A neopolítica não é a substituição da política por alguma esfera imaterial, inteligente e inevitável. É uma forma contemporânea de administrar a disputa social por meio de plataformas digitais, métricas de atenção, circulação acelerada de imagens e responsabilização individual. No Brasil, ela aparece quando o entregador organiza um breque pelo celular, quando o trabalhador recebe uma notícia política entre dois turnos, quando o bolsonarista transforma uma mentira em convocação e quando uma plataforma decide, sem debate público, o alcance de uma fala. O que parece participação ampliada é frequentemente uma nova maneira de capturar a energia coletiva e devolvê-la como audiência, dado e comportamento previsível.
O termo pode ser usado aqui como uma chave crítica para nomear essa política administrada por infraestruturas privadas. Não se trata de anunciar o fim do Estado, da ideologia ou da luta de classes. Ao contrário: a neopolítica atualiza essas relações no interior de um capitalismo que concentra a propriedade das redes, dos dados, dos meios de comunicação e das condições de visibilidade. A política continua sendo disputa pelo poder material, mas sua experiência cotidiana é filtrada por interfaces que ordenam o que aparece, o que desaparece, o que provoca reação e o que se torna impossível de dizer.
Da praça pública ao fluxo que nunca termina
A imagem clássica da política supõe partidos, sindicatos, assembleias, jornais, comícios e instituições capazes de organizar conflitos duradouros. Essa imagem nunca correspondeu plenamente à realidade brasileira, marcada pela desigualdade, pela concentração da mídia e pela exclusão de amplas parcelas da população das decisões. Ainda assim, havia espaços identificáveis de disputa, com responsáveis relativamente reconhecíveis e formas coletivas de pressão. A neopolítica não elimina esses espaços, mas os submete a um fluxo permanente de notificações, vídeos curtos, comentários, transmissões ao vivo e campanhas direcionadas.
O celular não é apenas um instrumento que aproxima pessoas. Ele se tornou a porta de entrada para um ambiente em que a atenção é medida e comercializada. O usuário não encontra uma esfera pública neutra; encontra uma seleção produzida por critérios empresariais. A plataforma aprende com seus cliques, pausas, compartilhamentos e recusas, e usa esse aprendizado para organizar sua próxima experiência. A participação política passa, assim, a ser tratada como comportamento de consumo: uma reação vale porque gera retenção, um conflito vale porque prolonga a sessão, uma indignação vale porque pode ser convertida em publicidade ou em mobilização manipulável.
Guy Debord mostrou que o espetáculo não é apenas um conjunto de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. A neopolítica radicaliza essa mediação: a relação política é não apenas representada, mas continuamente mensurada. O cidadão é convidado a expressar sua posição, porém sua expressão é imediatamente transformada em sinal para um sistema de classificação. O protesto que não produz circulação parece inexistente; a denúncia que não cabe no formato da plataforma desaparece; a injustiça só alcança reconhecimento quando pode ser condensada em uma imagem capaz de competir com milhares de outras.
Neopolítica, trabalho e a falsa liberdade da plataforma
A experiência do entregador de aplicativo revela o fundamento material dessa nova política. Ele aparece no discurso empresarial como trabalhador autônomo, dono do próprio tempo e responsável por sua renda. Na prática, sua jornada é orientada por uma arquitetura que distribui pedidos, calcula trajetos, estabelece incentivos, aplica punições e produz avaliações. O comando não desapareceu: tornou-se menos visível, mais disperso e mais difícil de contestar. A empresa não precisa manter um supervisor ao lado da motocicleta quando o algoritmo pode transformar a necessidade de renda em obediência contínua.
Essa forma de controle tem consequências políticas. O entregador é convocado a interpretar problemas coletivos como falhas individuais: se ganha pouco, deveria trabalhar mais; se recusa uma corrida, perde prioridade; se adoece, assume o risco; se sofre um acidente, enfrenta a própria vulnerabilidade. A ideologia da autonomia encobre a dependência real. O trabalhador é formalmente livre para aceitar ou recusar, mas essa liberdade é exercida sob a pressão do aluguel, da alimentação, da dívida e da ausência de proteção social. A neopolítica funciona quando essa dependência econômica é convertida em escolhas privadas e quando a exploração deixa de aparecer como relação social.
O mesmo mecanismo atinge professores submetidos a avaliações incessantes, trabalhadores de call center monitorados por tempo de atendimento e funcionários avaliados por metas de produtividade. Em todos esses casos, a tecnologia apresenta a exploração como eficiência. A tela informa o desempenho, o painel compara colegas, a notificação cobra resposta e a pontuação promete reconhecimento. O trabalhador passa a vigiar a si próprio antes mesmo que a chefia intervenha. Não é necessário imaginar uma máquina consciente para entender o poder do sistema: basta observar como a medição permanente reorganiza a conduta e torna o trabalhador cúmplice involuntário da própria intensificação.
