Ser comunista no Brasil é defender a superação do capitalismo e a construção de uma sociedade em que a riqueza, o poder e as decisões econômicas estejam submetidos às necessidades da maioria trabalhadora, não à propriedade privada dos grandes meios de produção. Isso não significa desejar uma ditadura, abolir a vida privada ou repetir caricaturas produzidas pela propaganda anticomunista. Significa compreender que o entregador submetido ao algoritmo, a professora exausta, o trabalhador de call center controlado por metas e a família endividada não fracassaram individualmente: eles vivem relações sociais organizadas para transferir riqueza para cima. Ser comunista é transformar essa compreensão em posição política, organização coletiva e luta por uma democracia substantiva.

No Brasil, essa definição precisa partir de uma história concreta. O país foi formado pela escravidão, pela concentração fundiária, pelo racismo, pela exploração do trabalho e por uma sucessão de modernizações que conservaram privilégios antigos. A burguesia brasileira não precisou romper completamente com as estruturas coloniais para se tornar dominante. Ao contrário, acumulou riqueza combinando capital financeiro, propriedade rural, salários baixos, dependência tecnológica e um Estado frequentemente mobilizado para proteger os proprietários. O comunismo brasileiro não pode ser uma cópia abstrata de experiências estrangeiras. Ele precisa responder ao capitalismo brasileiro, à desigualdade regional, à violência policial, ao racismo estrutural, à informalidade e à precariedade que organizam a vida de milhões.

Ser comunista no Brasil é enxergar a classe por trás da desigualdade

O senso comum apresenta a desigualdade como resultado de esforço desigual. Quem ganha pouco teria estudado menos; quem mora longe teria escolhido mal; quem não empreende seria acomodado; quem está desempregado não teria se qualificado. Essa explicação transforma relações sociais em defeitos individuais. A crítica comunista começa quando se pergunta quem controla as empresas, quem decide os salários, quem apropria o resultado do trabalho e por que a riqueza produzida coletivamente permanece concentrada.

Marx chamou de exploração a relação em que o trabalhador vende sua força de trabalho e produz um valor superior ao que recebe na forma de salário. A diferença não é um detalhe moral: é a base da acumulação capitalista. O trabalhador do supermercado, da fábrica, da escola privada ou da plataforma de entrega pode receber remuneração pelo seu tempo, mas não controla o produto social de sua atividade. O proprietário dos meios de produção, por sua vez, apropria-se do resultado e decide como reinvestir, distribuir ou reter a riqueza.

O comunista não vê a classe trabalhadora apenas no operário industrial de carteira assinada. Ela inclui a diarista, o trabalhador rural, o empregado terceirizado, o motorista de aplicativo, a enfermeira, o professor, o entregador, o vendedor ambulante, o funcionário público e quem alterna períodos de desemprego com trabalhos informais. A fragmentação das ocupações não elimina a exploração; muitas vezes, apenas dificulta que os trabalhadores reconheçam interesses comuns.

Um entregador pode imaginar que é um empreendedor independente porque escolhe quando ligar o aplicativo. Contudo, a plataforma define preços, distribui pedidos, estabelece critérios de avaliação, controla sua visibilidade e pode bloquear seu acesso sem uma negociação real. A aparência de autonomia encobre uma subordinação administrada por código. O comunista identifica nessa situação uma forma contemporânea de relação de trabalho e defende organização, proteção social, transparência algorítmica e poder de negociação coletiva.

O que é ser comunista no Brasil diante do racismo e da herança escravista

Não existe comunismo brasileiro sério que trate o racismo como assunto secundário. A escravidão não foi um episódio externo à formação do capitalismo nacional; ela organizou a produção, a propriedade, a violência e a distribuição de oportunidades. Depois da abolição, o Estado não garantiu terra, trabalho digno, educação ou reparação à população negra. A liberdade jurídica foi acompanhada pelo abandono material, enquanto as elites preservaram patrimônio e poder.

