O facciosismo costuma ser apresentado como simples divisão entre grupos, disputa interna ou intolerância entre torcidas políticas. Essa definição descreve o fenômeno sem explicar sua função. No Brasil, o facciosismo tornou-se uma forma de organizar o ressentimento social: transforma insegurança material em guerra moral, substitui conflito de classe por rivalidade entre identidades políticas e faz trabalhadores reconhecerem como inimigos aqueles que vivem sob as mesmas condições de exploração. O problema não está apenas na existência de opiniões divergentes, mas na fabricação de comunidades fechadas que disputam símbolos, humilhações e inimigos enquanto o poder econômico permanece protegido.

O caso do bolsonarismo oferece a expressão mais visível dessa dinâmica. A mobilização que culminou nos ataques de 8 de janeiro não foi somente uma explosão irracional de fanatismo, nem pode ser reduzida à ação isolada de indivíduos violentos. Ela condensou uma forma de política na qual a derrota eleitoral é convertida em prova de fraude, a divergência em traição e a defesa da democracia em conspiração. A facção se apresenta como o povo verdadeiro e transforma todos os demais em corpo estranho. Essa estrutura não nasceu nas redes sociais, mas encontrou nelas uma máquina eficiente de repetição, vigilância mútua e radicalização.

O facciosismo como forma política da fragmentação

Uma facção não é simplesmente um grupo que pensa diferente. Ela se constitui quando uma parte passa a se apresentar como totalidade legítima, reivindicando falar em nome do povo enquanto recusa qualquer vínculo comum com os demais. Seu funcionamento depende da produção de fronteiras rígidas: patriotas contra traidores, cidadãos de bem contra criminosos, trabalhadores honestos contra vagabundos, cidadãos produtivos contra beneficiários de políticas públicas. A facção precisa de um inimigo permanente porque sua coesão não nasce de um projeto material compartilhado, mas da hostilidade dirigida para fora.

Essa forma política prospera quando a vida social é marcada por competição generalizada. O trabalhador que depende de um aplicativo para obter renda disputa corridas com outros trabalhadores; o professor submetido a metas disputa reconhecimento com colegas; o operador de call center é avaliado como se sua sobrevivência dependesse de uma performance individual contínua. A concorrência não termina no local de trabalho. Ela atravessa a percepção que cada pessoa tem de si mesma e dos outros. Em vez de reconhecer uma condição comum de dependência, o indivíduo aprende a medir sua posição por comparação, suspeita e ressentimento.

Marx descreveu a relação capitalista como uma relação social que aparece invertida. O trabalhador não enxerga diretamente o conjunto das relações que produz sua pobreza e sua insegurança; enxerga mercadorias, salários, patrões particulares e oportunidades disputadas. A exploração parece resultado de contratos isolados, escolhas pessoais e diferenças de mérito. No facciosismo, essa inversão ganha uma forma política agressiva. O conflito produzido pela propriedade, pela dívida, pela precarização e pela concentração de poder é deslocado para a oposição entre grupos sociais que disputam reconhecimento, território moral e acesso a direitos.

Não se trata de afirmar que toda identidade coletiva é uma facção ou que toda divergência deve ser dissolvida numa unidade abstrata. Movimentos de trabalhadores, organizações negras, sindicatos e lutas populares constroem diferenças reais contra relações de dominação. A distinção está no sentido da organização. Uma luta emancipatória explicita quem concentra poder e como a exploração funciona; o facciosismo obscurece essa estrutura e faz da própria massa explorada o alvo preferencial de sua energia política.

Da precarização ao inimigo imaginário

A precarização cria um terreno fértil para o facciosismo porque destrói as mediações coletivas que poderiam transformar sofrimento individual em reivindicação comum. O entregador que passa o dia na rua, sem salário fixo, sem proteção suficiente e subordinado às regras de uma plataforma, sente concretamente a instabilidade. Mas essa instabilidade raramente aparece para ele como resultado de uma relação estrutural com uma empresa de tecnologia e com um mercado de trabalho desregulado. Ela é vivida como fracasso pessoal, azar ou ameaça provocada por outros trabalhadores.

