Polarização não é apenas a existência de opiniões diferentes, nem o resultado inevitável de uma sociedade que debate intensamente. No Brasil, ela se tornou uma tecnologia política: organiza ressentimentos, distribui inimigos, simplifica conflitos e desloca a atenção das relações materiais que estruturam a vida social. O trabalhador que teme perder o emprego, a família endividada, o professor submetido à vigilância, o entregador controlado por um aplicativo e o pequeno comerciante esmagado por bancos e grandes plataformas são convocados a interpretar sua própria precariedade como uma batalha moral entre cidadãos de bem e inimigos da nação.

Essa operação alcançou uma forma especialmente agressiva com o bolsonarismo. A guerra contra o comunismo imaginário, contra professores, artistas, jornalistas, movimentos sociais, pessoas LGBT, universidades e vacinas funcionou como uma cortina ideológica diante de problemas concretos: desemprego, desindustrialização, fome, destruição de direitos, concentração de renda e captura do Estado por interesses empresariais. A polarização, nesse quadro, não expressa simplesmente uma sociedade dividida. Ela fabrica uma divisão conveniente, capaz de transformar vítimas do mesmo sistema em adversários inconciliáveis.

Polarização não é o conflito social em si

Uma sociedade capitalista já nasce atravessada por antagonismos. De um lado, estão aqueles que controlam os meios de produção, o crédito, a terra, as plataformas e as decisões econômicas. De outro, estão aqueles que precisam vender sua força de trabalho para sobreviver. Essa oposição não depende de discursos inflamados nem de redes sociais. Ela existe na relação entre quem trabalha e quem se apropria do resultado do trabalho.

O problema é que essa estrutura raramente aparece na consciência imediata dos indivíduos. Marx mostrou que as relações sociais do capitalismo assumem a aparência de relações entre coisas e indivíduos isolados. O salário parece uma troca livre entre equivalentes; o aplicativo parece um simples intermediário; a demissão parece o resultado de uma insuficiência pessoal; a pobreza parece falta de esforço. A ideologia transforma relações históricas em destinos individuais.

A polarização contemporânea atua sobre esse terreno. Ela não elimina o conflito, mas o redireciona. Em vez de o trabalhador reconhecer a exploração comum que aproxima o entregador de aplicativo, a enfermeira, o professor temporário e o operador de telemarketing, ele é estimulado a reconhecer no vizinho um inimigo cultural. A disputa deixa de ser organizada em torno da propriedade, do poder econômico e das condições de trabalho e passa a ser encenada como confronto entre estilos de vida, crenças e identidades políticas.

Isso não significa que os conflitos culturais sejam falsos ou irrelevantes. Racismo, machismo, LGBTfobia e violência religiosa produzem sofrimento material e não podem ser dissolvidos em uma suposta unidade abstrata dos trabalhadores. Significa que o capitalismo pode absorver e reorganizar essas diferenças, convertendo demandas legítimas em mercadorias políticas, nichos eleitorais e combustível para plataformas. A exploração permanece, enquanto a indignação é conduzida para alvos escolhidos por quem controla os meios de circulação da informação.

O que é polarização na sociedade do espetáculo

Guy Debord definiu o espetáculo não como um conjunto de imagens, mas como uma relação social mediada por imagens. O ponto decisivo é que a vida coletiva passa a ser vivida por meio de representações que se autonomizam diante das pessoas. A polarização digital é uma manifestação dessa lógica: o conflito político precisa ser permanentemente exibido, condensado em frases, rostos, símbolos, escândalos e cenas de humilhação.

Na sociedade do espetáculo, uma declaração absurda pode valer mais do que uma proposta econômica, porque sua função não é esclarecer o mundo, mas produzir circulação. A fala de um político sobre armas, banheiros, urnas, escolas ou costumes funciona como um dispositivo de atenção. Ela mobiliza indignação, gera compartilhamentos, alimenta programas de televisão e mantém o adversário dentro do mesmo palco. O escândalo substitui a análise, e a velocidade impede a memória.

O bolsonarismo compreendeu essa dinâmica com particular eficiência. Sua força não dependeu apenas de um programa político coerente, mas da capacidade de produzir uma cena permanente de combate. Cada ameaça às instituições, cada ataque a jornalistas, cada mentira sobre a pandemia e cada provocação contra minorias renovava a identidade do grupo. O líder aparecia como alguém que dizia o que os outros não ousavam dizer, ainda que suas declarações servissem para proteger interesses econômicos muito tradicionais.

A aparência antissistema escondia a defesa de um sistema profundamente concentrado. A retórica contra a política convivia com a proteção de bancos, grandes empresas, proprietários rurais e grupos religiosos organizados. A agressividade verbal permitia apresentar como rebeldia uma política de redução de direitos e transferência de renda para o topo. A polarização, assim, não era um desvio emocional da política econômica. Era uma de suas condições de funcionamento.

