O que é polarização política quando o conflito social aparece como uma guerra entre torcidas? A pergunta costuma receber respostas escolares: polarização seria a divisão da sociedade em dois polos ideológicos, geralmente identificados como esquerda e direita. A definição não está errada, mas é insuficiente para compreender o Brasil. Ela descreve a aparência do fenômeno e abandona justamente o que precisa ser explicado: por que milhões de pessoas passam a interpretar salários, segurança, religião, escola, trabalho e Estado por meio de uma disputa afetiva entre campos políticos inimigos.
A polarização brasileira não surgiu simplesmente porque os cidadãos ficaram mais apaixonados por suas opiniões. Ela foi produzida sobre uma sociedade marcada pela desigualdade, pela precarização do trabalho, pelo racismo, pelo abandono estatal e pela concentração dos meios de comunicação. O conflito real, que poderia opor trabalhadores e proprietários, credores e endividados, moradores das periferias e gestores da austeridade, é reorganizado como uma batalha moral entre cidadãos de bem e inimigos da nação. A política não desaparece. Ela é comprimida em uma forma espetacular que torna algumas disputas visíveis e outras quase impossíveis de nomear.
Polarização política não é apenas divergência de opinião
Divergência faz parte da política. Sociedades atravessadas por interesses distintos não podem ser reduzidas a uma harmonia artificial. Trabalhadores e empresários não ocupam a mesma posição diante da jornada, do salário ou da legislação trabalhista; moradores de bairros ricos e habitantes de regiões sem saneamento não experimentam o Estado da mesma maneira. O problema não está em haver conflito, mas na forma social que o conflito assume e nos interesses que essa forma consegue ocultar.
A polarização política contemporânea transforma diferenças sociais em identidades totais. O eleitor deixa de ser visto como alguém que participa de relações concretas de classe e passa a ser tratado como membro de uma tribo: petista, bolsonarista, comunista, patriota, cidadão de bem, lacrador. Cada rótulo pretende explicar a pessoa inteira. Com isso, uma discussão sobre orçamento público pode ser reduzida a uma prova de patriotismo; uma reivindicação trabalhista, a uma ameaça comunista; uma política de proteção social, a uma recompensa para preguiçosos. A linguagem da disputa já chega pronta, e o indivíduo escolhe um lado antes de compreender o problema.
Essa transformação tem uma dimensão material. A vida social é cada vez mais organizada por relações que o trabalhador não controla: o preço dos alimentos, a dívida, o aluguel, a avaliação do aplicativo, a demissão por uma decisão administrativa, a mudança de turno, o bloqueio de uma conta. Ainda assim, a ideologia dominante apresenta essas determinações como escolhas pessoais. O entregador que trabalha doze horas é convidado a enxergar outro trabalhador como seu inimigo político, enquanto a empresa que controla a plataforma aparece como inovação neutra. A polarização oferece uma explicação emocional para uma impotência que tem origem econômica.
Do conflito de classes à guerra entre identidades
Marx mostrou que o capitalismo não é apenas um sistema de troca, mas uma relação social fundada na separação entre quem controla os meios de produção e quem precisa vender sua força de trabalho. Essa estrutura não some quando os trabalhadores discutem eleições nas redes sociais. Ela apenas deixa de ser o centro visível da interpretação. A polarização funciona, muitas vezes, como um deslocamento: o conflito sobre a distribuição da riqueza torna-se conflito sobre costumes, símbolos nacionais, linguagem, comportamento e pertencimento.
Isso não significa que os conflitos culturais sejam falsos ou secundários. Racismo, machismo, LGBTfobia e intolerância religiosa produzem violência concreta e são incorporados pelo capitalismo. O ponto é outro: a disputa política é frequentemente organizada de modo a separar o que deveria ser compreendido em conjunto. Um trabalhador negro pode ser mobilizado contra políticas de igualdade racial por meio do discurso de que todos vencem pelo esforço individual. Uma trabalhadora pode ser convocada a defender a família enquanto enfrenta uma jornada exaustiva e a ausência de creches. A ideologia não precisa negar a realidade; basta rearranjá-la em uma narrativa que preserve as relações de poder.
No Brasil, o bolsonarismo aperfeiçoou esse mecanismo ao converter ressentimentos reais em uma guerra permanente contra inimigos difusos. A crise do emprego, o medo da violência, a revolta com a corrupção e a descrença nas instituições foram canalizados para uma agenda de anticomunismo imaginário, militarização da vida pública, hostilidade às universidades, ataque às políticas sociais e defesa de uma autoridade presidencial sem limites. O trabalhador precarizado não recebeu controle sobre a empresa nem segurança econômica. Recebeu a promessa de que sua liberdade seria protegida contra professores, artistas, jornalistas, ministros e supostos conspiradores.
A força dessa operação não está apenas nas mentiras isoladas. Está na construção de um ambiente em que toda informação é julgada pela identidade de quem a transmite. Uma denúncia sobre o governo é descartada como perseguição; uma notícia favorável é aceita porque confirma a pertença ao grupo. A verdade deixa de ser um critério comum e passa a ser uma arma de facção. A desinformação não precisa convencer todos sobre um mesmo fato. Basta impedir que exista um terreno compartilhado para investigar o mundo.