O mesmo ocorre com quem trabalha em um call center e precisa atingir metas de atendimento sob vigilância contínua. A pressão é administrada por indicadores, scripts e avaliações que transformam cada minuto em unidade de produtividade. Como a empresa apresenta o desempenho como responsabilidade individual, o colega que não alcança a meta surge como peso morto; aquele que alcança é celebrado como exemplo. A divisão interna substitui a solidariedade, embora todos permaneçam submetidos ao mesmo regime de controle.

O discurso faccioso aproveita essa experiência e oferece uma explicação simples para uma angústia complexa. A culpa pode ser atribuída ao imigrante, ao beneficiário de uma política social, ao professor, ao servidor público, ao militante de esquerda, ao morador da periferia ou ao trabalhador que protesta. O alvo varia conforme a conjuntura, mas a operação é constante: converter uma contradição social em defeito moral de um grupo. A exploração deixa de ser uma relação entre classes e passa a parecer uma disputa entre pessoas merecedoras e indignas.

Nesse processo, a ideologia da meritocracia desempenha papel central. Ela afirma que cada posição social corresponde ao esforço de cada indivíduo, embora as condições de partida sejam profundamente desiguais e o trabalho seja organizado por poderes que o trabalhador não controla. A meritocracia fornece ao vencedor uma narrativa de superioridade e ao derrotado uma acusação contra si próprio. O facciosismo acrescenta a essa narrativa uma comunidade emocional: os vencedores imaginários se reconhecem como cidadãos corretos e os derrotados são convidados a odiar quem está um pouco abaixo deles.

As plataformas transformam ressentimento em circulação

As plataformas digitais não inventaram o facciosismo, mas alteraram sua escala, velocidade e forma. O algoritmo de plataforma não é apenas uma ferramenta neutra que entrega conteúdos de acordo com preferências individuais. Ele organiza a visibilidade segundo critérios comerciais, captura atenção e recompensa aquilo que prolonga a permanência do usuário. A indignação, a acusação e o escândalo são particularmente eficazes nesse circuito porque produzem reação imediata. A política passa a ser consumida como sequência de choques, humilhações e provas de pertencimento.

Nas redes, a facção funciona como público e como tribunal. Cada participante precisa demonstrar fidelidade, compartilhar a mensagem correta, denunciar o desvio e vigiar a linguagem dos demais. A postagem não é somente uma opinião; é uma pequena cerimônia de adesão. Quem hesita pode ser acusado de covardia, infiltração ou traição. A velocidade da circulação reduz o tempo necessário para verificar fatos e aumenta a pressão para reagir. O indivíduo sente que participa de uma comunidade poderosa, mas sua participação ocorre dentro de um ambiente comercial que transforma sua atenção, seus dados e seus conflitos em valor.

Guy Debord mostrou que o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. Essa formulação ajuda a compreender o facciosismo digital. A política espetacular não elimina a realidade material; ela a reorganiza como representação. O desemprego aparece como vídeo de um inimigo recebendo benefício. O medo da violência aparece como montagem de cenas selecionadas. A frustração com o Estado aparece como culto a um líder que encena força. A imagem não precisa explicar a sociedade; basta oferecer um objeto visível para concentrar a raiva que não encontra sua causa.

O bolsonarismo construiu grande parte de sua força nesse mecanismo. Sua linguagem não depende de um programa coerente capaz de responder às necessidades da classe trabalhadora. Depende de uma fronteira moral que divide o país entre um povo autêntico e seus supostos usurpadores. A facção pode defender privatizações, cortes de direitos e desregulamentação que prejudicam trabalhadores e, ao mesmo tempo, apresentar-se como rebelião contra o sistema. A contradição é administrada por símbolos, gestos de masculinidade, ataques às instituições e promessas de restauração nacional.

