Extrema direita o que defende não é uma pergunta respondida adequadamente por uma lista de costumes conservadores, frases sobre patriotismo ou referências abstratas à ordem. A questão decisiva é outra: que ordem ela pretende conservar e contra quem essa ordem é mobilizada? No Brasil, o bolsonarismo ofereceu uma resposta concreta à crise social: preservação da propriedade e da autoridade, ataque aos direitos trabalhistas, militarização da política, perseguição aos pobres e produção permanente de inimigos. Sua força não está em apresentar um programa coerente para a maioria, mas em converter frustrações reais em ódio contra aqueles que têm ainda menos poder.

A extrema direita cresce quando a vida social se torna insegura, mas não porque as pessoas simplesmente abandonam a razão. Ela cresce quando a insegurança produzida pelo capitalismo é deslocada para explicações que preservam os responsáveis por sua produção. O trabalhador submetido a jornadas extensas, o entregador controlado por aplicativo, a família endividada e o pequeno comerciante esmagado por grandes empresas encontram dificuldades materiais concretas. A extrema direita aparece para dizer que o problema não está na exploração, na concentração de riqueza ou no abandono estatal. Está no imigrante, no professor, no militante, na universidade, no servidor público, no pobre que recebe um benefício, na mulher que exige autonomia, no negro que denuncia o racismo ou no adversário político transformado em ameaça nacional.

A extrema direita defende uma ordem social desigual

O centro de seu projeto é a defesa da hierarquia. Não se trata apenas de preferir uma sociedade disciplinada ou de valorizar tradições familiares. A hierarquia aparece como princípio político e econômico: alguns devem mandar, outros devem obedecer; alguns podem acumular, outros devem aceitar a escassez como prova de fracasso individual. A desigualdade é apresentada como resultado natural de mérito, competência ou esforço, mesmo quando as condições de partida são radicalmente diferentes.

Essa defesa se conecta diretamente ao funcionamento do capitalismo. A propriedade privada dos meios de produção, a liberdade empresarial e a autoridade patronal são tratados como direitos absolutos, enquanto direitos sociais são descritos como privilégios. O empresário que demite, terceiriza ou reduz salários exerce, nessa narrativa, uma liberdade legítima. O trabalhador que se organiza para reivindicar melhores condições passa a ser acusado de perturbar a economia. A greve é vista como ameaça, mas o desemprego é tratado como problema individual. A cobrança de produtividade é chamada de gestão; a resistência a ela, de preguiça ou vandalismo.

É nesse ponto que a extrema direita se diferencia de um simples conservadorismo de costumes. Ela não apenas deseja conservar hábitos ou instituições; ela busca transformar a desigualdade em fundamento moral da sociedade. A autoridade do chefe, do pai, do policial, do proprietário e do líder político é apresentada como remédio para uma suposta decadência geral. Qualquer tentativa de democratizar o trabalho, a família, a escola ou o Estado é denunciada como desordem.

O medo social vira arma política

O sociólogo Gustave Le Bon observou como as multidões podem ser mobilizadas por imagens, símbolos e emoções que comprimem conflitos complexos em figuras simples. Isso não significa que a multidão seja irracional por natureza, nem que toda mobilização popular seja manipulada. Significa que, em determinadas condições, a política pode substituir a análise das causas por uma identificação afetiva com um líder e por uma representação condensada do inimigo. A extrema direita explora precisamente esse mecanismo.

O medo não é inventado do nada. A violência urbana existe, o trabalho se tornou mais instável, o acesso a serviços públicos é desigual e muitas pessoas vivem sem qualquer garantia de futuro. O movimento ideológico consiste em selecionar alguns medos e silenciar suas causas. A insegurança do trabalhador não é relacionada à precarização, à ausência de políticas urbanas ou à expansão de mercados ilegais em territórios abandonados. Ela é direcionada contra um grupo social definido como ameaça. A indignação contra a corrupção não é conectada ao financiamento empresarial da política ou à promiscuidade entre Estado e grandes interesses econômicos. Ela é encarnada em um inimigo moral conveniente.

