O que é o neoliberalismo? A pergunta costuma receber uma resposta escolar: um conjunto de políticas baseado em privatização, redução do Estado, abertura comercial e defesa do mercado. A definição não está errada, mas é insuficiente. Ela descreve medidas administrativas e deixa escapar a operação mais profunda do neoliberalismo: transformar a concorrência em princípio geral da vida, fazer cada trabalhador se enxergar como uma empresa e apresentar a exploração como escolha individual. No Brasil, essa lógica aparece com nitidez no entregador que precisa aceitar corridas sem saber como o algoritmo calcula sua remuneração, no professor contratado como pessoa jurídica e no trabalhador de call center submetido a metas que convertem cada minuto em mercadoria.

O neoliberalismo não aboliu o Estado. Ele o reorganizou para proteger a propriedade, garantir contratos, disciplinar a força de trabalho e transferir para indivíduos os riscos que antes podiam ser reconhecidos como responsabilidade social. O Estado neoliberal não desaparece: aparece quando financia privatizações, flexibiliza direitos, sustenta plataformas digitais, reprime greves e transforma a proteção social em favor condicionado. A promessa de liberdade serve, assim, para ocultar uma nova forma de comando. O patrão pode deixar de aparecer como pessoa, mas continua presente na regra que define quanto vale uma entrega, quanto tempo deve durar uma ligação e quanto um profissional precisa produzir para continuar empregado.

O que é o neoliberalismo além do discurso do Estado mínimo

O neoliberalismo nasceu como reação política e intelectual às formas de regulação econômica e de organização coletiva que ganharam força no século XX. Seus defensores passaram a tratar a intervenção estatal, os sindicatos e os direitos sociais como obstáculos à eficiência do mercado. A resposta não foi simplesmente retirar o Estado da economia. Foi usar o Estado para produzir mercados onde eles não existiam, enfraquecer capacidades coletivas e fazer da competição o critério de avaliação de pessoas, escolas, hospitais e cidades.

Essa distinção é decisiva. Quando um aplicativo de entrega classifica trabalhadores, fixa preços e aplica bloqueios, existe uma estrutura de comando. Quando o poder público terceiriza serviços, permite contratos frágeis e aceita que o trabalhador seja registrado como prestador autônomo, existe uma decisão política. Quando uma universidade mede o professor por produtividade, publicações e indicadores, não estamos diante de uma força natural chamada mercado. Estamos diante de instituições moldadas para funcionar segundo a lógica empresarial.

O discurso do Estado mínimo, portanto, é uma ideologia conveniente. O Estado deve ser mínimo para assegurar direitos sociais, mas suficientemente forte para garantir a circulação do capital. Deve reduzir sua responsabilidade por saúde, educação, moradia e previdência, mas manter políticas fiscais, jurídicas e policiais favoráveis à acumulação. A contradição não é um acidente: o neoliberalismo depende dessa dupla operação. Ele socializa os custos da reprodução da vida e privatiza as oportunidades de apropriação do resultado.

A crítica marxista ajuda a enxergar o que a linguagem econômica esconde. O capital não é apenas dinheiro acumulado; é uma relação social na qual os meios de produção pertencem a uma classe e a maioria precisa vender sua força de trabalho para sobreviver. O neoliberalismo atualiza essa relação ao ampliar a insegurança e individualizar a negociação. O trabalhador não deixa de depender do capital porque recebe um aplicativo no celular ou abre um CNPJ. A dependência apenas se torna menos visível, enquanto os custos são empurrados para ele.

A concorrência como forma de subjetividade

O neoliberalismo vence não apenas quando muda leis, mas quando muda a maneira como as pessoas interpretam sua própria existência. O empregado deixa de se reconhecer como trabalhador com direitos e passa a se apresentar como portador de competências. O desempregado não aparece como alguém atingido por uma estrutura econômica, mas como um projeto atrasado de si mesmo. A pobreza é tratada como falha de gestão pessoal; o adoecimento, como falta de resiliência; a demissão, como oportunidade de reinvenção.

