O significado de fascista não cabe na disputa superficial sobre quem merece ou não receber esse adjetivo. Fascismo não é apenas grosseria, autoritarismo genérico ou opinião conservadora expressa com raiva. É uma forma política que organiza o medo, fabrica inimigos internos, mobiliza ressentimentos sociais e oferece a violência como solução para uma crise que o próprio capitalismo produz. No Brasil, essa forma apareceu com nitidez no bolsonarismo: não apenas nos discursos do ex-presidente, mas na perseguição aos professores, no ataque às universidades, na militarização da vida pública, na desinformação industrial e na tentativa de transformar adversários políticos em inimigos da nação.

A definição escolar costuma apresentar o fascismo como o regime de Mussolini na Itália ou como um movimento associado ao nazismo alemão. A referência histórica é indispensável, mas insuficiente. Ela pode transformar o fascismo em peça de museu, como se fosse uma aberração encerrada em 1945. O fascismo não se repete como cópia, porque cada sociedade oferece ao autoritarismo suas próprias instituições, feridas e formas de exploração. O problema político é reconhecer sua lógica quando ela se adapta às eleições, às plataformas digitais, às igrejas, às polícias, às empresas e à precarização do trabalho.

O significado de fascista não é sinônimo de autoritário

Todo fascista é autoritário, mas nem todo autoritarismo é fascista. Um governo pode restringir liberdades, censurar opositores ou reprimir greves sem construir uma mobilização fascista. O fascismo combina repressão estatal e ativação militante de massas. Ele não pretende somente silenciar a sociedade: pretende reorganizá-la por meio de uma comunidade imaginária, apresentada como moralmente pura, ameaçada por inimigos que devem ser expostos, expulsos ou destruídos.

Essa comunidade pode ser chamada de nação, povo de bem, cidadãos de bem ou família tradicional. O nome muda; a operação permanece. A desigualdade real é deslocada para uma guerra moral contra professores, artistas, imigrantes, pessoas LGBTQIA+, movimentos sociais, partidos de esquerda, jornalistas ou qualquer grupo que possa ser responsabilizado pela frustração coletiva. O trabalhador submetido a salário baixo e jornada instável deixa de enxergar o patrão, a estrutura econômica e o Estado que protege contratos desiguais. Passa a enxergar um inimigo cultural cuidadosamente escolhido.

É nesse ponto que o fascismo se diferencia de uma simples opinião agressiva. Ele transforma a agressividade em programa de governo e em identidade coletiva. A violência deixa de ser um excesso praticado por indivíduos e se torna uma promessa de ordem. O líder aparece como aquele que não negocia, não reconhece limites e fala em nome de uma maioria supostamente silenciada. A sua brutalidade é vendida como autenticidade; sua ignorância, como independência; seu desprezo pelos direitos, como coragem.

O fascismo cresce sobre uma crise que o capitalismo administra

O fascismo não nasce do nada nem pode ser explicado apenas pela personalidade de um líder. Ele se alimenta de crises econômicas, derrotas políticas, insegurança social e desorganização da classe trabalhadora. Quando a vida se torna uma sequência de dívidas, desemprego, transporte caro, medo da demissão e competição permanente, a experiência coletiva do sofrimento pode ser capturada por uma explicação regressiva. Em vez de reconhecer a exploração, o indivíduo é convencido de que sua ruína resulta da presença de um grupo considerado inferior ou da suposta traição de instituições democráticas.

Marx ajuda a compreender o fundamento material dessa operação. No capitalismo, o trabalhador é separado do controle sobre o produto, o ritmo e a finalidade de seu trabalho. Essa alienação não desaparece quando ele recebe um celular, abre uma conta em uma plataforma ou passa a ser chamado de empreendedor. Ao contrário, pode se aprofundar: a exploração fica mais difícil de identificar porque aparece dissolvida em avaliações, metas, contratos comerciais e decisões automatizadas. A experiência de impotência permanece, mas o responsável parece invisível.

O fascismo oferece uma saída falsa para essa impotência. Ele não devolve ao trabalhador o controle sobre sua existência; devolve-lhe um inimigo. A raiva que poderia se dirigir à empresa, ao sistema financeiro ou à propriedade dos meios de produção é redirecionada contra quem recebe uma política pública, ocupa uma universidade, reivindica direitos ou denuncia a violência policial. A mobilização é intensa, mas não emancipadora. É uma energia social orientada para conservar as relações que produzem o sofrimento.