O bolsonarismo fez isso em escala nacional. A corrupção foi transformada em linguagem total para explicar a crise, mas o discurso raramente alcançava as estruturas econômicas que concentram riqueza e poder. A promessa de limpeza política convivia com a defesa de um Estado submetido às Forças Armadas, a ataques contra instituições e à violência contra adversários. A bandeira nacional, o discurso religioso e a retórica anticorrupção funcionavam como elementos de uma identidade coletiva. Eles não eliminavam os conflitos sociais; apenas os reorganizavam em uma guerra moral na qual a extrema direita se apresentava como única representante do povo autêntico.

Bolsonarismo e trabalho precarizado

O caso dos entregadores de aplicativo expõe a contradição entre a retórica da liberdade e a realidade defendida pela extrema direita. O entregador é frequentemente apresentado como empreendedor independente, dono do próprio horário e responsável pelo próprio sucesso. Na prática, trabalha sob regras que não controla: tarifas, distribuição de chamadas, avaliações, bloqueios e critérios de desempenho definidos por plataformas privadas. A empresa conserva o poder de organizar o trabalho sem assumir integralmente os custos e as responsabilidades de um empregador.

Quando entregadores reivindicam remuneração digna, proteção contra acidentes e transparência nos bloqueios, a resposta neoliberal costuma afirmar que qualquer regulação destruiria sua liberdade. A extrema direita radicaliza essa posição. Para ela, a ausência de direitos aparece como autonomia, enquanto a organização coletiva aparece como ameaça. A possibilidade de o trabalhador negociar em melhores condições é substituída pela fantasia de que cada indivíduo pode vencer sozinho se for disciplinado o bastante.

Essa fantasia é particularmente eficaz porque se apoia em uma experiência verdadeira: o trabalhador precisa agir, circular, aceitar pedidos e buscar renda imediatamente. O algoritmo de trabalho transforma essa urgência em obediência. Não é necessário um supervisor visível ordenando cada movimento. A avaliação, a pontuação, o risco de bloqueio e a promessa de bônus produzem autocontrole. A extrema direita celebra essa relação porque reconhece nela um ideal político: indivíduos isolados, concorrendo entre si e incapazes de transformar sua condição comum em reivindicação coletiva.

O mesmo vale para o call center, para o professor pressionado por metas e para o trabalhador submetido à produtividade permanente. A ideologia da responsabilidade individual afirma que cada pessoa é livre para escolher, embora suas opções sejam estreitadas pela necessidade de vender sua força de trabalho. Se não consegue acompanhar a velocidade exigida, a culpa é sua. Se adoece, não se adaptou. Se protesta, está sendo manipulado. A extrema direita não elimina a exploração; ela impede que a exploração seja reconhecida como relação social.

A liberdade que a extrema direita promete

A palavra liberdade ocupa lugar central no discurso da extrema direita, mas seu conteúdo é seletivo. É liberdade para o proprietário administrar sem fiscalização, para a empresa demitir sem proteção, para o patrão definir a jornada, para a plataforma bloquear sem explicação e para a polícia agir com menor controle. Quando trabalhadores reivindicam liberdade de organização, quando mulheres enfrentam a violência doméstica ou quando minorias exigem proteção, a mesma palavra desaparece.

Marx mostrou que a liberdade jurídica do trabalhador no mercado possui uma dupla face. O trabalhador é formalmente livre para vender sua força de trabalho, mas também está livre dos meios necessários para produzir autonomamente. Precisa vender sua capacidade de trabalhar para sobreviver. A extrema direita preserva essa aparência de liberdade e oculta sua coerção material. O contrato entre indivíduos é apresentado como suficiente para garantir justiça, ainda que um lado controle o capital e o outro dependa do salário ou da renda instável do aplicativo.

Por isso, a defesa extrema da liberdade econômica costuma ser acompanhada da defesa de um Estado forte contra a sociedade. O Estado deve reduzir direitos, fiscalizar menos o capital e proteger mais agressivamente a propriedade. Deve conter greves, criminalizar protestos e ampliar o poder policial. A contradição é apenas aparente: a extrema direita quer um Estado fraco diante do empresário e forte diante do trabalhador.

O inimigo interno e a política do ressentimento

A extrema direita precisa fabricar uma comunidade ameaçada. O povo, em seu discurso, não é o conjunto contraditório de classes e grupos que vivem no mesmo território. É uma unidade imaginária formada pelos cidadãos considerados legítimos. Nessa definição, o povo costuma ser branco, cristão, heterossexual, armado, patriótico e obediente à autoridade. Quem não se encaixa passa a ser suspeito de não pertencer à nação.

