O que é ser fascista? A pergunta não se resolve com uma definição de dicionário nem com a fotografia de um ditador uniformizado. Ser fascista é aderir a uma forma de organizar a frustração social: transformar a insegurança produzida pela exploração em ódio contra inimigos escolhidos, substituir direitos por obediência e apresentar a violência política como remédio para uma sociedade em crise. No Brasil, essa forma apareceu com nitidez no bolsonarismo e encontrou sua expressão mais explícita na tentativa de destruir as sedes dos poderes em 8 de janeiro de 2023.

O fascista não é simplesmente uma pessoa rude, conservadora ou partidária da direita. A palavra perde força quando é usada para qualquer comportamento autoritário, e ganha precisão quando nomeia uma relação política específica com a democracia, com a desigualdade e com a violência. O problema não está apenas na opinião individual, mas no modo como um sujeito aceita que a hierarquia social seja protegida por forças de exceção, que o adversário seja tratado como inimigo absoluto e que a vontade de um líder valha mais que qualquer forma coletiva de decisão.

O que é ser fascista além do insulto

Ser fascista é desejar uma sociedade em que a ordem esteja acima da igualdade e em que a obediência seja apresentada como virtude moral. É acreditar que conflitos sociais não resultam de interesses opostos entre classes, mas da ação de traidores, comunistas, jornalistas, professores, artistas, imigrantes, pessoas negras, pessoas LGBT ou qualquer grupo escolhido como ameaça à comunidade nacional. A política deixa de ser disputa entre projetos e passa a ser uma operação de limpeza: retirar do corpo social quem não se encaixa na imagem de povo construída pelo movimento.

Essa imagem de povo não inclui todos os que vivem no país. Ela reúne os que aceitam uma determinada hierarquia: a família patriarcal, a autoridade religiosa, a masculinidade agressiva, a propriedade privada sem contestação, a polícia sem controle e o trabalho submetido à disciplina empresarial. O fascista fala em nome do povo enquanto exclui trabalhadores organizados, minorias políticas e qualquer sujeito que reivindique autonomia. A nação aparece como uma unidade natural, mas sua unidade depende de silenciar os conflitos reais que atravessam a sociedade.

É por isso que não basta definir o fascismo como uma ditadura ou como um governo de partido único. O fascismo também é uma disposição social. Ele pode existir como movimento, linguagem, prática militante e desejo de punição antes de conquistar o Estado. Quando seus adeptos defendem o fechamento do Supremo Tribunal Federal, a intervenção militar ou a prisão de adversários, não estão apenas expressando uma preferência eleitoral. Estão aceitando que a força substitua a política e que a lei seja suspensa quando o resultado democrático não corresponde à sua vontade.

O fascista brasileiro e a fabricação do inimigo

No bolsonarismo, a fabricação do inimigo combinou anticomunismo imaginário, misoginia, racismo, pânico moral e ressentimento contra instituições que poderiam limitar a autoridade presidencial. O discurso não precisava ser coerente. Bastava reunir ameaças diferentes sob uma mesma explicação: o país teria sido tomado por uma conspiração de esquerdistas, globalistas, ministros, universidades, imprensa e movimentos sociais. A complexidade da vida social era reduzida a um enredo de traição nacional.

O 8 de janeiro não foi um acesso espontâneo de raiva popular. Foi o resultado de uma pedagogia política que ensinou seus seguidores a tratar a derrota eleitoral como fraude, o adversário como criminoso e a intervenção militar como salvação. A invasão dos prédios públicos revelou o que havia por trás da retórica de cidadão de bem: a disposição de destruir símbolos e espaços públicos quando a soberania popular não confirmava a própria fantasia de maioria.

Isso não significa atribuir a mesma responsabilidade a todas as pessoas que votaram em Jair Bolsonaro ou que se identificam com pautas conservadoras. A crítica precisa distinguir o eleitor que defende uma agenda de direita do militante que deseja abolir a alternância de poder, persegue adversários e legitima a violência. Sem essa distinção, a análise vira xingamento e deixa de explicar o fenômeno. Mas a distinção também não pode servir para apagar a responsabilidade de quem participou conscientemente da mobilização golpista, financiou sua estrutura ou ajudou a normalizar suas ameaças.

