Facismo significado é uma busca que costuma devolver definições escolares, listas de características e comparações históricas desidratadas. Esse tipo de explicação informa pouco porque transforma o fascismo em peça de museu, como se ele fosse apenas o nome de um regime europeu encerrado em 1945. A questão decisiva é outra: que função política cumpre o fascismo quando uma sociedade capitalista entra em crise, mas as classes dominantes não aceitam abrir mão de seus privilégios? No Brasil, a resposta passa pelo bolsonarismo, pela destruição da solidariedade entre trabalhadores e pela promessa de que a autoridade, a polícia e o líder podem substituir direitos sociais.

O fascismo não é simplesmente uma ditadura, nem todo autoritarismo é fascista. Trata-se de uma forma específica de mobilização política que reorganiza o medo e a frustração social em torno de um inimigo, exalta a unidade nacional contra o conflito de classes e apresenta a violência como remédio para a desordem. Seu discurso promete restaurar uma grandeza perdida, mas sua prática preserva ou aprofunda relações de exploração. O trabalhador é convocado a odiar o imigrante, a esquerda, o pobre considerado indisciplinado, a universidade, o sindicato ou qualquer grupo que possa nomear as causas materiais de sua precariedade.

Facismo significado não é uma definição fora da história

O fascismo aparece em condições concretas. Ele cresce quando o capitalismo produz insegurança em larga escala, quando instituições liberais perdem legitimidade e quando a classe trabalhadora não consegue converter sua revolta em força política própria. A crise, nesse cenário, não desaparece. Ela é deslocada. Em vez de discutir quem controla a riqueza, quem define o preço do trabalho e quem se apropria do tempo social, o discurso fascista oferece uma narrativa de purificação: a nação teria sido traída por inimigos internos e precisaria ser salva por um comando forte.

É nesse deslocamento que a psicologia das multidões, estudada por Gustave Le Bon, ganha uma dimensão política perigosa. A multidão não é apenas um conjunto de indivíduos irracionais. Ela pode ser organizada por imagens, palavras de ordem e afetos que suspendem a experiência concreta. O sujeito que trabalha em jornadas extensas, endividado e sem proteção passa a enxergar no professor, no servidor público ou no militante de esquerda a causa de seu sofrimento. A política deixa de nomear relações sociais e passa a produzir identificação emocional com um chefe que encarna a suposta vontade do povo.

O líder fascista fala como se estivesse fora das instituições, embora dependa de alianças institucionais, empresariais e militares. Ele se apresenta como homem comum, mas concentra em sua figura a autoridade que pretende retirar da sociedade. Sua força está em converter contradições reais em uma oposição moral simplificada: cidadãos de bem contra bandidos, patriotas contra traidores, trabalhadores contra vagabundos, famílias contra comunistas. A complexidade da exploração é substituída pela clareza brutal do inimigo.

O bolsonarismo e a fabricação do inimigo social

O bolsonarismo brasileiro não copiou mecanicamente o fascismo europeu. Ele combinou elementos autoritários já presentes na formação social do país: racismo, militarização da ordem pública, violência contra trabalhadores pobres, misoginia, anticomunismo e desprezo pelos direitos sociais. Sua novidade esteve na capacidade de articular essas heranças com as redes digitais, a desinformação permanente e a insatisfação produzida pelo neoliberalismo.

Durante sua ascensão, Jair Bolsonaro não ofereceu uma saída material para o desemprego, para a informalidade ou para o endividamento. Ofereceu culpados. A corrupção foi apresentada como defeito moral de um grupo político, e não como questão ligada à estrutura do Estado e às relações entre capital e poder. A violência urbana foi atribuída à suposta fraqueza dos direitos humanos, enquanto as condições sociais que alimentam a criminalização da pobreza eram retiradas do debate. A crise econômica foi convertida em guerra cultural.

Essa operação foi particularmente eficiente porque encontrou uma classe trabalhadora submetida a mudanças profundas. O emprego estável perdeu espaço, o sindicato foi enfraquecido, a terceirização se expandiu e o trabalhador passou a ser responsabilizado individualmente por sua própria sobrevivência. O entregador de aplicativo que aguarda uma corrida durante horas não é apresentado como alguém submetido a uma empresa que controla preços, acesso ao trabalho e avaliação. Ele é convocado a enxergar-se como empreendedor. Se fracassa, a culpa seria de sua disciplina, de sua qualificação ou de sua suposta falta de esforço.

O fascismo se alimenta dessa culpa individual. Ele não precisa acabar com a exploração; precisa impedir que ela seja reconhecida como exploração. Ao transformar cada trabalhador em empresário de si mesmo, a ideologia neoliberal já havia dissolvido a percepção de pertencimento coletivo. O bolsonarismo radicalizou essa dissolução ao afirmar que qualquer reivindicação coletiva seria vitimismo, privilégio ou ameaça à liberdade. A liberdade, nesse vocabulário, significa liberdade empresarial para contratar, demitir, vigiar e remunerar sem limites.

