Ser comunista é defender uma sociedade em que os meios de produção — terras, fábricas, bancos, plataformas digitais, redes de transporte e tecnologias — estejam sob controle coletivo, e não subordinados à propriedade e ao lucro de uma minoria. É reconhecer que a riqueza é produzida socialmente, mas apropriada de maneira privada; que o trabalhador vende sua força de trabalho para sobreviver; e que a exploração não desaparece porque existe liberdade formal para escolher entre empregos ruins. Ser comunista, nesse sentido, é lutar para superar a divisão da sociedade em classes e construir uma organização econômica na qual a produção atenda às necessidades humanas, não à acumulação de capital.

A pergunta costuma aparecer acompanhada de confusão deliberada. No debate brasileiro, comunista é apresentado como sinônimo de ditador, inimigo da família, defensor da pobreza ou ameaça à religião. A extrema direita transforma uma posição política e uma tradição teórica em espantalho. O resultado é uma palavra usada como insulto antes de ser compreendida. Mas a resposta não está em repetir slogans: está em examinar quem trabalha, quem decide, quem se apropria da riqueza e por que uma sociedade capaz de produzir tanto mantém milhões sob insegurança, endividamento e medo.

O que é ser comunista na prática

Ser comunista não é apenas defender que o Estado seja dono de tudo, nem acreditar que qualquer governo que use a palavra comunismo tenha realizado uma sociedade comunista. O comunismo é, em Marx, o horizonte de superação das classes sociais, da exploração do trabalho assalariado e da separação entre produtores e decisões econômicas. A questão central não é trocar um proprietário privado por um burocrata intocável. É transformar a própria estrutura pela qual alguns controlam os recursos necessários à vida enquanto a maioria precisa obedecer para ter acesso a salário, moradia e consumo.

Um comunista pode defender políticas imediatas dentro do capitalismo, como aumento real do salário mínimo, redução da jornada, tributação dos mais ricos, fortalecimento dos serviços públicos, reforma agrária, direitos trabalhistas e controle democrático das plataformas. Essas medidas não são o comunismo acabado, mas reduzem a capacidade de chantagem do capital e ampliam o poder da classe trabalhadora. A luta política não começa somente no dia em que uma nova sociedade é proclamada. Ela ocorre também na disputa pelo orçamento, pelas leis, pelo tempo de trabalho, pela propriedade da terra e pela capacidade de decidir sobre aquilo que todos produzem.

Isso explica por que ser comunista não é esperar uma transformação mágica nem abandonar problemas concretos em nome de uma pureza doutrinária. Um entregador que participa de um breque dos aplicativos, uma trabalhadora que enfrenta o assédio no call center, um professor que reivindica carreira e tempo para preparar aulas, ou uma comunidade que luta por saneamento estão enfrentando formas específicas da mesma relação social: a prioridade dada à valorização do dinheiro sobre a reprodução da vida.

A propriedade privada que o comunismo critica

Quando alguém ouve que os comunistas são contra a propriedade privada, costuma imaginar que perderá sua casa, suas roupas, seus objetos pessoais ou o fruto de seu trabalho. Essa caricatura confunde propriedade pessoal com propriedade privada dos meios de produção. O alvo da crítica comunista não é a escova de dentes de uma pessoa, mas a propriedade que permite a uma classe controlar fábricas, terras, bancos, imóveis e empresas sem executar diretamente o trabalho que produz sua riqueza.

O trabalhador pode ser formalmente livre e ainda assim depender da venda de sua força de trabalho. Ele não pertence juridicamente ao patrão, como ocorria com o escravizado, mas também não controla as condições da produção. Para pagar aluguel, comida e transporte, precisa aceitar o emprego disponível. No local de trabalho, o tempo é comprado pela empresa e organizado para gerar mais valor do que aquele devolvido ao empregado em forma de salário. A diferença é a mais-valia, conceito central de Marx para explicar como o lucro nasce da exploração do trabalho, e não de uma suposta capacidade mágica do dinheiro de produzir dinheiro.