O inimigo interno pode mudar de nome conforme a conjuntura. Pode ser o comunista, mesmo quando não existe qualquer força comunista com poder real; o professor doutrinador; o jornalista; o artista; o beneficiário de política social; o movimento sem-terra; o imigrante; a população negra que denuncia a violência; ou o eleitor de esquerda. A função é a mesma: transformar conflitos distribuídos pela estrutura social em confronto entre cidadãos puros e inimigos corrompidos.

O ressentimento cumpre papel decisivo. A pessoa precarizada é convidada a sentir que perdeu algo para alguém abaixo dela na hierarquia social. O trabalhador que não consegue acessar um serviço público é levado a odiar quem recebe uma política de transferência de renda, e não quem sonega, lucra com juros ou captura decisões do Estado. O homem inseguro diante da transformação das relações de gênero é convencido de que a autonomia das mulheres representa uma ameaça à sua autoridade. A extrema direita oferece uma compensação simbólica para a impotência material: se o indivíduo não pode controlar o próprio trabalho e o próprio futuro, pode ao menos imaginar que pertence ao lado superior de uma guerra cultural.

O espetáculo da indignação permanente

Guy Debord definiu o espetáculo não como simples conjunto de imagens, mas como uma relação social mediada por imagens. A política espetacular não é apenas aquela que usa propaganda; é aquela em que a aparência pública passa a organizar a própria relação entre as pessoas. O bolsonarismo compreendeu essa lógica ao transformar a provocação em método. A frase ofensiva, a ameaça institucional e o conflito fabricado mantêm a militância em estado de reação contínua.

Nas plataformas digitais, a indignação circula com velocidade e recompensa a simplificação. Uma denúncia real pode ser reduzida a um vídeo curto, uma imagem enganosa pode ser tratada como prova e uma mentira repetida pode construir uma comunidade de crentes. O algoritmo de plataforma não cria sozinho a extrema direita, mas favorece conteúdos capazes de gerar disputa, retenção e compartilhamento. A economia da atenção encontra uma ideologia que precisa de inimigos permanentes.

O resultado é uma política que substitui organização por identificação. O usuário não é convocado a compreender as condições de trabalho, construir um sindicato ou disputar o orçamento público. É convocado a comentar, atacar, denunciar e consumir novos episódios da guerra moral. Sua participação parece intensa, mas raramente altera as relações materiais que produzem seu sofrimento. A energia coletiva é capturada como tráfego, publicidade e fidelidade política.

O 8 de janeiro e a defesa autoritária da ordem

Os ataques de 8 de janeiro de 2023 revelaram o que existe por trás da retórica de ordem quando a extrema direita perde a capacidade de governar pela normalidade institucional. A invasão e a depredação das sedes dos poderes não foram um simples excesso de manifestantes desorientados. Foram a expressão de uma mobilização que recusava o resultado eleitoral, reivindicava intervenção militar e tratava a violência contra as instituições como gesto patriótico.

O paradoxo é instrutivo. A extrema direita se apresenta como defensora da lei, mas aceita a ruptura institucional quando a lei não entrega o resultado desejado. Defende a ordem, mas convoca a desordem contra a democracia quando seus interesses são contrariados. Defende a autoridade, mas exige que a autoridade se submeta ao líder e à sua base. Não se trata de incoerência acidental. A ordem defendida não é a ordem constitucional como espaço de disputa; é a ordem hierárquica na qual determinados grupos devem mandar sem contestação.

A tentativa de normalizar aquele episódio como manifestação legítima revela o limite da crítica liberal que reduz o problema à falta de educação política ou à polarização. O autoritarismo não é apenas uma falha de comportamento individual. Ele expressa uma demanda social por comando quando as instituições burguesas já não conseguem oferecer segurança, crescimento e representação para parcelas amplas da população. O líder autoritário promete resolver a contradição pela força, sem tocar na estrutura econômica que a produz.