Le Bon, a multidão e o poder que a organiza

Gustave Le Bon percebeu que a multidão pode produzir uma psicologia distinta da conduta individual, marcada pela sugestão, pela repetição e pela redução da capacidade crítica. Seu problema foi transformar essa observação em desconfiança elitista das massas, como se a irracionalidade popular fosse uma propriedade natural dos muitos. Uma leitura crítica precisa inverter o foco: não basta perguntar por que a multidão acredita; é preciso perguntar quem dispõe dos meios de sugestão, quais interesses organizam a repetição e que condições sociais tornam determinadas imagens convincentes.

A multidão bolsonarista não foi espontânea no sentido de surgir sem organização. Ela foi alimentada por redes de comunicação, lideranças, canais de mensagem, empresários de influência e agentes políticos que ofereceram uma gramática pronta para interpretar a crise. Mesmo quando um participante acreditava sinceramente agir em defesa da pátria, sua ação estava inserida numa arquitetura de mobilização. A autenticidade da emoção não elimina a direção política que a emoção recebeu.

O facciosismo contemporâneo combina a multidão descrita por Le Bon com o individualismo neoliberal. A pessoa é isolada em sua vida econômica, mas conectada a uma massa digital. Trabalha como se fosse uma empresa de si mesma, consome informação em bolhas e, ao mesmo tempo, busca no grupo virtual uma confirmação de pertencimento. A facção promete comunidade sem oferecer organização coletiva capaz de enfrentar o capital. Oferece identidade, não poder; catarse, não transformação; inimigos, não explicação.

O Estado aparece como inimigo e como proteção da ordem

A relação do facciosismo com o Estado é contraditória. A facção denuncia o Estado quando ele garante direitos, reconhece minorias, regula empresas ou administra políticas sociais. Mas exige sua força quando se trata de repressão, vigilância, punição e proteção da propriedade. A retórica antissistema pode coexistir com a defesa de um Estado autoritário, desde que esse Estado seja imaginado como instrumento exclusivo do grupo correto.

A análise de Alysson Mascaro sobre a forma política ajuda a evitar uma interpretação superficial. O Estado capitalista não é simplesmente um balcão ocupado por este ou aquele governante; ele organiza juridicamente relações sociais baseadas na propriedade privada e na circulação de mercadorias. Por isso, mesmo quando garante direitos formais, preserva as condições gerais da reprodução capitalista. O facciosismo explora a frustração com essa estrutura, mas a redireciona contra instituições específicas ou grupos sociais. A crítica ao Estado deixa de atingir a forma social que o sustenta e se converte em pedido por um Estado ainda mais seletivo.

Foi essa ambiguidade que apareceu no 8 de janeiro. A mobilização atacou instituições estatais em nome de uma concepção autoritária do Estado. Não pretendia abolir a autoridade, a polícia, a propriedade ou a hierarquia social. Pretendia tomar a autoridade para uma facção, declarar ilegítimos os adversários e impor uma ordem política apresentada como vontade do povo verdadeiro. O episódio revelou que o discurso contra o sistema pode ser, na prática, uma disputa pelo comando de suas engrenagens repressivas.

A resposta democrática ao facciosismo não pode se limitar à defesa abstrata das instituições. É necessário enfrentar os interesses econômicos e as condições sociais que tornam a frustração capturável por projetos autoritários. Uma democracia que preserva a insegurança no trabalho, deixa plataformas controlarem a renda e trata o acesso a direitos como privilégio produz continuamente o material humano do ressentimento. A forma institucional pode ser defendida sem ser idealizada. O problema não é escolher entre democracia formal e transformação social; é compreender que a primeira se esvazia quando a segunda é bloqueada.

Quando a classe trabalhadora passa a defender sua própria divisão

O aspecto mais destrutivo do facciosismo é fazer a classe trabalhadora agir contra sua própria possibilidade de organização. Um entregador pode ser levado a odiar outro entregador por causa da origem, da cor, do gênero ou da posição política. Um trabalhador endividado pode defender cortes que atingem serviços dos quais depende. Um empregado submetido a metas pode acreditar que o problema é o colega protegido por uma regra trabalhista. A consciência de classe não desaparece porque as pessoas deixam de sofrer; ela é bloqueada pela interpretação individualizada e moralizada do sofrimento.

