O que é ser comunista? É reconhecer que a riqueza produzida pelo trabalho coletivo é apropriada privadamente por uma classe proprietária e agir para transformar essa relação. Ser comunista não significa simplesmente gostar de um partido, defender um governo estrangeiro, desejar que todas as pessoas tenham a mesma roupa ou acreditar em uma versão caricatural de Estado controlando cada detalhe da vida. Significa compreender o capitalismo como um sistema histórico baseado na propriedade privada dos meios de produção, na exploração do trabalho assalariado e na subordinação das necessidades humanas à acumulação de capital. Significa também defender uma sociedade em que a produção seja organizada democraticamente para atender às necessidades coletivas, e não para ampliar indefinidamente o lucro de quem já possui terra, fábricas, bancos, plataformas e tecnologia.

A dúvida aparece frequentemente como se ser comunista fosse uma peculiaridade psicológica, uma escolha de gosto ou uma identidade exótica. A pergunta real, porém, é social e política: quem decide o que será produzido, como será produzido e quem ficará com o resultado? Um entregador que percorre a cidade para cumprir metas definidas por um aplicativo, uma professora que trabalha além da jornada para preparar aulas, uma operadora de call center submetida a monitoramento permanente e um trabalhador de fábrica não estão diante de problemas isolados. Todos participam de uma organização social na qual seu tempo e sua capacidade são utilizados para gerar riqueza que não controlam. O comunismo começa pela recusa de tratar essa situação como natural.

O que é ser comunista na sociedade capitalista

Para Marx, a história do capitalismo não pode ser explicada apenas por indivíduos bons ou maus. É preciso observar as relações de classe. De um lado estão os proprietários dos meios de produção: empresas, terras, máquinas, sistemas logísticos, instituições financeiras e infraestruturas digitais. De outro, está a maioria que precisa vender sua força de trabalho para sobreviver. Mesmo quando o trabalhador possui um celular, uma motocicleta ou uma pequena ferramenta, isso não elimina sua dependência. O entregador pode ser chamado de parceiro, mas continua submetido às regras da plataforma; o motorista pode ser apresentado como empreendedor, mas depende das corridas, das tarifas e da avaliação algorítmica; a pessoa que trabalha como pejotizada pode emitir nota fiscal, mas não passa a controlar o processo de produção.

A força de trabalho é vendida por um salário ou por uma remuneração variável. Durante a jornada, porém, o trabalhador produz um valor maior do que aquele necessário para pagar sua própria reprodução. Essa diferença é apropriada pelo capital como mais-valia. Não se trata de um roubo cometido necessariamente por uma pessoa específica contra outra, embora existam abusos individuais. Trata-se de uma relação estrutural: quem não possui os meios de produção precisa aceitar as condições de quem os possui. O comunista identifica nessa relação a origem da desigualdade, da insegurança e da disciplina que atravessam o cotidiano.

Essa análise não depende de imaginar que todo patrão seja pessoalmente cruel ou que todo trabalhador seja moralmente virtuoso. Há empresários que tratam seus funcionários com respeito e trabalhadores que reproduzem preconceitos e violências. Nada disso altera a estrutura. Uma empresa pode oferecer um ambiente agradável e ainda precisar extrair trabalho não pago para competir e gerar lucro. O problema não é resolvido pela benevolência do proprietário, porque a decisão fundamental permanece privada: o investimento, a tecnologia, o ritmo produtivo e a distribuição do excedente continuam fora do controle de quem trabalha.

Comunismo não é igualdade de pobreza

Uma das acusações mais repetidas afirma que o comunismo pretende igualar todos por baixo. Essa fórmula transforma uma crítica à propriedade e ao poder em uma fantasia sobre a eliminação das diferenças humanas. O comunismo não exige que todas as pessoas tenham os mesmos talentos, desejos ou formas de viver. O que ele questiona é que diferenças econômicas produzidas socialmente se convertam em poder sobre a vida dos demais.