O resultado aparece na concentração racial dos empregos mais precários, na desigualdade de renda, na violência estatal e na presença desigual nos espaços de decisão. A classe trabalhadora brasileira é majoritariamente negra e, ainda assim, o racismo pode dividir os explorados, justificar salários menores e naturalizar que determinados corpos ocupem os trabalhos mais perigosos. Ser comunista é combater simultaneamente a exploração de classe e as formas raciais que a distribuem e aprofundam.

Isso também exige rejeitar uma versão economicista do marxismo, segundo a qual bastaria falar de salário para explicar tudo. A opressão racial não desaparece automaticamente com uma mudança na propriedade das empresas. O projeto comunista precisa enfrentar o racismo institucional, garantir direitos, democratizar o acesso à terra, à moradia, à educação e à representação política e reconhecer a experiência específica da população negra. A unidade da classe não é uma ordem para que os grupos oprimidos silenciem suas diferenças; é uma construção política contra o sistema que lucra com elas.

Comunismo não é sinônimo de autoritarismo

A pergunta sobre o que é ser comunista no Brasil costuma ser capturada por uma associação automática entre comunismo e ditadura. A associação não surgiu por acaso. Durante a Guerra Fria, governos, empresas e meios de comunicação difundiram o anticomunismo como instrumento para criminalizar sindicatos, movimentos populares e reformas sociais. No Brasil, o golpe de 1964 foi apresentado como defesa da liberdade, embora tenha instaurado uma ditadura que perseguiu, torturou, censurou e assassinou opositores. O fantasma comunista serviu para proteger interesses econômicos e bloquear a participação popular.

Também é necessário reconhecer, sem propaganda e sem simplificação, que experiências históricas identificadas com o comunismo produziram burocratização, repressão política e limites severos à democracia. Um comunista brasileiro não precisa negar esses problemas para defender a crítica ao capitalismo. A defesa do socialismo não pode ser um salvo-conduto para o autoritarismo. Se a emancipação pretende libertar os trabalhadores, ela precisa ampliar sua capacidade de decidir, organizar-se, discordar e controlar o poder. A autocrítica não enfraquece a causa; impede que a luta contra a dominação reproduza novas formas de dominação.

Por isso, ser comunista é defender democracia política e democracia econômica. O voto é indispensável, mas insuficiente quando o poder econômico compra influência, concentra a comunicação e transforma necessidades sociais em oportunidades de lucro. Uma democracia que permite escolher governantes, mas não permite aos trabalhadores decidir sobre o ritmo, a finalidade e a distribuição da produção, permanece limitada. A democracia socialista, nesse sentido, não reduz a liberdade: procura estendê-la para o local de trabalho, para o orçamento público, para a moradia e para o acesso aos bens comuns.

Comunismo e capitalismo no cotidiano brasileiro

O capitalismo costuma aparecer como algo natural, quase uma paisagem. O aluguel sobe, o transporte consome parte do salário, a comida encarece e o trabalhador responde fazendo horas extras, aceitando bicos ou contraindo dívida. A situação é apresentada como inevitável porque não se imagina uma organização social diferente. A crítica comunista rompe essa naturalização: o que parece necessidade econômica é resultado de decisões sobre propriedade, investimento, tributação, juros, salários e prioridades públicas.

Quando uma empresa demite para elevar a rentabilidade, a decisão é tratada como racional. Quando o governo corta serviços para preservar interesses financeiros, fala-se em responsabilidade. Quando uma família não consegue pagar aluguel, atribui-se o problema à falta de planejamento. O comunista pergunta por que a sociedade aceita que imóveis vazios convivam com pessoas sem moradia, que alimentos sejam destruídos ou exportados enquanto há fome e que tecnologias capazes de reduzir o sofrimento sejam usadas para intensificar o controle sobre quem trabalha.

