O que significa neoliberal? A resposta mais comum diz que se trata de uma doutrina que defende menos Estado, mais mercado, privatizações e redução de impostos. A definição não está inteiramente errada, mas é insuficiente para compreender o que acontece com um entregador de aplicativo, uma professora contratada temporariamente ou um trabalhador de call center. Na vida concreta, o neoliberalismo não elimina o Estado: reorganiza sua força para garantir a liberdade do capital e transformar a insegurança social em responsabilidade individual.
Essa diferença é decisiva. Quando um entregador trabalha doze horas conectado, arca com combustível, manutenção, acidente e períodos sem chamada, não estamos diante de um simples encontro espontâneo entre oferta e demanda. Há uma empresa que define preços, distribui pedidos, avalia desempenho, suspende contas e coleta dados. Há também um Estado que permite a classificação do trabalhador como parceiro autônomo, que não assegura proteção equivalente à de um empregado e que, durante anos, tratou a inovação empresarial como justificativa para suspender direitos. A plataforma parece privada e tecnológica, mas sua operação depende de decisões jurídicas, fiscais, policiais e administrativas.
O que significa neoliberal além do slogan da liberdade
O neoliberalismo deve ser compreendido como uma forma de organizar a sociedade segundo a concorrência. Seu objetivo não é apenas vender empresas públicas ou reduzir despesas. É fazer com que empresas, instituições e indivíduos passem a se comportar como unidades em competição permanente. O trabalhador precisa administrar a própria empregabilidade; a escola deve formar competências vendáveis; o município deve disputar investimentos; o hospital deve produzir indicadores; a universidade deve buscar clientes e patentes. A linguagem muda, mas a relação permanece: cada pessoa é responsabilizada por resultados que dependem de estruturas econômicas e políticas.
Michel Foucault, ao analisar a racionalidade neoliberal, mostrou que ela não atua somente proibindo ou reprimindo. Ela produz sujeitos empreendedores de si mesmos, compelidos a tratar a própria vida como um portfólio de investimentos. Essa formulação ajuda a entender por que a precarização pode aparecer como oportunidade. O entregador não é apresentado como trabalhador sem direitos, mas como dono do próprio tempo. A professora eventual não é apresentada como alguém submetida à instabilidade, mas como profissional flexível. O desempregado não é visto como vítima de uma economia incapaz de absorver sua força de trabalho, mas como alguém que não se qualificou o suficiente.
A promessa de autonomia encobre uma dependência mais intensa. O trabalhador deixa de ter um chefe visível, mas passa a obedecer a metas, avaliações, notificações e bloqueios. O aplicativo não precisa gritar para comandar. Basta alterar o valor da corrida, reduzir a prioridade da conta ou indicar que há maior demanda em determinada região. A autoridade aparece como cálculo técnico, embora o cálculo expresse interesses empresariais.
O Estado neoliberal não desaparece: ele muda de função
A imagem do Estado ausente é uma das principais ilusões do neoliberalismo. O Estado continua presente quando garante contratos, protege a propriedade, socorre bancos, concede isenções, financia infraestrutura e reprime greves. Ele também aparece quando transforma direitos sociais em benefícios condicionados, quando fiscaliza o trabalhador pobre com rigor e quando aceita que empresas operem serviços essenciais sem transparência pública.
Alysson Mascaro ajuda a compreender esse ponto ao tratar o Estado como uma forma política própria do capitalismo. O Estado não é simplesmente um instrumento que qualquer grupo controla à vontade, nem uma entidade neutra acima das classes. Sua estrutura organiza a separação entre economia e política: trabalhadores aparecem como cidadãos juridicamente livres, enquanto a exploração ocorre no contrato de trabalho, no aluguel, no preço dos serviços e na venda da força de trabalho. A igualdade formal diante da lei convive com desigualdades materiais profundas.
Por isso, dizer que o neoliberalismo defende menos Estado é impreciso. Ele defende menos proteção social para quem trabalha e mais capacidade estatal para assegurar as condições de acumulação. A austeridade corta políticas que reduzem a vulnerabilidade, mas não impede o poder público de financiar grandes empresas ou construir estradas, redes de comunicação e sistemas logísticos usados pelo capital. O Estado se retrai para garantir direitos e se expande para disciplinar, subsidiar e proteger mercados.
