Ser um comunista é reconhecer que a pobreza, a exploração e a desigualdade não são fracassos individuais nem acidentes inevitáveis, mas efeitos de uma sociedade organizada para que uma minoria controle os meios de produção e a maioria venda sua força de trabalho para sobreviver. É também agir politicamente para superar essa organização, substituindo a propriedade privada dos grandes meios de produção pelo controle social e democrático da riqueza. Comunista não é alguém que deseja apenas repartir melhor a miséria, nem uma pessoa apaixonada por um Estado autoritário: é alguém que compreende a luta de classes, combate o poder do capital e defende a emancipação da classe trabalhadora.

A pergunta “o que é ser um comunista” costuma receber respostas superficiais. De um lado, aparece a caricatura do sujeito que quer abolir toda liberdade, confiscar qualquer objeto pessoal e transformar a sociedade em uma fila burocrática. De outro, surge uma definição tão genérica que comunismo vira apenas “ser solidário”. As duas imagens escondem o conflito central. O comunismo não é uma disposição moral privada, como ser gentil com os vizinhos, nem um uniforme ideológico. É uma posição diante das relações materiais que organizam a vida: quem trabalha, quem decide, quem se apropria do resultado e quem fica submetido a quem.

O que é ser um comunista na sociedade capitalista

Para Marx, o capitalismo não se define simplesmente pela existência de comércio ou pelo uso de dinheiro. Seu núcleo está na propriedade privada dos meios de produção e na transformação da força de trabalho em mercadoria. A pessoa que não possui terra produtiva, fábrica, plataforma, loja, máquinas ou capital suficiente precisa vender sua capacidade de trabalhar. O salário parece uma troca entre iguais, mas a relação é profundamente desigual: o trabalhador vende sua força por determinado período e produz um valor maior do que aquele necessário para pagar seu salário. A diferença é apropriada pelo proprietário como mais-valia.

É essa relação que um comunista procura enxergar onde o discurso dominante vê apenas contratos individuais. O entregador de aplicativo não é simplesmente um empreendedor que escolheu sua autonomia. Ele utiliza bicicleta ou motocicleta, assume os custos de manutenção, enfrenta riscos no trânsito e depende de um algoritmo que distribui pedidos, mede desempenho e pode reduzir seu acesso à renda. A plataforma apresenta essa dependência como liberdade, porque chama o trabalhador de parceiro. A palavra muda; a subordinação econômica permanece.

O mesmo vale para a professora pressionada por metas e resultados, para o trabalhador de call center submetido a scripts e monitoramento constante, para a pessoa contratada como pessoa jurídica e para quem precisa aceitar horas extras para pagar o aluguel. Ser comunista é compreender que essas situações não são apenas problemas de caráter, organização ou esforço. Elas fazem parte de uma estrutura na qual o capital busca aumentar a produtividade, reduzir custos e transferir riscos para quem trabalha.

Isso não significa negar as diferenças individuais. Pessoas possuem capacidades, trajetórias e escolhas distintas. O que o comunista recusa é transformar essas diferenças em justificativa para uma hierarquia social permanente. A meritocracia promete que cada um receberá conforme seu talento, mas omite que ninguém começa do mesmo lugar e que o próprio acesso ao talento depende de renda, tempo, educação, saúde, moradia, segurança e redes de proteção. O filho de uma família rica e a filha de uma trabalhadora informal podem ser avaliados pela mesma prova, mas não chegam a ela sob as mesmas condições.

Ser um comunista é tomar partido na luta de classes

A luta de classes não é uma invenção retórica para dividir uma sociedade que seria naturalmente harmoniosa. Ela existe na disputa concreta por salários, jornada, moradia, impostos, direitos, tempo livre e controle das decisões econômicas. Quando trabalhadores reivindicam redução da jornada sem redução salarial, enfrentam quem lucra com o prolongamento do trabalho. Quando entregadores organizam um breque dos apps, confrontam empresas que desejam manter a aparência de autonomia enquanto controlam preços, rotas e avaliações. Quando moradores de periferias exigem transporte, saúde e saneamento, questionam uma distribuição desigual do orçamento e da infraestrutura.

Ser comunista é tomar partido da classe trabalhadora nessa disputa. Isso não quer dizer idealizar todo trabalhador, como se trabalhadores fossem naturalmente virtuosos ou incapazes de reproduzir preconceitos. A classe trabalhadora é atravessada por racismo, machismo, LGBTfobia e desigualdades regionais. Uma política comunista precisa combater essas formas de dominação porque elas fragmentam a própria capacidade coletiva de luta e permitem que o capital pague menos, discipline mais e selecione quem merece proteção.

