O que significa fascista não é uma pergunta respondida pela simples enumeração de características históricas, como culto ao líder, nacionalismo agressivo e perseguição aos adversários. A definição escolar é necessária, mas insuficiente. No Brasil, a palavra precisa ser compreendida a partir de uma experiência política concreta: a transformação do ressentimento social em obediência, da mentira em arma e da violência contra os de baixo em promessa de restauração da ordem. O bolsonarismo não inventou todos esses elementos, mas os articulou numa linguagem política capaz de converter precariedade, medo e frustração em ódio organizado.

Isso não significa chamar todo conservador de fascista, nem tratar toda posição autoritária como se fosse idêntica ao fascismo histórico. A inflação do termo produz uma consequência conveniente para a própria extrema direita: quando qualquer adversário vira fascista, a palavra perde capacidade de distinguir o fenômeno que pretende nomear. O problema não é usar o conceito com rigor. O problema é abandoná-lo justamente quando ele permite identificar a passagem entre o autoritarismo disperso e um movimento que deseja capturar o Estado, disciplinar a sociedade e eliminar a política como conflito legítimo.

O que significa fascista além do insulto

Fascista não é apenas quem tem opiniões preconceituosas, defende uma polícia violenta ou manifesta saudade de uma ditadura. Essas posições podem aparecer em diferentes formas de autoritarismo, conservadorismo e reacionarismo. O fascismo é uma forma específica de política de massas: organiza uma comunidade imaginária de “cidadãos de bem”, identifica inimigos internos responsáveis pela decadência nacional e oferece um líder como encarnação da vontade coletiva. Sua promessa não é resolver contradições sociais, mas substituí-las por uma narrativa de purificação.

Essa narrativa precisa de um povo abstrato. O povo real é desigual, atravessado por interesses de classe, raça, gênero, região e religião. O povo fascista, ao contrário, aparece como uma unidade moral já pronta: trabalhador honesto, família tradicional, cidadão armado, patriota obediente. Quem não se ajusta a essa imagem é tratado como traidor, parasita ou ameaça. A disputa política deixa de ser apresentada como confronto entre projetos sociais e passa a ser narrada como guerra entre os puros e os contaminados.

É por isso que o fascismo pode se apresentar como revolta contra o sistema mesmo quando protege relações sociais profundamente hierárquicas. Ele denuncia a corrupção, a desordem e os privilégios de alguns, mas não questiona a propriedade concentrada, o poder econômico ou a exploração do trabalho. Canaliza a indignação contra alvos socialmente vulneráveis e contra instituições que possam limitar o líder. A aparência de ruptura esconde a preservação de uma ordem em que os trabalhadores continuam pagando pela crise.

O ressentimento social não nasce do nada

O fascismo não fabrica a crise social que utiliza. Ele cresce sobre experiências reais de insegurança, perda e abandono. Um entregador que passa horas na rua, submetido ao algoritmo, sem garantia de renda e exposto a acidentes, vive uma contradição concreta: trabalha muito e continua sem estabilidade. Um professor submetido a metas, avaliações e salários comprimidos experimenta a desvalorização de sua atividade. O trabalhador de call center é monitorado minuto a minuto, enquanto a empresa transforma sua voz, seu tempo e sua atenção em indicador de produtividade. Esses sujeitos não estão imaginando a precariedade.

O que a extrema direita faz é oferecer uma explicação falsa para uma dor verdadeira. Em vez de apontar a propriedade das plataformas, a financeirização, a retirada de direitos e a incapacidade do Estado capitalista de garantir proteção social, ela acusa imigrantes, pobres, mulheres, pessoas LGBTQIA+, professores, jornalistas, universidades ou “comunistas” de terem tomado o país. O ressentimento é deslocado horizontalmente. Aquele que sofre exploração passa a enxergar como inimigo alguém que sofre uma exploração diferente, enquanto o proprietário, o acionista e o rentista permanecem fora do campo de visão.

Marx ajuda a compreender a materialidade dessa operação. A exploração não é apenas uma opinião sobre o capitalismo: ela está inscrita na relação entre quem precisa vender sua força de trabalho e quem controla os meios de produção. Mas a experiência cotidiana dessa relação raramente aparece em sua forma transparente. O trabalhador pode perceber o cansaço, a cobrança e a falta de dinheiro sem identificar a estrutura que os produz. A ideologia transforma essa situação em culpa individual: faltou esforço, disciplina, fé ou competência. O fascismo recolhe essa culpa e promete vingança contra quem supostamente impede o mérito de florescer.

