Neoliberal o que é não se responde adequadamente com a definição escolar de uma doutrina que defende menos Estado e mais mercado. Essa fórmula é incompleta porque esconde o movimento decisivo do neoliberalismo: ele não elimina o Estado, mas o reorganiza para proteger a concorrência, garantir a circulação do capital e transferir para indivíduos os custos da vida social. O entregador que assume a bicicleta, o celular, a manutenção da moto e o risco de acidente não está simplesmente trabalhando em um mercado livre. Está submetido a uma forma política que transforma direitos em despesas pessoais, relações de trabalho em contratos frágeis e exploração em suposta escolha.

O neoliberalismo é uma maneira de governar a sociedade pela lógica da competição. Seu ideal não é apenas que empresas disputem consumidores. É que cada pessoa se compreenda como uma pequena empresa, responsável por investir em si, administrar seus riscos, melhorar seu desempenho e aceitar como fracasso individual tudo aquilo que resulta de relações econômicas desiguais. O desempregado deve se vender melhor; o professor deve produzir mais com menos recursos; o trabalhador de call center deve sorrir sob vigilância; o entregador deve aceitar a instabilidade como autonomia. A desigualdade deixa de aparecer como estrutura e passa a ser apresentada como diferença de mérito, esforço ou capacidade de adaptação.

Neoliberal o que é além da fantasia do Estado ausente

A ideia de que o neoliberalismo significa simplesmente retirar o Estado da economia serve mais para confundir do que para explicar. O Estado neoliberal não desaparece. Ele atua para impor a disciplina fiscal, proteger contratos, controlar fronteiras, garantir a propriedade privada e criar condições jurídicas para que empresas operem com o mínimo de responsabilidade social. Quando direitos trabalhistas são flexibilizados, quando serviços públicos são submetidos a metas empresariais ou quando uma plataforma é autorizada a chamar seus trabalhadores de parceiros, há uma intervenção estatal concreta. O Estado produz e sustenta esse mercado.

A austeridade mostra essa contradição com nitidez. Cortar investimento em saúde, educação, transporte e assistência não significa apenas reduzir a presença pública. Significa obrigar famílias a comprar no mercado aquilo que antes poderia ser tratado como direito. A mensalidade escolar, o plano de saúde, o transporte individual e a segurança privada aparecem como soluções particulares para problemas produzidos coletivamente. O orçamento público é apresentado como irresponsável quando financia políticas sociais, mas raramente recebe o mesmo julgamento quando preserva privilégios financeiros ou oferece infraestrutura para empresas privadas.

A Emenda Constitucional 95, aprovada em 2016 sob a justificativa de controlar os gastos públicos, expressou essa lógica ao limitar por décadas o crescimento real das despesas primárias. O ponto não é dizer que todo gasto estatal seja progressista ou que qualquer expansão orçamentária resolva a desigualdade. A questão é outra: ao congelar a capacidade de financiamento de políticas públicas enquanto necessidades sociais continuam crescendo, a austeridade fabrica escassez e depois usa essa escassez como prova de que o Estado é ineficiente. A deterioração do serviço público é convertida em argumento para privatizá-lo.

O neoliberalismo, assim, não é o Estado contra o mercado. É o Estado trabalhando para que o mercado se torne o princípio de organização da vida. Ele pode ser forte na repressão, na cobrança de dívidas, na vigilância e na proteção da propriedade, enquanto se apresenta como fraco diante da fome, do desemprego e da precarização. A suposta neutralidade das regras econômicas encobre decisões políticas: definir quem paga, quem recebe proteção e quem será deixado exposto.

O entregador como retrato da empresa de si mesmo

A rotina do entregador de aplicativo concentra a ideologia neoliberal em uma cena cotidiana. A plataforma afirma que não possui empregados, mas parceiros independentes. O trabalhador, por sua vez, é convocado a considerar a própria bicicleta ou motocicleta como instrumento de empreendimento, o telefone como escritório e seu tempo como capital. Essa linguagem desloca a relação de trabalho para o campo da iniciativa individual. Se a remuneração é baixa, a resposta sugerida não é a organização coletiva nem a regulação do setor, mas fazer mais corridas, aceitar horários piores ou buscar uma segunda plataforma.

A liberdade prometida é uma liberdade sem condições materiais. O entregador pode supostamente escolher quando se conectar, mas precisa enfrentar aluguel, combustível, alimentação, manutenção e contas vencendo em datas fixas. A plataforma pode não obrigá-lo por meio de um chefe visível, mas seu algoritmo define preços, distribui chamadas, registra recusas, calcula avaliações e pode reduzir o acesso às entregas. A autonomia existe como discurso; a dependência aparece no bolso e na tela.