O entregador de aplicativo expõe essa contradição. Se o Estado realmente estivesse ausente, não haveria legislação trabalhista, regulação urbana, regras tributárias, fiscalização sanitária nem políticas de trânsito. O que existe é uma escolha sobre quais dimensões da vida serão reguladas. Durante muito tempo, a prioridade foi assegurar a flexibilidade das plataformas, enquanto a proteção do trabalhador era tratada como obstáculo à inovação.
O entregador e a fábrica dispersa
A uberização radicaliza uma tendência antiga do capitalismo: separar o trabalhador dos instrumentos de produção e transferir para ele os custos da atividade. A fábrica tradicional concentrava máquinas, chefias e trabalhadores em um espaço. A plataforma dispersa a produção pela cidade, mas mantém o comando centralizado no software. A motocicleta, o celular, a internet, o combustível e o tempo de espera são pagos pelo trabalhador. O aplicativo conserva a capacidade de coordenar a atividade, definir padrões e extrair valor sem reconhecer integralmente a relação de dependência.
Não se trata de negar que alguns trabalhadores valorizem a flexibilidade dos aplicativos. Essa é uma objeção real, mas não destrói a crítica. A preferência por escolher horários pode significar apenas que as alternativas disponíveis são ainda piores. Um trabalhador que aceita uma ocupação instável porque precisa pagar aluguel não está demonstrando liberdade econômica plena. Está negociando dentro de uma estrutura de necessidade.
Outra objeção afirma que o entregador é empreendedor. Porém, empreendedor é quem controla investimento, estratégia, preços e resultado. O entregador não decide quanto recebe por quilômetro, não escolhe quais pedidos serão oferecidos, não controla a visibilidade de sua conta e não define a tarifa cobrada do consumidor. Ele possui, quando muito, uma ferramenta de trabalho financiada por si mesmo. Chamar essa situação de empreendedorismo transforma a transferência de riscos em virtude.
Na prática, a plataforma combina autonomia aparente e comando efetivo. O trabalhador pode ligar e desligar o aplicativo, mas não controla o algoritmo. Pode recusar uma entrega, mas pode perder prioridade, bônus ou acesso à conta. Pode circular pela cidade, mas segue os circuitos de demanda que o sistema determina. O algoritmo é uma chefia sem rosto, e a ausência de uma ordem pessoal torna mais difícil identificar o conflito trabalhista.
Guy Debord descreveu a sociedade do espetáculo como uma relação social mediada por imagens. Na economia de plataforma, a imagem da liberdade empreendedora cumpre uma função semelhante: ela substitui a percepção da exploração. O consumidor vê rapidez, praticidade e rastreamento em tempo real. A empresa exibe inovação. O trabalhador aparece como parceiro independente. A cadeia social que produz a entrega desaparece atrás da tela.
Meritocracia e neoliberalismo transformam estrutura em culpa
A meritocracia é a ideologia subjetiva do neoliberalismo. Ela promete que cada pessoa receberá segundo seu esforço, sua qualificação e sua capacidade de adaptação. Se alguém prospera, o sucesso é atribuído ao mérito individual. Se alguém fracassa, a culpa também é individual. A desigualdade deixa de ser interrogada como resultado de relações de classe, raça, gênero, território e herança; passa a ser apresentada como diferença natural de desempenho.
Um professor da rede pública submetido a contratos temporários, salas lotadas e cobranças burocráticas pode ser acusado de não se atualizar. Uma trabalhadora de call center, pressionada por metas de atendimento e monitorada em cada pausa, pode ouvir que precisa desenvolver inteligência emocional. Um jovem da periferia, sem transporte confiável e obrigado a trabalhar cedo, pode ser responsabilizado por não alcançar a mesma formação de alguém que estudou em uma escola privada. A ideologia funciona porque traduz constrangimentos sociais em falhas pessoais.
