O que significa autoritarismo? A resposta mais comum aponta para a ditadura, a censura, a polícia política e a concentração do poder em um líder. Essa definição não está errada, mas é insuficiente para compreender o Brasil contemporâneo. O autoritarismo não começa apenas quando as instituições são formalmente fechadas. Ele também existe quando direitos são transformados em favores, quando a violência estatal é distribuída segundo a classe e a raça, quando o trabalho exige obediência sem oferecer segurança e quando empresas privadas administram a vida por meio de punições automáticas. A sua forma atual combina o Estado de exceção, a exploração econômica e a adesão ideológica de parcelas da sociedade à fantasia de que toda ordem é preferível à liberdade.
O bolsonarismo tornou essa dinâmica visível, mas não a inventou sozinho. Jair Bolsonaro condensou ressentimentos sociais, militarismo, racismo, misoginia, anticomunismo e ódio aos trabalhadores organizados em uma linguagem política capaz de transformar a brutalidade em virtude. O ataque de 8 de janeiro de 2023 foi a expressão espetacular dessa política: uma tentativa de impor pela força a derrota eleitoral de um projeto autoritário. Contudo, olhar apenas para os prédios depredados em Brasília pode esconder o problema maior. A democracia não é ameaçada somente por uma multidão que invade instituições; ela também é corroída diariamente por relações sociais nas quais milhões de pessoas aprendem que não têm direito a voz, tempo, proteção ou recusa.
Autoritarismo não é apenas um governo sem eleições
Uma sociedade autoritária é aquela em que a obediência se converte em princípio geral de organização. O chefe manda, o subordinado executa, e qualquer contestação aparece como desordem, ingratidão ou ameaça. Essa estrutura pode existir em uma ditadura aberta, mas também dentro de uma democracia burguesa que preserva eleições enquanto limita concretamente as possibilidades de decisão popular. Votar a cada quatro anos não significa controlar as condições materiais da própria existência. Se a maioria depende de vender sua força de trabalho para sobreviver, se não pode interromper a jornada sem perder a renda e se não consegue enfrentar o proprietário, o banco ou a plataforma em condições minimamente equilibradas, a cidadania permanece formal.
A análise marxista ajuda a deslocar o problema do temperamento individual dos governantes para as relações sociais que tornam determinadas formas de poder necessárias. O Estado capitalista se apresenta como representante do interesse geral, mas organiza juridicamente uma sociedade fundada na propriedade privada dos meios de produção e na exploração do trabalho. A igualdade perante a lei convive com uma desigualdade material que define quem pode negociar, quem pode esperar e quem precisa aceitar qualquer condição. O autoritarismo se alimenta dessa contradição. A lei garante liberdade de contrato ao mesmo tempo que milhões de trabalhadores são obrigados a contratar sua própria exploração para não cair na fome.
Alysson Mascaro, ao analisar a forma política do capitalismo, mostra que o Estado não é um instrumento neutro situado acima das classes. A forma estatal moderna separa a economia e a política, apresentando como cidadãos iguais aqueles que ocupam posições profundamente desiguais na produção. Essa separação permite que a exploração apareça como acordo privado e que a coerção necessária à reprodução do sistema desapareça do discurso público. O patrão não parece exercer poder político quando demite; a plataforma não parece governar quando bloqueia uma conta; o banco não parece impor uma ordem quando cobra uma dívida. O autoritarismo se torna invisível justamente porque é apresentado como contrato, regra técnica ou consequência natural do mercado.
A obediência cotidiana prepara a obediência política
Considere o entregador de aplicativo. Ele não recebe uma ordem direta de um supervisor que permanece ao seu lado durante a jornada. Em vez disso, trabalha sob um sistema de distribuição de corridas, avaliação de clientes, metas implícitas, variações de tarifa e ameaças de bloqueio. A empresa pode afirmar que o trabalhador é autônomo, mas sua autonomia é estreita: ele depende de decisões que não conhece, não controla e não consegue contestar individualmente. O algoritmo transforma a autoridade empresarial em cálculo. A ordem não desaparece; ela se torna opaca, impessoal e aparentemente inevitável.
Quando a chuva aumenta o risco, quando a motocicleta precisa de manutenção ou quando o preço do combustível sobe, a plataforma não assume a responsabilidade correspondente. O trabalhador deve continuar conectado, aceitar a corrida e administrar sozinho os custos da atividade. Se recusa chamadas demais, sua posição pode ser prejudicada; se aceita tudo, trabalha sob risco ampliado. A empresa conserva o poder de organizar o trabalho e transfere ao indivíduo os custos, os acidentes e a culpa pelo fracasso. Esse arranjo é autoritário porque exige disponibilidade total sem reconhecer o direito de negociação de quem executa a atividade.