É nesse ponto que a tecnologia não deve ser tratada como causa neutra da precarização. O aplicativo não inventou a exploração, mas a tornou mais opaca, veloz e individualizada. O algoritmo de trabalho organiza uma multidão de trabalhadores sem que a empresa precise manter uma relação transparente de comando. O controle é exercido pela combinação de pontuação, disponibilidade, localização, remuneração variável e ameaça de bloqueio. O trabalhador não recebe uma ordem de um superior identificado; recebe sinais dispersos que o levam a ajustar seu comportamento continuamente.

Guy Debord descreveu a sociedade do espetáculo como uma relação social mediada por imagens. No trabalho de plataforma, essa mediação assume forma operacional: a imagem da autonomia encobre a realidade da subordinação. O entregador vê no aplicativo uma sequência de mapas, números, níveis e oportunidades. A exploração não desaparece; ela aparece como interface. A tela transforma a venda da força de trabalho em uma experiência parecida com a administração de um jogo, embora as consequências de perder uma partida sejam pagar juros, atrasar o aluguel ou trabalhar doente.

A empresa pode chamar o trabalhador de parceiro, mas a parceria termina quando apenas uma das partes define as regras, controla os dados e pode interromper o acesso à renda.

Essa forma de gestão também dificulta a percepção coletiva. Cada entregador vê sua própria avaliação, sua própria rota e sua própria pontuação. O problema parece individual porque a plataforma distribui a pressão de modo personalizado. A concorrência entre trabalhadores substitui a solidariedade por uma corrida permanente: quem aceita mais chamadas, quem permanece conectado por mais tempo, quem suporta a maior distância. A luta contra a exploração é substituída pela tentativa de superar o trabalhador ao lado.

A empresa de si mesmo e a privatização do fracasso

O núcleo ideológico do neoliberalismo está na produção de uma subjetividade. A pessoa deve se interpretar como um projeto de investimento. Seu corpo precisa ser otimizado, seu currículo atualizado, sua rede de contatos ampliada e sua disponibilidade estendida. Mesmo quando não há emprego, há a obrigação de permanecer empregável. A linguagem do empreendedorismo transforma a ausência de direitos em oportunidade, a instabilidade em flexibilidade e a necessidade em escolha.

Essa subjetividade não é fabricada apenas por propagandas de negócios ou discursos motivacionais. Ela aparece em políticas públicas, programas empresariais, escolas e meios de comunicação. O trabalhador é aconselhado a desenvolver resiliência quando o salário não acompanha o custo de vida. O professor recebe metas e cursos sobre inovação quando faltam estrutura e profissionais. O atendente de call center é treinado para controlar suas emoções enquanto sua produtividade é medida segundo o tempo de cada ligação. O sofrimento causado pela organização do trabalho retorna como defeito psicológico do indivíduo.

A meritocracia funciona como a gramática moral dessa transformação. Ela afirma que posições sociais são resultado principalmente de esforço e talento, embora as pessoas comecem a disputa em condições muito diferentes. Uma jovem da periferia que precisa trabalhar durante o ensino médio, enfrenta transporte precário e não dispõe de tempo para estudar não compete nas mesmas condições que alguém amparado por renda familiar. Ainda assim, quando o resultado desigual aparece, a ideologia o traduz como mérito ou insuficiência pessoal.

Isso não significa negar que esforço, estudo e competência tenham importância. Significa recusar a mentira de que eles bastam para explicar a posição de cada um. O neoliberalismo extrai força justamente ao misturar uma verdade parcial com uma conclusão falsa. É verdade que o esforço pode alterar trajetórias individuais. É falso concluir que toda trajetória depende apenas dele. A estrutura social determina o campo de possibilidades, e a ideologia transforma esse campo em teste moral.

Quando o trabalhador acredita que precisa resolver sozinho uma situação produzida por milhares de relações sociais, a exploração ganha estabilidade. O indivíduo se culpa por não conseguir acompanhar o ritmo, por adoecer, por não investir o suficiente em sua carreira ou por aceitar um trabalho ruim. A culpa individual ocupa o lugar da crítica ao capital. Em vez de perguntar por que uma sociedade produz riqueza em escala e mantém milhões em insegurança, pergunta-se por que determinada pessoa não se organizou melhor.