O trabalhador disciplinado pelo medo

O vínculo entre fascismo e trabalho aparece com nitidez quando a autoridade é apresentada como solução para a precariedade. O motorista de aplicativo que não consegue pagar o combustível, o operador de call center submetido a metas inalcançáveis e o professor exausto por múltiplas jornadas vivem problemas diferentes, mas compartilham uma condição: seu tempo e sua energia são apropriados por organizações que exigem disponibilidade constante. A promessa fascista não melhora essa condição. Ela oferece punição para quem não se adapta e honra para quem obedece.

No trabalho por aplicativo, a plataforma administra o trabalhador sem assumir a figura tradicional do patrão. O algoritmo define ou influencia a distribuição das corridas, os critérios de avaliação, a visibilidade e o risco de bloqueio. A empresa afirma que apenas conecta oferta e demanda, enquanto o trabalhador suporta os custos do veículo, do celular, da manutenção e da espera. Essa forma de gestão produz uma autoridade opaca: ninguém discute com uma pessoa específica, mas todos obedecem a decisões que não conseguem contestar.

O fascismo encontra terreno fértil nessa experiência de impotência. Quando o trabalhador não consegue compreender nem enfrentar o poder econômico que organiza sua jornada, a política autoritária oferece uma figura visível para canalizar a raiva. O líder fala em nome dos que trabalham, promete ordem e ataca direitos considerados obstáculos. O ressentimento não é eliminado; é administrado. A revolta que poderia atingir a empresa, o sistema financeiro ou a legislação trabalhista é direcionada contra o pobre que recebe auxílio, contra o funcionário público ou contra o manifestante que paralisa uma avenida.

O caso dos entregadores é revelador. Em mobilizações como o Breque dos Apps, trabalhadores formularam reivindicações concretas: remuneração mais justa, transparência nas taxas, fim dos bloqueios arbitrários e melhores condições de segurança. Ali apareceu uma possibilidade política que o fascismo tenta impedir: a transformação de experiências individuais de exploração em organização coletiva. A resposta autoritária procura quebrar essa passagem. O trabalhador deve continuar isolado, competindo por cada entrega e agradecendo à plataforma pela oportunidade.

A ideologia fascista prefere o trabalhador obediente ao trabalhador organizado. Ela celebra o esforço, mas não tolera a reivindicação. Exalta a produtividade, mas silencia sobre a apropriação do resultado. Louva o cidadão de bem, desde que ele aceite a desigualdade como ordem natural. Quando trabalhadores ocupam as ruas, fazem greve ou constroem solidariedade, deixam de ser figuras decorativas do discurso nacional e passam a ameaçar a hierarquia econômica que o fascismo protege.

Espetáculo, desinformação e a política da presença permanente

Guy Debord ajuda a compreender outra dimensão do problema. Na sociedade do espetáculo, as relações sociais são mediadas por imagens que se apresentam como realidade imediata. A política deixa de depender apenas de programas e passa a depender da circulação contínua de cenas, frases e conflitos. O líder não precisa resolver a vida social para manter sua centralidade. Precisa ocupar a tela, produzir indignação e garantir que seus seguidores interpretem cada acontecimento dentro da mesma narrativa de guerra.

O bolsonarismo utilizou essa lógica para transformar a política em uma sucessão de provas de lealdade. Uma declaração agressiva valia mais do que uma medida pública; uma acusação viral substituía investigação; uma imagem de masculinidade compensava a ausência de resposta para o desemprego e a fome. O espetáculo não é uma distração superficial. Ele organiza a percepção do mundo. Se o trabalhador recebe diariamente mensagens dizendo que o país está ameaçado por comunistas, urnas fraudadas ou professores doutrinadores, sua experiência de exploração tende a ser interpretada por esse filtro.

A desinformação fascista não depende de convencer todos os indivíduos de cada mentira. Basta produzir desconfiança generalizada e destruir os critérios comuns de verificação. Quando qualquer informação pode ser denunciada como manipulação do inimigo, o vínculo social se enfraquece. A multidão digital permanece mobilizada, mas não necessariamente organizada. Ela compartilha, acusa e ameaça; raramente constrói uma pauta capaz de alterar as condições que produzem seu sofrimento.

Essa dinâmica também explica por que o fascismo contemporâneo pode conviver com eleições, parlamentos e plataformas digitais. A forma institucional não é suficiente para identificar ou afastar o fenômeno. Um movimento pode disputar votos e, ao mesmo tempo, atacar a possibilidade de alternância política. Pode falar em liberdade enquanto defende censura privada, perseguição e violência contra adversários. Pode reivindicar a vontade popular enquanto trata qualquer resultado desfavorável como fraude. O fascismo não se define pela ausência de eleições, mas pela tentativa de esvaziar a política popular e substituir conflito social por obediência nacional.