Essa crítica não equivale a defender que o Estado resolva tudo de maneira automática. O Estado brasileiro é atravessado por interesses de classe e pode funcionar como aparelho de proteção da propriedade e da acumulação. Mas ele também é campo de disputa e instrumento para garantir direitos. A previdência, o Sistema Único de Saúde, a universidade pública, a legislação trabalhista e as políticas de transferência de renda não são dádivas privadas: são conquistas de lutas sociais e formas concretas de limitar a violência do mercado.

Por que um comunista pode apoiar o governo Lula

Ser comunista não significa confundir um governo de coalizão progressista com um governo socialista. O governo Lula opera dentro do capitalismo, negocia com o Congresso, convive com o mercado financeiro e não aboliu a exploração do trabalho. Essa é uma crítica legítima. Mas dela não se conclui que todos os governos sejam equivalentes ou que a disputa institucional seja irrelevante.

Entre um projeto que procura reconstruir políticas sociais, recuperar direitos, fortalecer serviços públicos e combater a fome e um projeto bolsonarista que atacou a democracia, estimulou o armamentismo, desprezou a ciência, ameaçou instituições e tratou a desigualdade como problema moral, a esquerda deve escolher o primeiro lado sem hesitação. Apoiar Lula e defender sua reeleição não exige abandonar a crítica anticapitalista. Exige reconhecer que a correlação de forças concreta importa e que a vida dos trabalhadores é afetada por cada decisão sobre salário mínimo, emprego, saúde, educação, moradia, meio ambiente e proteção social.

A objeção mais forte é conhecida: governos petistas também fizeram concessões ao capital, mantiveram estruturas de concentração e não romperam com o poder econômico. A resposta não é negar os limites. É compreender que uma política de alianças pode produzir avanços parciais sem superar o sistema, e que esses avanços alteram as condições de organização popular. O erro seria transformar a insuficiência de um governo em justificativa para a indiferença diante do retorno da extrema direita. A crítica comunista deve pressionar por mais direitos e mais participação, não entregar o Estado àqueles que querem destruir até as condições mínimas da luta social.

Outra objeção afirma que apoiar Lula desmobiliza a revolução. Isso só ocorre quando o apoio vira submissão. Um comunista pode votar em Lula, defender medidas progressistas e, ao mesmo tempo, cobrar reforma tributária progressiva, fortalecimento dos serviços públicos, proteção aos trabalhadores de aplicativos, combate ao racismo, democratização da comunicação e transição ecológica sob controle social. A independência política não consiste em tratar adversários desiguais como se fossem iguais; consiste em manter a capacidade de pressionar, organizar e criticar o governo apoiado.

Ser comunista contra o bolsonarismo e a extrema direita

O bolsonarismo não é apenas uma preferência eleitoral conservadora. Ele articula militarismo, fundamentalismo religioso, racismo, misoginia, culto à autoridade, desinformação e defesa agressiva da propriedade contra qualquer política de redistribuição. Sua promessa de liberdade costuma significar liberdade para o patrão demitir, para o proprietário expulsar, para a plataforma controlar e para o Estado punir os pobres. A retórica antissistema esconde a defesa de uma ordem social profundamente hierárquica.

Os ataques de 8 de janeiro mostraram que o bolsonarismo não aceita a democracia quando perde o controle das instituições. A tentativa de desacreditar eleições, pressionar as Forças Armadas e mobilizar uma base radicalizada não deve ser relativizada como simples indignação popular. A extrema direita organiza o ressentimento social contra inimigos imaginários para preservar inimigos reais: os grandes proprietários, os rentistas e os grupos que se beneficiam da concentração econômica quase nunca aparecem como alvo.

O comunista combate essa estratégia oferecendo uma explicação material para a crise. Em vez de culpar imigrantes, pessoas LGBTQIA+, movimentos sociais, professores ou beneficiários de políticas públicas, aponta para a exploração, o desemprego, a dívida e a concentração de renda. Isso não significa ignorar conflitos culturais; significa entender que eles são frequentemente mobilizados para impedir a solidariedade entre trabalhadores.