Direitos tratados como mercadorias

O neoliberalismo avança quando converte direitos em produtos. A educação passa a ser apresentada como investimento privado para aumentar o valor do currículo. A saúde vira proteção individual contra riscos que deveriam ser enfrentados por políticas públicas. A moradia é submetida ao endividamento e à especulação. O transporte deixa de ser infraestrutura coletiva e passa a ser uma despesa individual que cada trabalhador deve administrar para chegar ao emprego.

Essa conversão não ocorre de uma vez. Ela se realiza por reformas, cortes, terceirizações e mudanças na linguagem. Primeiro, um serviço público é descrito como caro e ineficiente. Depois, sua precarização é usada como evidência de que ele não funciona. Em seguida, uma empresa oferece uma alternativa paga, frequentemente dependente de subsídios, contratos públicos ou infraestrutura construída com recursos coletivos. O que era direito aparece como consumo; quem não pode pagar é responsabilizado por sua exclusão.

O mesmo processo atinge o trabalho. A carteira assinada é tratada como rigidez, a jornada limitada como obstáculo à competitividade e a negociação coletiva como privilégio corporativo. A flexibilização é anunciada como modernização, embora quase sempre signifique maior poder patronal para definir horários, remunerações e condições. A promessa de liberdade contratual ignora que uma pessoa sem renda e sem proteção negocia em posição radicalmente inferior à de uma empresa.

Na prática, o contrato neoliberal não elimina a coerção. Ele a torna menos visível. O trabalhador assina ou aceita termos digitais, mas não participa da definição das regras. Pode recusar uma chamada, mas não pode decidir o preço da corrida. Pode desligar o aplicativo, mas não pode suspender as contas. Pode procurar outro emprego, mas encontra um mercado que oferece formas semelhantes de insegurança. A escolha existe formalmente; a necessidade limita suas alternativas.

Capital financeiro, dívida e disciplina social

A financeirização é uma dimensão central do neoliberalismo. Quando salários são insuficientes e serviços públicos são reduzidos, a sobrevivência passa a depender do crédito. O cartão, o empréstimo, o financiamento e o parcelamento permitem consumir no presente, mas transformam o futuro em fonte de pagamento. A dívida não é apenas uma operação econômica; é uma técnica de disciplina. Quem deve precisa manter renda, aceitar condições ruins e evitar conflitos que possam ameaçar sua capacidade de pagar.

O trabalhador endividado pode ser formalmente livre e materialmente obrigado. A ameaça não precisa vir de uma ordem direta. Ela está no vencimento da fatura, no aluguel atrasado, na parcela da motocicleta e no custo da manutenção. A necessidade de honrar compromissos empurra o entregador para jornadas mais longas, o professor para trabalhos extras e o empregado para a aceitação de horas não pagas. O tempo futuro já foi comprometido pelo capital financeiro.

Essa lógica também reorganiza o Estado. A dívida pública é apresentada como razão para conter políticas sociais, enquanto o pagamento aos credores aparece como compromisso técnico, quase natural. O debate sobre orçamento é retirado do terreno da decisão política e colocado sob a autoridade dos mercados. Mas escolher limitar gastos sociais, preservar juros elevados ou priorizar credores não é uma lei da natureza. É uma forma de distribuição de riqueza e poder.

A crítica marxista permite compreender o que a linguagem econômica tenta ocultar. O capital não é apenas dinheiro acumulado; é uma relação social que precisa transformar dinheiro em mais dinheiro por meio da exploração do trabalho. A tecnologia, o crédito e a gestão por metas podem modificar a aparência desse processo, mas não eliminam sua base. Se a plataforma cresce porque transfere custos e riscos ao trabalhador, sua inovação está ligada a uma forma renovada de apropriação do valor produzido.

Por que o discurso neoliberal combina com o autoritarismo

O neoliberalismo costuma se apresentar como defesa da liberdade individual, mas sua ordem social produz frustração, insegurança e ressentimento. Quando a vida é organizada pela competição, cada derrota parece humilhação pessoal. Quando direitos são tratados como privilégios, a demanda por proteção coletiva pode ser apresentada como preguiça ou ameaça. A sociedade perde mecanismos de solidariedade e acumula indivíduos submetidos a pressões que não conseguem nomear.

É nesse terreno que o autoritarismo encontra oportunidade. A precariedade produzida por políticas econômicas pode ser desviada contra inimigos imaginários: pobres, migrantes, professores, movimentos sociais, servidores públicos, mulheres, pessoas negras ou qualquer grupo transformado em obstáculo à ordem. Em vez de atacar a estrutura que concentra riqueza, o discurso autoritário oferece uma explicação moral e um culpado visível.