Marx chamou alienação o processo pelo qual o trabalho e seus produtos se tornam forças estranhas diante de quem trabalha. Na economia de plataformas, essa estranheza assume uma aparência digital. O trabalhador produz dados enquanto trabalha, mas não controla esses dados; produz valor para a empresa, mas não decide a regra que distribui seus pedidos; produz avaliações, mas não controla a reputação que pode determinar seu acesso à renda. A mesma pessoa que é alienada no trabalho é mobilizada como usuário político. Seu tempo, sua atenção e suas reações completam o circuito de valorização.
O algoritmo não substitui a ideologia
É tentador atribuir tudo ao algoritmo, como se uma entidade técnica tivesse tomado o lugar das classes dominantes. Essa explicação desloca o problema para uma caixa-preta e absolve as empresas, os proprietários e o Estado. Algoritmos são instruções produzidas, treinadas e aplicadas dentro de relações sociais. Eles não inventam a desigualdade; organizam sua distribuição, tornam-na menos transparente e podem reproduzir preconceitos já incorporados aos dados e aos critérios de decisão.
A ideologia da neopolítica consiste em fazer parecer natural aquilo que é resultado de decisões econômicas e políticas. Se uma postagem alcança milhões de pessoas, atribui-se o sucesso à relevância espontânea. Se uma conta é bloqueada, fala-se em regra técnica. Se uma vaga de trabalho é negada por uma avaliação automatizada, invoca-se a neutralidade do sistema. A linguagem da tecnologia substitui a linguagem do poder. O que antes podia ser identificado como censura empresarial, exploração ou discriminação aparece como moderação, otimização e gestão de risco.
Heidegger compreendeu a técnica moderna como uma forma de desvelamento que transforma o mundo em reserva disponível. Na plataforma, pessoas, relações e acontecimentos são convertidos em recursos calculáveis. O entregador vira disponibilidade logística; o professor vira índice de desempenho; o eleitor vira perfil de propensão; o sofrimento vira conteúdo; a indignação vira engajamento. Essa redução não é apenas uma mudança de vocabulário. Ela estabelece quais dimensões da vida podem ser reconhecidas e quais são descartadas por não produzirem retorno mensurável.
A neopolítica prospera nessa redução porque promete dar forma objetiva ao caos social. Painéis, rankings e indicadores oferecem a sensação de que toda decisão pode ser calculada. Mas a aparência de precisão esconde escolhas políticas: quem define a meta, qual comportamento será premiado, que risco será aceitável, quais grupos serão tratados como ameaça e quem terá direito de recorrer? A técnica não elimina a decisão; ela a afasta do debate público e a entrega a empresas que se apresentam como prestadoras de serviço.
Bolsonarismo e a fabricação da multidão digital
O bolsonarismo foi particularmente eficiente em operar nessa arquitetura porque não depende apenas de um programa coerente. Sua força política se alimenta da fabricação contínua de inimigos, suspeitas e urgências. A mentira sobre urnas, vacinas, comunismo ou conspirações não precisa convencer todos de maneira estável. Precisa manter a multidão mobilizada, ressentida e incapaz de distinguir informação, provocação e convocação.
Gustave Le Bon descreveu a multidão como um conjunto no qual a sugestão, a repetição e a redução das diferenças individuais favorecem respostas emocionais. Sua teoria, marcada pelos limites de seu tempo e por uma visão elitista das massas, ainda ajuda a perceber um mecanismo específico: a multidão não é simplesmente um ajuntamento de indivíduos irracionais, mas uma forma de comportamento produzida por símbolos comuns e afetos compartilhados. As plataformas intensificam esse processo ao permitir que a repetição seja automatizada, segmentada e ajustada em tempo real.
O bolsonarismo transforma a desconfiança em identidade. Cada correção é apresentada como perseguição; cada investigação, como ataque; cada derrota, como prova de fraude. A plataforma oferece o ambiente ideal para essa operação porque recompensa a reação imediata e favorece conteúdos que provocam medo, raiva ou humilhação. A política passa a funcionar como uma sequência de choques. O adversário não precisa ser derrotado por argumentos; basta ser convertido em objeto permanente de repulsa.
Os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023 não podem ser explicados apenas pela existência das redes, nem reduzidos a um delírio espontâneo de indivíduos isolados. Houve organização, financiamento, circulação de mensagens, tolerância institucional e uma longa construção ideológica de deslegitimação das eleições e das instituições. A neopolítica aparece nesse processo como infraestrutura de passagem entre ressentimento privado e ação coletiva reacionária. Ela transforma a tela do celular em corredor entre a fantasia política e a ocupação concreta de espaços públicos.
Isso não significa equiparar mobilizações populares e golpismo. Greves, movimentos por moradia e protestos contra a precarização podem usar as mesmas ferramentas, mas não carregam o mesmo conteúdo de classe. O problema é que a infraestrutura pertence às plataformas, e suas regras não distinguem emancipação e autoritarismo por critérios democráticos. O que prevalece é o que produz circulação. A técnica empresarial pode impulsionar uma campanha solidária e, no dia seguinte, oferecer melhores condições de difusão a uma mentira capaz de gerar mais conflito.