O proprietário de uma plataforma de entrega pode afirmar que apenas oferece tecnologia para aproximar restaurantes, consumidores e entregadores. Na realidade, a plataforma define tarifas, distribui pedidos, aplica bloqueios, mede desempenho e altera regras por meio de algoritmos. O entregador assume combustível, manutenção, risco de acidente e períodos sem chamada; a empresa conserva o controle da infraestrutura e captura parte do valor gerado. A aparência de autonomia encobre uma relação de subordinação. Ser comunista é enxergar essa relação mesmo quando ela aparece revestida de aplicativo, empreendedorismo e liberdade de escolha.

O que é ser comunista diante da desigualdade brasileira

No Brasil, a discussão não pode ser separada da escravidão, do latifúndio, do racismo e da concentração histórica da renda. A classe trabalhadora não é uma figura abstrata: ela tem cor, gênero, território e trajetórias diferentes. Trabalhadoras negras ocupam de maneira desproporcional os postos mais precarizados; moradores das periferias gastam horas no transporte; famílias pobres comprometem uma parcela elevada da renda com aluguel, alimentação e energia; jovens são empurrados para bicos e plataformas porque o mercado formal não oferece estabilidade.

O discurso meritocrático tenta converter esse resultado histórico em julgamento moral. Se alguém prospera, a narrativa diz que seu esforço foi suficiente; se alguém permanece pobre, supostamente faltaram disciplina e talento. O comunista rejeita essa explicação porque ela apaga as condições materiais da disputa. Não existe competição justa quando uma criança cresce com escola precária, alimentação insuficiente e ausência de acesso cultural, enquanto outra dispõe de patrimônio, contatos e tempo protegido para estudar. O mérito individual existe, mas não explica sozinho a distribuição social das oportunidades e da riqueza.

Também não basta dizer que todos podem abrir um negócio. O pequeno comerciante pode trabalhar longas jornadas e ainda estar submetido a bancos, fornecedores, aluguel e grandes redes. A ideologia capitalista transforma a insegurança em empreendedorismo e a ausência de direitos em flexibilidade. O entregador é chamado de parceiro para que a empresa negue a existência de vínculo; a pessoa que trabalha como falsa pessoa jurídica é chamada de empresária para que não receba férias, décimo terceiro e proteção previdenciária. A linguagem suaviza a exploração sem eliminá-la.

Comunismo, liberdade e democracia

Outra acusação frequente afirma que ser comunista é ser contra a liberdade. A acusação só parece plausível quando liberdade é reduzida à possibilidade jurídica de assinar contratos. Mas que liberdade existe para quem aceita uma jornada abusiva porque perder o trabalho significa não pagar o aluguel? Que autonomia possui o trabalhador de aplicativo quando a recusa de chamadas reduz sua avaliação e seu acesso a corridas? Que escolha efetiva tem uma família diante de um plano de saúde privado ou de um serviço público destruído por décadas de austeridade?

A liberdade liberal é importante, mas insuficiente. Liberdade de expressão, organização, voto e associação precisa existir, e um comunista consequente não deve tratar censura, perseguição política ou violência de Estado como detalhes secundários. Ao mesmo tempo, direitos formais não bastam quando a desigualdade material concentra os meios de comunicação, o tempo livre e o poder de decisão. A liberdade de um bilionário comprar influência política não equivale à liberdade de uma trabalhadora que não consegue faltar ao emprego para participar de uma assembleia.

O comunismo democrático amplia a liberdade ao questionar a submissão cotidiana ao proprietário. Defende que trabalhadores possam decidir sobre ritmo, finalidade e organização da produção; que serviços essenciais não sejam administrados segundo a rentabilidade; que o Estado seja controlado socialmente; e que a imprensa não seja confundida com o direito de meia dúzia de grupos econômicos controlarem o debate público. A democracia não deve parar na porta da fábrica, do hospital privado ou da empresa de tecnologia.

O comunismo não é sinônimo de autoritarismo

É preciso enfrentar uma objeção séria: experiências históricas realizadas em nome do socialismo produziram burocracias, repressão, censura e concentração de poder. Ignorar isso seria transformar crítica política em catecismo. Um projeto comunista não pode justificar prisão arbitrária, culto ao líder, eliminação da oposição ou controle absoluto da vida social. A emancipação humana não pode ser construída pela negação permanente da autonomia das pessoas.