O fascista se reconhece menos pela preferência partidária do que pelo limite que está disposto a ultrapassar. Ele pode dizer que ama a pátria, a família e Deus, mas a pergunta decisiva é o que aceita fazer em nome desses símbolos. Se aceita tortura, perseguição, censura, golpe e eliminação física ou política do adversário, a defesa da moralidade é apenas a embalagem respeitável de uma política de violência.

A crise social que alimenta a obediência

O fascismo não surge do nada e não se explica apenas por ignorância ou maldade individual. Ele cresce em crises nas quais a vida cotidiana se torna instável, mas as causas materiais dessa instabilidade permanecem ocultas. O trabalhador submetido a jornadas extensas, o entregador controlado por aplicativo, a professora que acumula turmas, o funcionário de call center medido por produtividade e o desempregado pressionado a aceitar qualquer ocupação vivem formas concretas de insegurança. Essa insegurança poderia produzir organização coletiva. Também pode ser desviada para o ressentimento contra um inimigo conveniente.

O capitalismo contemporâneo produz essa ambivalência. A mesma sociedade que desmonta vínculos trabalhistas exige que cada indivíduo se apresente como empreendedor de si mesmo. Se o entregador não consegue pagar as contas, a culpa é atribuída à sua falta de esforço; se a professora adoece, falta resiliência; se o jovem não encontra emprego, faltaria disciplina. A ideologia meritocrática transforma a exploração em fracasso pessoal. O fascismo entra nesse terreno oferecendo uma explicação emocional: você não fracassou porque o trabalho foi precarizado, mas porque alguém roubou o país de pessoas como você.

A promessa fascista é restaurar dignidade sem alterar a estrutura que produz a humilhação. Ela oferece um superior para obedecer e um inferior para desprezar. O trabalhador precarizado não recebe poder sobre seu trabalho, tempo ou salário; recebe a fantasia de pertencer a uma comunidade nacional superior. Em vez de questionar o patrão, o algoritmo, o banco ou a concentração da riqueza, é convidado a vigiar o professor, o imigrante, a mulher feminista ou o militante de esquerda.

Essa operação é funcional ao capital porque desloca o conflito. O fascista pode odiar bancos, empresas de tecnologia ou políticos corruptos em seu discurso, mas sua revolta raramente se transforma em crítica à propriedade e à exploração. O inimigo termina sendo o pobre considerado preguiçoso, o funcionário público, o beneficiário de política social ou o trabalhador organizado. A indignação permanece dentro dos limites de uma sociedade desigual e, em momentos de crise, pode ser mobilizada para defendê-la.

Le Bon, Debord e a multidão administrada

Gustave Le Bon percebeu, ainda no século XIX, que a multidão pode ser conduzida por imagens, símbolos e contágios emocionais, em vez de argumentos racionais. Sua teoria carregava preconceitos elitistas e não oferece uma explicação suficiente para o fascismo, mas ajuda a compreender por que a política fascista investe menos na demonstração do que na repetição. O mito do líder, a bandeira, o gesto coletivo e a palavra de ordem produzem uma sensação de unidade que dispensa a análise das causas sociais.

Guy Debord permite avançar nessa questão ao mostrar que, na sociedade do espetáculo, a relação entre as pessoas é mediada por imagens. O espetáculo não é apenas um conjunto de vídeos ou notícias; é uma forma de vida em que a aparência pública substitui a experiência comum e a contemplação ocupa o lugar da ação. O bolsonarismo transformou a política em uma sequência permanente de cenas: a motociata, a live, o gesto para a câmera, o ataque a jornalistas, a frase provocadora e a ameaça institucional convertida em conteúdo compartilhável.