Não é uma diferença natural que permite a uma família comprar imóveis em várias cidades enquanto outra precisa escolher entre o aluguel e a comida. Não é o talento individual que explica por que um acionista recebe rendimentos sem trabalhar enquanto uma enfermeira enfrenta jornadas exaustivas. A desigualdade capitalista é sustentada por herança, propriedade, crédito, monopólio, acesso desigual à educação e controle dos instrumentos de produção. Em uma sociedade comunista, a igualdade central seria a igualdade de poder social: ninguém deveria depender da riqueza de outro para ter moradia, saúde, educação, alimentação, transporte e tempo livre.

Isso também significa ampliar, e não reduzir, a liberdade. A liberdade liberal costuma ser apresentada como a possibilidade formal de escolher, mas uma escolha entre aceitar um emprego degradante e passar fome não é uma liberdade substantiva. O trabalhador pode juridicamente recusar uma vaga, mas essa recusa não possui o mesmo significado para quem tem reserva financeira e para quem sustenta filhos com renda instável. A liberdade comunista pretende retirar a chantagem econômica do centro da vida. Só há autonomia real quando as pessoas possuem condições materiais para decidir coletivamente sobre seu tempo e seu trabalho.

A propriedade privada que o comunista critica

É necessário distinguir propriedade pessoal de propriedade privada capitalista. O comunismo não propõe confiscar o sapato, o livro, a fotografia de família ou os objetos de uso cotidiano. A crítica se dirige à propriedade privada dos meios que permitem explorar o trabalho de outras pessoas. Uma plataforma digital, um centro de distribuição, uma grande fazenda, uma rede hospitalar ou uma fábrica não são apenas bens de uso individual. São estruturas sociais que organizam a atividade de centenas ou milhares de trabalhadores.

Quando uma empresa possui uma frota, uma rede logística e um sistema de dados, essa propriedade concede poder para contratar, demitir, definir preços e impor ritmos. No capitalismo digital, o domínio pode parecer imaterial. O capital não aparece apenas na máquina visível, mas no aplicativo, na nuvem, no banco de dados, no sistema de reputação e no algoritmo que distribui tarefas. O entregador não controla a ferramenta que decide quais pedidos verá, quanto receberá ou por que será bloqueado. A tecnologia, nesse caso, não é neutra: está incorporada a uma relação de propriedade.

Ser comunista implica defender que esses recursos estratégicos sejam submetidos ao controle social. Isso não significa entregar tudo a uma burocracia sem fiscalização. Significa discutir formas de propriedade pública, cooperativa e comum, com participação efetiva dos trabalhadores e das comunidades. Uma cooperativa de entregadores, por exemplo, não seria automaticamente comunista apenas por não ter um acionista tradicional. Ela precisaria enfrentar as relações de mercado, garantir decisões democráticas e impedir que a competição reproduzisse a mesma pressão por produtividade. A questão decisiva é quem controla a infraestrutura e com qual finalidade.

Trabalho, alienação e tempo roubado

Marx chamou de alienação a separação do trabalhador em relação ao produto, ao processo, aos outros seres humanos e às suas próprias capacidades. Quem trabalha em uma linha de produção não decide o destino do que produz. Quem atende chamadas seguindo um roteiro rígido não controla a conversa. Quem entrega pedidos conforme a orientação de um mapa não determina o ritmo nem o preço do serviço. O trabalho aparece como atividade necessária para sobreviver, mas não como realização consciente de uma finalidade comum.

O fenômeno se intensifica quando a gestão é realizada por plataformas. O aplicativo apresenta a exploração como conveniência, flexibilidade e autonomia. O trabalhador pode supostamente escolher quando se conectar, mas a remuneração, a distribuição de pedidos e os incentivos fazem com que ele permaneça disponível nos horários de maior demanda. A espera não é plenamente livre: é tempo gasto em função do trabalho, frequentemente sem pagamento. A avaliação do cliente e o bloqueio automático introduzem uma chefia invisível. O algoritmo não precisa gritar para disciplinar; basta tornar a renda imprevisível.

O comunista não considera esse sofrimento uma falha de adaptação individual. Não recomenda simplesmente organizar melhor a agenda ou desenvolver uma mentalidade vencedora. A pergunta é por que uma sociedade capaz de produzir abundância mantém tantas pessoas em permanente insegurança. O problema não é que o entregador não saiba administrar seu tempo. É que seu tempo está subordinado a uma plataforma que se apropria de dados, tarifas e decisões. A luta comunista busca recuperar o tempo social, reduzindo a jornada e subordinando a tecnologia às necessidades humanas.

