O neoliberalismo não é simplesmente a defesa de um Estado menor, como repetem seus apologistas e seus manuais escolares. No Brasil, ele aparece como um Estado muito ativo: aprova regras que comprimem o gasto social, protege contratos financeiros, flexibiliza direitos, subsidia empresas e entrega a plataformas privadas funções antes tratadas como responsabilidades públicas. Sua promessa é a liberdade; sua prática é a transferência sistemática de riscos, custos e inseguranças para quem vive do trabalho.

Essa distinção importa porque o neoliberalismo costuma ser apresentado como uma escolha técnica entre mais ou menos governo. A disputa real é outra: quem será protegido pelo Estado, quem pagará pela crise e quais dimensões da vida serão submetidas à lógica da mercadoria. Quando um entregador assume sozinho o custo da motocicleta, do combustível, do seguro e do acidente; quando um professor trabalha em várias escolas para compensar salários insuficientes; quando uma família contrata no mercado aquilo que antes deveria ser garantido como direito, não estamos diante da ausência do Estado. Estamos diante de uma forma específica de intervenção estatal em favor da acumulação.

O neoliberalismo não elimina o Estado, muda sua função

A ideologia neoliberal constrói uma imagem conveniente do Estado: uma máquina pesada, ineficiente e parasitária, supostamente oposta à liberdade individual. O mercado, em contraste, seria espontâneo, racional e capaz de premiar o mérito. Essa narrativa esconde que nenhum mercado existe sem leis, tribunais, moeda, polícia, contratos e infraestrutura pública. O Estado não desaparece quando privatiza; ele muda de posição. Deixa de organizar diretamente certos serviços e passa a garantir as condições jurídicas e políticas para que empresas os explorem.

Na leitura de Alysson Mascaro, o Estado capitalista não é um instrumento neutro que pode ser ocupado indistintamente por qualquer interesse. Sua forma jurídica separa os indivíduos como sujeitos livres e iguais perante a lei, enquanto a produção os reúne em uma relação material profundamente desigual: de um lado, quem possui os meios de produção; de outro, quem precisa vender sua força de trabalho. O neoliberalismo radicaliza essa separação. A igualdade formal do contrato passa a justificar relações concretas cada vez mais assimétricas. O entregador aceita os termos do aplicativo, o professor aceita a contratação precária, o trabalhador de call center aceita metas inalcançáveis: todos aparecem como agentes livres, embora as alternativas materiais sejam estreitas.

Por isso, a retórica neoliberal transforma coerção econômica em escolha pessoal. O trabalhador não é demitido: ele teria decidido empreender. O serviço público não é desmontado: o cidadão teria ganhado liberdade para escolher um fornecedor. A pobreza não seria produzida por relações sociais: resultaria de falta de esforço, qualificação ou planejamento. A linguagem da escolha individual não descreve a realidade; ela a reorganiza ideologicamente, retirando do campo político aquilo que foi produzido por decisões políticas.

A austeridade transforma direitos em oportunidades de mercado

No Brasil, a Emenda Constitucional 95 condensou uma concepção neoliberal de política pública ao impor um teto para o crescimento das despesas primárias federais por um longo período. Não é necessário recorrer a números grandiosos para compreender sua consequência política. O dispositivo estabelece que direitos sociais devem caber em uma moldura fiscal rígida, enquanto outras despesas e compromissos do Estado permanecem protegidos por prioridades econômicas. A saúde, a educação e a assistência passam a ser tratadas como variáveis a serem comprimidas, não como condições materiais da cidadania.

Austeridade não significa apenas cortar uma verba. Ela reorganiza o horizonte do possível. Uma escola sem manutenção, um posto de saúde com equipe insuficiente e uma universidade submetida à escassez permanente aparecem como instituições naturalmente falhas. Em seguida, a precariedade é usada como prova de que o setor público não funciona. O ciclo se completa quando a solução oferecida é a contratação privada, a gestão empresarial ou a cobrança direta do usuário. O desmonte cria o argumento para a privatização.

