Quando entregadores de aplicativo pararam em diferentes cidades brasileiras no fim de março e no início de abril de 2025, reivindicando remuneração menos aviltante, limites para a exploração e condições mínimas para trabalhar, não interromperam apenas um serviço de conveniência. Expuseram o mecanismo que permite a uma plataforma se apresentar como inovação enquanto depende de homens que atravessam o trânsito, a chuva, a violência urbana e o desgaste físico para que uma refeição chegue quente à porta de alguém. A cena brasileira do motoboy esperando pedido, com a mochila nas costas e o celular na mão, condensa uma história muito maior que a do aplicativo: a distribuição colonial dos trabalhos que podem ser protegidos, reconhecidos e bem pagos, e daqueles que devem ser invisíveis, perigosos e descartáveis.

É insuficiente dizer que esses trabalhadores são apenas mal remunerados. A exploração, no sentido marxista, é central: a plataforma apropria-se do valor produzido pela entrega e transfere para quem pedala ou pilota a moto os custos do veículo, da manutenção, do combustível, do seguro, do acidente e do tempo sem chamada. Mas a colonialidade permite ver por que essa transferência de custos encontra, no Brasil, uma força de trabalho já preparada socialmente para recebê-la. Não se trata de uma escolha individual de empresas particularmente cruéis, embora elas o sejam. Trata-se de uma ordem em que determinados corpos chegam ao mercado com menos proteção, menos patrimônio, menos tempo disponível para estudar, menos possibilidade de recusar trabalho e maior familiaridade imposta com o risco.

A inovação que herda a divisão colonial do trabalho

Aníbal Quijano mostrou que o capitalismo moderno não se ergueu apesar das classificações raciais produzidas pela colonização, mas também por meio delas. A Europa não inventou somente a conquista territorial; organizou uma divisão mundial do trabalho e do valor humano. A alguns coube o comando, a propriedade, o saber reconhecido como universal. A outros foram destinados a extração, o serviço, o trabalho braçal e a condição de mão de obra disponível. O fim jurídico da escravidão e a independência política das colônias não dissolveram automaticamente essa arquitetura. No Brasil, ela atravessou o pós-abolição sem reparação, atravessou a industrialização e agora se acomoda sem dificuldade ao vocabulário da economia digital.

É por isso que a propaganda do aplicativo importa tanto. Ela não vende somente entrega rápida: vende a imagem de uma relação horizontal entre uma empresa tecnológica e um “parceiro independente”. O nome apaga o patrão, a jornada e o conflito de classe. Também apaga a posição racial e territorial de quem realiza o serviço. O entregador aparece ao consumidor como um ícone em movimento no mapa; quando surge fisicamente, é quase sempre na soleira da porta, no intervalo mais curto possível entre o pedido e a confirmação. Sua vida precisa permanecer fora de quadro para que a comodidade pareça limpa.

A sociedade do espetáculo, em Debord, não é uma coleção de imagens inocentes, mas uma relação social mediada por imagens. No aplicativo, a imagem da autonomia substitui a realidade da subordinação. O trabalhador escolhe aparentemente quando conectar-se, mas o algoritmo organiza o acesso às corridas, distribui recompensas e punições, torna certas regiões e horários mais ou menos rentáveis e pode bloquear uma conta sem a segurança de um emprego formal. A liberdade anunciada é a liberdade de suportar sozinho as consequências de não trabalhar. A plataforma chama isso de flexibilidade; para quem depende da renda diária, é disponibilidade permanente.

O algoritmo não criou a hierarquia, mas a tornou mais eficiente

Há uma diferença decisiva entre a velha figura do capataz e o gerenciamento algorítmico: o segundo parece impessoal. Não grita, não se apresenta como chefe, não precisa justificar uma advertência. Ele pontua, ranqueia, oferece ou retira chamadas, converte a urgência econômica do trabalhador em dado operacional. Essa aparência técnica é ideológica. Heidegger alertava que a técnica moderna não é apenas um conjunto de ferramentas; ela enquadra o mundo como reserva disponível para exploração. Nas plataformas, a cidade se torna rota calculável, o restaurante se torna ponto logístico, o consumidor se torna demanda e o trabalhador se torna capacidade de entrega mensurável.