O mesmo princípio aparece no call center, na escola submetida a metas e no emprego administrado por indicadores de produtividade. O atendente precisa seguir um roteiro, controlar o tempo de cada ligação e manter uma cordialidade artificial diante de consumidores agressivos. O professor é pressionado a cumprir plataformas, relatórios e metas que reduzem o ensino a desempenho mensurável. Em todos esses casos, a ordem empresarial entra no corpo: regula a voz, o tempo, a pausa, a atenção e até a expressão emocional. A pessoa deixa de ser tratada como sujeito de uma atividade coletiva e passa a funcionar como unidade de desempenho.
A autoridade autoritária não precisa gritar o tempo todo. Ela pode operar por avaliações, rankings, metas e indicadores que fazem o trabalhador vigiar a si mesmo. A punição é antecipada pela ansiedade. Antes que alguém ordene, o indivíduo já corrige o próprio comportamento para não perder renda, nota, acesso ou oportunidade. A promessa de liberdade reforça o controle: o trabalhador é declarado empreendedor de si mesmo e responsabilizado por resultados que dependem de estruturas sobre as quais não possui qualquer poder.
Do patrão invisível ao líder salvador
Essa experiência cotidiana de impotência produz um terreno fértil para a ideologia autoritária. Quem vive submetido a ordens econômicas que não pode discutir tende a procurar uma autoridade capaz de transformar a insegurança em narrativa simples. O líder forte promete eliminar conflitos, punir os inimigos e devolver uma sensação de controle àqueles que perderam o controle sobre a própria vida. O discurso não oferece emancipação; oferece identificação com o poder. O indivíduo explorado passa a imaginar que participa da força do chefe, do militar, do empresário ou do governante que afirma falar em nome da ordem.
Gustave Le Bon, em sua formulação sobre a psicologia das multidões, descreveu a tendência das massas a se organizarem em torno de imagens, palavras de ordem e figuras que condensam desejos difusos. A sua teoria foi marcada por limites elitistas, mas ajuda a perceber como o raciocínio complexo pode ser substituído por símbolos de pertencimento. No bolsonarismo, a bandeira nacional, o culto às armas, a defesa da família e a demonização da esquerda funcionaram como imagens de uma comunidade imaginada. A multiplicidade de sofrimentos sociais foi comprimida em uma explicação única: o país estaria sendo destruído por inimigos internos, e a salvação dependeria da autoridade de um líder incorruptível.
A propaganda bolsonarista não convenceu apenas por falsificar fatos. Ela ofereceu uma forma de organizar afetos. O medo da perda de status, o ressentimento contra políticas de igualdade, a insegurança econômica e a raiva acumulada contra instituições foram dirigidos contra professores, jornalistas, mulheres, pessoas LGBT+, movimentos sociais, servidores públicos e trabalhadores que reivindicam direitos. A desinformação funciona melhor quando encontra uma estrutura social que já produz desconfiança, isolamento e impotência. O autoritarismo não fabrica todos os ressentimentos; ele os captura, os hierarquiza e os converte em obediência.
Guy Debord chamou de espetáculo a forma social em que a relação entre as pessoas é mediada por imagens. No espetáculo político, o cidadão não participa da elaboração coletiva das decisões; ele contempla acontecimentos, personagens e conflitos produzidos para consumo. O bolsonarismo fez da política uma transmissão permanente de gestos de confronto, ataques e ameaças. A performance de indisciplina do líder serviu para produzir uma disciplina entre seus seguidores: todos deveriam repetir a mesma indignação, compartilhar os mesmos vídeos e reconhecer os mesmos inimigos. A aparência de rebeldia escondia uma relação profundamente hierárquica.
O 8 de janeiro e a fantasia de recuperar o poder
O 8 de janeiro deve ser compreendido como mais do que um episódio de vandalismo ou como uma explosão irracional de indivíduos manipulados. A invasão das sedes dos poderes da República foi uma tentativa política de substituir a decisão eleitoral pela força. Seus participantes não queriam simplesmente protestar contra o resultado das urnas; queriam criar as condições para uma ruptura institucional, contando com a adesão ou a omissão de setores das Forças Armadas e de agentes do Estado. A violência era apresentada como defesa da liberdade, uma inversão típica do autoritarismo: a destruição das regras democráticas aparece como proteção da democracia verdadeira.
O episódio também revelou a dependência do autoritarismo em relação à mobilização de massas. O líder pode se apresentar como homem forte, mas precisa de seguidores dispostos a ocupar ruas, financiar acampamentos, difundir mentiras e pressionar instituições. A multidão não é uma força espontaneamente emancipadora. Ela pode ser organizada pela classe dominante e por suas redes ideológicas para atacar direitos que beneficiam a própria maioria. Trabalhadores precarizados, pequenos empresários endividados e setores médios ameaçados foram convocados a defender uma ordem que preserva a concentração de riqueza e poder.
A responsabilização dos envolvidos é necessária, mas não basta punir os executores visíveis e preservar as condições que alimentaram o movimento. O financiamento, a circulação industrial de desinformação, a cumplicidade de autoridades e a estrutura econômica do ressentimento precisam ser enfrentados. Caso contrário, o autoritarismo será reduzido a uma patologia de fanáticos, enquanto a desigualdade, a precarização e o monopólio privado da comunicação continuarão produzindo novas formas de submissão.