O espetáculo transforma a política em consumo de imagens
Guy Debord definiu o espetáculo como uma relação social mediada por imagens. A formulação é mais profunda do que a ideia de que as pessoas assistem demais a vídeos. No espetáculo, a própria relação entre os indivíduos passa a ser organizada por representações que se apresentam como realidade imediata. A política brasileira se tornou um campo privilegiado desse processo: a pose, o corte de vídeo, a frase de efeito, a provocação e o escândalo circulam com mais velocidade do que qualquer explicação sobre orçamento, propriedade ou trabalho.
Um presidente que imita um homem comum diante da câmera pode aparecer como expressão autêntica do povo, mesmo quando governa em favor de interesses econômicos muito concretos. Um gesto com a bandeira, uma motociata ou uma transmissão ao vivo não são apenas símbolos; são mercadorias políticas que produzem reconhecimento e pertencimento. A imagem substitui a mediação coletiva. Em vez de organizar trabalhadores para discutir seus interesses, ela oferece a sensação de proximidade com uma figura que fala diretamente ao público.
As redes sociais intensificam esse processo porque transformam a atenção em recurso econômico. A plataforma não precisa que o usuário compreenda mais; precisa que continue reagindo, compartilhando e retornando. O conteúdo que provoca indignação, medo ou desprezo tem vantagem sobre o argumento que exige tempo. A polarização é rentável porque produz permanência. O adversário político não deve apenas ser derrotado: precisa ser exposto, ridicularizado e mantido em circulação como inimigo permanente.
O caso das eleições brasileiras evidencia essa lógica. A disputa presidencial foi apresentada muitas vezes como uma escolha absoluta entre salvação e destruição, democracia e comunismo, família e ameaça moral, povo e sistema. Essa forma apocalíptica de enquadramento não nasceu do nada, mas reduziu a capacidade de discutir as continuidades econômicas entre governos, os limites do presidencialismo, a força do Congresso, a autonomia do capital financeiro e a estrutura tributária regressiva. A cada novo escândalo, a indignação foi renovada; a cada renovação, as causas profundas da insegurança permaneceram intactas.
Le Bon e a multidão administrada pelas plataformas
Gustave Le Bon, em sua análise das multidões, observou que a massa pode ser mobilizada por imagens, repetições e fórmulas simples, com o enfraquecimento da avaliação individual. Seu pensamento carregava limites e preconceitos próprios de sua época, mas contém um elemento útil para entender a política espetacular: a adesão coletiva não depende de argumentos consistentes quando uma narrativa oferece identificação, inimigos e uma sensação de força compartilhada.
Nas plataformas digitais, essa dinâmica não ocorre em uma multidão espontânea reunida na praça. Ela é mediada por empresas que classificam comportamentos, recomendam conteúdos e organizam a visibilidade. O algoritmo não é um sujeito neutro que apenas mostra o que as pessoas desejam. Ele participa da produção do desejo ao selecionar o que aparece, medir a reação e intensificar aquilo que gera interação. A multidão digital é simultaneamente mobilizada e administrada.
O resultado é uma política de impulsos. O usuário recebe uma sequência de acusações, ameaças e provas de que o outro lado é irrecuperável. A repetição produz familiaridade; a familiaridade se apresenta como evidência. Depois de circular muitas vezes, uma montagem pode adquirir a força emocional de uma lembrança pessoal. O sujeito não precisa saber quem produziu o conteúdo, nem como ele foi editado. A sua certeza nasce do volume de aparições e da confirmação dos seus iguais.
Essa arquitetura também distribui a palavra de maneira desigual. Um entregador sem renda estável, um professor sobrecarregado e uma empresa com equipe profissional de comunicação podem publicar na mesma plataforma, mas não dispõem da mesma capacidade de produzir alcance. A aparência de participação universal esconde a concentração dos recursos de visibilidade. O cidadão acredita estar disputando a esfera pública em condições horizontais, enquanto seus afetos são capturados por negócios que transformam conflito em tráfego e tráfego em receita.
O Estado aparece como inimigo ou salvador, nunca como relação de classe
A polarização também reorganiza a imagem do Estado. Para a direita bolsonarista, o Estado é apresentado como uma máquina ideológica que ameaça a família, a propriedade e a liberdade individual, embora seja convocado para proteger contratos, policiar periferias e garantir condições de acumulação. Para setores progressistas, ele pode aparecer como instrumento capaz de corrigir desigualdades, mas frequentemente sem que se examine a forma capitalista que limita sua atuação e preserva a propriedade privada.
Alysson Mascaro explica que o Estado não deve ser compreendido como um árbitro acima das classes, capaz de escolher livremente entre interesses sociais. No capitalismo, a forma estatal se relaciona estruturalmente à forma mercadoria e à concorrência, garantindo as condições gerais de reprodução do capital mesmo quando concede direitos e políticas públicas. Essa formulação ajuda a escapar de duas ilusões opostas: a de que todo problema se resolve elegendo o governante correto e a de que todo Estado é simplesmente um inimigo externo da sociedade.