O líder transforma a multidão em tribunal

Gustave Le Bon descreveu a multidão como um espaço em que a sugestão, a repetição e a identificação afetiva podem reduzir a autonomia crítica dos indivíduos. Não é necessário aceitar toda a psicologia de Le Bon para reconhecer a utilidade de seu conceito de contágio emocional. O fascismo não convence cada pessoa por meio de um programa coerente. Ele cria uma atmosfera em que frases repetidas, símbolos, inimigos e gestos de força produzem a sensação de pertencimento. A prova de que algo é verdadeiro passa a ser a intensidade com que o grupo o repete.

O líder funciona como condensação dessa multidão. Ele não precisa conhecer os problemas de cada trabalhador, nem apresentar políticas capazes de resolvê-los. Sua função é falar em nome de uma unidade moral e transformar qualquer crítica em ataque ao povo que diz representar. Quando o líder é desmentido, seus apoiadores não necessariamente abandonam a crença. O desmentido pode ser reabsorvido como prova de que existe uma conspiração contra ele. A mentira não precisa ser consistente; precisa manter o grupo em estado de mobilização.

No bolsonarismo, esse mecanismo apareceu na combinação entre o culto pessoal, a defesa da ditadura, a retórica anticomunista, o armamentismo, o ataque à imprensa e a produção sistemática de suspeitas contra as eleições. A questão não é saber se cada eleitor de Jair Bolsonaro queria uma ditadura ou se todos os seus apoiadores tinham o mesmo grau de consciência política. A questão é que o movimento construiu uma comunidade militante na qual a violência contra instituições democráticas podia ser apresentada como defesa da liberdade, e a derrota eleitoral como prova de fraude.

A mentira digital é uma infraestrutura política

A desinformação não deve ser tratada como simples falha moral de indivíduos que “acreditam em qualquer coisa”. Ela se tornou uma forma de organização política. Redes sociais, grupos de mensagens e plataformas de vídeo permitem a circulação contínua de conteúdos que misturam fato, invenção, medo e indignação. O usuário não recebe apenas uma informação falsa; recebe um ambiente interpretativo inteiro, no qual toda notícia confirma a existência de um inimigo oculto.

Guy Debord chamou de espetáculo a forma social em que a relação entre as pessoas é mediada por imagens. O espetáculo não é apenas televisão, propaganda ou entretenimento. É uma organização da experiência em que a aparência pública dos acontecimentos substitui sua compreensão material. No ambiente digital, a política se torna uma sequência de cenas, cortes e frases destinadas a produzir reação imediata. O vídeo do líder confrontando um jornalista, o gesto de uma multidão, a bandeira, a arma e a acusação viralizada valem menos pelo conteúdo do que pela capacidade de criar identificação.

A plataforma não determina mecanicamente o fascismo, mas oferece condições técnicas para sua expansão. Conteúdos que provocam medo e raiva tendem a disputar atenção com vantagem. A repetição cria familiaridade; a familiaridade simula verdade. O trabalhador exausto, que atravessa o celular entre uma entrega e outra ou durante o intervalo no call center, não encontra ali um espaço neutro de informação. Encontra uma economia da atenção que transforma sua ansiedade em dado, sua indignação em engajamento e sua solidão em audiência.

É nesse ponto que a alienação digital se articula à alienação do trabalho. A pessoa não controla plenamente nem o processo produtivo do qual depende nem o ambiente informacional que molda suas percepções. O algoritmo distribui pedidos, calcula avaliações, define visibilidade e organiza a circulação de mensagens. A mesma racionalidade que converte o entregador em pontuação pode converter o cidadão em perfil de comportamento. A técnica aparece como ferramenta impessoal, mas opera dentro de relações sociais determinadas por empresas, proprietários e interesses políticos.

O fascismo brasileiro veste a roupa da ordem

O caso brasileiro exige cuidado histórico. O país não pode ser descrito sem mais como uma cópia da Itália de Mussolini ou da Alemanha nazista. As formações históricas são distintas, assim como as instituições, as classes dominantes e as formas de violência estatal. Ainda assim, a comparação não deve ser recusada por causa das diferenças. Ela é produtiva quando identifica funções políticas semelhantes: a fabricação de um inimigo interno, a mobilização de massas ressentidas, a glorificação da autoridade, o desprezo pelos direitos e a disposição de usar a força para destruir a oposição.

