As enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul em maio de 2024 produziram imagens de uma sociedade submetida à catástrofe em vários níveis: bairros submersos, famílias desalojadas, estradas rompidas, postos de saúde pressionados. Mas havia também uma ruína menos visível, embora decisiva. Sem energia, sinal de celular estável, rede fixa e acesso às plataformas, muita gente não conseguia avisar que estava isolada, localizar parentes, receber orientações, combinar resgates, acessar dinheiro ou descobrir onde havia abrigo. A infraestrutura digital apareceu ali não como uma abstração tecnológica, mas como parte da condição material de permanecer vivo e de continuar socialmente existente.
Não se trata de dizer que a rede substitui barco, bombeiro, comida ou moradia. Trata-se de perceber que, numa sociedade organizada por aplicativos, cadastros, mensagens instantâneas e pagamentos digitais, a interrupção das conexões multiplica a violência da interrupção da vida. Quem perdeu a casa podia perder também os contatos de trabalho; quem estava num abrigo precisava de um telefone carregado para falar com a família; quem dependia de aplicativo para fazer entregas ou corridas via sua fonte de renda desaparecer junto com a cidade alagada. A tragédia mostrou que a infraestrutura digital já não é um setor separado da realidade: ela atravessa a circulação de mercadorias, a comunicação afetiva, o acesso a serviços e a própria possibilidade de vender a força de trabalho.
A catástrofe expõe uma dependência que o cotidiano esconde
Em dias normais, o funcionamento dessa infraestrutura parece natural. Abre-se o aplicativo do banco, chama-se um carro, confirma-se uma entrega, responde-se ao chefe no WhatsApp, recebe-se uma escala de trabalho, consulta-se um documento público. O gesto é tão rotineiro que a imensa cadeia material por trás dele desaparece. Energia elétrica, torres, cabos, centrais, servidores, sistemas de autenticação, empresas de telecomunicação e plataformas privadas trabalham para que um ícone acenda na tela. A aparência de simplicidade é ideológica: ela faz parecer que a conexão é uma propriedade espontânea do celular, quando é resultado de uma organização econômica concentrada e de decisões empresariais sobre investimento, cobertura, preço e prioridade.
Foi essa naturalização que ruiu, ainda que momentaneamente, com as enchentes. Quando a bateria acaba e não há tomada; quando a antena deixa de alcançar uma comunidade; quando o sinal instável impede uma chamada; quando um trabalhador não consegue entrar no aplicativo que o contrata sem reconhecê-lo como empregado, fica evidente que a vida digital depende de uma infraestrutura física e politicamente administrada. A nuvem, expressão conveniente para apagar a materialidade do processo, não paira acima da sociedade. Ela exige território, eletricidade, equipamentos, trabalho técnico e redes que obedecem à lógica da propriedade privada.
O trabalhador de plataforma carrega o risco que a empresa não assume
Para o entregador de aplicativo, essa dependência é ainda mais brutal. Seu local de trabalho é a cidade, mas sua porta de entrada para esse trabalho é um sistema que ele não controla. Sem conexão, não recebe chamadas; sem geolocalização, não realiza a rota; sem aplicativo, não existe para a empresa; sem bateria, não produz. A plataforma se apresenta como mera intermediária tecnológica e, com esse artifício, transfere ao trabalhador os custos da operação: aparelho, plano de dados, recarga, manutenção, combustível, equipamento de segurança e o risco de atravessar uma cidade em colapso.
Na emergência climática, a crueldade dessa forma de trabalho fica mais nítida. O entregador não dispõe de salário garantido porque a demanda caiu, porque seu bairro foi atingido ou porque não há condições materiais de circular. A plataforma pode suspender áreas, alterar mapas e reorganizar sua operação a distância. Já quem pedala ou pilota precisa decidir entre a ausência de renda e a exposição direta ao perigo. A infraestrutura digital não é somente aquilo que permite a entrega acontecer; ela é a máquina pela qual o capital acompanha, classifica, distribui e remunera de forma opaca uma multidão de trabalhadores atomizados.
Quando o acesso à rede se torna requisito para trabalhar, comunicar-se e receber dinheiro, a exclusão digital deixa de ser uma carência técnica. Ela se torna uma forma concreta de desigualdade de classe.