O professor sente esse processo no cotidiano, não em uma abstração orçamentária. Ele prepara aulas fora do horário, administra turmas numerosas, acumula vínculos e responde por problemas sociais que a escola não pode resolver sozinha. Ao mesmo tempo, discursos de eficiência exigem indicadores, avaliações e produtividade. O trabalho pedagógico é convertido em desempenho mensurável, como se ensinar fosse produzir unidades comparáveis em uma linha de montagem. A autonomia intelectual se estreita enquanto cresce a cobrança por resultados.

Essa lógica também atinge o estudante. A desigualdade educacional deixa de ser enfrentada como resultado da estrutura de classes e passa a ser narrada como diferença de investimento individual. Quem tem dinheiro compra cursos, equipamentos, transporte, tempo de estudo e estabilidade. Quem não tem precisa trabalhar, improvisar conexão e disputar oportunidades escassas. No entanto, ambos são apresentados como concorrentes em uma pista neutra. A meritocracia funciona precisamente assim: transforma privilégios acumulados em méritos pessoais e fracassos socialmente produzidos em culpa individual.

Do trabalhador ao empreendedor de si mesmo

O neoliberalismo encontrou no trabalho por aplicativo uma forma quase perfeita de organizar a exploração. A empresa controla a intermediação, define regras, seleciona informações e distribui tarefas por meio de uma plataforma. Ainda assim, recusa o nome de empregadora. O entregador aparece como parceiro autônomo, dono de seu tempo e responsável por seu equipamento. A empresa fica com o poder de organizar o processo e tenta afastar as obrigações correspondentes a esse poder.

O algoritmo de trabalho não é apenas uma ferramenta neutra que aproxima oferta e demanda. Ele calcula rotas, estabelece prioridades, classifica trabalhadores, distribui chamadas e pode bloquear acessos. Mesmo quando suas regras são opacas, seus efeitos são materiais: determinam quanto tempo o entregador espera, quais corridas aceita, quanto gasta para permanecer disponível e como administra o risco de recusar uma tarefa. A suposta autonomia se converte em disponibilidade permanente para um comando que não se apresenta como chefe.

O trabalhador paga pela liberdade que lhe é prometida. A motocicleta, a bicicleta, o telefone, a internet, a manutenção e o combustível são custos transferidos para ele. O acidente também tende a ser individualizado. Se a renda cai, a resposta sugerida é trabalhar mais horas, mudar de região, melhorar a avaliação ou aprender a decifrar o aplicativo. O problema estrutural é traduzido em estratégia pessoal. A plataforma captura o valor do serviço sem assumir integralmente o tempo e os meios necessários para realizá-lo.

Essa operação realiza, de maneira concentrada, uma tendência descrita por Marx: a força de trabalho é tratada como mercadoria, mas sua reprodução social é empurrada para fora da empresa e para dentro da vida privada. O trabalhador precisa garantir sozinho as condições que permitem sua exploração. O tempo de descanso se torna tempo potencial de conexão; o veículo é simultaneamente meio de trabalho e patrimônio familiar; a casa funciona como base logística. A fronteira entre vida e expediente se dissolve sem que a empresa reconheça todo esse tempo como trabalho.

Não se trata de dizer que a tecnologia criou a exploração. A tecnologia intensifica uma relação social preexistente e oferece novas formas de controle. O aplicativo torna a subordinação mais difícil de nomear porque substitui ordens diretas por notificações, pontuações e incentivos variáveis. A autoridade aparece como cálculo. O comando deixa de ser uma voz no escritório e passa a operar como arquitetura da plataforma.

A técnica neoliberal e a administração da conduta

Heidegger advertiu que a técnica moderna não deve ser compreendida apenas como um conjunto de instrumentos disponíveis para uso humano. Ela enquadra o mundo como reserva calculável, como algo que deve estar permanentemente disponível, mensurável e mobilizável. No capitalismo de plataformas, essa disposição alcança o próprio trabalhador. Seu tempo, sua localização, sua velocidade, sua avaliação e sua capacidade de resposta são convertidos em dados para a organização da produção.