Essa linguagem não é inofensiva. Ela desloca a pergunta sobre as condições de trabalho para a pergunta sobre o desempenho individual. Em vez de discutir o salário, discute-se a capacidade de vender a própria imagem. Em vez de discutir a jornada, recomenda-se organização. Em vez de reivindicar estabilidade, o trabalhador é aconselhado a construir uma marca pessoal. A subjetividade passa a funcionar como um currículo permanente, obrigado a provar utilidade diante de empresas, plataformas e recrutadores.

A meritocracia é a forma moral dessa operação. Ela afirma que posições sociais seriam resultado proporcional do esforço e do talento, como se os indivíduos partissem de condições equivalentes e como se o mercado fosse um juiz imparcial. No Brasil, essa narrativa é especialmente violenta porque transforma desigualdades históricas de classe, raça e acesso à educação em diferenças aparentemente naturais de mérito. O vencedor recebe reconhecimento; o derrotado é responsabilizado por sua própria derrota.

O trabalhador de aplicativo encarna essa contradição. Ele é chamado de empreendedor, mas não controla o preço do serviço, não escolhe as regras de distribuição das corridas e não conhece os critérios que podem reduzir sua visibilidade ou suspender seu acesso à plataforma. Possui, muitas vezes, o instrumento de trabalho e arca com combustível, manutenção, seguro, alimentação e riscos de acidente. A retórica empreendedora nomeia como autonomia aquilo que, materialmente, é transferência de custos e enfraquecimento do poder de negociação.

O entregador e o patrão sem rosto

Nas ruas brasileiras, a plataforma apresenta a exploração com a aparência de uma relação simples entre usuário e trabalhador. O aplicativo parece apenas conectar oferta e demanda. No entanto, ele organiza a atividade, define prioridades, calcula rotas, distribui chamadas, registra desempenho e pode interromper a possibilidade de trabalhar. O algoritmo não é um patrão no sentido tradicional, mas exerce funções patronais sem assumir plenamente as responsabilidades correspondentes.

Essa é uma das inovações políticas do neoliberalismo digital: separar comando e responsabilidade. A empresa afirma que não dirige o trabalho porque o entregador pode escolher quando se conectar. Mas a liberdade formal de ligar ou desligar o aplicativo não elimina a necessidade material de aceitar jornadas extensas, horários de maior demanda e trajetos mais arriscados. A escolha ocorre dentro de uma dependência econômica. O trabalhador é livre para aceitar ou recusar, assim como é livre para suportar a queda de renda decorrente da recusa.

A tecnologia torna esse comando mais opaco. No chão de fábrica, a hierarquia podia ser localizada em um supervisor, em uma ordem ou em um relógio de ponto. Na plataforma, a decisão aparece como cálculo automático, avaliação do usuário ou atualização dos termos de uso. A ausência de um rosto facilita a naturalização da ordem. Se ninguém parece ter decidido, ninguém parece ser responsável. O algoritmo transforma uma relação social em evento técnico e apresenta uma decisão empresarial como resultado neutro de dados.

Heidegger compreendeu que a técnica moderna não deve ser reduzida a um conjunto de ferramentas. Ela organiza o modo como os seres aparecem, convertendo-os em recursos disponíveis. Na plataforma, o trabalhador aparece como unidade de disponibilidade, capaz de ser acionada conforme a demanda. O tempo de descanso vira capacidade ociosa; o corpo vira veículo; a cidade vira mapa de deslocamentos rentáveis; a avaliação vira índice de confiabilidade. A técnica não apenas ajuda o trabalho: enquadra a vida segundo a exigência de extração contínua.

Há uma forma específica de alienação nesse processo. Para Marx, o trabalhador é alienado quando sua atividade, seu produto e suas relações sociais se tornam poderes estranhos, subordinados ao capital. No trabalho por plataforma, o trabalhador participa de uma operação cujo funcionamento não conhece e cujas regras não pode negociar. Ele produz dados sobre sua própria atividade, mas esses dados pertencem à empresa e retornam como instrumentos de controle. Quanto mais trabalha, mais informações fornece para aperfeiçoar a gestão que intensifica seu trabalho.