O trabalhador convocado para odiar seu semelhante

Um caso concreto ajuda a perceber o mecanismo. Durante a pandemia, o entregador de aplicativo foi celebrado como herói enquanto trabalhava nas ruas, transportando comida e remédios para pessoas protegidas em casa. A celebração escondia a relação real: ele arcava com a motocicleta, o combustível, a manutenção, os riscos de acidente e a instabilidade dos pedidos, enquanto a plataforma definia preços, trajetos, avaliações e punições.

Esse trabalhador poderia reconhecer no consumidor, no professor e no atendente de call center uma condição compartilhada de dependência. Mas a polarização oferece outra leitura. O problema passa a ser o cliente que reclama, o governo que regula, o trabalhador que faz greve, o grupo político que defende direitos ou o suposto privilégio de quem recebe algum benefício social. A plataforma desaparece como poder. O algoritmo, que controla sua jornada sem assumir as responsabilidades de um empregador, permanece protegido pela invisibilidade.

A mesma lógica aparece no trabalho por produtividade. O operador de telemarketing recebe metas inalcançáveis e monitoramento constante, mas é levado a acreditar que sua ansiedade é uma deficiência individual. O professor enfrenta salas superlotadas, contratos frágeis e cobrança por desempenho, enquanto campanhas de guerra cultural o transformam em doutrinador. A enfermeira trabalha sob pressão, mas a precariedade é substituída por discursos sobre vocação. Em todos esses casos, a polarização atua como uma máquina de desviar o olhar.

Não se trata de dizer que todo conflito entre trabalhadores é inventado. Há racismo, misoginia e preconceito de classe dentro da própria classe trabalhadora, e eles podem ser mobilizados para dividir pessoas e distribuir oportunidades de modo desigual. A questão é identificar quem se beneficia quando a revolta deixa de alcançar as estruturas que produzem a insegurança. O capital não precisa que todos pensem da mesma forma. Basta que não reconheçam o vínculo entre suas experiências de exploração.

Le Bon, a multidão e a fabricação do inimigo

Gustave Le Bon descreveu a multidão como um espaço em que os indivíduos podem perder parte de sua capacidade crítica e aderir a imagens, sugestões e sentimentos compartilhados. Sua psicologia das multidões é marcada por limites políticos e por uma visão elitista, mas ajuda a observar um elemento da política de massas: a repetição de uma fórmula simples pode produzir uma certeza coletiva mais forte do que a experiência concreta.

Nas redes sociais, a multidão não precisa ocupar uma praça. Ela se forma em grupos, comentários, canais de mensagem e fluxos personalizados. O indivíduo recebe continuamente sinais de pertencimento e ameaças de exclusão. A imagem do inimigo precisa ser repetida até parecer evidente: o comunista está em toda parte, a fraude eleitoral é inevitável, o professor quer destruir a família, o pobre é responsável pela própria pobreza, o imigrante toma o emprego, o vizinho progressista é uma ameaça moral.

A tecnologia não inventa sozinha esse processo. Ela o acelera e o torna rentável. Plataformas disputam tempo de atenção e tendem a favorecer conteúdos que provocam reação rápida. A indignação é mais facilmente convertida em engajamento do que a compreensão paciente de uma reforma trabalhista, de um orçamento público ou de uma cadeia produtiva. A arquitetura comercial da rede encontra o desejo político de fabricar inimigos e lhe oferece escala.

O resultado é uma multidão permanentemente mobilizada e politicamente impotente. Ela compartilha, denuncia, ameaça e exige punições, mas raramente consegue intervir sobre as decisões que organizam a produção e a distribuição da riqueza. A energia social é consumida em guerras simbólicas de curta duração. Quando uma polêmica perde força, outra é imediatamente produzida. A mobilização não desaparece; apenas deixa de acumular poder popular.

A polarização como guerra cultural de classe

A expressão guerra cultural costuma sugerir uma disputa espontânea entre valores inconciliáveis. No Brasil, porém, ela foi organizada como estratégia de poder. A extrema direita aprendeu a converter qualquer política de igualdade em ameaça existencial. A defesa de direitos trabalhistas vira privilégio; a universidade vira doutrinação; a proteção ambiental vira conspiração estrangeira; a política de saúde pública vira controle estatal; a crítica ao racismo vira perseguição aos brancos.

Essa linguagem produz uma inversão. Quem sofre a violência estrutural aparece como ameaça, enquanto quem controla recursos e instituições se apresenta como vítima. O empresário que demite é tratado como empreendedor perseguido. O proprietário que concentra terras é defendido como cidadão produtivo. A plataforma que desativa trabalhadores é apresentada como inovação. A pessoa pobre que recebe auxílio é acusada de parasitismo. O trabalhador que reivindica direitos é descrito como inimigo da liberdade.