A classe trabalhadora contemporânea também não se resume ao operário industrial de uma fábrica fordista. Inclui a empregada doméstica, o trabalhador terceirizado, a pessoa que cuida de idosos, o professor temporário, o entregador, o funcionário de depósito, o trabalhador rural, o servidor público, o desempregado e quem alterna bicos com períodos de informalidade. A expansão dos serviços e das plataformas não eliminou a classe; tornou suas fronteiras mais instáveis e dificultou sua organização. O comunista precisa compreender essa transformação, não repetir uma imagem congelada do trabalho.

O comunismo começa quando a riqueza produzida coletivamente deixa de ser governada como propriedade particular de quem controla o capital.

Comunista não é sinônimo de autoritário

Uma das objeções mais frequentes afirma que todo comunista seria inimigo da liberdade. Essa crítica não pode ser respondida com propaganda ou com a negação dos autoritarismos cometidos em experiências que se apresentaram como socialistas. Estados burocráticos, perseguições políticas, censura e concentração de poder devem ser analisados criticamente, não escondidos. Uma esquerda que trata qualquer denúncia como conspiração perde a capacidade de aprender e abandona a própria tradição de crítica da dominação.

Mas também é necessário rejeitar a fraude histórica que iguala automaticamente comunismo e autoritarismo. O capitalismo conviveu e ainda convive com ditaduras, golpes, colonialismo, tortura, guerras e estados de exceção. Empresas privadas podem controlar a vida de milhões sem qualquer eleição: decidem salários, fecham fábricas, removem conteúdos, determinam preços e transferem recursos entre países. Um trabalhador pode ser formalmente cidadão livre e, durante oito horas ou mais, não ter controle sobre seu tempo, seus movimentos ou o produto de sua atividade.

A liberdade liberal, limitada ao direito de contratar e possuir, é insuficiente quando a maioria precisa aceitar condições impostas para não morrer de fome. Não há liberdade substantiva para escolher entre empregos quando todos oferecem insegurança, baixa remuneração e vigilância. Não há democracia plena quando decisões sobre investimento, tecnologia e produção são tomadas por acionistas e executivos, fora do alcance das pessoas afetadas.

O comunismo defende ampliar a liberdade, não eliminá-la. A liberdade deixa de ser apenas a possibilidade jurídica de cada indivíduo competir no mercado e passa a incluir o poder real de participar das decisões que determinam sua existência. Isso exige democracia nos locais de trabalho, organização sindical, direitos políticos, liberdade de crítica e instituições capazes de impedir a concentração de poder. A emancipação não pode ser produzida por uma nova elite que fala em nome do povo enquanto cala o povo.

Comunismo, propriedade e vida cotidiana

Outra caricatura diz que ser comunista é querer tomar a casa, a roupa, o celular ou os objetos pessoais de qualquer indivíduo. A crítica marxista não está dirigida ao uso pessoal desses bens, mas à propriedade dos meios que permitem explorar o trabalho de outras pessoas. Há uma diferença entre possuir uma moradia para viver e possuir centenas de imóveis para cobrar aluguel de quem não tem onde morar; entre utilizar um computador e controlar uma empresa que emprega milhares; entre ter uma pequena ferramenta de trabalho e deter uma plataforma que define as condições de trabalho de uma categoria inteira.

Essa distinção é decisiva porque o capitalismo costuma apresentar qualquer questionamento à grande propriedade como ataque à vida privada. A defesa do proprietário de um conglomerado é apresentada como defesa de toda pessoa que possui alguma coisa. Assim, o dono de uma rede de supermercados aparece discursando em nome do pequeno comerciante, e o proprietário de um fundo imobiliário fala como se representasse a família que luta para pagar a primeira casa.

O comunista pergunta quem controla a riqueza e com qual finalidade. Uma empresa existe para produzir alimentos, remédios ou moradias de acordo com necessidades sociais, ou para remunerar acionistas e ampliar sua valorização? Uma inovação tecnológica serve para reduzir a jornada e aliviar o trabalho, ou para intensificar metas e dispensar trabalhadores? O problema não é a existência de máquinas, planejamento ou administração. É o fato de que tudo isso é subordinado à valorização do capital.

Quando a produtividade aumenta, seria possível trabalhar menos e viver melhor. Entretanto, no capitalismo, o ganho de produtividade frequentemente aparece como demissão, terceirização, pressão por metas e aumento do lucro. A técnica, que poderia libertar tempo, converte-se em instrumento de controle. O algoritmo que poderia distribuir tarefas com transparência passa a classificar trabalhadores, esconder critérios e punir quem recusa pedidos. Ser comunista é reivindicar que a tecnologia seja submetida às necessidades humanas, e não tratada como autoridade neutra.