Estado, direito e violência seletiva

O direito moderno apresenta os indivíduos como formalmente iguais, mas essa igualdade convive com desigualdades materiais profundas. Para Alysson Mascaro, o Estado não é um instrumento neutro colocado acima das classes; ele se organiza em torno das relações sociais do capitalismo e garante a reprodução de suas condições. Isso não significa que toda decisão estatal seja diretamente comandada por um empresário específico. Significa que o Estado funciona em uma forma social que separa economia e política, permitindo que a exploração pareça uma relação privada entre contratantes livres.

A extrema direita utiliza essa estrutura de modo abertamente autoritário. Quer a proteção jurídica da propriedade e, ao mesmo tempo, a flexibilização de limites que possam atingir proprietários e empresas. Quer a universalidade abstrata da lei quando ela pune pobres e manifestantes, mas reivindica exceção quando seus líderes e aliados enfrentam investigações. O discurso de tolerância zero é dirigido para baixo. A violência policial é celebrada nos territórios populares, enquanto a violência política de grupos organizados é minimizada quando serve à causa da ordem.

Essa seletividade também aparece na relação com políticas sociais. O Estado é acusado de criar dependência quando garante renda, saúde ou educação, mas sua intervenção em favor do sistema financeiro é tratada como responsabilidade econômica. O gasto social é denunciado como desperdício; juros e renúncias fiscais aparecem como decisões técnicas. A extrema direita transforma essa assimetria em moralidade: o pobre deve provar merecimento para receber proteção, enquanto o capital recebe proteção como se fosse requisito natural da economia.

Contra o mito de que a extrema direita defende o povo

A extrema direita pode falar em nome do povo sem defender os interesses da maioria trabalhadora. Sua linguagem popular não altera seu compromisso com a propriedade concentrada, com a autoridade patronal e com a redução dos mecanismos de proteção social. Ela reconhece o sofrimento das pessoas apenas para canalizá-lo contra alvos que não ameaçam a classe dominante.

Isso explica por que discursos radicais contra elites podem coexistir com políticas favoráveis aos ricos. A elite é apresentada como uma categoria moral seletiva: políticos corruptos, artistas, intelectuais ou empresários adversários são chamados de inimigos, enquanto bancos, grandes proprietários e grupos econômicos aliados desaparecem do campo de visão. A crítica à elite não é uma crítica à classe dominante. É uma disputa entre frações de poder pela capacidade de representar a ordem existente.

Também por isso a extrema direita não precisa abolir eleições para ser autoritária. Pode disputar votos, usar o Parlamento, ocupar governos e cultivar uma aparência de legalidade enquanto corrói direitos, deslegitima adversários e prepara a aceitação da violência. O fascismo histórico mostrou que o autoritarismo pode nascer de crises da democracia burguesa e mobilizar massas em defesa de uma reorganização brutal da sociedade. As formas atuais são diferentes, mas conservam a tentativa de destruir a autonomia coletiva dos trabalhadores e subordinar a política a uma autoridade salvadora.

O que se opõe a esse projeto

Combater a extrema direita exige mais do que denunciar suas mentiras, embora a denúncia seja necessária. É preciso disputar as condições que tornam suas promessas sedutoras. Um trabalhador não deixa de acreditar na solução autoritária apenas porque alguém lhe apresenta uma checagem de fatos. Ele precisa encontrar uma organização capaz de relacionar seu sofrimento à estrutura social e de oferecer uma saída coletiva que não seja a guerra contra os mais vulneráveis.

Essa disputa passa por direitos concretos: jornada reduzida, salário digno, proteção previdenciária, transparência algorítmica, liberdade sindical, serviços públicos e moradia. Passa também pela democratização do local de trabalho, para que a tecnologia não seja um instrumento unilateral de vigilância e cobrança. O entregador precisa deixar de ser tratado como empreendedor quando a plataforma controla sua atividade; o professor precisa deixar de ser avaliado como peça descartável; o trabalhador de call center precisa deixar de ser reduzido a uma voz mensurada por segundos.

A alternativa à extrema direita não é uma defesa abstrata da normalidade. A normalidade que produziu insegurança, endividamento e humilhação não merece ser restaurada como se fosse neutra. A alternativa é uma política que confronte a propriedade concentrada, reconstrua solidariedades de classe e recuse a transformação do sofrimento em ódio contra os de baixo. Sem essa disputa material, a extrema direita continuará oferecendo a mesma mercadoria política: uma identidade superior para indivíduos submetidos a uma vida inferior.