Estado, direito e exceção na experiência brasileira

A crítica marxista do Estado impede uma leitura ingênua segundo a qual bastaria escolher entre um Estado neutro e um líder autoritário. O Estado capitalista organiza a dominação de classe por meio de leis, instituições e políticas que aparecem como universais. O direito reconhece formalmente cidadãos iguais, mas essa igualdade convive com desigualdades materiais profundas. Como mostra Alysson Mascaro, a forma política estatal não paira acima do capitalismo: ela se relaciona com a reprodução das relações de exploração.

O fascismo não cria do nada a violência estatal. Ele intensifica, legitima e amplia mecanismos que já atingem seletivamente a população pobre, negra e periférica. A diferença está na forma como essa violência passa a ser celebrada como virtude política. A exceção deixa de ser apresentada como desvio provisório e torna-se promessa de governo. Suspender garantias, ampliar o poder policial, desqualificar a imprensa e ameaçar adversários passam a ser sinais de autenticidade.

No Brasil, essa lógica encontra uma história marcada por ditaduras, tortura, racismo estrutural e criminalização das lutas populares. A defesa da intervenção militar, a nostalgia da ditadura e a hostilidade contra instituições democráticas não foram acidentes retóricos do bolsonarismo. Expressaram a ideia de que a ordem social precisa ser protegida contra o povo quando este reivindica direitos. A democracia é tolerada enquanto administra a desigualdade sem ameaçar seus fundamentos; quando trabalhadores se organizam e pobres aparecem como sujeitos políticos, a tentação autoritária retorna.

Os ataques de 8 de janeiro de 2023 expuseram essa dinâmica de maneira concentrada. A destruição das sedes dos poderes não foi uma simples manifestação descontrolada, mas parte de uma tentativa de deslegitimar o resultado eleitoral e criar condições para uma ruptura autoritária. Seu caráter político estava na recusa de aceitar que a disputa social pudesse continuar dentro de regras comuns. A violência foi apresentada por seus participantes como defesa da pátria, da família e da liberdade, embora buscasse impor pela força a vontade de uma parcela mobilizada.

Contra o fascismo, a luta precisa recuperar seu objeto

Explicar o fascismo apenas como doença moral de pessoas ignorantes é uma forma de não compreendê-lo. O autoritarismo não nasce somente da maldade individual. Ele se apoia em relações sociais que produzem medo, isolamento e humilhação. O sujeito precarizado pode aderir ao discurso fascista porque este oferece pertencimento, mesmo na forma destrutiva do pertencimento contra alguém. A saída não está em ridicularizar esse trabalhador, mas em disputar politicamente a interpretação de sua experiência.

Isso exige recolocar no centro aquilo que o espetáculo e a guerra cultural retiram do campo de visão: salário, jornada, moradia, saúde, educação, dívida, transporte, controle do tempo e poder sobre o processo de trabalho. O entregador precisa deixar de ser tratado como empreendedor autônomo quando está submetido a decisões algorítmicas e dependente de uma plataforma. O professor precisa ser reconhecido como trabalhador quando sua atividade é medida por metas e submetida a ataques ideológicos. O operador de call center precisa aparecer como parte de uma cadeia de extração de valor, não como indivíduo incapaz de administrar suas emoções.

A organização coletiva não é uma palavra de ordem abstrata. Ela começa quando experiências dispersas são nomeadas como parte de uma mesma estrutura. A reclamação do entregador sobre bloqueios, a resistência do professor à intensificação da jornada e a luta do operador contra metas abusivas podem formar uma crítica comum à gestão capitalista. A solidariedade rompe a ficção de que cada trabalhador está sozinho diante de seu destino. É precisamente essa ruptura que o fascismo teme.

O significado do fascismo, afinal, não está em uma caricatura de uniforme, saudação ou ditador distante. Está na política que converte sofrimento social em ódio aos de baixo, que chama exploração de mérito, que confunde obediência com liberdade e que transforma a violência contra direitos em promessa de salvação nacional. No Brasil, reconhecer o bolsonarismo como uma forma autoritária enraizada na crise do capitalismo não é exagero retórico. É condição para compreender por que a defesa da democracia não pode se limitar à preservação de procedimentos eleitorais.

A democracia que interessa aos trabalhadores precisa alcançar as relações que organizam sua vida material. Sem poder sobre o trabalho, sobre a tecnologia e sobre as decisões econômicas, a igualdade política permanece estreita e vulnerável. O fascismo retorna sempre que a sociedade não encontra meios de transformar sua revolta em emancipação. Combatê-lo exige retirar a crise das mãos do líder e devolvê-la ao conflito social que a produziu: não contra o vizinho, o pobre ou o professor, mas contra a ordem que faz da precariedade uma regra e da obediência uma virtude.