Do sindicato ao inimigo interno

A história do fascismo está ligada ao medo das classes dominantes diante da organização popular. Quando trabalhadores constroem sindicatos, partidos, greves e formas de solidariedade capazes de questionar a propriedade e o poder empresarial, a classe dominante pode aceitar reformas ou recorrer à repressão. O fascismo aparece como uma alternativa que destrói a autonomia dos trabalhadores em nome de uma unidade nacional abstrata. Patrão e empregado são convocados a se enxergar como membros de um mesmo corpo, desde que o empregado abandone a luta contra a exploração.

A promessa de harmonia social oculta uma relação material profundamente desigual. O entregador de aplicativo e o dono da plataforma não ocupam posições equivalentes porque ambos usam um telefone. O primeiro assume o risco da moto, do combustível, da doença e do acidente; o segundo controla a infraestrutura, os dados, as regras de remuneração e a visibilidade do serviço. A ideologia fascista pode chamar essa relação de parceria, mas sua função é impedir que o trabalhador reconheça a própria condição de classe.

Quando entregadores organizam um breque dos apps, reivindicam remuneração justa e denunciam bloqueios arbitrários, não estão atacando a liberdade de trabalhar. Estão contestando uma liberdade empresarial que funciona como poder unilateral. A reação autoritária busca representar a greve como desordem, ameaça ao consumidor ou conspiração política. O trabalhador que se organiza é apresentado como inimigo do cidadão comum. A mesma operação vale para professores em greve, servidores públicos e trabalhadores de call center que questionam metas abusivas.

Bolsonarismo e a fabricação permanente da ameaça

O bolsonarismo não deve ser reduzido ao temperamento de Jair Bolsonaro nem ao conjunto de frases absurdas pronunciadas durante seu governo. Trata-se de uma forma de organização política que combinou militarismo, fundamentalismo religioso, racismo, misoginia, anticomunismo imaginário e ataque sistemático ao conhecimento público. Seu êxito dependeu de converter qualquer conflito social em guerra cultural. A precariedade da saúde, da educação e do trabalho era reclassificada como resultado da ação de esquerdistas, comunistas, professores doutrinadores, artistas ou ministros do Supremo.

Essa política ganhou força com a desinformação, mas não se resume à mentira individual. A desinformação bolsonarista construiu uma atmosfera na qual nenhuma instituição comum poderia ser reconhecida como fonte legítima de verdade. Universidade, imprensa, ciência, Justiça eleitoral e órgãos de fiscalização eram apresentados como partes de uma conspiração. Só restava a comunidade digital organizada em torno do líder, de seus influenciadores e de seus canais de circulação de mensagens. A realidade era substituída por uma lealdade afetiva.

Gustave Le Bon, ao estudar a psicologia das multidões, descreveu como a massa pode ser conduzida por imagens, emoções e afirmações repetidas, especialmente quando a análise racional é substituída pela identificação com um chefe. Seu conceito não deve ser usado para desprezar as pessoas comuns como irracionais por natureza. O ponto relevante é outro: em uma sociedade marcada pelo isolamento, pela insegurança e pela perda de referências coletivas, a multidão pode oferecer pertencimento sem oferecer compreensão. O líder fascista explora essa necessidade e transforma a adesão em prova de virtude.

Nas redes, a dinâmica é intensificada pelos mecanismos de recomendação e pela remuneração da atenção. O conteúdo mais indignado, ameaçador e simplificador circula com facilidade porque mantém o usuário preso à plataforma. O algoritmo não cria sozinho o fascismo, mas encontra nele uma forma altamente rentável de engajamento. A empresa vende publicidade enquanto a comunidade digital acumula ressentimento, e o ressentimento é convertido em ação política contra direitos sociais e instituições democráticas.

A técnica não é neutra quando organiza a obediência

Heidegger mostrou que a técnica moderna não deve ser compreendida apenas como um conjunto de ferramentas úteis. Ela enquadra o mundo como reserva disponível, algo a ser medido, calculado e mobilizado. Sob o capitalismo de plataforma, essa lógica alcança o trabalhador de maneira direta. O entregador aparece como localização, tempo de deslocamento, taxa de aceitação e nota. O professor aparece como indicador, meta de desempenho e custo por aluno. O atendente de call center aparece como duração média da chamada e quantidade de clientes processados.