O neoliberalismo também redefine o sentido de direito. Saúde, educação, moradia e aposentadoria são apresentados como serviços cujo acesso dependeria da capacidade de pagamento ou de escolhas individuais. O cidadão se torna cliente. A precariedade deixa de ser um problema político e passa a ser uma experiência privada, administrada por crédito, seguro, curso de qualificação e aplicativos de finanças pessoais.
Essa transformação produz ansiedade permanente. O trabalhador precisa estar disponível, atualizado, produtivo e cordial. Não basta executar o trabalho; é necessário demonstrar entusiasmo, cuidar da marca pessoal e aceitar a avaliação contínua. A concorrência se instala dentro do indivíduo. Cada descanso parece atraso, cada colega pode ser concorrente, cada falha pode reduzir sua renda. A exploração deixa de aparecer apenas como imposição externa e passa a ser reproduzida pelo autocontrole.
Da austeridade ao cotidiano brasileiro
A austeridade é a política econômica que dá forma institucional a essa moral. Quando o governo limita investimentos sociais, comprime salários públicos e trata serviços universais como despesas excessivas, a população é empurrada para soluções privadas. Quem pode paga plano de saúde; quem não pode enfrenta filas maiores. Quem pode compra educação; quem não pode convive com escolas abandonadas. Quem pode acumula reserva; quem não pode recorre ao crédito e trabalha mais.
O discurso da responsabilidade fiscal costuma ser apresentado como técnica neutra. Nenhum Estado pode gastar sem limite, e contas públicas importam. Mas a questão política é definir quem paga o ajuste, quais gastos são protegidos e que projeto de desenvolvimento orienta o orçamento. Austeridade não é simplesmente prudência: quando recai sempre sobre direitos e serviços, ela reorganiza a sociedade em favor dos credores, dos rentistas e das empresas que lucram com a privatização da proteção social.
O Brasil conhece essa dinâmica em diferentes momentos. Reformas trabalhistas vendidas como modernização prometeram gerar empregos ao reduzir custos e ampliar a liberdade contratual. Na prática, a liberdade de negociar raramente é simétrica entre uma grande empresa e uma pessoa que precisa aceitar qualquer ocupação para sobreviver. A pejotização, a terceirização e o trabalho intermitente podem ser escolhidos formalmente, mas a escolha é condicionada pelo desemprego e pela concentração econômica.
Isso não significa que toda mudança trabalhista seja impossível ou que toda empresa seja idêntica. Significa que a modernização não pode ser medida apenas pela facilidade de contratar e demitir. É preciso perguntar quem absorve o risco, quem fica com o ganho de produtividade e quem tem poder para contestar a decisão. Sem essas perguntas, a inovação vira nome elegante para a redução de direitos.
Neoliberalismo, fascismo e a falsa revolta contra o Estado
A extrema direita se apresenta frequentemente como inimiga do Estado, mas seu projeto não é abolir o poder estatal. O bolsonarismo atacou políticas públicas, universidades, sindicatos e direitos sociais, ao mesmo tempo que reivindicou autoridade policial, militarização, armamento e repressão. A combinação não é contraditória: trata-se de um Estado forte para punir e fraco para proteger.
O fascismo aproveita a frustração produzida pela insegurança neoliberal e oferece um inimigo visível. Em vez de responsabilizar a concentração de renda, a precarização e o poder empresarial, culpa professores, imigrantes, movimentos sociais, jornalistas, servidores públicos ou beneficiários de políticas sociais. A raiva social é desviada horizontalmente. Trabalhadores são convencidos a combater outros trabalhadores enquanto a estrutura que os explora permanece intacta.
A psicologia das multidões analisada por Gustave Le Bon ajuda a observar como ressentimentos dispersos podem ser unificados por imagens, slogans e inimigos comuns. Mas, no ambiente digital, essa mobilização é articulada por plataformas que transformam indignação em circulação e circulação em lucro. A mentira política não é um acidente externo ao modelo de negócios: conteúdos que provocam medo e ódio tendem a manter usuários conectados, embora não seja preciso atribuir ao algoritmo toda a responsabilidade pela ascensão autoritária.