Pejotização, escola e a fabricação do risco individual

A mesma lógica aparece fora das plataformas. A pejotização converte um vínculo de emprego em contrato comercial. No papel, duas empresas negociam entre si; na realidade, uma pessoa continua cumprindo horário, metas, ordens e funções definidas por outra organização. A forma jurídica modifica a aparência da relação e desloca para o trabalhador obrigações antes associadas ao empregador. Férias, previdência, proteção contra demissão e responsabilidade por adoecimento passam a ser tratados como problemas privados.

A crítica de Alysson Mascaro ao Estado e ao direito permite compreender esse movimento sem cair na ilusão de que a lei está acima das relações sociais. O direito moderno apresenta os indivíduos como sujeitos livres e iguais para contratar, mas essa igualdade formal convive com a desigualdade material entre quem possui os meios de produção e quem precisa vender sua força de trabalho. O contrato pode ser voluntário na forma e compulsório na prática. A pessoa assina porque precisa comer, pagar aluguel e continuar existindo.

O professor pejotizado oferece um exemplo concreto. Ele pode receber uma remuneração aparentemente negociada, mas continua submetido ao calendário da instituição, ao sistema de avaliação, às exigências de produtividade e às decisões de coordenação. Se adoece, perde renda; se recusa tarefas, arrisca o contrato; se precisa de descanso, é convocado a administrar sozinho uma disponibilidade que a instituição continua controlando. A linguagem da prestação de serviço encobre a continuidade da subordinação.

No call center, a promessa de oportunidade convive com scripts, monitoramento permanente e metas de atendimento. O trabalhador precisa demonstrar cordialidade enquanto é medido por tempo médio, quantidade de chamadas e índices de conversão. A emoção também se torna parte do processo produtivo. O sistema exige que o atendente seja simultaneamente rápido, obediente e sorridente, mesmo quando a pressão produz adoecimento. A violência da organização aparece como indicador de performance.

Em todos esses casos, o neoliberalismo fabrica o risco individual. A empresa preserva o poder de decidir, mas o trabalhador assume as consequências da decisão. Se a demanda cai, ele precisa se adaptar. Se o aplicativo altera a remuneração, ele deve trabalhar mais. Se a escola corta turmas, o professor precisa encontrar novos contratos. Se a central estabelece uma meta impossível, o atendente deve desenvolver resiliência. A instabilidade não é uma falha do sistema: é um método de gestão.

O espetáculo da liberdade e a política do ressentimento

Guy Debord mostrou que a sociedade do espetáculo não é apenas uma sociedade com muitas imagens. É uma forma de relação social mediada por imagens, na qual a aparência de participação substitui a participação efetiva. O neoliberalismo combina esse espetáculo com a promessa de autonomia. O trabalhador vê histórias de sucesso, cursos de empreendedorismo, influenciadores financeiros e anúncios de liberdade profissional. A imagem do indivíduo que venceu sozinho ocupa o lugar da análise das estruturas que condenam milhões à insegurança.

Essa produção de imagens não elimina a insatisfação; ela a redireciona. Em vez de identificar o capital como relação de exploração, o indivíduo é estimulado a competir com seus semelhantes. O colega vira ameaça, o imigrante vira culpado, o servidor público vira privilégio, o sindicato vira obstáculo. O ressentimento circula de baixo para baixo enquanto o poder econômico permanece protegido pela abstração do mercado.

Le Bon analisou a psicologia das multidões a partir da sugestão, da simplificação e da propagação de afetos. A crítica contemporânea não precisa aceitar todo o seu diagnóstico para reconhecer um mecanismo importante: massas submetidas à insegurança podem ser mobilizadas por imagens fáceis de inimigos e soluções imediatas. A precariedade produz medo; a indústria cultural e as redes oferecem narrativas que transformam medo em hostilidade. O neoliberalismo prepara o terreno material, e a guerra cultural administra sua energia política.

É nesse terreno que o bolsonarismo encontrou força. Sua defesa autoritária da ordem conviveu com a celebração do empreendedorismo, da privatização da responsabilidade e da desconfiança contra direitos coletivos. O trabalhador explorado foi convidado a odiar políticas sociais, universidades, sindicatos e minorias, enquanto a concentração econômica era apresentada como resultado natural do mérito. A revolta contra a vida precarizada foi capturada por uma política que prometia liberdade e entregava obediência, violência e submissão ao poder econômico.

