O que é ser comunista hoje? É reconhecer que a desigualdade não resulta de falhas individuais, mas de uma sociedade organizada para concentrar riqueza, poder e tempo nas mãos de uma classe proprietária, e agir politicamente para superar essa ordem. Ser comunista não é repetir fórmulas do século XX, defender qualquer governo que use a palavra socialismo ou transformar uma tradição política em identidade estética. É tomar partido da classe trabalhadora, compreender o capitalismo em seu funcionamento concreto e construir, por meio da organização coletiva, uma sociedade em que os meios de produzir a vida não sejam propriedade de uma minoria.

Essa resposta parece simples porque o capitalismo trabalha para torná-la impensável. A cada dia, o trabalhador é levado a acreditar que sua situação depende exclusivamente de esforço, qualificação, disciplina e capacidade de adaptação. O entregador que pedala por longas horas, o professor submetido a metas, o operador de call center controlado por métricas e a trabalhadora doméstica sem tempo para descansar aparecem como indivíduos isolados, não como partes de uma classe submetida a relações semelhantes. O comunismo começa quando essa experiência deixa de ser interpretada como fracasso pessoal e passa a ser entendida como conflito social.

Ser comunista hoje é enxergar a classe por trás do indivíduo

Marx não definiu a classe trabalhadora pela pobreza ocasional nem por uma profissão específica. Ela é formada por aqueles que, não controlando os meios de produção, precisam vender sua força de trabalho para sobreviver. Isso inclui o operário industrial, mas também a enfermeira, o professor terceirizado, o trabalhador de logística, a atendente de supermercado, o empregado de aplicativo e o profissional que atua como pessoa jurídica para uma única empresa. A forma do contrato muda; a dependência permanece.

O discurso empresarial tenta esconder essa dependência com palavras como empreendedor, parceiro, colaborador e gestor de si mesmo. O entregador não seria empregado da plataforma: seria um empreendedor independente, embora não controle o preço da entrega, não escolha o funcionamento do aplicativo, não conheça o critério de distribuição das corridas e possa ser bloqueado por uma decisão automática. O trabalhador pejotizado não seria assalariado: seria uma empresa individual, embora venda seu tempo quase exclusivamente a um contratante. A linguagem da autonomia recobre uma relação de subordinação econômica.

Ser comunista é desmanchar essa aparência. A questão não é saber se o trabalhador possui um celular, uma bicicleta, um computador ou um CNPJ. A questão é quem decide o que será produzido, sob quais condições, com qual finalidade e quem fica com o resultado. A liberdade formal de escolher entre aceitar ou recusar uma corrida não elimina a pressão material que faz da recusa uma ameaça à renda. A escolha individual existe, mas dentro de um campo social moldado pela necessidade.

É nesse sentido que a exploração não desaparece quando a fábrica deixa de ser o centro visível da economia. Ela se desloca, fragmenta-se e torna-se mais difícil de identificar. A jornada pode ser interrompida, o contrato pode ser chamado de prestação de serviço, o controle pode ser exercido por avaliações e notificações. Ainda assim, a riqueza depende do tempo e da capacidade dos trabalhadores, enquanto a apropriação dos resultados permanece concentrada.

O que é ser comunista hoje diante do trabalho por aplicativo

O que é ser comunista hoje diante do trabalho por aplicativo? É perceber que a tecnologia não aboliu a exploração; em muitos casos, tornou-a mais precisa, individualizada e opaca. O algoritmo organiza a distribuição das tarefas, acompanha deslocamentos, calcula produtividade, estabelece incentivos e produz uma hierarquia sem chefe visível. A plataforma aparece como simples intermediária entre consumidores e trabalhadores, mas participa ativamente da organização do trabalho e da apropriação do valor.

O entregador é responsabilizado por todos os riscos: compra ou aluga a bicicleta, paga combustível, enfrenta o trânsito, suporta chuva e calor, arca com acidentes e permanece disponível durante períodos sem chamadas. A plataforma, por sua vez, administra a demanda, define regras, recolhe informações e decide quanto cada entrega vale. A chamada economia compartilhada encobre uma economia de transferência de custos. O risco é privatizado no corpo do trabalhador; o controle é centralizado na empresa.