O Estado não desaparece, ele administra a distância
A narrativa neoliberal afirma que a política se tornou obsoleta porque o mercado, a inovação e a iniciativa individual resolveriam os problemas sociais. No entanto, plataformas dependem de leis, infraestrutura, contratos públicos, proteção de propriedade, regimes tributários e decisões judiciais. O Estado não se retira; reorganiza sua presença, frequentemente para garantir a segurança jurídica da acumulação e administrar os efeitos da precarização.
Alysson Mascaro mostra que o Estado, no capitalismo, não é um instrumento externo à economia que pode escolher livremente entre classes. Sua forma jurídica organiza a relação entre sujeitos formalmente livres e proprietários de mercadorias, garantindo as condições gerais da reprodução capitalista. Essa perspectiva ajuda a compreender a neopolítica: a plataforma pode se apresentar como espaço privado de interação, mas opera dentro de uma forma estatal que protege contratos, propriedade intelectual, circulação de dados e modelos de negócio. Quando o Estado regula pouco, isso não significa ausência de política; significa uma escolha política favorável à autonomia empresarial.
Ao mesmo tempo, o Estado é chamado a conter as consequências explosivas dessa ordem. Deve combater a desinformação, fiscalizar empresas, proteger eleições e responder à violência digital, mas frequentemente o faz sem alterar a concentração econômica que produz o problema. Cria-se uma contradição administrada: as plataformas são poderosas demais para serem tratadas como empresas comuns, porém continuam protegidas como negócios privados quando se discute responsabilidade, transparência e controle democrático.
A neopolítica se alimenta dessa distância entre poder efetivo e responsabilidade formal. A empresa decide, mas diz apenas hospedar; o Estado regula, mas afirma não interferir; o usuário é influenciado, mas é responsabilizado por suas escolhas; o trabalhador é comandado, mas chamado de parceiro. A cada nível, o poder existe sem assumir plenamente seu nome. Essa é uma de suas características centrais: produzir efeitos políticos sem aparecer como autoridade política.
Contra a política reduzida a desempenho
O problema não será resolvido com uma promessa ingênua de desconexão individual. Pedir que cada pessoa use menos o celular pode aliviar a exposição, mas não enfrenta a propriedade das infraestruturas nem a dependência social que obriga o trabalhador a permanecer conectado. O entregador precisa do aplicativo para receber pedidos; o professor precisa das plataformas para cumprir tarefas; o candidato precisa das redes para disputar atenção; o cidadão precisa delas para acompanhar acontecimentos que os meios tradicionais já não cobrem de maneira suficiente.
A saída crítica começa por recusar a ideia de que participação é sinônimo de reação mensurável. Curtir, compartilhar e comentar não são equivalentes a organizar, deliberar e construir poder coletivo. A política não se fortalece porque aumenta o número de visualizações de uma denúncia. Ela se fortalece quando trabalhadores reconhecem a origem comum de seus problemas, quando transformam queixas isoladas em reivindicações, quando criam formas de decisão e quando conseguem sustentar uma ação para além do ciclo de atenção da plataforma.
Isso exige enfrentar a concentração econômica das empresas de tecnologia, garantir transparência sobre critérios de distribuição e moderação, assegurar direitos trabalhistas nas plataformas e proteger formas públicas e cooperativas de comunicação. Também exige compreender que a regulação não pode ficar restrita à proteção do consumidor individual. O que está em jogo é a soberania social sobre infraestruturas que organizam trabalho, informação e conflito. Sem controle democrático dos dados e dos mecanismos de visibilidade, a sociedade continuará submetida a decisões privadas apresentadas como simples resultados técnicos.
A organização coletiva precisa disputar a tecnologia, não apenas rejeitá-la. Cooperativas de entregadores, sindicatos capazes de negociar regras algorítmicas, meios comunitários e redes de comunicação não orientadas exclusivamente pelo lucro podem criar brechas reais. Essas alternativas não eliminam automaticamente a exploração, mas deslocam o centro da decisão: da empresa que mede cada gesto para os trabalhadores que discutem as condições de sua atividade; da plataforma que administra a atenção para uma comunidade que decide o que deseja comunicar.
A neopolítica não anuncia que a história acabou nem que a sociedade virou uma máquina. Ela revela uma nova camada da luta de classes, na qual o controle da atenção e dos dados se articula ao controle do tempo, da renda e da capacidade de agir coletivamente. O capital não quer apenas comprar a força de trabalho; quer organizar a percepção que os trabalhadores têm de sua própria condição. Quer que a exploração apareça como oportunidade, a vigilância como conveniência, a indignação como conteúdo e a solidão como liberdade.
Romper esse circuito não depende de encontrar uma tecnologia pura, livre de conflitos, mas de recolocar as relações sociais no centro da análise. A plataforma não é destino. O algoritmo não é soberano. A multidão não é naturalmente reacionária nem naturalmente emancipadora. Cada uma dessas formas é disputada por interesses concretos. Quando a política deixa de ser desempenho individual e volta a ser organização coletiva, a neopolítica perde sua aparência de inevitabilidade. O que parecia apenas fluxo de dados revela novamente sua matéria: trabalho, propriedade, Estado e luta.
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