O comunista e o Estado

Ser comunista não é acreditar que o Estado seja automaticamente bom ou que toda nacionalização seja socialismo. O Estado capitalista pode garantir direitos e, ao mesmo tempo, preservar as condições gerais da acumulação. Ele arrecada impostos, regula contratos e oferece políticas públicas, mas também protege a propriedade, assegura a circulação das mercadorias e pode reprimir greves e manifestações. Alysson Mascaro mostra que o Estado não é um instrumento neutro disponível para qualquer grupo; sua forma jurídica está ligada às relações capitalistas.

Isso não leva à indiferença diante das eleições. Pelo contrário: direitos concretos dependem de correlação de forças e de decisões institucionais. O orçamento para saúde, educação, moradia e assistência não é abstrato. A política de salário mínimo, a valorização da pesquisa, o combate à fome e a reconstrução de políticas públicas alteram a vida de milhões. A esquerda precisa disputar o Estado sem imaginar que governar por alguns anos basta para superar o capitalismo.

No Brasil, apoiar o governo Lula e defender sua reeleição é coerente com essa perspectiva quando se considera o contraste com o bolsonarismo. A reconstrução de políticas sociais, a recuperação de direitos, a retomada de programas públicos e a defesa da democracia representam uma barreira concreta contra um projeto autoritário, privatista e hostil aos trabalhadores. Isso não significa tratar o governo como socialista nem suspender a crítica. Um comunista pode reconhecer avanços e pressionar por mais direitos, mais tributação dos ricos, redução da jornada, fortalecimento dos serviços públicos e democratização econômica.

A objeção de que governos progressistas não romperam com o capital é verdadeira, mas insuficiente. Ela só seria uma crítica consequente se apontasse como ampliar a organização popular e mudar a correlação de forças. Usar as limitações de um governo para defender a volta de quem atacou a democracia, enfraqueceu políticas públicas e transformou o ódio social em método não é radicalidade: é entregar trabalhadores ao adversário. A luta comunista não escolhe entre a fantasia de uma ruptura imediata e a passividade. Ela disputa cada direito sem confundir reforma com emancipação.

O comunismo diante do bolsonarismo e do fascismo

O bolsonarismo não é apenas uma opinião conservadora entre outras. Ele articulou autoritarismo, militarização da política, ataque às universidades, desprezo pelos pobres, negacionismo, misoginia, racismo e defesa agressiva da propriedade sem limites. Sua força se alimentou de frustrações reais, mas direcionou a revolta contra trabalhadores organizados, minorias, professores, jornalistas e políticas de igualdade, preservando os privilégios econômicos que produzem a precariedade.

O fascismo oferece uma falsa saída para conflitos gerados pelo capitalismo. Promete restaurar ordem, autoridade e orgulho nacional, mas conserva a exploração e canaliza a raiva social contra bodes expiatórios. A multidão é mobilizada por medo e ressentimento, enquanto o poder econômico continua protegido. Le Bon ajuda a compreender como a psicologia das multidões pode ser manipulada por imagens, slogans e identificações emocionais; hoje, plataformas digitais aceleram essa manipulação, premiando indignação e simplificando problemas estruturais.

O comunista não responde a isso com desprezo pelas pessoas capturadas pela propaganda. Procura disputar suas condições materiais e sua interpretação do mundo. Quem vive endividado, sem emprego estável e sem confiança nas instituições pode ser atraído por discursos autoritários. A resposta não é apenas desmentir cada mentira, mas construir organização, solidariedade e explicações capazes de ligar a experiência individual à estrutura social. A luta contra a extrema direita precisa ser democrática e material.

Ser comunista é organizar, não apenas acreditar

Não basta declarar simpatia pelo comunismo enquanto se mantém uma vida política baseada no consumo de opiniões. A sociedade do espetáculo, descrita por Guy Debord, transforma conflitos em imagens e espectadores em consumidores de posicionamentos. A pessoa pode compartilhar uma frase revolucionária, discutir teoria durante horas e continuar isolada de qualquer organização capaz de disputar um sindicato, uma associação de bairro, um centro acadêmico ou uma política pública.

Ser comunista envolve construir formas coletivas de poder. Isso pode ocorrer no sindicato, no partido, no movimento de moradia, na luta antirracista, na organização de trabalhadores de aplicativo, na defesa da escola pública ou na mobilização contra a escala exaustiva. A organização não elimina divergências; cria condições para que elas sejam debatidas sem que cada indivíduo precise enfrentar sozinho a força econômica e política do capital.