O bolsonarismo explorou essa combinação ao defender a liberdade como recusa de responsabilidades coletivas e ao converter conflitos sociais em guerra cultural. A liberdade de trabalhar sem direitos foi confundida com liberdade econômica; a desconfiança contra políticas públicas foi alimentada como rejeição de qualquer solidariedade; a indignação com a insegurança foi direcionada contra inimigos políticos e sociais. Não há contradição entre o empreendedorismo individual e a autoridade brutal. Ambos podem exigir que o indivíduo se vire sozinho e, ao mesmo tempo, obedeça sem questionar.

Le Bon, ao analisar a psicologia das multidões, observou como sentimentos compartilhados podem ser mobilizados por imagens, simplificações e apelos emocionais. No ambiente digital, essa mobilização encontra plataformas capazes de distribuir mensagens, segmentar públicos e recompensar a indignação. A multidão não se forma apenas na praça; também é produzida por fluxos de conteúdo que transformam ressentimento em identidade política. A precarização material pode ser convertida em espetáculo de revanche.

O neoliberalismo e o autoritarismo não são idênticos. O primeiro organiza a sociedade pela concorrência e pela mercantilização; o segundo intensifica a obediência e a perseguição ao inimigo. Mas eles podem se reforçar. A destruição de vínculos coletivos deixa indivíduos mais vulneráveis à manipulação, enquanto o autoritarismo oferece uma comunidade imaginária para quem foi abandonado pela comunidade real. A promessa de pertencimento substitui a construção de direitos.

O que a crítica ao neoliberalismo precisa defender

Criticar o neoliberalismo não é defender uma volta idealizada a um passado em que o Estado teria protegido todos. O capitalismo brasileiro sempre foi marcado por desigualdade, racismo, dependência e exploração. A proteção trabalhista nunca alcançou toda a classe trabalhadora, e amplos setores permaneceram no trabalho informal. A novidade neoliberal está em intensificar a transferência de riscos para os indivíduos e em apresentar essa transferência como emancipação.

A resposta não pode ser apenas pedir que empresas sejam mais responsáveis ou que trabalhadores desenvolvam mais resiliência. É preciso recolocar no centro a disputa sobre quem controla a produção, os dados, o tempo e os recursos sociais. No caso das plataformas, isso envolve reconhecer a relação de trabalho, garantir remuneração e proteção, assegurar transparência dos sistemas algorítmicos e permitir organização coletiva. Envolve também questionar por que uma empresa pode decidir unilateralmente sobre a renda de milhares de pessoas sem responder por suas condições de vida.

Uma política antineoliberal precisa defender serviços públicos universais, direitos trabalhistas e redução da jornada sem redução de salário. Precisa combater a financeirização da existência e tratar moradia, saúde, educação e transporte como dimensões da reprodução social, não como oportunidades permanentes de negócio. Precisa enfrentar o racismo e a desigualdade territorial que distribuem de modo desigual tanto as oportunidades quanto os riscos do trabalho.

Também precisa recusar a separação entre liberdade e igualdade. Sem condições materiais, a liberdade contratual é uma palavra vazia para quem aceita qualquer pagamento porque precisa comer. Sem tempo livre, a participação política se reduz. Sem proteção coletiva, a autonomia individual se converte em exposição. A liberdade real não está em cada trabalhador competir isoladamente contra todos os outros, mas em poder decidir sobre a própria vida sem que a sobrevivência dependa da submissão a uma plataforma, a um credor ou a um patrão.

Neoliberalismo, afinal, não é somente uma política econômica aplicada por governos. É uma forma de organizar a percepção social. Ele ensina a enxergar o entregador como empreendedor, o desempregado como investimento malfeito, o serviço público como desperdício, a dívida como responsabilidade moral e a exploração como oportunidade. Sua força está em fazer parecer natural aquilo que foi construído politicamente.

Nomear essa operação é o primeiro passo para interrompê-la, mas a crítica só se completa quando deixa de transformar sofrimento coletivo em diagnóstico individual. O problema do entregador não é falta de mentalidade empreendedora. O problema do professor não é insuficiência de resiliência. O problema de quem vive endividado não é desorganização moral. Há relações sociais que produzem essas experiências, empresas que lucram com elas e decisões políticas que as sustentam. Contra a sociedade em que cada pessoa deve se salvar sozinha, a alternativa começa pela reconstrução daquilo que o neoliberalismo tenta destruir: direitos comuns, poder coletivo e controle social sobre a riqueza produzida pelo trabalho.