabalhador, no capitalismo, não controla plenamente o produto, o processo nem a finalidade de sua atividade. A alienação não é apenas uma sensação subjetiva; é uma relação social na qual a própria capacidade de trabalhar aparece como algo vendido e separado do indivíduo. A linguagem moralizante oculta essa relação. Em vez de perguntar por que alguém precisa aceitar uma remuneração insuficiente, pergunta por que a pessoa não se esforçou mais. Em vez de discutir a concentração da riqueza, discute-se o caráter do pobre.

Da descrição social ao insulto: o caso de “periférico”

“Periférico” pode ser uma categoria geográfica, social e política. Ele pode indicar quem vive em áreas afastadas dos centros de emprego e serviços, ou quem ocupa uma posição marginalizada na distribuição de renda, infraestrutura e poder. Entretanto, a repetição de associações entre periferia e violência, desordem ou incapacidade pode produzir uma pejoração do termo. O endereço deixa de indicar localização e passa a funcionar como suspeita.

O morador da periferia conhece essa transformação quando entra em um condomínio, procura emprego ou é abordado pela polícia. Não é preciso que alguém pronuncie um insulto explícito. A pergunta sobre onde a pessoa mora, a exigência de uma entrada separada ou a desconfiança diante de sua roupa e de seu modo de falar podem carregar a mesma classificação depreciativa. O espaço urbano vira marca moral. A distância entre centro e periferia é reproduzida como distância entre pessoas consideradas respeitáveis e pessoas consideradas perigosas.

O mesmo mecanismo aparece na palavra “assistido”. Em sentido administrativo, ela pode identificar alguém atendido por uma política pública. No uso pejorativo, porém, transforma um direito em humilhação. O beneficiário de um programa social deixa de ser reconhecido como cidadão que acessa uma política de redistribuição e passa a ser retratado como alguém incapaz de sustentar a si mesmo. O termo, nesse contexto, ajuda a esconder que políticas sociais não são favores pessoais, mas respostas institucionais a desigualdades produzidas pela própria sociedade.

A pejoração, nesse caso, prepara o terreno para a retirada de direitos. Se o beneficiário é visto como oportunista, o corte do benefício parece combate ao privilégio. Se o desempregado é visto como preguiçoso, a falta de proteção parece consequência merecida. Se o trabalhador informal é chamado de empreendedor, sua vulnerabilidade pode ser apresentada como autonomia. A disputa sobre as palavras antecede e acompanha a disputa sobre orçamento, legislação e poder.

“Empreendedor” e a maquiagem da precarização

Nem toda mudança negativa de sentido é uma pejoração no sentido estrito. Há também palavras que adquirem aparência positiva e passam a ocultar uma condição negativa. O discurso do empreendedorismo é um exemplo importante porque troca o nome da relação sem alterar sua estrutura. O entregador que trabalha longas horas, arca com bicicleta, motocicleta, combustível, manutenção e riscos de acidente é chamado de empreendedor de si mesmo. A palavra promete autonomia, mas pode encobrir dependência econômica e ausência de direitos.

O aplicativo determina regras, calcula remunerações, distribui pedidos, registra avaliações e pode bloquear o trabalhador. Ainda assim, a linguagem empresarial o apresenta como parceiro. A pejoração aparece por contraste: se esse parceiro reclama, é retratado como incapaz de administrar sua liberdade; se reivindica direitos, é acusado de querer transformar uma atividade flexível em emprego tradicional. O vocabulário positivo dirigido à empresa e o vocabulário depreciativo dirigido ao trabalhador formam uma única operação ideológica.

O call center oferece outro exemplo. A pessoa submetida a metas, monitoramento constante, scripts e avaliação por produtividade pode ser descrita como “colaboradora”. Quando não alcança a meta, entretanto, surge o vocabulário da falha individual: desmotivada, improdutiva, sem perfil. A empresa preserva a imagem de organização racional, enquanto a pressão é devolvida ao indivíduo como deficiência pessoal. O trabalhador não é apenas explorado; é levado a interpretar a exploração como prova de sua própria inadequação.

Guy Debord analisou a sociedade do espetáculo como uma forma de relação social mediada por imagens. No ambiente corporativo, a imagem de liberdade, inovação e parceria pode substituir a realidade da subordinação. Não se trata de simples propaganda externa. O trabalhador é convidado a incorporar essa imagem e a falar de si com o vocabulário da empresa. A linguagem gerencial torna a exploração mais difícil de reconhecer porque oferece nomes prestigiosos para situações que continuam desiguais.