O bolsonarismo se alimentou de uma longa tradição brasileira de autoritarismo. A ditadura empresarial-militar, o racismo estrutural, a violência policial nas periferias e a naturalização da desigualdade formaram um terreno em que a ordem sempre foi distribuída de maneira desigual. Para a população pobre e negra, a presença do Estado frequentemente se apresenta como repressão, vigilância e encarceramento. Para as elites, a mesma ordem aparece como proteção da propriedade. A extrema direita não cria essa duplicidade; ela a radicaliza e a transforma em orgulho político.

Quando apoiadores do bolsonarismo invadem prédios públicos e atacam símbolos institucionais, não estamos diante de uma simples explosão irracional. A destruição pode ser teatral, mas o teatro tem função. Ela comunica que a lei deve obedecer à vontade da multidão mobilizada e que a derrota eleitoral não precisa ser aceita como limite. A cena de depredação, transmitida e comentada, produz uma imagem de força. O ato ilegal tenta converter-se em demonstração de legitimidade: se há bastante gente disposta a romper a regra, a regra passa a ser apresentada como inimiga do povo.

O fascismo trabalha com essa inversão. A violência dos de cima é chamada de segurança; a reação dos de baixo é chamada de desordem. A violência política do movimento é descrita como patriotismo; a resistência a ela é descrita como censura. O Estado de exceção deixa de ser uma suspensão extraordinária da norma e passa a ser reivindicado como solução permanente para qualquer conflito. Contra adversários políticos, manifestações sociais e reivindicações trabalhistas, a resposta prometida é sempre mais polícia, mais punição e menos direitos.

Estado, direito e a promessa de poder sem limite

Alysson Mascaro mostra que o Estado não é um instrumento neutro situado acima das classes, pronto para ser usado igualmente por qualquer grupo. Sua forma jurídica e institucional está ligada à sociabilidade capitalista, em que indivíduos aparecem como sujeitos livres e iguais enquanto a produção permanece organizada pela propriedade privada e pela exploração. Isso não significa que todas as disputas no Estado sejam irrelevantes. Significa que a defesa abstrata da ordem estatal não basta para garantir justiça social.

O fascismo se aproveita dessa contradição. Ele denuncia a lentidão, a corrupção e os limites das instituições, mas não para democratizar o poder econômico. Quer submeter o direito à vontade do chefe e converter a desigualdade material em hierarquia explícita. A crítica fascista ao Estado liberal não é uma crítica socialista da exploração. É a exigência de um Estado mais violento, mais seletivo e mais disponível para esmagar aqueles que não se encaixam na comunidade nacional imaginada.

Daí a importância de não confundir autoritarismo fascista com qualquer defesa de autoridade. Uma escola precisa de regras; um serviço público precisa de coordenação; uma sociedade precisa enfrentar crimes e conflitos. O fascismo aparece quando a autoridade deixa de ser uma função limitada por direitos e se torna valor absoluto, quando obedecer passa a ser mais importante que compreender, e quando a força do líder substitui a legitimidade das decisões coletivas. O trabalhador deve aceitar a ordem da empresa, o cidadão deve aceitar a ordem do governo e a família deve reproduzir a ordem patriarcal. A mesma gramática atravessa todas essas relações.

O trabalho é o campo onde a obediência se aprende

Falar de fascismo sem falar de trabalho deixa incompleta a análise do presente brasileiro. A disciplina fascista não começa apenas no palanque ou na caserna. Ela é preparada por relações cotidianas nas quais as pessoas aprendem que sua sobrevivência depende de cumprir metas inalcançáveis, aceitar vigilância e agradecer pela oportunidade de serem exploradas. O trabalhador que não pode recusar uma entrega, uma escala alterada ou uma cobrança abusiva conhece uma forma concreta de ausência de liberdade, ainda que a propaganda empresarial a chame de autonomia.

A uberização é exemplar porque apresenta a subordinação como escolha individual. O entregador seria um empreendedor; o motorista, um parceiro; o trabalhador, alguém livre para definir seus horários. Mas a liberdade formal convive com tarifas decididas unilateralmente, avaliações opacas, bloqueios e transferência dos custos para quem trabalha. O discurso meritocrático oculta a relação de poder. Quando essa ocultação se combina à ideologia fascista, a precariedade deixa de ser um problema coletivo e passa a ser uma prova de que os “fracos” não merecem proteção.

É nesse terreno que a extrema direita pode oferecer reconhecimento simbólico sem oferecer emancipação. Ela chama o trabalhador de patriota, guerreiro e cidadão de bem, enquanto preserva a estrutura que o mantém endividado, cansado e substituível. Dá-lhe um inimigo para odiar, uma bandeira para carregar e um líder para defender. Em troca, exige silêncio sobre a exploração real. A dignidade prometida é compensação imaginária por direitos negados.