Isso não significa que a classe trabalhadora exista como uma unidade pronta, esperando apenas ser reconhecida. Ela é atravessada por racismo, machismo, diferenças regionais, vínculos religiosos e disputas concretas. O capitalismo não apenas explora trabalhadores; também utiliza essas divisões para distribuir desigualmente a exploração e impedir alianças. Uma política anticapitalista não pode pedir que os grupos oprimidos silenciem suas experiências em nome de uma unidade conveniente. Precisa mostrar como as opressões se articulam com a exploração e como a divisão social é administrada pelo capital.

A diferença entre conflito progressivo e facciosismo está no horizonte da disputa. Quando trabalhadores negros denunciam a discriminação no trabalho, revelam uma estrutura que beneficia empresas e hierarquias sociais. Quando entregadores se organizam para exigir remuneração e proteção, tornam visível o poder da plataforma. Quando professores enfrentam a precarização, questionam a transformação da educação em serviço submetido a metas. Já a facção que culpa o trabalhador negro, o entregador estrangeiro ou o professor por sua própria precariedade desloca o conflito para baixo e preserva os mecanismos que produzem a desigualdade.

Romper a facção exige reconstruir o comum

Combater o facciosismo não é pedir moderação aos trabalhadores nem condenar a política apaixonada em nome de uma racionalidade neutra. A paixão popular pode mover greves, ocupações, campanhas de solidariedade e lutas por direitos. O que precisa ser enfrentado é a paixão organizada para proteger a propriedade e atacar os explorados. A saída não está em substituir o conflito por conciliação, mas em disputar seu objeto: retirar a energia social da guerra entre grupos e orientá-la contra as relações que produzem insegurança.

Essa tarefa exige reconstruir espaços coletivos fora da lógica da plataforma. Sindicato, associação de bairro, movimento de trabalhadores, cooperativa e organização popular não são automaticamente emancipatórios, mas podem criar condições para que experiências dispersas se reconheçam como problema comum. O trabalhador precisa deixar de aparecer como perfil isolado, nota de avaliação ou unidade de produtividade. Precisa poder falar com outros trabalhadores sobre jornada, renda, saúde, moradia, racismo, transporte e poder de decisão.

Também é necessário disputar a tecnologia. A questão não é retornar a uma sociedade sem redes, mas retirar das empresas a autoridade de organizar sozinhas a circulação da informação e o trabalho social. Transparência algorítmica, controle público, direitos trabalhistas e soberania sobre dados são importantes, mas não bastam se continuarem subordinados à lógica de valorização do capital. Uma plataforma administrada de modo mais transparente ainda pode explorar; o problema está em quem decide, quem se apropria do resultado e para que finalidade a tecnologia é empregada.

O facciosismo cresce onde a vida comum foi privatizada e cada indivíduo foi abandonado à própria sorte. Ele oferece uma comunidade imaginária para pessoas submetidas a uma realidade fragmentada. Por isso, sua superação não virá de apelos à tolerância dirigidos aos que sofrem, nem de campanhas contra conteúdos específicos enquanto permanecem intactas as condições econômicas da alienação. Será preciso produzir instituições coletivas capazes de disputar renda, tempo, informação e poder.

A facção diz ao trabalhador que seu vizinho é o inimigo, que o direito do outro é a causa de sua privação e que a salvação depende de um líder disposto a punir os desviantes. A política emancipatória precisa responder com algo mais difícil que um slogan: a demonstração prática de que a vida de cada trabalhador está ligada à vida dos demais e que essa ligação pode se converter em força organizada. Não há unidade natural esperando ser descoberta. Há uma unidade a ser construída contra o capital, contra o racismo, contra a precarização e contra todas as formas de poder que transformam a exploração compartilhada em ódio entre os explorados.