Ser comunista não significa rejeitar a tecnologia em si. Significa perguntar quem a controla, para que serve e sob qual relação social é utilizada. Um sistema de distribuição poderia reduzir deslocamentos inúteis, melhorar a segurança, organizar jornadas mais humanas e ampliar o acesso a bens e serviços. Sob o comando do capital, porém, a mesma capacidade técnica é usada para acelerar ritmos, reduzir remuneração, vigiar trabalhadores e extrair dados. O problema não é a existência do algoritmo, mas a propriedade e a finalidade do sistema que o utiliza.

Essa distinção é decisiva porque parte da crítica contemporânea ao capitalismo cai em uma nostalgia improdutiva. Não basta desejar o retorno a um passado industrial ou imaginar que a solução seja simplesmente desligar as plataformas. A tarefa comunista é disputar a infraestrutura, os dados e os critérios de decisão. Isso envolve regulamentar relações de trabalho, reconhecer vínculos empregatícios quando eles existem, garantir transparência algorítmica, assegurar representação coletiva e lutar para que serviços essenciais não dependam da rentabilidade de empresas privadas.

Comunismo não é pobreza distribuída

Uma das acusações mais repetidas afirma que o comunismo quer igualar todos por baixo, eliminar o mérito e distribuir miséria. A crítica parte de uma confusão conveniente: toma experiências históricas contraditórias como definição eterna do comunismo e ignora a miséria produzida pelo capitalismo existente. No Brasil, milhões de pessoas trabalham e continuam sem acesso estável a moradia, alimentação adequada, saúde, descanso e segurança. O sistema que produz essa precariedade costuma apresentar-se como natural, enquanto a proposta de superá-la é acusada de utópica.

O comunismo não é a defesa de que todos recebam exatamente a mesma coisa em qualquer circunstância. É a crítica à propriedade privada dos meios de produção como instrumento de dominação de classe. Uma sociedade comunista não teria como princípio que poucos proprietários decidam o destino de fábricas, terras, bancos, redes logísticas, plataformas digitais e recursos naturais, enquanto a maioria depende da venda do próprio tempo. Igualdade substantiva não significa negar diferenças humanas; significa impedir que diferenças de riqueza se transformem em poder sobre a vida alheia.

Também não se trata de eliminar toda recompensa por conhecimento, responsabilidade ou esforço. O ponto é romper a conversão de toda capacidade social em mercadoria e impedir que o acesso às condições básicas da existência dependa da renda. A sociedade capitalista chama de mérito aquilo que frequentemente é resultado de herança, educação desigual, rede de contatos, estabilidade familiar e propriedade acumulada. O comunista não nega que as pessoas se esforcem; nega que o esforço individual explique sozinho a posição que cada uma ocupa.

Quando um jovem de bairro rico pode estudar sem trabalhar, dispõe de computador, transporte e apoio familiar, enquanto outro abandona a escola para complementar a renda doméstica, não há uma competição neutra entre méritos individuais. Há uma distribuição desigual das condições de partida. O mérito, nesse contexto, funciona como ideologia: transforma privilégios sociais em virtudes pessoais e fracassos produzidos coletivamente em culpa privada.

O comunista não espera uma sociedade perfeita para lutar

Outra objeção afirma que o comunista só poderia defender uma transformação total, recusando qualquer melhoria parcial. Essa caricatura é desmentida pela própria história das lutas trabalhistas. Redução da jornada, salário mínimo, férias, previdência, saúde pública, moradia, educação e liberdade sindical não são detalhes exteriores à luta anticapitalista. São conquistas que protegem a classe trabalhadora e ampliam sua capacidade de organização.

