O que é o fascismo? A pergunta não pode ser respondida apenas com uma definição de manual, como se o fenômeno fosse uma peça encerrada no museu das ideologias europeias. No Brasil, o fascismo aparece como uma forma de organizar o medo, converter a frustração social em ódio político e apresentar a violência contra os de baixo como remédio para uma crise produzida pelo próprio capitalismo. O bolsonarismo não inventou todas as condições dessa política, mas soube transformá-las em método de mobilização, governo e disputa permanente.
O fascismo não se resume à existência de um líder autoritário, ao uso de símbolos nacionais ou à defesa de um Estado policial. Esses elementos podem existir em diferentes regimes. O seu núcleo está na promessa de recompor uma comunidade imaginária, supostamente traída por inimigos internos, por meio da destruição da política como espaço de conflito social. A multidão é convocada a abandonar reivindicações concretas e a se reconhecer em uma identidade nacional ameaçada. O trabalhador sem direitos deixa de enxergar o patrão, o banco e o Estado que o abandona; passa a enxergar o professor, o imigrante, a esquerda, o jornalista ou o ministro do Supremo como causa de sua ruína.
O que é o fascismo além do autoritarismo
Todo fascismo é autoritário, mas nem todo autoritarismo é fascista. Uma ditadura pode simplesmente administrar a sociedade pela coerção, mantendo a população afastada da vida política. O fascismo precisa de uma participação mobilizada, ainda que essa participação seja construída sobre mentira, ressentimento e violência. Ele não quer apenas cidadãos obedientes; quer massas convencidas de que estão salvando a nação ao perseguir seus inimigos.
É nesse ponto que a contribuição de Gustave Le Bon ajuda a compreender a política fascista, embora sua visão elitista das multidões deva ser criticada. Para ele, a massa tende a agir menos pela argumentação racional do que por imagens, contágio emocional e afirmações repetidas. O fascismo explora precisamente essa dimensão: substitui a análise das relações sociais por símbolos condensados, frases de ordem e a presença teatral do líder. A complexidade da exploração é comprimida numa narrativa simples: alguém roubou o país, alguém corrompeu a família, alguém ameaça a liberdade. O líder aparece como a encarnação da vontade coletiva e como único intérprete legítimo da verdade.
Guy Debord permite avançar nessa análise. Na sociedade do espetáculo, as relações sociais são mediadas por imagens que parecem independentes da vida real. O espetáculo não é apenas propaganda ou entretenimento; é uma forma de organização social na qual a representação ocupa o lugar da experiência direta. O bolsonarismo tornou essa lógica particularmente visível. A motociata, a live semanal, a fotografia com armas, a frase agressiva e a transmissão de uma suposta indignação produziram uma política mais preocupada com a circulação de cenas do que com a solução de problemas.
A imagem do homem que enfrenta tudo substituiu a discussão sobre o desemprego, a inflação, o endividamento e o abandono dos serviços públicos. O espetáculo dizia que a nação estava sendo defendida, enquanto a vida material de milhões seguia submetida à precarização. O trabalhador era convidado a celebrar a própria submissão como prova de liberdade: trabalhar sem direitos seria empreendedorismo; desconfiar da ciência seria autonomia; atacar instituições seria patriotismo.
A crise social que alimenta a extrema direita
O fascismo cresce em uma sociedade na qual a experiência coletiva da exploração foi transformada em culpa individual. O entregador que passa o dia na motocicleta, submetido ao algoritmo de uma plataforma e exposto a acidentes, não é apresentado como trabalhador cuja proteção foi retirada. É descrito como empreendedor independente. A professora submetida à sobrecarga, à vigilância e à falta de recursos não aparece como parte de uma estrutura de desfinanciamento da educação. É acusada de doutrinação. O operador de call center controlado por metas e pausas cronometradas não é visto como alguém alienado de seu próprio trabalho. É pressionado a sorrir, agradecer e melhorar sua produtividade.
Quando a exploração é vivida como fracasso pessoal, o ressentimento procura um alvo próximo e visível. A extrema direita oferece esse alvo. Ela não promete abolir as relações que produzem sofrimento; promete punir aqueles que supostamente impedem o indivíduo de vencer. A desigualdade deixa de ser uma questão de classe e se converte em uma guerra moral contra os pobres que recebem direitos, contra as mulheres que exigem autonomia, contra a população negra que denuncia o racismo, contra pessoas LGBTQIA+ e contra todos os que recusam a hierarquia apresentada como natural.
A ideologia meritocrática prepara esse terreno. Se cada pessoa é considerada exclusivamente responsável pelo próprio destino, o fracasso precisa ser explicado por defeitos individuais. A política fascista aproveita essa solidão social e oferece uma saída regressiva: não a solidariedade entre trabalhadores, mas a identificação com uma autoridade que promete restaurar uma ordem perdida. O sujeito precarizado pode sentir que recupera dignidade ao repetir a linguagem do chefe, do policial ou do líder religioso que o despreza. A obediência aparece como força, e a violência contra os mais vulneráveis como sinal de virilidade.