Reconhecer esses problemas, porém, não autoriza o anticomunismo a apresentar o capitalismo como sistema democrático por natureza. O capitalismo também tem uma história de escravidão, colonialismo, golpes, ditaduras, guerras e repressão a sindicatos. No Brasil, a defesa da propriedade nunca impediu a tortura durante a ditadura empresarial-militar, a violência contra camponeses ou o assassinato de lideranças populares. Governos que protegem bancos e grandes empresas enquanto cortam direitos não deixam de ser autoritários porque realizam eleições.

A crítica deve ser dirigida aos mecanismos concretos de dominação, esteja ela sob uma bandeira liberal, nacionalista ou socialista. Um comunismo digno desse nome precisa combinar igualdade econômica, participação política, pluralismo, liberdade de organização e controle popular das instituições. A centralização burocrática não é solução para a exploração; pode apenas substituir o poder de uma classe pelo poder de uma camada administrativa. A meta é a associação livre dos produtores, não a obediência a um novo senhor.

Comunismo e socialismo não são palavras intercambiáveis

Socialismo e comunismo pertencem à mesma tradição de crítica ao capitalismo, mas não significam exatamente a mesma coisa em todos os autores e movimentos. Em muitas formulações marxistas, o socialismo designa uma fase de transição em que a propriedade dos meios de produção passa a ser socializada, enquanto o comunismo corresponde a uma sociedade sem classes, sem exploração e com formas políticas radicalmente transformadas. Outros movimentos usam os termos de modo diferente. Por isso, a palavra isolada não resolve a análise: é necessário perguntar qual propriedade será modificada, quem controlará a economia e quais direitos serão garantidos.

Também é incorreto chamar de comunista qualquer política pública que reduza a pobreza. Bolsa Família, valorização do salário mínimo, Minha Casa Minha Vida, expansão de institutos federais e fortalecimento do Sistema Único de Saúde são políticas de proteção social e redistribuição dentro de uma economia capitalista. Podem reduzir desigualdades e ampliar direitos sem abolir a propriedade privada dos meios de produção. A extrema direita chama toda política social de comunismo para defender privilégios, mas essa inflação semântica só revela seu medo de que a população reconheça direitos como direitos, e não como favores.

O governo Lula deve ser apoiado porque reabriu espaço para políticas de inclusão, reconstrução institucional e proteção social depois do desastre bolsonarista. A recuperação de programas, a retomada de políticas de valorização do trabalho e a defesa da democracia não realizam o comunismo, mas criam condições melhores para a organização popular. A esquerda não precisa fingir que o governo rompeu com o capitalismo; precisa disputar seus limites, pressionar por mais direitos e impedir que a alternativa seja o retorno de um projeto autoritário, privatista e hostil aos trabalhadores.

Por que o bolsonarismo chama tudo de comunismo

O bolsonarismo usa comunismo como inimigo imaginário para bloquear qualquer demanda por igualdade. Uma política de vacinação vira ditadura; a defesa dos povos indígenas vira ameaça à propriedade; a regulação de plataformas vira censura; a proteção trabalhista vira privilégio; a universidade pública vira doutrinação. Esse método não pretende discutir o comunismo real. Pretende produzir uma multidão mobilizada pelo medo, na qual o trabalhador é levado a defender a riqueza do bilionário como se defendesse a própria liberdade.

Essa operação ideológica funciona porque o capitalismo não se apresenta diariamente como uma doutrina. Ele aparece como normalidade: o aluguel que aumenta, a dívida que vence, o chefe que cobra metas, o aplicativo que bloqueia, a tarifa que sobe. O comunismo, ao contrário, é nomeado como ameaça externa para que a ordem existente pareça natural. A crítica comunista rompe essa aparência ao mostrar que o desemprego, a fome e a precarização não são acidentes individuais, mas efeitos de relações sociais organizadas em torno do lucro.

O ataque bolsonarista à democracia demonstrou que o perigo autoritário não vem apenas de quem se declara comunista. A tentativa de golpe após a derrota eleitoral, a destruição de prédios públicos em 8 de janeiro e a disseminação sistemática de desinformação revelaram um projeto disposto a destruir regras democráticas para proteger interesses políticos e econômicos. Defender a reeleição de Lula é, nesse cenário, defender a continuidade de um campo democrático contra o retorno de quem tentou submeter o resultado eleitoral à força. Para um comunista, essa defesa não significa abandonar a crítica ao governo; significa compreender a correlação de forças concreta.