Defender direitos dentro do capitalismo não significa acreditar que o capitalismo possa tornar-se justo. Significa compreender que a classe trabalhadora luta em dois níveis: contra a exploração imediata e contra a estrutura que a reproduz. Um aumento salarial pode aliviar a vida de uma família sem abolir a relação salarial. Uma lei trabalhista pode limitar o poder patronal sem acabar com a propriedade privada. A conquista é real, mas não basta. O reformismo torna-se um problema quando transforma medidas de proteção em promessa de harmonia definitiva entre capital e trabalho.

Essa compreensão também orienta uma posição responsável diante do governo Lula. Um comunista não precisa fingir que toda política do governo é suficiente, nem abandonar a disputa institucional em nome de uma pureza abstrata. A reconstrução de políticas sociais, a valorização do salário mínimo, a retomada de investimentos públicos, a defesa da democracia e a recuperação de direitos depois do desastre bolsonarista têm consequências concretas para a classe trabalhadora. Ao mesmo tempo, limites fiscais, alianças com setores empresariais e a permanência de desigualdades exigem pressão popular e crítica organizada.

Apoiar a reeleição de Lula, nesse cenário, não equivale a declarar que o governo tenha superado o capitalismo ou realizado um programa comunista. Significa reconhecer a diferença entre um projeto que amplia direitos e outro que os destrói, entre a disputa democrática por políticas públicas e o autoritarismo bolsonarista, entre a negociação difícil dentro de uma coalizão e a ofensiva permanente contra sindicatos, universidades, serviços públicos e minorias. A crítica de esquerda não pode ser indiferente ao resultado concreto das eleições.

O bolsonarismo ofereceu à classe trabalhadora uma explicação falsa para sua insegurança. Em vez de apontar para bancos, grandes empresas, concentração fundiária e exploração, mobilizou ressentimento contra pobres, nordestinos, mulheres, pessoas negras, pessoas LGBTQIA+ e movimentos sociais. Prometeu autoridade contra o caos enquanto atacava instituições, ciência, direitos e condições de vida. Ser comunista hoje inclui combater essa forma de desorganização da classe: o trabalhador não ganha nada quando é convencido de que seu inimigo é outro trabalhador mais pobre ou mais vulnerável.

Comunismo é democracia econômica, não culto ao Estado

A experiência histórica dos Estados que se declararam comunistas não deve ser tratada nem como conto de santos nem como prova de que qualquer projeto de igualdade conduz inevitavelmente à ditadura. Houve avanços sociais, industrialização acelerada e derrotas concretas do imperialismo em determinados contextos; também houve burocratização, repressão, concentração de poder e supressão de liberdades. Uma posição comunista contemporânea precisa aprender com essas contradições, não escondê-las.

O comunismo não pode ser reduzido à estatização de empresas sob comando de uma burocracia apartada da sociedade. Se o trabalhador não decide sobre a produção, se não controla os representantes, se não pode organizar-se livremente e se a administração econômica permanece distante da maioria, a propriedade estatal não basta para produzir emancipação. A questão central é o poder social sobre a produção e a reprodução da vida.

Isso exige ampliar a democracia para além do voto periódico. Conselhos de trabalhadores, sindicatos independentes, cooperativas, gestão popular de serviços, orçamento público participativo e controle social sobre dados e infraestruturas são formas possíveis de deslocar decisões hoje monopolizadas por acionistas, executivos e tecnocratas. A democracia política permanece indispensável, mas fica incompleta quando o cidadão pode votar e, ao mesmo tempo, não tem qualquer poder sobre o local em que trabalha, o aluguel que paga ou a plataforma que determina sua renda.

O Estado também não é um instrumento neutro que qualquer classe usa da mesma maneira. Como mostra a crítica materialista do direito e do Estado, as instituições operam dentro de relações sociais marcadas pela propriedade e pelo poder econômico. Ainda assim, o Estado é um terreno decisivo de luta. É possível disputar orçamento, legislação, direitos e políticas públicas, mas não é possível supor que uma mudança administrativa, sozinha, dissolva a estrutura de classe. O comunista combina a defesa de direitos estatais com a organização autônoma da sociedade.