O bolsonarismo também explorou a fantasia de uma liberdade sem solidariedade. O cidadão seria livre para consumir armas, desconfiar da ciência, recusar impostos e rejeitar direitos coletivos, mas não teria garantia de salário, moradia ou atendimento público. Essa liberdade negativa serve aos que já possuem recursos. Para a maioria, liberdade sem condições materiais é apenas a autorização para escolher entre formas diferentes de precariedade.
O governo Lula e a disputa pelo sentido do Estado
A defesa do governo Lula não exige ignorar seus limites. O governo enfrenta um Congresso conservador, pressão do mercado financeiro, restrições orçamentárias e uma economia ainda marcada por desigualdade. Também pode ser criticado quando negocia em excesso, quando demora a regular plataformas ou quando preserva políticas que poderiam ser mais ousadas. Essas críticas são legítimas para a esquerda e não devem ser substituídas por propaganda.
Mas reconhecer limites não autoriza tratar os projetos em disputa como equivalentes. O governo Lula recoloca políticas sociais, valorização do salário mínimo, reconstrução institucional, investimento público e proteção trabalhista no campo das prioridades. A retomada de programas e direitos desmontados ou enfraquecidos pelo bolsonarismo não resolve a estrutura capitalista, mas amplia as condições de vida e de organização da classe trabalhadora. A diferença entre garantir renda, saúde, educação e negociação coletiva e abandonar tudo à lógica do mercado é concreta.
O contraste com o bolsonarismo é decisivo. De um lado, há a tentativa de recompor políticas públicas e usar o Estado para reduzir desigualdades; de outro, um projeto que combina privatização, autoritarismo, ataque ao conhecimento e guerra cultural contra os pobres organizados. Nenhum governo progressista supera sozinho o capitalismo, mas um governo de esquerda pode abrir espaço para direitos, sindicatos, regulação e participação popular. Um governo de extrema direita fecha esse espaço e converte a insatisfação em perseguição.
Defender a reeleição de Lula, nesse contexto, não significa entregar um cheque em branco. Significa compreender que a disputa eleitoral define as condições em que a luta social ocorrerá. A esquerda deve pressionar o governo por regulamentação efetiva do trabalho em plataformas, fortalecimento do serviço público, tributação dos mais ricos, redução da jornada e políticas de desenvolvimento que não dependam da submissão ao capital financeiro. A crítica deve servir para ampliar o horizonte, não para produzir uma equivalência conveniente entre quem recompõe direitos e quem os destrói.
O neoliberalismo pode ser derrotado na prática
O neoliberalismo não é uma opinião econômica entre outras. É uma forma de poder que transforma a concorrência em regra geral e a exploração em responsabilidade privada. Ele aparece no aplicativo que remunera por entrega, na escola que mede tudo por desempenho, no trabalho que exige disponibilidade permanente, no aluguel que consome a renda e na política que promete liberdade enquanto desmonta proteção coletiva.
Derrotá-lo exige mais do que denunciar seus efeitos. É necessário reconstruir a ideia de que direitos não são prêmios por produtividade. O entregador precisa de proteção previdenciária, remuneração digna, transparência algorítmica e poder de negociação. O professor precisa de carreira, salário e condições de trabalho. A trabalhadora de call center precisa de limites para metas, pausas respeitadas e fiscalização. O usuário de um serviço público precisa ser tratado como cidadão, não como consumidor incapaz de pagar.
Também é necessário disputar a tecnologia. O problema não está em usar aplicativos ou automatizar tarefas, mas em permitir que sistemas privados decidam opacamente sobre renda, acesso ao trabalho e circulação pela cidade. Uma tecnologia democrática deve ser submetida ao controle social, à legislação trabalhista e à transparência. O algoritmo não pode funcionar como uma lei secreta escrita para maximizar a acumulação.
A pergunta “o que significa neoliberal” só encontra sua resposta completa quando deixa o dicionário e chega ao local de trabalho. Significa viver sob uma ordem que chama de liberdade a transferência de custos, chama de mérito a desigualdade e chama de eficiência a retirada de direitos. Contra essa ordem, a tarefa da esquerda é devolver à política aquilo que o mercado privatizou: o risco, a riqueza, o tempo e a possibilidade de decidir coletivamente sobre a vida.
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