O algoritmo de plataforma produz uma aparência de objetividade. Uma pontuação parece mais imparcial do que uma ordem de supervisor; uma meta parece mais científica do que uma cobrança verbal; uma tela parece menos política do que uma decisão administrativa. Mas todo sistema de classificação incorpora interesses. O que é medido, o que é ignorado e o que gera punição são escolhas sociais. A técnica não elimina o poder: torna o poder menos visível e mais difícil de contestar.

O controle algorítmico também estimula o autocontrole. O trabalhador passa a antecipar a avaliação, calcular o risco de recusar uma corrida e vigiar a própria produtividade. Não precisa haver um fiscal observando cada movimento. A possibilidade de perder acesso, receber menos chamadas ou cair na classificação já é suficiente para orientar a conduta. A disciplina deixa de depender de uma presença constante e se instala na consciência do trabalhador como medo administrado.

Guy Debord ajuda a compreender outra dimensão desse processo. Na sociedade do espetáculo, as relações sociais são mediadas por imagens e representações que se autonomizam diante da experiência concreta. A plataforma vende a imagem de conexão, flexibilidade e inovação enquanto oculta a materialidade do trabalho que sustenta cada entrega. O consumidor vê a refeição chegando à porta; raramente vê o tempo de espera, o trânsito, o risco de assalto ou a remuneração efetiva de quem pedala. A mercadoria aparece como conveniência, e a exploração desaparece como cena.

O espetáculo neoliberal não está apenas na publicidade. Ele está na própria interface. O mapa em tempo real, a notificação de incentivo, a avaliação por estrelas e a promessa de ganhos adicionais encenam uma relação de escolha contínua. O trabalhador é levado a interpretar a própria sobrevivência como jogo de otimização. A plataforma não precisa dizer que ele é descartável; basta oferecer uma sequência interminável de metas que nunca estabilizam sua renda.

A multidão conectada e a fabricação da culpa

Gustave Le Bon descreveu a multidão como um espaço em que indivíduos podem abandonar a deliberação crítica e aderir a imagens, afetos e palavras de ordem. Seu pensamento, marcado por limites elitistas, não pode ser importado sem crítica. Ainda assim, ajuda a observar como o neoliberalismo mobiliza uma psicologia coletiva: a imagem do vencedor que saiu do nada, do empreendedor que trabalha enquanto os outros reclamam, do pobre que merece sua pobreza por não ter se esforçado o bastante.

Nas redes sociais, essa figura do vencedor circula como espetáculo cotidiano. Influenciadores exibem rotina produtiva, ganhos e consumo, enquanto as condições que permitiram sua visibilidade são apresentadas como simples disciplina pessoal. A multidão digital não recebe a estrutura social como objeto de análise; recebe histórias individuais de superação. O sofrimento de milhões é dissolvido em narrativas de exceção. Quem não consegue vencer é convidado a concluir que falhou sozinho.

A culpa individual cumpre uma função econômica precisa. Um trabalhador culpado procura cursos, aceita jornadas maiores, reduz o descanso e evita a solidariedade com os colegas. Uma pessoa endividada interpreta a própria dívida como falha de organização, mesmo quando salários insuficientes e crédito caro estruturam sua dependência. Uma família que não consegue pagar um plano de saúde sente vergonha, não revolta. A ideologia neoliberal desloca a pergunta de quem produz a desigualdade para por que eu não fui capaz de escapar dela.

Esse deslocamento enfraquece a ação coletiva, mas não a elimina. As paralisações de entregadores, conhecidas como breque dos apps, mostraram que a experiência individual pode ser convertida em reivindicação comum. Quando os trabalhadores recusam a dispersão e reconhecem que enfrentam o mesmo sistema de tarifas, bloqueios e riscos, a plataforma deixa de parecer uma força natural. Ela se torna uma relação social contestável. A solidariedade interrompe o espetáculo da autonomia individual.

O Estado neoliberal e a democracia reduzida à escolha

A expansão neoliberal não acontece fora da política. Ela exige reformas trabalhistas, decisões judiciais, legislação tributária, contratos de concessão, financiamento público e repressão quando a ordem é questionada. O Estado que se declara incapaz de garantir direitos encontra recursos para proteger a propriedade, assegurar a circulação de mercadorias e sustentar a confiança dos credores. Sua alegada impotência é seletiva.