Essa transformação não é fascista por si só. O controle algorítmico pertence à racionalidade empresarial e à exploração contemporânea. Entretanto, ele produz sujeitos mais vulneráveis à política fascista. Quem vive sob avaliação permanente, sem estabilidade e sem espaço de decisão, experimenta uma forma cotidiana de humilhação. A promessa autoritária de restaurar ordem e autoridade pode parecer uma resposta à desorganização, embora mantenha intactas as causas da insegurança.

O fascismo também aproveita a forma tecnológica da vigilância para organizar a perseguição. A exposição de adversários, a coleta de informações pessoais e a circulação coordenada de acusações produzem tribunais informais nas redes. O alvo não é apenas criticado; é marcado como inimigo e submetido a uma punição que pode incluir demissão, ameaça, agressão e silêncio. A multidão digital funciona como extensão de uma autoridade que não precisa mais aparecer integralmente no Estado para produzir disciplina.

Estado, direito e a aparência de exceção

A crítica ao fascismo não pode tratar o Estado como árbitro neutro que ocasionalmente é capturado por extremistas. Alysson Mascaro, ao analisar a forma política estatal, mostra que o Estado capitalista se apresenta como separado das classes, embora organize juridicamente uma sociedade fundada na exploração. A igualdade perante a lei convive com a desigualdade material entre proprietários e trabalhadores. Essa contradição não significa que toda democracia seja fascista, mas impede imaginar que o autoritarismo venha sempre de fora das instituições.

O estado de exceção fascista radicaliza uma tendência já presente: suspende garantias para certos grupos enquanto preserva a normalidade jurídica dos negócios e da propriedade. Na periferia, a polícia pode operar com violência letal; nos presídios, direitos podem ser tratados como privilégios; nas greves, reivindicações podem ser enquadradas como ameaça à ordem. A exceção não atinge todos igualmente. Ela seleciona corpos que podem ser controlados, abandonados ou eliminados.

O bolsonarismo explorou esse terreno ao defender armamento, encarceramento em massa, intervenção militar e deslegitimação das eleições. Sua retórica prometia liberdade para alguns e força contra outros. O cidadão armado seria livre; o manifestante de esquerda, suspeito. O empresário seria empreendedor; o servidor, parasita. A família defendida seria aquela compatível com uma moral patriarcal; outras formas de vida seriam tratadas como ameaça. A linguagem da liberdade encobria uma política de coerção seletiva.

O que distingue fascismo de conservadorismo

Conservadorismo e fascismo podem compartilhar o apego à hierarquia, à tradição e à propriedade, mas não são idênticos. O conservador pode desejar preservar instituições e costumes existentes; o fascista mobiliza a ruptura, a purificação e o combate contra um inimigo interno. Ele se apresenta como força antissistema mesmo quando protege bancos, grandes empresas, latifúndios e aparelhos repressivos. Sua novidade está em combinar defesa radical da ordem social com estética de rebelião popular.

Essa aparência rebelde explica por que o fascista pode se vender como inimigo da elite enquanto mantém a política econômica favorável aos proprietários. Ele denuncia políticos, imprensa e universidades, mas não questiona a concentração da riqueza. Ataca a burocracia quando ela fiscaliza empresas, mas celebra a burocracia policial e militar. Condena privilégios públicos enquanto naturaliza heranças, monopólios e isenções empresariais. A revolta é real, mas o alvo é desviado.

Também não se deve chamar de fascista qualquer pessoa que vote na direita ou defenda valores conservadores. O rigor é politicamente necessário. O termo perde força quando vira apenas xingamento, porque deixa de identificar uma forma organizada de poder. A crítica marxista não precisa diminuir a gravidade do fascismo para ser precisa; ao contrário, precisa mostrar quando uma fala autoritária expressa apenas preconceito individual e quando integra um projeto de mobilização, repressão e destruição da organização popular.

Reconhecer o fascismo a partir do trabalho

O local de trabalho é uma chave para entender o fascismo porque ali se revela a distância entre a retórica da liberdade e a realidade da obediência. O trabalhador da plataforma escolhe supostamente seus horários, mas depende de uma pontuação que pode reduzir seus chamados. O professor é chamado de autônomo, mas precisa cumprir metas curriculares, relatórios e tarefas administrativas sem tempo remunerado. O empregado de telemarketing possui um contrato formal, mas é submetido a scripts, monitoramento contínuo e cobrança por segundos.

