Neofascista significado não é uma pergunta respondida apenas pela aparência de um político, pelo uso de símbolos nacionais ou pela defesa explícita da violência. O neofascismo é uma forma contemporânea de organizar o ressentimento social em favor da ordem capitalista, especialmente quando essa ordem já não consegue oferecer estabilidade, direitos ou uma promessa convincente de futuro. No Brasil, ele encontrou no bolsonarismo uma expressão política capaz de combinar militarismo, anticomunismo imaginário, culto à autoridade, guerra cultural, desinformação e defesa agressiva da precarização do trabalho.
O termo exige cuidado porque não designa qualquer pessoa conservadora, autoritária ou reacionária. Seu sentido político aparece quando a frustração produzida pelo capitalismo é desviada contra inimigos fabricados, enquanto as estruturas que produzem exploração permanecem protegidas. O trabalhador sem salário suficiente, o entregador submetido ao algoritmo, o professor exausto e o empregado de call center não são estimulados a identificar a empresa, o banco ou a política econômica como causas de sua insegurança. São convocados a odiar o imigrante, o pobre que recebe auxílio, o militante de esquerda, a universidade, a imprensa ou qualquer grupo transformado em ameaça à pátria.
Neofascista significado além do dicionário político
O fascismo histórico surgiu em condições específicas, marcadas pela crise do liberalismo, pelo medo das classes proprietárias diante da organização operária e pela mobilização de massas em torno de um nacionalismo autoritário. Seu objetivo não era simplesmente impor um governo duro, mas destruir a autonomia política dos trabalhadores e reorganizar a sociedade sob disciplina, hierarquia e violência. A novidade neofascista está em operar essa mesma lógica sob condições diferentes: instituições formalmente democráticas, comunicação em rede, economia financeirizada e relações de trabalho cada vez mais individualizadas.
O prefixo neo não significa um fascismo mais brando. Significa uma atualização. O neofascismo não precisa abolir imediatamente eleições, tribunais ou parlamentos. Pode disputar eleições, usar a linguagem da liberdade e apresentar-se como reação popular contra o sistema. Sua prática consiste em corroer por dentro as condições da vida democrática, transformando adversários políticos em inimigos absolutos e convertendo o conflito social em uma guerra moral permanente.
É nesse ponto que o conceito de espetáculo, formulado por Guy Debord, ajuda a compreender a política atual. A sociedade do espetáculo não é apenas uma sociedade com muita propaganda ou excesso de imagens. É uma forma social em que a relação entre as pessoas passa a ser mediada por representações que ocultam a realidade material. O debate político aparece como disputa de frases, vídeos, escândalos e identidades, enquanto o poder econômico continua reorganizando salários, direitos e serviços públicos sem a mesma visibilidade.
O neofascismo prospera nessa distância entre a experiência concreta e a representação de suas causas. O trabalhador sente a insegurança, mas recebe uma narrativa que a explica como resultado da presença de um inimigo cultural. A renda diminui, o tempo de trabalho aumenta e a proteção social recua; em resposta, a propaganda afirma que o problema é a suposta decadência moral da sociedade. A exploração desaparece como relação econômica e reaparece como ressentimento contra grupos considerados privilegiados, desviantes ou perigosos.
A precarização brasileira encontrou um inimigo conveniente
O bolsonarismo não inventou a desigualdade brasileira, tampouco criou a precarização do trabalho. Sua força esteve em transformar essas contradições em combustível político sem ameaçar os proprietários da riqueza. A promessa de ordem foi dirigida a uma população submetida à insegurança, mas a ordem defendida era a da propriedade, da autoridade patronal e da redução dos direitos sociais. A revolta legítima contra o abandono estatal foi convertida em hostilidade contra políticas de proteção e contra qualquer projeto de igualdade.
O caso do entregador de aplicativo torna essa operação visível. Ele trabalha longas jornadas, assume os custos da motocicleta ou da bicicleta, arca com combustível, manutenção, acidentes e períodos sem chamadas. A plataforma apresenta essa relação como autonomia: o trabalhador seria um empreendedor livre, capaz de escolher quando e quanto trabalhar. Na prática, sua renda depende de um sistema opaco de distribuição de pedidos, avaliações, incentivos e bloqueios. A liberdade celebrada pela propaganda é a liberdade de aceitar a submissão sem contrato estável.
Durante a pandemia, entregadores foram apresentados como heróis indispensáveis, mas essa homenagem não se converteu automaticamente em proteção, remuneração adequada ou poder de negociação. O trabalhador continuou exposto ao risco e dependente das regras privadas da plataforma. Quando se organiza coletivamente, como nos breques dos aplicativos, revela a natureza política de uma relação que a empresa insiste em chamar de escolha individual. O neofascismo trabalha para impedir essa passagem da experiência isolada para a consciência coletiva.
