O conceito de colonialismo de dados refere-se à apropriação massiva de informações pessoais e sociais por corporações e Estados, estabelecendo um paralelo com as práticas clássicas de exploração colonial. Mas a comparação não deve ser tomada como metáfora vaga. Assim como o colonialismo histórico incorporou territórios, matérias-primas e populações a uma economia comandada de fora, o capitalismo de plataforma incorpora gestos, deslocamentos, conversas, preferências, vínculos e tempos da população a infraestruturas privadas de extração. O que se captura não é apenas “informação pessoal”: é a própria vida social convertida em matéria para cálculo, previsão, publicidade, gestão do trabalho e intervenção política.

Colonialismo de dados, portanto, não é sinônimo de vazamento de cadastro nem se limita à invasão de privacidade individual. Ele descreve uma ordem em que participar da vida cotidiana — usar um mapa para chegar ao emprego, pedir comida, matricular um filho, falar em uma rede social, acessar um serviço público — se torna ocasião para produzir dados apropriados por agentes que não respondem democraticamente por seu uso. A promessa de conveniência encobre uma expropriação: recebemos acesso condicionado a serviços, enquanto empresas e Estados acumulam conhecimento detalhado sobre a sociedade.

Colonialismo de dados não coleta um recurso: produz uma relação de dependência

As potências coloniais não encontraram riquezas prontas e simplesmente as recolheram. Organizaram violência, propriedade, rotas comerciais e regimes de trabalho para arrancar valor de terras e povos subordinados. Algo semelhante ocorre com os dados. Uma corrida de aplicativo não gera apenas uma tarifa: ela registra trajetos, horários, bairros, demanda, avaliações, velocidade, forma de pagamento e disponibilidade de quem trabalha. Essas informações são produzidas pela atividade de motoristas, entregadores, clientes, restaurantes e pela infraestrutura urbana mantida coletivamente. A plataforma, porém, concentra a base de dados, define suas regras de acesso e transforma essa riqueza social em propriedade privada.

É por isso que chamar dados de “novo petróleo” é insuficiente. Petróleo existe no subsolo antes de ser extraído; dados dependem de dispositivos, categorias, softwares e, sobretudo, da prática social que os alimenta. A foto publicada, a entrega concluída e o clique dado não são átomos naturais. São rastros de relações humanas tornados legíveis por sistemas técnicos. A apropriação aparece como gratuita porque o usuário parece apenas usar uma ferramenta. No entanto, oferece atenção, comportamento e trabalho de classificação — ao avaliar uma corrida, etiquetar uma imagem, corrigir uma rota — enquanto a empresa retém os meios técnicos e jurídicos de transformar tudo isso em receita e comando.

Marx mostrou que a acumulação capitalista não nasce apenas da troca aparentemente livre no mercado, mas da separação entre trabalhadores e os meios de produção. Nas plataformas, essa separação ganha uma camada informacional. O entregador pode possuir a moto ou bicicleta, mas não controla o algoritmo que distribui pedidos, fixa incentivos, calcula sua nota e pode bloquear sua conta. Não possui os dados sobre a demanda que ajudou a gerar, nem conhece os critérios que determinam seu ganho. A empresa apresenta essa subordinação como autonomia empreendedora; na prática, administra uma força de trabalho dispersa por meio de opacidade algorítmica.

Da colônia territorial ao comando algorítmico da população

O paralelo com o colonialismo clássico se torna mais preciso quando se observa a assimetria de poder. Plataformas globais operam no Brasil, extraem dados e rendas de milhões de pessoas, mas seus centros decisórios, códigos, servidores estratégicos e estruturas financeiras permanecem fora do alcance de quem produz o valor. Isso não significa que toda empresa digital estrangeira reproduza mecanicamente uma colônia do século XIX, nem que a dominação atual dispense o Estado nacional. Significa que a dependência se reorganiza: países periféricos fornecem mercados, trabalho barato, atenção e dados; grandes conglomerados controlam padrões técnicos, infraestrutura de nuvem, modelos de inteligência artificial e a capacidade de definir o que será feito com esse material.

O Estado não está fora desse processo como simples vítima. Cadastros sociais, dados de saúde, educação, mobilidade e segurança são recursos de enorme valor político. Quando órgãos públicos terceirizam sistemas essenciais, adotam soluções fechadas ou tratam cidadãos como perfis administráveis, podem reforçar a mesma lógica de captura. A questão não é negar a utilidade de dados para políticas públicas. Planejar vacinação, transporte ou permanência escolar exige informação. A diferença decisiva é quem controla a infraestrutura, quais são as finalidades, quais dados são estritamente necessários, quem fiscaliza os modelos e se a população pode contestar decisões que afetam sua vida.