Ser comunista é reorganizar o tempo e a vida

A exploração capitalista não rouba apenas dinheiro. Rouba tempo, atenção, descanso, saúde e capacidade de imaginar. O trabalhador que permanece conectado fora do expediente, o professor que corrige atividades à noite, a entregadora que aguarda chamadas sem remuneração e o funcionário de escritório pressionado por mensagens instantâneas vivem uma extensão da jornada para além do espaço tradicional de trabalho. A fronteira entre vida e emprego se dissolve, mas a subordinação permanece.

Ser comunista é disputar esse tempo. A redução da jornada sem redução salarial, a superação da escala 6x1, o direito efetivo à desconexão, a proteção previdenciária e a socialização do trabalho de cuidado são reivindicações comunistas porque enfrentam a apropriação privada da vida. Uma sociedade rica em tecnologia deveria permitir que as pessoas trabalhassem menos, descansassem mais e participassem da vida política e cultural. No capitalismo, o aumento da produtividade costuma ser convertido em desemprego, intensificação ou lucro; a promessa de tempo livre é subordinada à acumulação.

Essa disputa tem dimensão ecológica. O capital precisa expandir-se continuamente, produzir mercadorias e criar novas necessidades, mesmo quando essa expansão destrói florestas, rios, territórios e condições climáticas. O comunismo não é apenas uma distribuição mais igualitária de mercadorias; é uma reorganização racional da produção em função das necessidades humanas e dos limites da natureza. Isso implica decidir coletivamente o que produzir, quanto produzir e o que deve deixar de ser produzido.

O comunista precisa organizar, não apenas denunciar

É possível concordar com críticas ao capitalismo e permanecer preso ao individualismo. Reclamar da desigualdade nas redes sociais, consumir produtos alternativos ou adotar uma estética radical não substitui a organização. Ser comunista é construir vínculos duradouros nos locais de trabalho, estudo e moradia; fortalecer sindicatos e movimentos populares; participar da disputa institucional; formar consciência política; enfrentar o racismo, o machismo e a LGBTfobia dentro da própria classe; e transformar indignação dispersa em força coletiva.

A organização é necessária porque o capital está organizado. Uma empresa pode substituir um trabalhador isolado, mas enfrenta outro tipo de poder quando os trabalhadores param juntos. Uma plataforma pode bloquear uma conta, mas encontra limites quando entregadores se articulam, denunciam regras, fazem paralisações e constroem alternativas cooperativas. Um governo pode anunciar uma política, mas sua continuidade depende de pressão social, mobilização e participação. Sem organização, a crítica permanece opinião; com organização, pode tornar-se conflito capaz de alterar relações de poder.

Isso não significa romantizar a unidade. A classe trabalhadora é atravessada por diferenças de raça, gênero, território, nacionalidade e geração. No Brasil, a exploração do trabalho tem marcas profundas da escravidão, do racismo estrutural e da divisão sexual do trabalho. Uma política comunista que trate essas dimensões como distrações reproduzirá as hierarquias que diz combater. A unidade de classe não é apagar diferenças; é enfrentá-las para construir uma solidariedade real, na qual a emancipação de uma parte não dependa da submissão de outra.

Ser comunista hoje, enfim, é sustentar que o mundo não precisa continuar organizado pela propriedade de poucos e pela necessidade de muitos. É reconhecer a exploração por trás da linguagem da oportunidade, o controle por trás da conveniência tecnológica e a luta de classes por trás da aparência de escolhas individuais. É defender a democracia contra o fascismo, os direitos contra a austeridade, a organização contra a atomização e a vida contra a obrigação permanente de produzir lucro.

O comunismo não é uma nostalgia nem uma promessa de salvação automática. É uma prática política orientada por uma pergunta concreta: quem decide as condições da vida social e em benefício de quem? Enquanto essa decisão estiver concentrada em proprietários, acionistas, rentistas e executivos, a liberdade será incompleta. Ser comunista é trabalhar para que a resposta deixe de ser dada por uma minoria e passe a ser construída coletivamente por aqueles que produzem a riqueza e sustentam a sociedade.