O efeito colonial desse enquadramento está em decidir quem será tratado como sujeito e quem será tratado como recurso. Executivos, investidores e programadores podem aparecer como produtores de inteligência e inovação. O entregador, embora sem ele o negócio não exista, é reduzido a uma variável substituível. Se adoece, sofre acidente ou tem a motocicleta roubada, o sistema tende a encontrar outro corpo disposto — ou obrigado — a ocupar seu lugar. A tecnologia não elimina a violência social anterior; ela a administra com mais velocidade e menor responsabilidade aparente.

Chamar a precarização de “oportunidade” é a forma contemporânea de converter desigualdade histórica em escolha individual.

A meritocracia completa esse serviço ideológico. Se um entregador consegue elevar sua renda trabalhando horas extenuantes, enfrentando o trânsito em momentos de maior demanda e aceitando todas as corridas, esse resultado é exibido como prova de que basta esforço. O que desaparece é a pergunta sobre quem pode recusar uma corrida mal paga, ficar alguns dias sem faturar, trocar de veículo, pagar um plano de saúde ou contar com uma família proprietária de imóvel. A competição entre trabalhadores não corrige a desigualdade de partida; apenas a transforma em culpa pessoal. Quem não prospera teria administrado mal a própria vida, como se o problema não fosse uma estrutura que oferece sobrevivência sob condições degradantes.

Da cozinha de casa ao portão do condomínio

A colonialidade do trabalho de plataforma não começa na rua. Ela se liga à longa desvalorização do trabalho doméstico, do cuidado, da limpeza, da construção civil, da segurança e do atendimento. Em muitos apartamentos, alguém pede comida por um aplicativo enquanto uma trabalhadora doméstica prepara, limpa ou cuida de crianças; no mesmo prédio, um porteiro recebe o entregador e controla sua passagem. São funções diferentes, mas atravessadas pela mesma separação material entre quem pode comprar tempo alheio e quem precisa vender o próprio tempo em parcelas cada vez menores.

Essa separação também é espacial. Bairros com infraestrutura, restaurantes e consumidores concentram demanda; periferias concentram trabalhadores que gastam tempo e dinheiro para chegar aos lugares onde o consumo acontece. A cidade brasileira, marcada por segregação racial e de classe, vira mapa de eficiência para a plataforma. O deslocamento longo é individualizado como custo do trabalhador, embora seja consequência de uma urbanização que empurrou pobres e negros para longe dos centros de emprego e decisão. A tela que calcula minutos não registra a história que produziu aquela distância.

Quando o debate público reduz a questão a “regular ou não regular aplicativos”, corre o risco de tratar um conflito estrutural como detalhe jurídico. Regras trabalhistas, transparência algorítmica, proteção contra bloqueios arbitrários, remuneração mínima e cobertura em caso de acidente são urgentes. Mas não bastam se forem entendidas como concessões para tornar aceitável um modelo que continua distribuindo risco para baixo e renda para cima. Como insiste Alysson Mascaro, o direito e o Estado não pairam fora das relações sociais: operam dentro da forma capitalista e de seus conflitos. A disputa por direitos é necessária, mas ela não deve apagar a pergunta sobre quem possui a plataforma, controla os dados e define o valor da vida trabalhadora.

Enxergar o lugar colonial muda a pergunta

Depois de enxergar a colonialidade operando no trabalho do entregador, deixa de fazer sentido perguntar por que ele “não procura algo melhor” como se estivesse diante de opções equivalentes. A pergunta passa a ser outra: que sociedade produz milhões de pessoas para as quais arriscar o corpo por corrida parece a alternativa disponível? E por que uma parcela da população considera normal que sua conveniência dependa da exposição cotidiana de outra parcela ao acidente, ao assalto, à fome e ao bloqueio digital?

Essa mudança de olhar recusa tanto a caridade ocasional quanto a admiração vazia pelo empreendedor de si. O entregador não precisa ser celebrado como guerreiro nem tratado como vítima passiva; precisa ser reconhecido como trabalhador inserido numa luta coletiva contra uma forma renovada de dominação. A paralisação de 2025 teve esse sentido: fez aparecer que por trás da interface há conflito, e que por trás da promessa tecnológica há uma hierarquia antiga sendo atualizada. O aplicativo não inventou o lugar colonial. Apenas aprendeu a explorá-lo com notificações, pontuações e uma linguagem empresarial que chama dependência de autonomia.