Um sistema que cruza dados para garantir um benefício social pode ampliar direitos se for transparente, limitado e submetido ao controle público. O mesmo aparato, quando usado para vigiar pobres, presumir fraudes, selecionar suspeitos ou restringir serviços por critérios invisíveis, converte proteção social em polícia administrativa. A técnica não decide por si. Como advertia Heidegger, o perigo moderno está em uma forma de desvelamento que reduz tudo a fundo disponível, isto é, a estoque calculável e manipulável. No capitalismo digital, o trabalhador, o estudante, o paciente e o morador de periferia são tratados como fontes de sinais a otimizar.

O espetáculo personalizado faz a extração parecer escolha

A dominação por dados não se sustenta somente por contratos longos e botões de consentimento. Ela precisa aparecer como liberdade. Redes sociais oferecem expressão; aplicativos oferecem praticidade; sistemas de recomendação oferecem entretenimento sob medida. Debord ajuda a compreender o mecanismo: a relação social mediada por imagens torna-se espetáculo. Agora, esse espetáculo é individualizado em tempo real. Cada pessoa vê uma sequência calculada para prolongar permanência, provocar reação e capturar mais sinais. A mercadoria já não apenas ocupa a tela; ela organiza a atenção e devolve ao indivíduo uma imagem estatística de si mesmo.

Essa personalização favorece também a fragmentação política. O bolsonarismo não foi criado por algoritmos, mas se beneficiou de um ambiente no qual indignação, mentira e ressentimento circulam como mercadorias altamente rentáveis. A arquitetura das plataformas privilegia conteúdo capaz de reter atenção, e discursos fascistizantes exploram exatamente medo, simplificação e desejo de punição. Le Bon observou que multidões podem ser arrastadas por imagens, afetos e palavras de ordem; as plataformas industrializam essa dinâmica, segmentando públicos e testando mensagens com uma precisão que a propaganda de massas anterior não possuía.

Não se trata de imaginar uma máquina onipotente que hipnotiza cidadãos passivos. Pessoas interpretam, resistem, produzem cultura e se organizam. Mas essa ação ocorre em ambientes privados, desenhados para monetizar a atenção e coletar comportamentos. Quando a comunicação pública depende de empresas cuja receita cresce com o engajamento, a verdade perde terreno para o conteúdo que gera reação mensurável. A alienação digital é justamente essa experiência na qual os produtos de nossa interação retornam como forças estranhas: um feed determina o que veremos; uma nota define se trabalharemos; um anúncio explora uma vulnerabilidade que nós mesmos ajudamos a revelar.

Privacidade importa, mas propriedade e trabalho importam também

Reduzir o debate à privacidade pode levar a soluções frágeis: mais avisos, caixas de seleção e uma suposta liberdade para aceitar ou recusar termos. Para quem precisa do aplicativo para trabalhar, da rede para divulgar um serviço ou do celular para acessar uma política pública, a recusa raramente é livre. A Lei Geral de Proteção de Dados é uma conquista importante ao estabelecer direitos e responsabilidades, mas não desfaz sozinha a concentração econômica que torna o consentimento uma formalidade. Uma pessoa pode consentir sem compreender a cadeia de compartilhamentos; pode compreender e ainda assim não ter alternativa material.

Enfrentar o colonialismo de dados exige disputar a propriedade, a governança e a finalidade das infraestruturas digitais. Isso inclui regras efetivas contra vigilância abusiva e discriminação automatizada, auditoria de sistemas que decidem sobre emprego e direitos, proteção coletiva de trabalhadores de plataforma, interoperabilidade que reduza o aprisionamento em monopólios e investimento público em tecnologia orientada pelo interesse social. Também exige que sindicatos e movimentos populares tratem os dados produzidos no trabalho como parte da luta por salário, jornada e poder de decisão.

O ponto central é simples e radical: a vida social não pode ser uma mina gratuita para corporações nem um arquivo de vigilância permanente para governos. Se nossos deslocamentos, relações, conhecimentos e esforços produzem uma riqueza informacional coletiva, seu uso deve estar submetido a direitos coletivos e controle democrático. Do contrário, a colonização não precisará de bandeira estrangeira sobre o território. Bastará que cada gesto cotidiano alimente, silenciosamente, a máquina que calcula como explorar, vender e governar nossa existência.