Essa operação não ocorre fora do capitalismo. O fascismo pode entrar em choque com formas liberais de democracia, mas não rompe necessariamente com a propriedade privada, com a exploração do trabalho ou com o poder econômico. Ao contrário, em momentos de crise, ele pode proteger essas estruturas ao deslocar a revolta social para o terreno da guerra cultural. A burguesia não precisa aderir integralmente ao discurso fascista para se beneficiar dele. Basta que a mobilização autoritária enfraqueça sindicatos, direitos, políticas sociais e formas de organização popular.
O bolsonarismo e a fabricação do inimigo interno
O bolsonarismo brasileiro deve ser compreendido como uma forma contemporânea de extrema direita com componentes fascistas, não como uma simples excentricidade eleitoral. Sua força foi construída pela combinação de militarismo, fundamentalismo religioso, anticomunismo imaginário, racismo, misoginia, culto às armas e hostilidade às instituições que poderiam limitar o poder presidencial. O discurso não precisava ser coerente. Precisava produzir pertencimento e definir quem deveria ser odiado.
A palavra comunismo funcionou nesse processo como um recipiente vazio. Nela cabiam o Partido dos Trabalhadores, as universidades, o Supremo Tribunal Federal, o movimento negro, o feminismo, a imprensa crítica e qualquer política de redução da desigualdade. O objetivo não era descrever uma realidade, mas fabricar uma ameaça total. Ao dizer que tudo era comunismo, o bolsonarismo dissolvia diferenças concretas entre adversários e apresentava a eliminação da oposição como defesa da pátria.
As redes sociais aceleraram essa dinâmica. As plataformas não apenas distribuem opiniões; elas organizam a visibilidade, premiam o choque e transformam a indignação em fluxo permanente de atenção. O conteúdo que provoca medo ou raiva tende a circular como acontecimento, mesmo quando não possui relação com fatos verificáveis. A mentira deixa de ser um erro corrigível e passa a funcionar como instrumento de agrupamento. Quem compartilha uma falsidade não está necessariamente tentando informar; está demonstrando fidelidade ao grupo.
Foi assim que mensagens sobre urnas, vacinas, escolas e instituições públicas constituíram uma realidade paralela. A desinformação bolsonarista não dependia de convencer todos sobre uma tese específica. Bastava destruir a possibilidade de um mundo comum, no qual evidências pudessem ser discutidas e decisões coletivas fossem reconhecidas. Quando toda informação é denunciada como manipulação, o líder e sua comunidade digital tornam-se a única fonte legítima de verdade.
Essa é uma atualização tecnológica de uma velha técnica fascista. O rádio e os comícios de massa foram fundamentais para os fascismos históricos; hoje, grupos de mensagens, vídeos curtos, transmissões ao vivo e sistemas de recomendação ocupam parte desse papel. A diferença é que a mobilização atual pode entrar na casa, no trabalho e no bolso do indivíduo a qualquer hora. O celular produz uma sensação de participação contínua, mas frequentemente entrega apenas repetição, vigilância e reação instantânea.
O 8 de janeiro e a política da ruptura
Os ataques de 8 de janeiro de 2023 revelaram que o bolsonarismo não era somente uma máquina eleitoral ou um conjunto de opiniões conservadoras. A invasão e a depredação das sedes dos Três Poderes expressaram a recusa fascista de aceitar o conflito político dentro de limites comuns. A derrota eleitoral não foi tratada como resultado a ser disputado por meios democráticos, mas como prova de uma conspiração que autorizaria a insurreição.
O episódio não surgiu do nada. Durante anos, o bolsonarismo produziu a imagem de que o país estava ocupado por inimigos e de que as Forças Armadas poderiam agir como árbitro superior da política. Acampamentos diante de quartéis, bloqueios de estradas, ameaças e campanhas contra as urnas compuseram um ambiente no qual a violência foi normalizada como patriotismo. Os invasores não se percebiam como destruidores da democracia; imaginavam-se como seus únicos defensores.
Essa inversão é característica da política fascista. A violência do próprio grupo é apagada ou justificada como reação. A violência dos adversários, mesmo quando inexistente, é apresentada como ameaça existencial. O fascista reivindica a ordem enquanto mobiliza o caos; invoca a lei enquanto exige que a lei seja suspensa para punir seus inimigos. A contradição não é um defeito acidental. É parte de uma política que precisa manter seus seguidores em estado permanente de emergência.
O 8 de janeiro também mostrou os limites de uma explicação que responsabiliza apenas indivíduos fanatizados. As pessoas que participaram devem responder por seus atos, mas a responsabilização penal não substitui a análise política. Houve financiamento, circulação organizada de informações, conivência institucional e uma longa campanha de deslegitimação do processo eleitoral. Reduzir tudo à irracionalidade de uma multidão impede enxergar os interesses e as estruturas que tornam a multidão possível.