A liberdade invocada é a liberdade do capital para contratar sem vínculo, vigiar sem transparência, demitir sem negociação e acumular sem limite. Alysson Mascaro, ao analisar a relação entre direito e Estado, mostra que a forma jurídica do indivíduo livre e igual convive com relações econômicas profundamente desiguais. A polarização explora essa contradição: fala em liberdade abstrata enquanto bloqueia as condições materiais para que a maioria possa exercê-la.

É por isso que o combate à polarização não pode significar um apelo vazio à moderação. Muitas vezes, a moderação exigida é apenas a despolitização do conflito. Pede-se calma ao trabalhador que perdeu o emprego, equilíbrio à família que não consegue pagar aluguel, respeito institucional ao grupo que teve seus direitos atacados. Ao mesmo tempo, a violência econômica é tratada como normalidade técnica. A paz social solicitada aos de baixo protege a guerra cotidiana promovida pelos de cima.

O Estado não está fora da polarização

O Estado aparece frequentemente como árbitro neutro entre dois campos igualmente radicais. Essa imagem é insuficiente. O Estado organiza juridicamente as condições de reprodução do capitalismo, garante contratos, protege a propriedade e administra conflitos que não consegue eliminar. Ele também pode incorporar demandas populares, ampliar direitos e ser pressionado por lutas sociais, mas não paira acima da estrutura de classes.

No Brasil, a polarização eleitoral frequentemente concentra a atenção na disputa entre personalidades e reduz o Estado ao resultado de uma eleição. Entretanto, governos diferentes podem operar dentro de limites econômicos semelhantes, enquanto mudanças profundas dependem de mobilização social, organização sindical e enfrentamento dos interesses dominantes. O voto importa, mas não encerra a política. Quando a política é reduzida ao duelo entre líderes, a ação coletiva perde espaço para a torcida.

Foi assim que parte do debate sobre 2018 e 2022 se organizou. A escolha eleitoral foi apresentada como uma guerra total entre salvação e destruição, democracia e comunismo, pátria e traição. A gravidade da ameaça bolsonarista era real, especialmente diante dos ataques às instituições, da violência política e da destruição de políticas públicas. Mas reconhecer essa ameaça não exige aceitar a forma espetacular do conflito, na qual milhões de pessoas são transformadas em espectadores de uma batalha entre marcas eleitorais.

Quando a democracia é defendida apenas como procedimento de votação, ficam intocados os poderes econômicos que limitam sua substância. Uma democracia em que o trabalhador não controla seu tempo, teme a demissão, depende de crédito caro e não consegue acessar serviços básicos é formalmente política, mas materialmente estreita. A polarização pode proteger essa estreiteza ao fazer parecer que a única escolha possível é entre dois campos eleitorais, e não entre diferentes formas de organizar a vida social.

Reconstruir o conflito que a polarização esconde

Superar a polarização não significa apagar diferenças, buscar uma conciliação impossível ou fingir que a extrema direita é apenas mais uma opinião. O bolsonarismo deve ser enfrentado politicamente, e não normalizado em nome de uma falsa simetria. Significa, antes, deslocar o centro do debate: da personalidade do líder para as relações que sustentam seu poder; da guerra cultural para as condições de existência; do espetáculo para a organização.

O entregador precisa ser visto não como empreendedor de si mesmo, mas como trabalhador submetido a uma forma de controle que combina tecnologia e precariedade. O professor não deve ser defendido apenas contra a acusação de doutrinação, mas também contra a intensificação do trabalho, os contratos instáveis e a transformação da educação em serviço administrado por metas. O operador de call center não precisa de uma palestra sobre resiliência, e sim de jornada suportável, proteção trabalhista e poder de negociação.

Essa mudança exige reconstruir mediações coletivas. Sindicato, associação de bairro, movimento estudantil, organização comunitária e partido podem ser burocratizados e contraditórios, mas sem formas de organização a indignação permanece disponível para manipulação. A consciência não nasce da exposição individual a informações corretas. Ela se forma na prática compartilhada, quando experiências dispersas são relacionadas e convertidas em ação comum.

A polarização prospera quando cada indivíduo é isolado diante de uma tela e obrigado a escolher um inimigo. A luta política começa a romper esse isolamento quando transforma problemas privados em questões públicas. A dívida deixa de ser vergonha pessoal e passa a ser problema social. A exaustão deixa de ser fracasso e passa a ser efeito da exploração. A insegurança deixa de ser ressentimento contra o vizinho e passa a ser motivo de organização contra quem lucra com ela.

A sociedade não precisa de menos conflito. Precisa de um conflito mais honesto sobre propriedade, poder, trabalho e riqueza. A polarização fabricada pelo espetáculo oferece inimigos substitutos porque teme esse deslocamento. Quando os trabalhadores reconhecem que suas diferenças não anulam a exploração comum e que a tecnologia não é destino, mas instrumento disputado, a máquina de guerra cultural perde parte de sua força. O adversário deixa de ser o semelhante transformado em ameaça, e o poder real começa a aparecer.