O neoliberalismo administra a crise que produz

O neoliberalismo se apresenta como solução para crises que ele próprio aprofunda. A precarização reduz a segurança material, enfraquece a organização coletiva e limita o consumo popular; em seguida, a queda da renda é usada para justificar mais austeridade e mais flexibilidade. O serviço público é deteriorado, depois declarado ineficiente. O emprego protegido é desmantelado, depois acusado de não acompanhar a modernidade. A crise passa a funcionar como argumento permanente contra qualquer direito.

Essa administração contínua da emergência produz anomia social: as normas coletivas perdem força e cada indivíduo é empurrado a resolver sozinho problemas que têm origem comum. O trabalhador sabe que a situação é injusta, mas é levado a imaginar que sua única saída está na adaptação individual. A solidariedade parece arriscada porque pode custar uma oportunidade; a denúncia parece imprudente porque pode gerar bloqueio; a greve parece impossível porque as contas vencem. A atomização não é ausência de política, mas resultado de uma política de desagregação.

Não se trata de romantizar o passado nem de negar que tecnologias possam ampliar capacidades. O problema está em quem controla a tecnologia, para qual finalidade e sob quais relações de propriedade. Um aplicativo poderia facilitar a organização coletiva de entregadores, dar transparência aos cálculos e garantir remuneração justa. Uma ferramenta digital poderia reduzir tarefas burocráticas de professores e atendentes. Mas, sob o comando do capital, a inovação tende a ser apropriada para medir, comparar, acelerar e dispensar trabalhadores.

A questão decisiva não é se o trabalhador sabe usar a tecnologia, mas se pode decidir sobre sua finalidade. A alfabetização digital, sozinha, não dissolve a alienação digital. O entregador pode dominar todos os recursos do aplicativo e ainda permanecer sem acesso aos critérios que determinam sua renda. O professor pode utilizar plataformas educacionais e continuar submetido à intensificação do trabalho. Conhecer a ferramenta não significa controlar a relação social que a ferramenta organiza.

Romper a liberdade que só existe no contrato

Definir o neoliberalismo apenas como defesa da privatização é perder sua dimensão antropológica e política. Ele é uma forma de governo que converte a sociedade em mercado, o cidadão em empreendedor, o direito em custo e a solidariedade em desvantagem competitiva. Sua força está em fazer a exploração parecer uma oportunidade e a submissão parecer autonomia.

Romper com essa lógica exige mais que trocar o vocabulário corporativo por palavras de ordem. É preciso reconstruir a capacidade coletiva de nomear a dependência. O entregador não é um empreendedor fracassado quando reivindica remuneração e proteção; é um trabalhador enfrentando uma empresa que organiza seu trabalho. O professor não é um prestador inconveniente quando exige vínculo e descanso; é alguém cujo trabalho é apropriado por uma instituição. O atendente não é pouco resiliente quando adoece sob metas abusivas; é vítima de uma organização que transforma o tempo humano em indicador.

A luta contra o neoliberalismo passa por disputar o direito, o Estado, a tecnologia e a própria definição de liberdade. Direitos trabalhistas não são privilégios arcaicos, mas formas históricas de limitar o poder do capital. Serviços públicos não são desperdícios por existirem fora da lógica do lucro; são condições para que a vida não dependa inteiramente da capacidade de pagamento. Controle social sobre plataformas não é inimigo da inovação; é uma exigência democrática diante de sistemas que governam trabalho, circulação e renda.

A liberdade real começa onde termina a chantagem da sobrevivência. Ela não consiste em escolher entre aceitar uma corrida mal paga, abrir mão do descanso ou ficar sem renda. Não consiste em assinar um contrato desigual e chamá-lo de empreendedorismo. Não consiste em competir permanentemente por uma vaga enquanto o capital decide as regras. Liberdade é poder participar das decisões que organizam a produção e a reprodução da vida. Enquanto essa decisão permanecer concentrada, o neoliberalismo continuará vendendo como escolha aquilo que a maioria apenas consegue suportar.