Democracia econômica contra a democracia limitada

O capitalismo pode conviver com eleições, imprensa plural e direitos civis, mas mantém uma área decisiva fora da democracia: o local de trabalho e a propriedade da economia. O cidadão vota a cada poucos anos, enquanto passa todos os dias sob decisões tomadas por proprietários, fundos de investimento e diretorias que não elegeu. Pode escolher entre produtos, mas não decide se a fábrica será fechada, se o hospital será convertido em negócio, se a plataforma alterará unilateralmente sua remuneração ou se a empresa adotará uma tecnologia para demitir metade da equipe.

Ser comunista é ampliar a democracia para o terreno em que a vida material é organizada. Isso envolve conselhos de trabalhadores, participação comunitária, planejamento público, cooperativas e controle sobre os investimentos. Não se trata de substituir a política por uma administração técnica. Ao contrário: trata-se de tornar explícitas as decisões que o mercado apresenta como inevitáveis. Uma sociedade deve poder decidir se quer mais moradias populares ou mais condomínios de luxo, transporte coletivo ou dependência de automóveis, redução da jornada ou intensificação do trabalho, produção de medicamentos ou especulação financeira.

O planejamento comunista não precisa significar que uma autoridade central conheça cada desejo individual. A crítica marxista ao mercado não exige negar toda coordenação descentralizada, troca local ou diversidade de preferências. O ponto é impedir que o lucro privado seja o critério superior. Planejar significa combinar conhecimento técnico, participação social e prioridades coletivas. O mercado pode até sobreviver em espaços delimitados, mas não deveria determinar o acesso a direitos básicos nem comandar a totalidade da produção.

As experiências históricas e as críticas ao comunismo

Não há seriedade em discutir comunismo fingindo que as experiências do século XX não existiram. A União Soviética, a China revolucionária, Cuba e outros processos combinaram conquistas sociais, transformações econômicas, conflitos internos, autoritarismos e graves violações de direitos. A industrialização soviética derrotou a pobreza extrema e teve papel decisivo na derrota do nazismo, mas também esteve associada a burocratização, repressão política e ausência de democracia operária. Cuba alcançou resultados importantes em saúde e educação sob bloqueio e enorme pressão externa, mas restringiu liberdades políticas. A China retirou milhões de pessoas da pobreza, porém construiu uma forma própria de capitalismo de Estado e mantém controle político autoritário.

Reconhecer essas contradições não obriga a abandonar a crítica ao capitalismo. Também não permite transformar qualquer governo que use a palavra comunismo em medida definitiva do ideal comunista. O cristianismo não é julgado apenas pelos atos de todo governante que se declara cristão; a democracia não é descartada porque governos eleitos cometeram crimes; o liberalismo não é reduzido a cada guerra apoiada por potências liberais. A questão é analisar concretamente instituições, classes, direitos e resultados.

As objeções mais fortes devem ser respondidas sem propaganda. A primeira diz que o comunismo elimina a liberdade. Resposta: projetos comunistas autoritários efetivamente restringiram liberdades, e isso deve ser criticado, não encoberto. Mas a concentração econômica capitalista também limita a liberdade, sobretudo quando o trabalhador não pode recusar a venda de sua força de trabalho. Um comunismo digno desse nome precisa unir igualdade material, pluralismo, direitos civis e controle democrático; sem isso, a emancipação é substituída por dominação burocrática.

A segunda objeção diz que seres humanos são egoístas demais para cooperar. A resposta está na própria vida social: famílias, sindicatos, mutirões, escolas, serviços públicos, cooperativas e movimentos populares dependem de cooperação cotidiana. O egoísmo não é uma essência imutável. O capitalismo recompensa a competição e depois apresenta seus efeitos como prova de que a competição é natural. Pessoas podem agir de maneira solidária ou predatória conforme as instituições e as condições em que vivem.