Estado de exceção para uns, normalidade para outros
O Estado autoritário costuma aparecer como exceção quando suspende direitos de grupos considerados perigosos. No Brasil, porém, a exceção sempre foi distribuída de modo desigual. Para moradores de periferias, sobretudo negros, a presença estatal frequentemente se manifesta pela polícia, pela prisão, pela abordagem violenta e pela ameaça de morte. Para trabalhadores informais, aparece na ausência de proteção previdenciária, na fiscalização seletiva e na impossibilidade prática de reivindicar direitos. Para populações indígenas, quilombolas e camponesas, manifesta-se na invasão territorial e na proteção insuficiente diante da violência privada.
Ao mesmo tempo, para os proprietários, grandes empresas e rentistas, o Estado aparece como garantidor de contratos, crédito, infraestrutura e estabilidade. A mesma sociedade que naturaliza a morte de um jovem na periferia mobiliza a linguagem da segurança jurídica para proteger lucros e patrimônios. Não se trata de dizer que toda ação estatal é idêntica ou que a lei não produz efeitos reais. Trata-se de observar quem pode contar com a lei como proteção e quem encontra nela sobretudo vigilância e punição.
Martin Heidegger, ao refletir sobre a técnica moderna, descreveu uma forma de relação com o mundo em que tudo tende a ser convertido em recurso disponível. No capitalismo digital, essa lógica alcança o trabalhador, seus deslocamentos, sua atenção e seus dados. A técnica não é apenas um conjunto neutro de ferramentas. Ela incorpora finalidades sociais. Um aplicativo desenhado para maximizar entregas e reduzir custos não apenas facilita encontros entre consumidores e trabalhadores; ele organiza uma relação de poder na qual o tempo humano é tratado como variável ajustável. A administração técnica pode ocultar a decisão política de explorar mais com menos responsabilidade.
É nesse ponto que autoritarismo e tecnologia se encontram. O problema não é que um algoritmo tenha personalidade tirânica. O problema é que decisões socialmente relevantes são entregues a sistemas privados, sem transparência, participação ou possibilidade efetiva de recurso. O trabalhador bloqueado não conversa com uma máquina, mas com uma empresa que escolheu esconder-se atrás da máquina. A técnica protege o comando da contestação e converte uma decisão de classe em resultado automático.
A democracia que não chega ao local de trabalho
A defesa da democracia não pode se limitar à preservação das eleições e à condenação dos golpistas. É preciso perguntar por que a experiência democrática termina na porta da empresa. O trabalhador pode votar em representantes, mas não participa da definição da jornada, da velocidade do trabalho, da distribuição do lucro ou do uso dos dados produzidos por sua atividade. O entregador pode ser juridicamente chamado de parceiro, mas não decide o valor da corrida. O professor pode ter liberdade de cátedra formal, mas é submetido a metas que determinam o que deve ser registrado e avaliado.
Sem democratizar as relações econômicas, a democracia política permanece vulnerável ao autoritarismo. A pessoa que passa o dia obedecendo para sobreviver não se torna automaticamente defensora da liberdade porque deposita um voto. Ela precisa encontrar, em sua experiência concreta, formas coletivas de poder: sindicato, associação, cooperativa, greve, organização comunitária e participação efetiva nas decisões que afetam seu trabalho. A solidariedade não é um adorno moral. É a condição material para que o indivíduo deixe de enfrentar sozinho forças que só podem ser combatidas coletivamente.
As lutas dos entregadores, como o Breque dos Apps, mostraram essa possibilidade ao transformar uma categoria dispersa em sujeito público. A reivindicação por aumento das taxas, proteção contra acidentes, transparência dos bloqueios e reconhecimento de direitos rompeu a narrativa de que cada trabalhador é uma empresa isolada. O conflito revelou que a suposta autonomia era uma forma de desproteção e que a plataforma dependia de uma força de trabalho capaz de interromper o serviço. Onde há organização, a obediência automática encontra um limite.
O autoritarismo significa, em seu núcleo, a tentativa de impedir que aqueles submetidos a uma ordem possam decidir sobre ela. Ele pode vestir uniforme, terno, camiseta patriótica ou interface amigável. Pode aparecer no discurso de um líder que promete esmagar inimigos, na empresa que bloqueia trabalhadores sem explicação ou na política pública que trata a pobreza como falha moral. Suas formas variam, mas a estrutura permanece: concentração de poder, desqualificação do conflito e transformação da submissão em virtude.
Combater essa estrutura exige mais do que trocar o governante ou denunciar a mentira mais escandalosa do dia. Exige enfrentar a propriedade e o poder que tornam a vida dependente da obediência, desmontar a máquina de desinformação e ampliar os espaços em que trabalhadores e comunidades possam decidir. A democracia que interessa não é a cerimônia eleitoral administrada por uma sociedade autoritária. É a capacidade coletiva de interromper ordens injustas, controlar as instituições e disputar as condições materiais da existência.
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