Pejoração, preconceito e disputa por reconhecimento

A pejoração não atinge todos da mesma maneira. Termos depreciativos se apoiam em estruturas anteriores de classe, racismo, machismo, capacitismo e preconceito regional. A palavra “doméstica”, por exemplo, pode designar uma ocupação, mas a história social brasileira carregou essa ocupação com associações de servidão, disponibilidade permanente e menor valor. Do mesmo modo, sotaques nordestinos, corpos gordos, pessoas negras, pessoas trans e trabalhadores manuais são frequentemente submetidos a classificações que parecem espontâneas, mas reproduzem hierarquias.

O preconceito linguístico é uma das formas mais visíveis desse processo. A norma culta é apresentada como medida neutra de inteligência e competência, enquanto variedades populares são tratadas como erro, desleixo ou incapacidade. A escola e o mercado de trabalho podem exigir domínio de uma variedade linguística específica, mas a exigência frequentemente se converte em julgamento sobre a pessoa inteira. O modo de falar passa a ser usado para definir quem merece ser ouvido, contratado ou respeitado.

Isso não significa que toda crítica gramatical seja automaticamente preconceituosa. Comunicação, ensino e acesso à escrita formal podem ampliar possibilidades concretas. A questão é outra: ensinar uma variedade valorizada socialmente não deveria significar humilhar quem fala de outra maneira. Quando a correção se torna ridicularização, a língua funciona como filtro de classe. O problema não está na existência de diferentes registros, mas na transformação de um registro dominante em prova de superioridade humana.

Grupos atingidos pela pejoração também disputam e ressignificam palavras. Um termo usado para ofender pode ser apropriado politicamente por aqueles que o sofreram, convertendo a marca de inferiorização em identidade coletiva e denúncia. Essa ressignificação não apaga automaticamente a violência do uso original. Seu efeito depende da relação entre os falantes, do contexto e da capacidade do grupo de disputar o controle sobre a própria representação.

Algoritmos não eliminam a pejoração

As plataformas digitais prometem classificar conteúdos por critérios técnicos, como relevância, engajamento ou segurança. Mas os algoritmos aprendem com dados produzidos em uma sociedade desigual e são empregados por empresas que têm interesses econômicos. Se os dados carregam preconceitos, a automação pode reproduzi-los em escala. A pejoração que circula em comentários, buscas, anúncios e sistemas de avaliação não desaparece por ser processada por uma máquina.

Um algoritmo de plataforma pode associar determinadas palavras a risco, baixa qualidade ou comportamento suspeito. Um sistema de recrutamento pode penalizar currículos que contenham marcas linguísticas, endereços ou trajetórias profissionais consideradas inferiores. Uma ferramenta de moderação pode bloquear a denúncia de uma comunidade e deixar passar a agressão contra ela. Em todos esses casos, a técnica não é um observador neutro: ela incorpora escolhas sobre o que deve ser visível, valorizado ou punido.

Martin Heidegger, ao analisar a técnica moderna, mostrou que ela tende a revelar as coisas como recursos disponíveis para cálculo e controle. No capitalismo digital, pessoas e falas também podem ser convertidas em dados classificáveis. A pejoração assume uma forma automatizada quando uma característica socialmente desvalorizada é transformada em marcador de risco ou baixa performance. A discriminação não precisa aparecer como insulto explícito; pode surgir como uma pontuação, uma recomendação que nunca chega ou um bloqueio explicado por uma fórmula incompreensível.

Por isso, combater a pejoração digital exige mais do que pedir educação aos usuários. É necessário examinar quem controla os dados, quais critérios orientam a classificação, como os trabalhadores das plataformas são avaliados e que mecanismos de contestação existem. A defesa de direitos trabalhistas e de transparência tecnológica está ligada à disputa sobre a linguagem. Uma sociedade que aceita chamar precariedade de flexibilidade também tende a aceitar sistemas que transformam desigualdade em pontuação.

O Estado, a mídia e a fabricação do senso comum

A circulação de palavras depreciativas não depende apenas de conversas individuais. O Estado, a imprensa e as instituições jurídicas podem legitimar ou contestar categorias sociais. Quando uma política pública trata pobres como suspeitos, quando uma reportagem transforma uma ocupação inteira em caso de polícia ou quando uma decisão judicial naturaliza a desigualdade contratual, a linguagem institucional confere autoridade a uma classificação.

Alysson Mascaro insiste que o Estado moderno não paira acima das relações capitalistas como árbitro completamente exterior. Ele organiza juridicamente uma sociedade fundada na forma mercadoria, na propriedade privada e na exploração do trabalho. Isso não significa que toda ação estatal seja idêntica ou inútil, mas que a disputa dentro do Estado ocorre sobre uma base social desigual. A linguagem dos direitos pode proteger trabalhadores, mas também a linguagem da ordem pode criminalizar os pobres e justificar sua exclusão.