Também exige disciplina intelectual. O comunista não deve repetir palavras de ordem sem investigar a realidade, nem trocar análise por fidelidade pessoal a dirigentes. Precisa estudar a história do movimento operário, compreender as formas atuais de exploração, reconhecer derrotas, avaliar alianças e distinguir propaganda de argumento. A crítica ao capitalismo não autoriza inventar dados ou romantizar experiências políticas. A verdade não é um luxo burguês; sem ela, a organização popular torna-se vulnerável à manipulação.

Essa postura inclui reconhecer que o comunismo não é uma sociedade pronta descrita em um manual. Marx foi cuidadoso ao criticar projetos utópicos que desenhavam o futuro em detalhes enquanto deixavam intacta a análise do presente. O essencial é identificar a direção histórica e política: superar a exploração, abolir a separação entre produtores e meios de produção, ampliar a democracia e fazer com que a riqueza social seja orientada por necessidades humanas.

O comunista quer abolir o trabalho alienado

A alienação no trabalho aparece quando a atividade que deveria expressar capacidades humanas se torna uma força estranha, submetida à sobrevivência e ao comando de outros. O trabalhador produz objetos, serviços e relações que não controla. Quanto mais riqueza cria, mais pode experimentar pobreza de tempo, insegurança e impotência. No aplicativo, a pessoa entrega comida pela cidade inteira, mas não decide a tarifa nem conhece o funcionamento do sistema que avalia sua performance. No escritório, responde mensagens o dia todo e termina com a sensação de que o próprio tempo desapareceu.

Ser comunista é desejar mais do que um salário ligeiramente maior dentro da mesma submissão. É lutar para que a produção seja organizada de modo que as pessoas tenham controle sobre seu trabalho, tempo e finalidade. Isso envolve reduzir a jornada, garantir renda, socializar serviços essenciais, combater a hierarquia arbitrária e permitir que trabalhadores decidam o que produzir e como produzir. O comunismo não glorifica o trabalho como sacrifício moral. Ele quer libertar a atividade humana da obrigação de servir à acumulação privada.

Essa perspectiva também muda a relação com o consumo. O capitalismo promete realização por meio de mercadorias, mas frequentemente vende compensações para uma vida exausta. Compra-se um produto para suportar o trabalho que financiou a compra; depois, trabalha-se mais para pagar dívidas e manter o padrão exigido. O comunista não precisa defender ascetismo nem desprezar desejos pessoais. Deve perguntar por que necessidades humanas são transformadas em oportunidades de lucro e por que a abundância convive com a privação.

Uma definição sem caricatura

Ser um comunista é compreender que ninguém se emancipa sozinho em uma sociedade fundada na dependência econômica. É identificar no entregador, na professora, no trabalhador de call center, na empregada doméstica e no desempregado não casos isolados, mas expressões de uma classe que produz a riqueza e não controla suas condições. É combater o racismo, o machismo e o autoritarismo sem esquecer que o capital se beneficia dessas divisões. É defender a democracia contra o bolsonarismo sem transformar a democracia liberal em ponto final da história.

É também aceitar que a transformação será contraditória, disputada e construída por organizações reais, não por gestos de pureza individual. Um comunista pode apoiar um governo de esquerda e criticá-lo; defender eleições e desejar uma democracia muito mais profunda; lutar por reformas e saber que reformas não abolirão sozinhas o capitalismo. O critério não é a distância entre a realidade e uma imagem perfeita de revolução, mas a capacidade de cada luta ampliar o poder coletivo dos trabalhadores.

Se o capitalismo apresenta sua própria existência como natural, ser comunista é tornar visível sua história e sua violência. Se o capital diz que cada pessoa deve resolver sozinha problemas produzidos socialmente, ser comunista é construir solidariedade organizada. Se a tecnologia promete liberdade enquanto intensifica vigilância, ser comunista é disputar seu controle. Se o autoritarismo oferece ordem pela exclusão, ser comunista é defender uma igualdade capaz de transformar as condições que produzem medo.

O comunismo, nesse sentido, não é uma nostalgia nem um insulto. É o nome de uma luta: fazer com que aqueles que produzem a riqueza possam decidir sobre ela e sobre o próprio tempo. A pergunta “o que é ser um comunista” encontra sua resposta menos em uma etiqueta do que em uma prática política. Ser comunista é escolher, conscientemente, o lado da emancipação humana contra um sistema que transforma a vida de todos em instrumento de lucro de poucos.