Essa seletividade aparece na forma como a dívida pública e os juros são tratados como compromissos inevitáveis, enquanto políticas de moradia, renda, saúde e educação são submetidas à suspeita. A austeridade se apresenta como responsabilidade diante do futuro, mas o futuro protegido é o dos contratos financeiros. Para os trabalhadores, resta a instabilidade presente: emprego intermitente, endividamento, serviços deteriorados e dependência de plataformas privadas.

O neoliberalismo também altera o sentido da democracia. A cidadania é reduzida à capacidade de escolher entre produtos e serviços, enquanto decisões centrais são retiradas do debate público e entregues a especialistas, agências, mercados e regras fiscais. O cidadão aparece como consumidor; o trabalhador, como fornecedor individual; a comunidade, como nicho de mercado. A política perde sua dimensão de decisão coletiva e se transforma em administração da escassez.

É nesse terreno que prosperam respostas autoritárias. Quando a precarização produz medo e ressentimento, a extrema direita oferece inimigos visíveis: professores, sindicatos, pobres, imigrantes, movimentos sociais, universidades. Em vez de questionar a concentração de riqueza e o poder empresarial, desloca a revolta para uma guerra cultural. O bolsonarismo explorou esse mecanismo ao combinar moralismo, ressentimento contra direitos sociais e defesa agressiva de uma ordem econômica que não livra o trabalhador da insegurança, mas o culpa por ela.

A aliança entre neoliberalismo e autoritarismo não é uma contradição acidental. Se a política econômica amplia a insegurança e reduz a capacidade de proteção coletiva, cresce a necessidade de administrar o conflito. A liberdade celebrada para o mercado pode coexistir com vigilância, repressão e violência contra quem interrompe a circulação normal das mercadorias. A empresa recebe liberdade de contratar e demitir; o trabalhador recebe liberdade para aceitar ou morrer de fome.

Romper com a administração neoliberal da vida

Criticar o neoliberalismo não significa defender uma nostalgia de um Estado idealizado ou imaginar que toda gestão pública seja automaticamente emancipadora. O Estado capitalista pode garantir direitos limitados e, ao mesmo tempo, preservar relações de exploração. A questão é reconhecer que direitos não sobrevivem quando dependem apenas da rentabilidade de empresas ou da capacidade individual de compra. Saúde, educação, transporte, moradia e proteção trabalhista precisam ser retirados da condição de oportunidades mercantis.

Isso exige enfrentar a lógica que transforma cada trabalhador em empresa de si mesmo. Um entregador não precisa de um curso motivacional para administrar melhor o risco de um acidente; precisa de direitos, remuneração suficiente, proteção social e participação nas regras que organizam seu trabalho. Um professor não precisa de mais uma plataforma para registrar produtividade; precisa de tempo, carreira, estrutura e autonomia pedagógica. Um atendente de call center não precisa ser treinado para sorrir diante da violência das metas; precisa deixar de ser submetido a uma organização que trata sua voz como peça descartável.

A alternativa começa quando o trabalho deixa de ser problema privado e volta a ser questão coletiva. Isso significa fortalecer sindicatos, cooperativas e formas de organização capazes de disputar o controle sobre as plataformas e os meios de produção. Significa exigir transparência e responsabilidade das empresas, mas também superar a ideia de que a exploração pode ser corrigida apenas por ajustes regulatórios. O objetivo não deve ser tornar a precarização mais eficiente, e sim reduzir o poder do capital sobre a vida.

O neoliberalismo quer que cada pessoa administre individualmente uma crise produzida socialmente. A resposta anticapitalista consiste em inverter esse movimento: transformar o sofrimento disperso em conflito comum, o dado individual em reivindicação coletiva e o direito formal em condição material. Não há liberdade real quando a sobrevivência depende de aceitar qualquer preço, qualquer jornada e qualquer comando invisível. A liberdade começa onde a vida deixa de estar subordinada à rentabilidade.