A terceira objeção afirma que sem lucro ninguém trabalhará. Mas trabalhadores já produzem todos os dias sem controlar o lucro, muitas vezes em atividades socialmente indispensáveis e mal remuneradas. Professores, cuidadores, agentes de saúde e trabalhadores da limpeza não são movidos apenas por bônus. A motivação humana inclui reconhecimento, pertencimento, curiosidade, responsabilidade e desejo de contribuir. Mesmo onde incentivos materiais forem necessários, isso não prova que acionistas privados devam controlar o conjunto da economia.

Comunismo, Estado e governo Lula

Ser comunista não é confundir um governo de coalizão com a superação do capitalismo. O governo Lula não é comunista, e ninguém deve apresentá-lo como tal. Ele atua dentro da ordem capitalista, negocia com setores empresariais e enfrenta limites institucionais e econômicos reais. Ainda assim, a política concreta não é indiferente. A reconstrução de políticas sociais, a valorização do salário mínimo, o fortalecimento de programas de transferência de renda, a retomada de investimentos públicos e a defesa de direitos trabalhistas podem melhorar a vida da classe trabalhadora e ampliar sua capacidade de organização.

É possível apoiar a reeleição de Lula sem abandonar a crítica anticapitalista. Na verdade, essa crítica ajuda a definir o apoio. Diante do bolsonarismo, não há equivalência moral ou política. Bolsonaro representou uma combinação de autoritarismo, destruição de políticas públicas, ataque à ciência, incentivo à violência e defesa agressiva dos interesses de quem transforma direitos em mercadoria. A extrema direita mobiliza o ressentimento dos trabalhadores contra outros trabalhadores, culpa pobres, imigrantes, mulheres, pessoas negras e minorias, enquanto preserva privilégios econômicos.

O governo Lula tem contradições, sofre pressão do mercado e não rompeu com a estrutura capitalista. Essa é uma crítica legítima. Mas a conclusão não deve ser a abstinência diante de uma disputa que afeta direitos concretos. O comunista pode apoiar medidas progressistas, exigir mais, denunciar concessões e organizar a classe trabalhadora sem fingir que todos os governos oferecem o mesmo. A defesa de Lula, nesse sentido, não é adoração pessoal: é uma posição diante da correlação de forças e da ameaça de retorno de um projeto bolsonarista ainda mais autoritário.

Ser comunista é lutar no presente

O comunismo não é uma promessa abstrata colocada depois de todas as reformas. Ele aparece nas lutas atuais por redução da jornada, moradia, transporte público, salário digno, previdência, saúde, educação, soberania tecnológica e controle dos dados. Aparece quando trabalhadores de aplicativo recusam a narrativa de que são empreendedores isolados e se reconhecem como parte de uma classe. Aparece quando professores defendem a escola pública, quando trabalhadores de call center enfrentam metas desumanas, quando mulheres denunciam a dupla jornada e quando a população periférica exige que o Estado deixe de tratá-la como problema de segurança.

Isso não significa romantizar toda mobilização. Uma greve pode ser derrotada; uma cooperativa pode ser absorvida pelo mercado; um sindicato pode se burocratizar; um governo progressista pode recuar. A luta de classes não oferece garantias automáticas. Ela exige organização, formação política, alianças e capacidade de avaliar cada conjuntura. O comunista não espera que a história produza espontaneamente uma sociedade justa. Atua para construir força coletiva, disputar o senso comum e transformar reivindicações imediatas em consciência sobre a estrutura.

Ser comunista é, finalmente, recusar a ideia de que o mundo deve permanecer submetido ao lucro porque não há alternativa. É compreender que a pobreza ao lado da abundância, o desemprego ao lado da necessidade de trabalho, o desperdício ao lado da fome e a vigilância ao lado da promessa de liberdade não são acidentes inevitáveis. São resultados de uma forma de organizar a sociedade.

O comunista não é alguém que possui uma pureza moral superior. É alguém que toma posição diante dessa organização e escolhe o lado de quem trabalha. Defende a socialização da riqueza, a democracia econômica, a igualdade material e a liberdade concreta. Sabe que a emancipação não virá de um salvador, de um aplicativo ou de uma solução individual. Ela será construída pela ação consciente daqueles que produzem a vida, mas ainda não decidem sobre ela.