Ser comunista é organizar uma outra relação com o trabalho

A experiência de trabalho é o ponto em que a teoria deixa de ser palavra distante. O professor que leva tarefas para casa, a operadora de telemarketing controlada por métricas, o enfermeiro submetido a plantões exaustivos e o entregador que pedala sob chuva conhecem a alienação antes mesmo de conhecer o termo. O trabalhador produz, mas não decide o que produzir, para quem, em que ritmo ou com qual finalidade. O resultado do esforço aparece como força estranha: o produto, a meta, o algoritmo e a empresa se voltam contra quem os sustenta.

Marx chamou de alienação essa separação do trabalhador em relação ao produto, ao processo de trabalho, aos outros seres humanos e à própria capacidade criadora. O capitalismo transforma a atividade vital em meio de sobrevivência. O tempo que poderia ser dedicado ao descanso, à cultura, à convivência e à participação política é convertido em tempo comprado pelo capital. A chamada flexibilidade frequentemente significa que a empresa transfere riscos para o indivíduo e conserva o direito de exigir disponibilidade permanente.

Ser comunista é contestar essa naturalização. É afirmar que uma sociedade rica deve reduzir o tempo de trabalho, garantir emprego digno, socializar tecnologias, fortalecer sindicatos e permitir que decisões produtivas sejam submetidas às necessidades coletivas. A automação não deveria expulsar trabalhadores para a miséria enquanto aumenta o lucro dos proprietários. Poderia liberar tempo social, desde que seus ganhos fossem distribuídos e que a tecnologia estivesse sob controle democrático.

Uma posição política, não uma identidade de consumo

Ser comunista não consiste em consumir determinada estética, repetir palavras de ordem ou declarar superioridade moral. Também não exige desconhecer contradições pessoais, abandonar afetos ou viver fora das relações capitalistas. Todos estamos envolvidos em instituições e práticas que não escolhemos individualmente. A questão é saber se aceitamos essas relações como destino ou se nos organizamos para transformá-las.

A organização é decisiva porque nenhum indivíduo derrota sozinho uma estrutura social. Sindicato, partido, movimento de moradia, associação comunitária, coletivo estudantil e mobilização popular são formas de construir força comum. A consciência não nasce apenas de leituras, embora a teoria seja indispensável; ela se forma quando a experiência particular é ligada à estrutura geral. O problema do entregador deixa de parecer fracasso individual quando ele encontra outros entregadores e identifica a lógica da plataforma. A indignação se torna política quando descobre um adversário social e uma possibilidade coletiva.

Essa perspectiva não promete uma sociedade perfeita nem oferece atalhos. Ela exige disputa prolongada contra proprietários, rentistas, aparelhos ideológicos e formas de preconceito que atravessam a classe trabalhadora. Exige também combater o racismo, o machismo, a LGBTfobia e toda hierarquia que divida os explorados e torne alguns mais disponíveis à exploração do que outros. A emancipação não será verdadeira se uma parte da humanidade continuar submetida para que outra desfrute de igualdade.

A resposta final para a pergunta

O que é ser comunista? É tomar partido de quem produz a riqueza contra a ordem que concentra essa riqueza; compreender a exploração para além de seus disfarces; defender a democracia econômica e política; lutar por igualdade substantiva, não apenas por oportunidades abstratas; e imaginar uma sociedade em que o trabalho deixe de ser uma imposição destinada ao lucro de poucos. É não aceitar que a fome de uns seja o preço da fortuna de outros.

Essa posição não exige romantizar governos, apagar derrotas históricas ou negar a liberdade. Exige justamente levar liberdade e democracia a sério, retirando-as do domínio exclusivo de quem possui dinheiro. No Brasil, significa apoiar medidas que protejam a classe trabalhadora, disputar os limites do governo Lula e impedir que o bolsonarismo retorne ao poder, sem confundir esse apoio tático com a conclusão da luta. O comunismo começa como crítica, mas não termina nela: transforma a indignação diante da exploração em organização para que a riqueza social seja finalmente governada por aqueles que a produzem.