Marx mostrou que a aparente liberdade contratual entre quem vende e quem compra trabalho encobre uma relação de dominação. A plataforma atualiza esse mecanismo. O trabalhador aparentemente escolhe quando se conectar, mas é a empresa que define tarifas, critérios de aceitação, avaliações, bloqueios e o acesso aos dados que organizam sua própria atividade. A conexão não lhe dá autonomia; frequentemente, dá ao capital um canal permanente de comando. O celular, vendido como instrumento de empreendedorismo, torna-se uma extensão do relógio de ponto sem os direitos que o relógio de ponto ajudou a conquistar.
Conectar não é o mesmo que ter poder
Há um engano disseminado pelo discurso neoliberal: o de que ampliar a conectividade bastaria para democratizar a vida social. Mas uma população conectada por redes comandadas por poucas corporações não controla a infraestrutura de que depende. Ela apenas a utiliza sob condições impostas. Pode publicar, consumir, trabalhar e conversar, desde que aceite regras de uso mutáveis, extração de dados, publicidade invasiva e mecanismos de moderação ou bloqueio definidos em sedes empresariais distantes. A circulação é permitida, mas a propriedade das vias permanece concentrada.
Debord ajuda a compreender a outra face desse processo. A rede oferece uma torrente de imagens de solidariedade, mapas colaborativos, pedidos de socorro e campanhas de doação; isso pode ter efeito real e urgente. Porém, a mesma estrutura transforma a catástrofe em fluxo, em conteúdo disputado por atenção, em vitrine de marcas e políticos. O sofrimento circula velozmente, mas a circulação de imagens não elimina as relações que produziram a vulnerabilidade. Uma família sem moradia não se torna menos desabrigada porque seu vídeo alcançou milhares de visualizações. O espetáculo pode difundir a emergência ao mesmo tempo que converte a emergência em mercadoria informacional.
Isso não desqualifica as redes de ajuda que se formaram no Rio Grande do Sul. Ao contrário: revela a capacidade coletiva de trabalhadores, vizinhos e movimentos de improvisar cuidados onde o mercado falha. O ponto político é outro. Não se deve confundir essa solidariedade com a suficiência da infraestrutura privada. Se grupos de mensagem foram essenciais para localizar pessoas e coordenar doações, foi porque serviços públicos e redes comunitárias precisaram operar dentro de sistemas dos quais não detêm as regras. A cooperação social produziu valor e salvou vidas, mas as tubulações digitais por onde ela passou continuaram em mãos privadas.
Infraestrutura é uma disputa sobre quem pode desaparecer
Heidegger advertia que a técnica moderna tende a enquadrar o real como reserva disponível, algo a ser calculado e explorado. No capitalismo de plataforma, pessoas, trajetos e necessidades entram nesse enquadramento como dados acionáveis. O morador de uma periferia ou de uma área rural não aparece primeiro como cidadão portador de direitos, mas como usuário com cobertura insuficiente, consumidor pouco rentável ou ponto frágil num mapa de mercado. Onde o retorno esperado é baixo, a precariedade de serviço pode ser tratada como custo aceitável. Onde há lucro, a conectividade se acelera. A desigualdade territorial é, assim, inscrita na própria arquitetura da rede.
O que as enchentes ensinam ao leitor não é a lição banal de manter uma bateria portátil ou baixar mais um aplicativo de emergência, embora medidas práticas possam ser necessárias. A lição é que sobreviver numa sociedade digitalizada não pode depender da compra individual de redundâncias. Não é razoável tratar conexão estável, energia, informação verificável e comunicação em crises como privilégios de quem pode pagar pelo melhor plano, pelo aparelho mais caro ou pela segunda linha telefônica. Tampouco é aceitável que o trabalhador suporte sozinho o risco de uma infraestrutura sem a qual não trabalha.
Defender infraestrutura pública, universal, robusta e submetida a controle democrático não é fetiche estatal nem nostalgia de uma internet perdida. É disputar as condições materiais da autonomia coletiva. Significa exigir que a comunicação em emergências não seja um serviço acessório, que plataformas não decidam sozinhas o destino econômico de milhões e que o acesso à vida social não seja condicionado pela rentabilidade de uma empresa. A próxima crise climática, o próximo apagão ou a próxima interrupção de rede voltará a fazer a pergunta que a normalidade tenta esconder: quem possui os meios pelos quais podemos falar, trabalhar e pedir socorro?
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