Quando a política fascista afirma que basta esforço individual, ela transforma a exploração em falha moral. O trabalhador que não consegue pagar as contas é acusado de incompetente; o desempregado, de preguiçoso; o pobre, de dependente; o grevista, de vagabundo. A meritocracia prepara o terreno subjetivo para o autoritarismo porque ensina cada pessoa a interpretar problemas coletivos como culpa privada. Depois, o fascismo oferece a punição dos supostos culpados como compensação para uma vida sem controle.

É por isso que a luta antifascista não pode se limitar à defesa abstrata das instituições eleitorais, embora essa defesa seja necessária. Ela precisa reconstruir formas coletivas de poder no trabalho e no território. Um entregador isolado diante do aplicativo é facilmente bloqueado; entregadores organizados podem tornar visível a exploração. Um professor sozinho pode ser intimidado; uma comunidade escolar articulada pode enfrentar o assédio. A solidariedade não é apenas um valor moral: é a condição material para que o medo deixe de ser administrado individualmente.

O fascista não é um monstro fora da sociedade

Representar o fascista como um monstro excepcional é confortável porque dispensa investigar as relações que o produzem. O fascismo é praticado por pessoas comuns, mas não nasce simplesmente da maldade privada. Ele se torna possível quando instituições, empresas, igrejas, meios de comunicação e redes digitais normalizam a desumanização de grupos inteiros. A pessoa que repete uma mentira pode não conhecer sua origem; ainda assim, participa de uma cadeia política que transforma preconceito em disciplina social.

Guy Debord descreveu a sociedade do espetáculo como uma relação social mediada por imagens. No espetáculo, a aparência de participação substitui a participação efetiva, e o conflito político é convertido em consumo de cenas. O fascismo contemporâneo se beneficia dessa lógica: o gesto agressivo do líder, a camiseta, a ameaça, a transmissão ao vivo e a indignação diária tornam-se mercadorias de atenção. A política parece intensa porque a imagem é incessante, mas a capacidade real dos trabalhadores de decidir sobre produção e governo continua reduzida.

O desafio é romper essa mediação sem romantizar uma suposta pureza popular. Não basta denunciar as redes; é preciso compreender por que elas se tornam tão importantes para pessoas sem tempo, sem renda e sem espaços coletivos. Não basta condenar a ignorância; é preciso enfrentar a desigualdade educacional e a concentração da mídia. Não basta pedir moderação; é preciso retirar das empresas e dos líderes a capacidade de converter insegurança em perseguição.

Nomear o fascismo para disputar o futuro

O significado de fascista só ganha força política quando serve para nomear relações concretas. Ele designa a política que transforma exploração em guerra moral, que substitui direitos por obediência, que promete liberdade enquanto amplia vigilância, que combate a organização dos trabalhadores e que apresenta a violência contra os vulneráveis como restauração da ordem. Não é uma palavra reservada a governos que usam uniformes específicos. É uma categoria para reconhecer uma prática histórica que pode vestir terno, disputar eleição, operar por vídeos curtos e falar em defesa da família.

A disputa contra o fascismo exige mais que a derrota eleitoral de um candidato, embora derrotá-lo nas urnas seja indispensável. Exige enfrentar a estrutura social que fabrica ressentimento e oferece a mentira como pertencimento. Isso inclui limitar o poder das plataformas, garantir direitos aos trabalhadores uberizados, fortalecer serviços públicos, proteger a organização sindical e combater a violência estatal racista. Sem essas mudanças, o fascismo pode perder um líder e conservar suas condições de retorno.

A alternativa não está em uma comunidade nacional imaginária, construída contra inimigos escolhidos, mas na solidariedade concreta entre pessoas submetidas a formas diferentes de exploração. O entregador, a professora, o atendente de call center e o desempregado não precisam concordar em tudo para reconhecer que seus sofrimentos não são falhas individuais. Precisam descobrir que a mesma ordem que os mantém competindo também lhes oferece o ódio como distração. Quando a classe trabalhadora recupera a capacidade de agir coletivamente, a violência fascista deixa de parecer destino e volta a aparecer como aquilo que é: uma política de defesa da dominação.