Em vez de reconhecer que a plataforma concentra poder sobre milhares de trabalhadores, a retórica neofascista afirma que cada indivíduo precisa endurecer, competir e não reclamar. A pobreza passa a ser prova de fracasso moral; a reivindicação coletiva, sinal de preguiça; o sindicato, uma ameaça; a regulação, uma interferência indevida. Essa linguagem combina perfeitamente com a ideologia neoliberal, mesmo quando seus porta-vozes atacam o liberalismo político. O Estado é acusado de ser grande quando oferece direitos e convocado a ser forte quando reprime, vigia ou garante negócios.
A mesma lógica aparece no call center. O trabalhador tem sua fala monitorada, sua pausa calculada e sua produtividade comparada em tempo real. A empresa não precisa de um capataz ao lado de cada empregado: metas, avaliações e sistemas de controle distribuem a vigilância pelo próprio ambiente de trabalho. O cansaço é interpretado como incompetência individual, e a ansiedade como incapacidade de adaptação. Quando a precarização produz adoecimento, a explicação dominante recomenda treinamento, resiliência ou esforço, nunca a transformação da organização do trabalho.
Do medo econômico à guerra cultural
O fascismo precisa de inimigos concretos. Não basta dizer que a vida está difícil; é necessário indicar quem deve ser responsabilizado. A psicologia das multidões analisada por Gustave Le Bon, embora marcada pelos limites de seu elitismo, ajuda a perceber como a massa mobilizada pode abandonar a complexidade da realidade em favor de imagens simples, contagiosas e emocionalmente carregadas. O líder oferece uma explicação total, uma identidade e uma saída baseada na obediência. No neofascismo digital, essa operação é acelerada por fluxos de conteúdo que premiam indignação, choque e repetição.
A guerra cultural cumpre essa função. Ela cria a sensação de que a sociedade está ameaçada por uma conspiração permanente: professores estariam doutrinando crianças, artistas destruindo a moral, universidades formando inimigos, jornalistas ocultando a verdade e movimentos sociais atacando a família. Questões materiais desaparecem atrás de uma sucessão de escândalos simbólicos. O salário, a jornada, o preço da moradia e a ausência de serviços públicos perdem espaço para a disputa sobre costumes, gestos e palavras.
Esse deslocamento não é acidental. Uma classe trabalhadora dividida por medo e ressentimento encontra mais dificuldade para reconhecer interesses comuns. O entregador não se identifica com o professor; o professor não se identifica com o trabalhador terceirizado; o empregado formal teme o desempregado; todos são convidados a disputar migalhas de reconhecimento enquanto a concentração econômica permanece fora do enquadramento. O neofascismo transforma a fragmentação produzida pelo capital em identidade política.
As plataformas digitais não criaram o fascismo, mas oferecem condições técnicas para sua circulação. O algoritmo de plataforma seleciona e ordena conteúdos de acordo com critérios comerciais, favorecendo aquilo que prolonga a atenção e provoca reação. A desinformação não é somente uma mentira contada por um indivíduo mal-intencionado. Ela é também uma mercadoria adequada a um ambiente em que a velocidade vale mais que a verificação e a indignação vale mais que a compreensão.
Essa dinâmica se relaciona ao trabalho porque o mesmo capitalismo que administra a atenção administra a força de trabalho por métricas. O aplicativo decide quais conteúdos aparecem; a plataforma de entrega decide quais pedidos são oferecidos. Em ambos os casos, a decisão é apresentada como resultado neutro de um sistema técnico. O poder desaparece atrás do algoritmo. O usuário imagina escolher livremente seu repertório político; o trabalhador imagina negociar livremente sua jornada. Nos dois casos, uma arquitetura privada define possibilidades, custos e recompensas.
Bolsonaro e a forma brasileira do neofascismo
O bolsonarismo expressou essa atualização ao articular nostalgia autoritária, militarização do imaginário nacional, ataques às instituições e mobilização permanente contra inimigos internos. Sua força não esteve apenas no discurso de um líder, mas na produção de uma comunidade política baseada na suspeita. Quem discordava podia ser tratado como traidor, comunista, criminoso ou inimigo da família. A política deixava de ser conflito entre projetos sociais e passava a ser uma batalha moral entre patriotas e aqueles que deveriam ser excluídos da comunidade nacional.