Quando a polarização reduz a política à personalidade de um presidente, o debate sobre a estrutura estatal perde espaço. O eleitor passa a esperar um líder que governe por decreto moral, por bravata ou por carisma. Se a vida continua difícil, a explicação é que o líder foi traído, sabotado ou cercado por inimigos. A própria frustração alimenta uma nova rodada de fidelidade. O sistema permanece, mas a indignação é dirigida para dentro da torcida.
É nesse ponto que a polarização se torna funcional para a dominação. Ela não elimina a crítica ao governo; ela a canaliza para uma guerra que raramente alcança a propriedade, a dívida, a concentração econômica e o controle do trabalho. A esquerda pode ser atacada por não satisfazer imediatamente todas as necessidades populares, mas também precisa reconhecer o risco de aceitar a política como uma disputa exclusivamente eleitoral e comunicacional. Sem organização social, a vitória institucional pode produzir alívio sem alterar a dependência material que sustenta o ressentimento.
A polarização no cotidiano do trabalho
Considere o professor de escola pública que recebe cobranças por desempenho, enfrenta salas superlotadas e precisa lidar com plataformas educacionais que registram cada atividade. Seu problema é material: tempo, salário, autonomia e condições de ensino. Mas a polarização o convida a enxergar o colega como inimigo ideológico. O professor que critica o governo vira doutrinador; o que defende autoridade vira fascista. A direção, a secretaria e os fornecedores de tecnologia desaparecem atrás da briga moral.
Considere também o operador de call center submetido a metas, scripts e monitoramento contínuo. Sua voz é medida, sua pausa é calculada, sua produtividade é comparada. A administração converte sofrimento em indicador e apresenta a demissão como consequência de desempenho insuficiente. Em vez de discutir a exploração, o trabalhador é convidado a disputar a imagem de quem é mais esforçado, mais patriota ou mais alinhado com o gerente. A rivalidade horizontal faz o controle parecer mérito.
O entregador de aplicativo vive uma versão ainda mais direta dessa contradição. Ele pode ser chamado de empreendedor, embora não determine o preço da corrida, o modo de distribuição dos pedidos, a avaliação que recebe ou os critérios de bloqueio. A plataforma individualiza o risco e esconde a relação de trabalho sob a linguagem da autonomia. Ao mesmo tempo, a polarização oferece inimigos fáceis: o consumidor que reclama, o imigrante que aceita outra tarifa, o manifestante que bloqueia a rua, o político que supostamente defende privilégios. A empresa permanece como infraestrutura invisível da vida precarizada.
Nos três casos, a divisão política não é uma fantasia sem base. Ela se apoia em frustrações, humilhações e medos reais. O problema é que essas experiências são separadas de suas causas e devolvidas aos indivíduos como ressentimento. A alienação não consiste apenas em trabalhar para outro; consiste também em perder a capacidade de reconhecer, na própria experiência, a estrutura social que a produz.
Superar a polarização não significa pedir conciliação
Defender a superação crítica da polarização não significa pedir moderação, consenso entre explorados e exploradores ou uma falsa neutralidade entre democracia e autoritarismo. Não há simetria entre quem defende direitos sociais e quem mobiliza racismo, violência política e mentira organizada para preservar privilégios. O bolsonarismo não deve ser tratado como uma opinião excêntrica equivalente a qualquer projeto democrático. Ele expressou uma resposta autoritária à crise, apoiada na militarização, no culto ao chefe e na destruição de mediações coletivas.
Superar a forma polarizada do conflito exige deslocar o centro da política. Em vez de perguntar apenas qual lado venceu a disputa digital, é preciso perguntar quem controla o trabalho, quem se apropria da riqueza, quem define o funcionamento das plataformas, quem paga a conta da crise e quais vidas são protegidas pelo Estado. A luta contra a extrema direita não se sustenta apenas com checagem de fatos ou defesa abstrata das instituições. Precisa enfrentar as condições materiais que tornam o ressentimento disponível para a manipulação autoritária.
Isso implica reconstruir formas de organização que não dependam da imagem de um líder nem da reação instantânea a um inimigo. Sindicato, associação de bairro, movimento de entregadores, coletivo de trabalhadores da educação e organização popular podem devolver espessura à experiência comum. Nesses espaços, a pessoa deixa de ser apenas audiência e passa a elaborar um interesse coletivo. A consciência política não nasce de uma timeline mais equilibrada, mas da prática de transformar problemas privados em reivindicações compartilhadas.
A polarização política brasileira é, assim, menos uma doença moral da população do que uma forma histórica de administrar conflitos em uma sociedade desigual. Ela converte a insegurança econômica em ódio cultural, a exploração em competição entre indivíduos e a política em espetáculo de pertencimento. Sua superação não virá de uma imagem mais simpática, de uma campanha publicitária moderada ou de um apelo genérico à paz. Virá quando a sociedade puder reconhecer, por trás da guerra entre torcidas, as relações concretas que distribuem poder, riqueza e vulnerabilidade.
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