As plataformas intensificam esse mecanismo. O algoritmo premia a indignação, simplifica o conflito e entrega a cada usuário uma versão personalizada da realidade. A mentira não precisa convencer todos; precisa apenas manter uma comunidade emocional em estado de alerta. O fascista conectado não recebe necessariamente um programa político coerente. Recebe vídeos curtos, suspeitas, humilhações e chamados à punição. A política se torna uma guerra de sinais em que a velocidade da reação importa mais que a verificação dos fatos.

Essa dimensão tecnológica não torna o fascismo um produto automático das redes. Plataformas não inventam sozinhas o autoritarismo. Elas oferecem infraestrutura para uma disputa política que já possui interesses, organizações e financiadores. A tecnologia amplia o alcance da propaganda e reduz o tempo entre a fabricação do inimigo e sua perseguição, mas a direção desse processo depende de forças sociais concretas. O algoritmo pode distribuir o ódio; quem o transforma em projeto de poder são grupos organizados.

Estado, direito e a fantasia da força pura

Na leitura de Alysson Mascaro, o Estado capitalista não é um árbitro neutro situado acima da sociedade. Sua forma jurídica separa os indivíduos como sujeitos livres e iguais, enquanto a produção permanece fundada na exploração do trabalho e na propriedade privada. Essa igualdade formal é real em certos aspectos, mas não elimina a desigualdade material. O fascismo cresce quando essa contradição se agrava e quando a promessa liberal de cidadania deixa de convencer parcelas amplas da população.

O fascista costuma dizer que não confia em instituições, leis ou partidos. Mas sua descrença não aponta para uma democracia mais profunda, com participação dos trabalhadores e controle popular do poder. Ela aponta para a concentração da decisão em uma autoridade capaz de agir sem limites. O Estado é denunciado como fraco quando protege direitos e celebrado como forte quando reprime. A lei é considerada legítima apenas quando pune o inimigo. Essa é a fantasia da força pura: um poder que não presta contas, mas que supostamente encarnaria a vontade verdadeira do povo.

O 8 de janeiro condensou essa fantasia. Os invasores não queriam apenas protestar contra uma decisão eleitoral; queriam produzir uma ruptura que abrisse caminho para a intervenção militar e para a suspensão da ordem constitucional. Ao destruir obras de arte, móveis, vidraças e documentos, atacaram materialmente instituições que reconheciam como obstáculos. A destruição dizia que o patrimônio público poderia ser sacrificado em nome de uma autoridade imaginada como superior à própria Constituição.

O fascismo, assim, não é ausência de Estado. É uma forma de reorganizar o Estado para que ele proteja a hierarquia com menos mediações, menos direitos e menos capacidade de contestação. A polícia, as Forças Armadas, a burocracia e o direito são convocados a abandonar qualquer limite e a agir como instrumentos de uma comunidade política definida pelo líder. Quando isso acontece, o discurso contra o Estado serve para conquistar um Estado mais autoritário.

O trabalho como escola de autoritarismo

A vida laboral prepara, muitas vezes, a sensibilidade social que o fascismo explora. No trabalho, milhões de pessoas aprendem diariamente a cumprir metas que não definiram, aceitar avaliações que não podem contestar e competir com colegas pela permanência. O entregador acompanha sua nota no aplicativo; o operador de call center escuta a própria produtividade; a professora administra a falta de recursos como se fosse falha pessoal. A obediência é vendida como profissionalismo e a vigilância como eficiência.

Essa experiência não torna automaticamente alguém fascista. Trabalhadores constroem sindicatos, greves, cooperativas e redes de solidariedade apesar dela. Mas a administração empresarial oferece um repertório que a extrema direita reaproveita: o chefe decide, o subordinado executa, a dúvida atrapalha e o resultado justifica o método. A política fascista amplia esse modelo para a sociedade inteira. O país seria uma empresa em crise, o líder seria seu gerente supremo e os cidadãos deveriam aceitar cortes, punições e sacrifícios sem debate.