Organização, não apenas identidade

Ninguém se torna comunista apenas por usar uma camiseta, repetir uma palavra de ordem ou consumir teoria política. O comunismo é uma prática de organização. Ele existe quando trabalhadores constroem sindicatos, cooperativas, movimentos de moradia, associações comunitárias, coletivos antirracistas e partidos capazes de disputar o poder. A consciência não cai do céu nem nasce pronta na cabeça de indivíduos isolados. Ela se forma na experiência compartilhada de lutar contra um problema que parecia privado e descobrir sua dimensão social.

Uma professora que enfrenta a precarização pode perceber que sua exaustão não é inadequação pessoal. Entregadores que realizam um breque descobrem que o aplicativo não é uma força natural, mas uma empresa que pode ser pressionada. Moradores de uma ocupação transformam a falta de moradia em reivindicação política. Trabalhadores de um call center identificam que a meta impossível não é falha de caráter, mas método de extração de produtividade. Em cada caso, a organização interrompe a solidão produzida pela ideologia meritocrática.

Debord descreveu a sociedade do espetáculo como uma relação social mediada por imagens. No ambiente digital, a política pode ser reduzida a desempenho, indignação e consumo de identidades. O comunismo não é uma estética de rebeldia para as redes. É a tentativa de reconstruir relações coletivas fora da lógica que transforma toda causa em marca, toda opinião em mercadoria e toda mobilização em dado para plataformas.

Também por isso, a formação política importa. Ler Marx não é decorar frases sobre o capital, mas compreender como mercadoria, valor, exploração e fetichismo organizam a vida. Estudar a história brasileira é perceber que nossas instituições não nasceram neutras. Conhecer a tecnologia é entender que algoritmos incorporam decisões empresariais e podem intensificar desigualdades. A teoria vale quando aumenta a capacidade de interpretar e transformar a realidade.

O comunismo como liberdade material

A liberdade liberal costuma ser apresentada como ausência de interferência: cada indivíduo seria livre para escolher, desde que o Estado não atrapalhe. Mas quem depende de dois ônibus para chegar ao trabalho, teme o despejo, não pode pagar tratamento médico ou precisa aceitar qualquer condição para sobreviver possui uma liberdade formal e uma dependência material profunda. A fome não precisa de uma lei explícita para limitar escolhas. O desemprego também exerce coerção.

Ser comunista é defender a liberdade material de não ser obrigado a vender a própria vida em condições degradantes. É lutar por tempo livre, moradia, saúde, educação, cultura, transporte e segurança sem transformar cada necessidade em oportunidade de lucro. É questionar por que a técnica, que poderia reduzir o trabalho penoso, é usada para aumentar jornadas e vigiar trabalhadores. Heidegger mostrou que a técnica moderna tende a enquadrar tudo como recurso disponível; sob o capitalismo, o trabalhador também é tratado como recurso substituível, mensurável e descartável.

Essa liberdade não elimina responsabilidade individual nem diferenças pessoais. Ela modifica o terreno em que as pessoas fazem escolhas. Uma sociedade comunista não promete que todos terão os mesmos talentos ou desejos, mas busca impedir que o nascimento, a cor da pele, o gênero ou a propriedade herdada determinem quem poderá viver com dignidade. A igualdade não é uniformidade: é a condição para que a diferença não se converta em hierarquia econômica.

Ser comunista no Brasil, enfim, é tomar partido da maioria explorada e oprimida sem romantizar a derrota, sem aceitar a chantagem de que não há alternativa e sem confundir radicalidade com isolamento. É defender a democracia contra o fascismo, os direitos contra a austeridade, a organização contra o individualismo e a vida contra a acumulação ilimitada. É apoiar, no terreno institucional, aquilo que reduz a violência social e fortalece os trabalhadores, inclusive a reeleição de Lula diante do bolsonarismo, sem abandonar a exigência de mudanças estruturais. O comunismo brasileiro só terá sentido se for capaz de ligar a crítica do capital às lutas concretas de quem trabalha, mora, cuida, estuda e resiste neste país.