A defesa da ditadura e da tortura, a exaltação da violência policial e o desprezo por direitos humanos não aparecem como elementos isolados. Eles compõem uma visão de sociedade em que a hierarquia deve prevalecer sobre a igualdade e a força deve substituir a negociação. A autoridade é valorizada não por resolver problemas coletivos, mas por punir quem não se adapta. Esse é o ponto de contato entre o neofascismo e o mundo do trabalho precarizado: ambos apresentam a submissão como virtude e a resistência como ameaça.
Quando o trabalhador é demitido, endividado ou bloqueado, não recebe necessariamente uma explicação sobre a estrutura econômica que o tornou vulnerável. Recebe a ordem para competir melhor. Quando a política pública falha, não se discute o abandono estatal, a austeridade ou a transferência de recursos para o capital financeiro. Discute-se o caráter do pobre, a suposta corrupção do beneficiário ou a necessidade de restaurar a disciplina. A violência social é naturalizada e, depois, dirigida contra os próprios atingidos.
A categoria de estado de exceção também precisa ser compreendida para além da suspensão formal das leis. No capitalismo, a exceção pode aparecer de modo seletivo: direitos são flexibilizados para alguns, garantias são negadas a outros e a força pública é mobilizada com maior intensidade sobre territórios pobres. Alysson Mascaro, ao analisar a relação entre direito, Estado e capitalismo, mostra que o Estado não é um árbitro neutro situado acima das classes. Ele organiza juridicamente relações sociais baseadas na mercadoria, na propriedade e na exploração.
O neofascismo radicaliza essa função seletiva. Ele promete proteção ao cidadão considerado respeitável e repressão ao sujeito definido como ameaça. A mesma sociedade que tolera a insegurança do entregador, a exaustão do professor e o adoecimento do operador de telemarketing exige punição para quem não consegue sobreviver dentro das regras impostas. A lei aparece como universal na linguagem, mas sua aplicação é atravessada por classe, raça, território e posição social.
O inimigo real é a possibilidade de organização
O sentido político do neofascismo aparece com clareza quando se observa o que ele tenta impedir. Seu alvo mais profundo não é um grupo cultural específico, embora ele produza muitos inimigos visíveis. O alvo é a capacidade de trabalhadores reconhecerem a origem comum de problemas aparentemente individuais. Se o entregador percebe que o bloqueio, a tarifa baixa e o risco são efeitos de um modelo de negócio, pode exigir negociação coletiva. Se o professor relaciona sua exaustão à política educacional e à intensificação do trabalho, pode organizar uma greve. Se o trabalhador do call center entende que a meta não é uma falha pessoal, mas um mecanismo de extração, pode contestar a empresa.
É por isso que o neofascismo combina anti-intelectualismo e anti-organização. A crítica é substituída por lealdade; o conhecimento, por convicção; a solidariedade, por competição. A multidão digital é convocada a atacar pessoas, mas não a discutir estruturas. A cada indignação, a política se torna mais barulhenta e a exploração mais silenciosa.
Essa crítica não autoriza tratar os trabalhadores que aderem ao bolsonarismo como simples massa manipulada. Eles vivem contradições reais, e a esquerda perde quando responde a elas com desprezo moral. O trabalhador que rejeita partidos, sindicatos ou instituições pode estar expressando uma experiência efetiva de abandono, corrupção e impotência. O problema é que o neofascismo oferece uma resposta regressiva para essa experiência: transforma o abandono em ódio e a impotência em desejo de autoridade.
A alternativa não está em disputar a mesma guerra cultural com sinais trocados, nem em defender uma neutralidade impossível. Está em reconstruir uma política material de solidariedade, capaz de ligar salário, tempo, moradia, transporte, saúde mental, proteção social e democracia. A crítica ao neofascismo precisa mostrar quem controla a plataforma, quem define a meta, quem lucra com a dívida e quem decide quais vidas podem ser sacrificadas em nome da eficiência.
O significado de neofascista, assim, não se esgota na descrição de um extremista ou de um admirador da ditadura. O conceito nomeia uma forma de poder que transforma a crise social em disciplina, o medo em identidade e a exploração em ressentimento. No Brasil, sua expressão bolsonarista tornou visível essa operação ao prometer liberdade enquanto defendia a autoridade, denunciar o sistema enquanto protegia seus centros econômicos e falar em nome do povo enquanto aprofundava sua divisão.
A resposta democrática não pode ser apenas a defesa abstrata das instituições. É preciso disputar as condições concretas que permitem à extrema direita capturar a revolta. Onde o trabalhador é isolado, deve haver organização; onde o algoritmo oculta o comando, deve haver transparência e controle coletivo; onde a precarização produz culpa, deve haver consciência de classe. Sem isso, o neofascismo continuará apresentando a violência dos explorados contra os explorados como se fosse uma saída popular.
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