O fascista encontra nessa lógica uma compensação para a própria impotência. No local de trabalho, ele não controla seu tempo nem o destino do produto que entrega. Na política, pode imaginar que participa de uma missão grandiosa contra inimigos nacionais. A sensação de poder não vem da transformação das condições materiais, mas do direito de humilhar alguém considerado inferior. É uma forma de alienação política: a força coletiva dos trabalhadores é desviada para a defesa de uma autoridade que continua subordinando-os.

Não há fascismo sem anticomunismo e antigualdade

O anticomunismo fascista não precisa encontrar comunistas reais. Ele funciona como nome genérico para qualquer reivindicação que questione privilégios. O direito à moradia, a defesa da escola pública, a organização sindical, a igualdade racial, os direitos das mulheres e a proteção de pessoas LGBT podem ser apresentados como sinais de uma conspiração revolucionária. O objetivo é tornar a igualdade suspeita e a hierarquia natural.

Por isso, o fascista pode usar a palavra liberdade enquanto defende a liberdade empresarial de demitir, explorar e controlar; pode falar em família enquanto protege relações patriarcais; pode celebrar a ordem enquanto incentiva a desobediência golpista. Não há contradição do ponto de vista de sua política. A liberdade vale para quem possui propriedade e autoridade; a ordem vale para quem deve obedecer. A linguagem é universal, mas a prática é seletiva.

A esquerda erra quando responde a essa política apenas com superioridade moral. O fascismo precisa ser combatido moralmente, mas não apenas moralmente. É necessário disputar as condições que alimentam a insegurança: salário, jornada, moradia, saúde, educação, transporte e poder no local de trabalho. Sem isso, a denúncia do autoritarismo pode parecer uma defesa abstrata de instituições que não garantem uma vida digna. A democracia só se torna materialmente convincente quando permite que as maiorias tenham controle efetivo sobre as condições de sua existência.

Ser fascista é escolher a violência como política

A pergunta sobre o que é ser fascista precisa terminar no terreno da responsabilidade. Ser fascista é escolher a violência como linguagem legítima da política e a desigualdade como fundamento aceitável da ordem. É preferir a punição à negociação, o líder à organização coletiva, o inimigo à solidariedade e o mito nacional à análise das relações sociais. É defender a democracia enquanto ela confirma a própria vontade e abandoná-la assim que os subordinados conquistam alguma capacidade de decisão.

Essa escolha não é inevitável nem irreversível para todo indivíduo capturado pela propaganda. Pessoas podem romper com movimentos autoritários, reconhecer a manipulação e reconstruir vínculos com a vida comum. Mas não há reconciliação possível com a mentira de que golpe é opinião, tortura é excesso, perseguição é patriotismo ou destruição do patrimônio público é manifestação legítima. A crítica precisa nomear essas práticas porque a neutralidade diante da violência favorece quem já possui organização, dinheiro e acesso ao poder.

O fascismo brasileiro não foi derrotado apenas porque uma eleição preservou formalmente o governo constitucional. Suas ideias permanecem onde a exploração produz ressentimento, onde a precarização destrói solidariedades e onde as plataformas convertem medo em audiência. A resposta não será uma campanha moral contra pessoas supostamente irracionais, mas a construção de uma política capaz de disputar a vida concreta. O trabalhador precisa encontrar na ação coletiva mais dignidade e poder do que encontra no culto à autoridade.

Ser fascista, enfim, não é simplesmente ter uma opinião errada sobre política. É assumir uma posição diante da sociedade: aceitar que a liberdade de alguns dependa da submissão de muitos e que a violência seja acionada quando essa hierarquia é contestada. O fascista transforma a própria impotência em ódio e chama esse ódio de patriotismo. Contra ele, a democracia não pode ser apenas o ritual eleitoral que se repete enquanto a vida permanece administrada pela exploração. Ela precisa ser uma prática de igualdade capaz de retirar da extrema direita o monopólio imaginário da força, da dignidade e do futuro.