É por isso que políticas de reconhecimento, combate ao racismo, proteção trabalhista e ampliação de serviços públicos têm importância material e simbólica. Elas não resolvem sozinhas a exploração, mas podem interromper a cadeia que transforma vulnerabilidade em culpa. Quando o Estado reconhece o entregador como trabalhador, o beneficiário como cidadão e a violência racista como problema estrutural, modifica as condições institucionais de circulação de certas palavras.

O governo Lula, com todas as contradições de uma coalizão ampla e de uma economia ainda submetida a pressões do capital, representa uma direção política distinta daquela que o bolsonarismo tentou consolidar. A reconstrução de políticas sociais, a recuperação de direitos e a valorização da negociação institucional não são detalhes administrativos. São formas de disputar o sentido de quem merece proteção e de quem deve ser abandonado. A crítica de esquerda não precisa confundir limites reais com equivalência entre projetos: o bolsonarismo mobilizou a humilhação dos pobres, o autoritarismo e a mentira como método de governo; a defesa de Lula é também a defesa de um campo democrático capaz de ampliar direitos e enfrentar essa herança.

A objeção previsível é que mudar palavras não muda salários, moradia ou jornada. A objeção está parcialmente correta: nenhuma troca vocabular substitui organização sindical, política econômica, serviços públicos e transformação das relações de propriedade. Mas isso não torna a linguagem irrelevante. As palavras ajudam a decidir quais sofrimentos serão reconhecidos, quais demandas parecerão legítimas e quais políticas encontrarão resistência. Sem disputar o vocabulário, a esquerda deixa que a direita nomeie a realidade e imponha seus culpados.

Como identificar a pejoração no cotidiano

Uma maneira concreta de reconhecer a pejoração é observar a trajetória social de uma palavra. Ela passou a ser usada para ridicularizar um grupo? Um sentido antes descritivo tornou-se julgamento moral? A expressão aparece associada repetidamente a pobreza, raça, território, gênero ou ocupação? A classificação é aplicada de modo desigual, dependendo de quem fala e de quem é falado? Essas perguntas revelam que o problema não está apenas no dicionário, mas no uso social.

Também é útil perguntar o que a palavra apaga. Quando alguém chama o entregador de “empreendedor”, desaparecem o algoritmo, o risco, a remuneração variável e a ausência de proteção. Quando o desempregado é chamado de “vagabundo”, desaparecem a estrutura produtiva, a crise e a disputa por vagas. Quando o morador da periferia é chamado de “suspeito”, desaparecem o racismo, a desigualdade urbana e a seletividade policial. A pejoração é frequentemente uma técnica de invisibilização: mostra a culpa individual para esconder a relação social.

Isso não significa policiar toda fala nem imaginar que bastaria encontrar palavras perfeitamente neutras. A linguagem é contraditória, histórica e disputada. Termos podem ser apropriados por movimentos sociais, perder força, ganhar novos sentidos ou reaparecer com intensidade em outro contexto. O essencial é não aceitar como natural o vocabulário que transforma pessoas em inferiores. A crítica deve examinar a situação concreta, o poder dos falantes e os efeitos produzidos.

A disputa semântica ganha força quando se liga à organização coletiva. Trabalhadores podem rejeitar a falsa escolha entre empreendedorismo individual e desemprego; moradores de periferias podem denunciar a criminalização de seus territórios; beneficiários de políticas sociais podem afirmar seus direitos sem aceitar a vergonha imposta pela propaganda meritocrática. A palavra muda de função quando muda a relação de forças entre aqueles que nomeiam e aqueles que são nomeados.

Nomear a exploração para deixar de aceitá-la

A pejoração revela que a dominação não se mantém apenas por coerção econômica ou violência institucional. Ela também depende de classificações cotidianas que distribuem respeito e desprezo. A sociedade capitalista não apenas remunera de maneira desigual; ela ensina a admirar o rico, suspeitar do pobre, ridicularizar o trabalhador que reivindica direitos e chamar de liberdade a necessidade de aceitar qualquer condição.

Romper com esse mecanismo não exige abandonar a precisão da linguagem. Exige recuperá-la. Entregador é trabalhador submetido a uma plataforma; beneficiário é cidadão atendido por uma política pública; desempregado é alguém privado de trabalho, não uma essência preguiçosa; morador da periferia é uma pessoa situada em uma cidade desigual, não um risco ambulante. Nomear corretamente não encerra a luta, mas impede que a exploração se esconda atrás de eufemismos e que a desigualdade seja convertida em insulto.

A língua é um campo de batalha porque a realidade também é. Quem controla os nomes influencia o que parece normal, inevitável ou merecido. A pejoração mostra o momento em que uma palavra deixa de apenas indicar e começa a rebaixar; mostra também como esse rebaixamento pode ser usado para administrar trabalhadores, justificar abandonos e produzir consentimento. A tarefa crítica consiste em devolver às palavras sua história social e às pessoas o direito de não serem reduzidas à classificação que o poder lhes impôs.