Essa operação também explica a hostilidade contra sindicatos, movimentos sociais e políticas de proteção. Qualquer organização coletiva que permita aos trabalhadores reconhecerem interesses comuns ameaça o isolamento produzido pelo empreendedorismo de si. O fascismo precisa de indivíduos atomizados, mas emocionalmente agrupados em torno do líder. A multidão digital substitui a classe organizada; a indignação substitui a reivindicação; o inimigo substitui o patrão.

Como reconhecer o fenômeno sem banalizar a palavra

Chamar uma força política de fascista exige observar a articulação entre elementos, e não procurar uma palavra proibida ou um gesto isolado. Há fascistização quando a crise social é explicada pela presença de inimigos internos; quando o líder se apresenta como encarnação exclusiva do povo; quando a mentira é usada para manter a mobilização; quando a violência contra adversários é celebrada; quando eleições, direitos e instituições só são aceitos se confirmarem a vontade do grupo; e quando a ordem social é restaurada por meio da submissão dos trabalhadores e da perseguição dos vulneráveis.

Esse critério protege a palavra contra dois usos igualmente ruins. O primeiro é transformar fascista em xingamento para qualquer pessoa de direita. O segundo é exigir a reprodução exata de todos os símbolos e instituições do fascismo europeu antes de reconhecer práticas fascistizantes no Brasil. A história não se repete como cópia. O conceito serve para identificar uma lógica política que se adapta às condições locais, às tecnologias disponíveis e aos conflitos de cada sociedade.

Também é preciso distinguir o eleitor eventual do movimento organizado. Pessoas podem votar em um candidato por medo, interesse, ressentimento ou cálculo, sem assumir integralmente seu projeto. A crítica política não precisa demonizar indistintamente todos os indivíduos que foram capturados por uma narrativa. Mas compreender as condições dessa captura não significa absolver quem organiza a mentira, financia a violência ou tenta destruir a democracia para preservar privilégios. A análise material da adesão não elimina a responsabilidade; torna-a mais precisa.

A resposta não pode ser apenas moral

O fascismo prospera quando a esquerda reduz sua oposição a uma denúncia moral dos indivíduos. Dizer que alguém é ignorante, cruel ou irracional pode produzir superioridade momentânea, mas não disputa a base social que alimenta o movimento. A extrema direita avança porque consegue falar, ainda que de modo fraudulento, com experiências reais de perda de controle. A resposta anticapitalista precisa disputar essas experiências no terreno da vida concreta: renda, moradia, saúde, educação, transporte, tempo livre e poder no local de trabalho.

Isso não implica suavizar o conflito ou buscar uma conciliação impossível com quem defende a eliminação de direitos. Implica reconhecer que a defesa da democracia deve ser social, não apenas institucional. Uma democracia em que o trabalhador passa o dia submetido ao algoritmo, chega em casa exausto e não consegue pagar suas contas oferece pouco espaço para a participação política efetiva. Se a política democrática não enfrentar a exploração, a extrema direita continuará oferecendo a fantasia de que liberdade é apenas poder escolher o próprio opressor.

O fascismo deve ser derrotado como movimento político e como forma de organizar a vida social. Isso exige responsabilizar golpistas e agentes da violência, desmontar redes de desinformação, limitar o poder das plataformas e reconstruir direitos trabalhistas. Exige ainda disputar o sentido de comunidade: não uma nação purificada pela exclusão, mas uma coletividade fundada na igualdade material e na capacidade de trabalhadores decidirem sobre as condições de sua existência.

Fascista, nesse sentido, não é simplesmente o sujeito que grita, mente ou vota mal. É aquele que participa da construção de uma política em que a desigualdade é naturalizada, o inimigo interno é fabricado, o líder se torna medida da verdade e a violência passa a ser apresentada como remédio para todo conflito. No Brasil, reconhecer essa lógica no bolsonarismo não é exagero retórico. É compreender por que a precariedade do trabalho, o espetáculo digital, o autoritarismo estatal e o ressentimento de classe puderam ser reunidos numa mesma máquina política.

Nomear essa máquina não resolve o problema. Mas deixar de nomeá-la entrega à extrema direita o controle da linguagem, e quem controla a linguagem frequentemente consegue apresentar a própria violência como defesa da ordem. A palavra fascista vale quando revela essa inversão: a promessa de proteger o povo que, na prática, prepara a submissão dos que trabalham, a perseguição dos que divergem e a concentração do poder nas mãos de quem nunca deixou de comandar.