Fascismo, Estado e proteção da propriedade
A relação entre fascismo e Estado não pode ser pensada como oposição simples entre um movimento de rua e as instituições. O Estado capitalista aparece como árbitro geral, mas suas formas jurídicas e administrativas preservam a propriedade e a reprodução do capital. Alysson Mascaro mostra que a forma política estatal não é um instrumento neutro que qualquer classe utiliza à vontade; ela se relaciona estruturalmente com a forma mercadoria e com a separação dos trabalhadores dos meios de produção.
Essa perspectiva ajuda a entender por que o fascismo pode atacar determinadas instituições sem atacar o núcleo econômico da dominação. Ele denuncia ministros, partidos e órgãos públicos, mas raramente questiona o poder dos grandes proprietários, do sistema financeiro e das plataformas que subordinam a vida social à valorização do capital. Sua crítica ao Estado é seletiva: rejeita políticas de proteção social e mecanismos de participação popular, mas exige um Estado forte para policiar periferias, controlar fronteiras, reprimir greves e proteger contratos.
Quando direitos trabalhistas são apresentados como privilégios e políticas sociais como desperdício, a extrema direita oferece uma solução autoritária para uma crise neoliberal. O Estado reduzido para garantir saúde, educação e moradia pode ser ampliado para vigiar, punir e matar. A austeridade produz abandono; o fascismo converte o abandono em ressentimento; depois promete resolver o ressentimento por meio da força. A população recebe menos proteção social e mais polícia, menos direitos e mais disciplina.
Não existe, nesse processo, uma oposição entre economia e cultura. O ataque à universidade, à arte, ao jornalismo e à educação cumpre uma função econômica e política: enfraquece os espaços de elaboração coletiva da experiência. Um trabalhador isolado, convencido de que seus problemas são exclusivamente morais ou individuais, encontra mais dificuldade para reconhecer interesses comuns. A censura e a perseguição cultural não são acessórios do fascismo; são maneiras de impedir que a sociedade nomeie a exploração.
A luta contra o fascismo não cabe na defesa abstrata da democracia
Defender a democracia contra o fascismo não pode significar apenas proteger procedimentos eleitorais, embora eles devam ser preservados. A democracia perde substância quando o trabalhador pode votar, mas não tem tempo, renda ou segurança para participar da vida pública; quando a periferia convive com a violência de Estado; quando a plataforma decide seu rendimento sem transparência; quando a escola é sucateada e a saúde se transforma em mercadoria.
O combate ao fascismo precisa enfrentar as condições materiais que alimentam sua promessa de pertencimento. Isso envolve reconstruir direitos trabalhistas, fortalecer sindicatos, garantir serviços públicos, enfrentar o racismo estrutural e limitar o poder das plataformas digitais. Envolve também disputar o sentido da segurança, recusando a ideia de que segurança seja apenas o direito dos proprietários de manter os pobres sob suspeita.
A esquerda fracassa quando responde ao fascismo somente com indignação moral ou com apelos genéricos à tolerância. Não basta dizer que os fascistas são maus, ignorantes ou irracionais. É preciso disputar a interpretação do sofrimento social. O entregador não deve ser convencido apenas de que Bolsonaro mente; precisa encontrar uma organização capaz de transformar sua insegurança em reivindicação coletiva. A professora não precisa apenas de uma defesa simbólica contra os ataques; precisa de condições concretas para trabalhar e participar das decisões sobre a educação.
O fascismo oferece comunidade pela exclusão. A resposta anticapitalista precisa oferecer solidariedade pela organização. Uma não é simples inversão moral da outra. Trata-se de reconstruir, na prática, vínculos que a concorrência destrói: o sindicato, o movimento de moradia, a associação comunitária, a escola pública, a luta antirracista, a participação política nos locais de trabalho. Sem essa base, a denúncia do autoritarismo permanece limitada à defesa das instituições tal como existem, mesmo quando elas continuam produzindo abandono e desigualdade.
O fascismo não é uma aberração que aparece quando a sociedade perde a razão. Ele é uma possibilidade política inscrita em uma ordem social que transforma trabalhadores em concorrentes, problemas coletivos em culpas individuais e a vida inteira em oportunidade de lucro. Em momentos de crise, essa ordem pode recorrer à mobilização do ódio para impedir que a crise seja dirigida contra os proprietários e contra as relações que a produzem.
Reconhecer o fascismo no Brasil exige, por isso, mais do que identificar uniformes, bandeiras ou discursos de extermínio. É preciso observar quem se beneficia quando a população é mantida em guerra contra si mesma. O bolsonarismo fracassou em sua tentativa de ruptura institucional, mas as condições que o alimentaram não desapareceram. Enquanto a precariedade for administrada como destino individual e a desigualdade for protegida como liberdade de mercado, a extrema direita continuará encontrando matéria social para transformar sofrimento em obediência.
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