Autoritárias não são apenas as figuras que ocupam um palácio, assinam decretos ou ordenam uma tropa. São também as instituições que convertem obediência em virtude, medo em disciplina e desigualdade em destino individual. No Brasil, essa forma de poder apareceu de maneira explícita na tentativa bolsonarista de deslegitimar a eleição e produzir uma ruptura em 8 de janeiro, mas não começou naquele domingo. Ela já estava no local de trabalho que pune a recusa de hora extra, no aplicativo que bloqueia o entregador sem oferecer explicação, na polícia que aborda corpos previamente definidos como suspeitos e na escola que ensina conformismo como mérito. O autoritarismo não é um acidente externo à vida social: é uma técnica de administração de uma sociedade fundada na exploração.
O caso de 8 de janeiro permite observar essa continuidade sem reduzir tudo a uma equivalência simplista. A invasão das sedes dos poderes foi uma ação organizada por uma extrema direita que recusava o resultado eleitoral, mobilizava símbolos nacionais e tratava a violência contra as instituições como purificação da pátria. A responsabilidade política e criminal por essa tentativa de golpe deve ser apurada e punida. Mas a cena também revelou algo mais profundo: milhares de pessoas foram preparadas para obedecer a uma narrativa que convertia ressentimento social em ódio político. A desinformação não funcionou como erro individual; funcionou como aparelho de formação de uma massa disponível para a ordem autoritária, desde que a ordem fosse apresentada como defesa da liberdade.
A forma brasileira das autoridades autoritárias
Chamar de autoritárias as instituições que organizam essa experiência não significa dizer que todas operam do mesmo modo. Uma empresa não é uma polícia, uma plataforma não é um governo e uma multidão bolsonarista não é uma repartição pública. O ponto é outro: em sociedades capitalistas, diferentes organizações podem compartilhar uma mesma lógica de comando. Quem decide permanece protegido; quem obedece assume o risco. A chefia determina a meta, mas o trabalhador responde pela exaustão. O algoritmo distribui a corrida, mas o entregador responde pelo atraso. A liderança política fabrica a mentira, mas a base mobilizada aparece como única culpada pela destruição que a mentira ajudou a produzir.
Alysson Mascaro ajuda a compreender essa contradição ao mostrar que o Estado não é um instrumento neutro que paira acima das classes. A forma estatal moderna organiza relações sociais capitalistas por meio do direito, da cidadania e da universalidade formal, mas preserva uma estrutura na qual a propriedade e o poder econômico têm vantagens materiais decisivas. A lei pode reconhecer direitos, e deve ser disputada para ampliá-los, porém sua existência não elimina a coerção cotidiana do mercado. O trabalhador é juridicamente livre para aceitar ou recusar um emprego, mas a necessidade de vender sua força de trabalho torna essa liberdade estreita. O autoritarismo brasileiro se alimenta precisamente desse intervalo entre a igualdade escrita e a submissão vivida.
É por isso que a retórica da ordem encontra terreno fértil. Quando a vida social é marcada por desemprego, endividamento, transporte precário, violência e insegurança econômica, a promessa de autoridade oferece uma saída imaginária: alguém finalmente mandará, punirá e colocará cada pessoa em seu lugar. A extrema direita transforma essa angústia em ressentimento contra pobres, negros, mulheres, sindicatos, professores, imigrantes e instituições que ainda limitam o arbítrio. Em vez de enfrentar a concentração da riqueza e a precarização, ela oferece inimigos. A ordem autoritária aparece, então, como compensação simbólica para uma população submetida à desordem material produzida pelo próprio capitalismo.
Do quartel ao aplicativo, a obediência muda de uniforme
O entregador de aplicativo conhece uma forma de comando que não precisa gritar. Seu trabalho é mediado por uma plataforma que calcula trajetos, distribui pedidos, registra tempos, avalia desempenho e pode suspender o acesso à conta. Não há necessariamente um supervisor ao lado, mas há uma arquitetura de vigilância que transforma cada minuto em julgamento. A promessa de autonomia encobre uma relação de dependência: o trabalhador possui, muitas vezes, a bicicleta ou a motocicleta, assume combustível, manutenção e acidente, enquanto a empresa controla a relação com o consumidor e define as condições de acesso às corridas.
Essa autoridade algorítmica é particularmente eficaz porque se apresenta como cálculo. Uma decisão produzida por código parece impessoal, como se não exprimisse escolhas econômicas. Entretanto, toda plataforma estabelece prioridades: velocidade sobre segurança, disponibilidade permanente sobre descanso, aceitação de pedidos sobre recusa, avaliação do cliente sobre conhecimento das condições concretas da rua. O algoritmo não precisa declarar uma ideologia para organizar a exploração. Basta que premie quem permanece conectado por mais tempo e penalize quem não consegue acompanhar o ritmo. A coerção fica escondida no desenho técnico e reaparece como suposta falha individual.
No call center, a cena é parecida. A voz do trabalhador precisa seguir um roteiro, o tempo de atendimento é monitorado, a pausa é contabilizada e a produtividade é comparada. A pessoa que atende torna-se extensão de uma máquina de medir, mesmo quando precisa lidar com a irritação de quem está do outro lado da linha. O comando empresarial se apresenta como gestão eficiente, mas seu resultado é a redução da experiência humana a indicadores. A autoridade não necessita de insulto explícito: ela opera quando a sobrevivência depende de satisfazer metas definidas por quem não arca com o desgaste físico e mental necessário para cumpri-las.
Marx chamou de alienação a separação do trabalhador em relação ao produto, ao processo, aos outros e à própria atividade. No trabalho contemporâneo, essa separação ganha uma aparência personalizada. O entregador é convidado a acreditar que administra seu negócio; o atendente é informado de que seu desempenho depende de atitude; o professor é responsabilizado pelos resultados de uma turma submetida à falta de estrutura. A ideologia da autonomia desloca para o indivíduo a responsabilidade por uma relação que ele não controla. Quanto menos poder real existe, mais se exige uma postura empreendedora. A obediência passa a ser vendida como escolha.
As autoritárias também vivem na linguagem da meritocracia
A meritocracia é uma das linguagens mais eficientes desse autoritarismo porque transforma uma hierarquia social em julgamento moral. Quem vence teria se esforçado; quem perde não teria sido disciplinado o suficiente. Esse discurso dispensa a violência visível. O chefe pode negar aumento e chamar isso de reconhecimento por desempenho. O Estado pode reduzir políticas públicas e chamar o abandono de responsabilidade fiscal. A plataforma pode transferir todos os custos ao entregador e chamar a precariedade de flexibilidade. A palavra mérito recobre uma relação de poder com uma aparência de neutralidade.
Na prática, as condições de partida nunca são iguais. O trabalhador que mora longe, enfrenta longos deslocamentos, cuida de filhos ou depende de um veículo em más condições não compete no mesmo terreno daquele que dispõe de tempo, patrimônio e proteção familiar. Ainda assim, a ideologia meritocrática trata essas diferenças como desculpas. Ela exige que a pessoa prove seu valor sob condições que não escolheu e, depois, usa o resultado para justificar a própria desigualdade. O autoritarismo aparece nessa exigência de demonstrar merecimento diante de uma autoridade que não precisa demonstrar nada.
A escola e a universidade também sofrem essa pressão. Professores precarizados são cobrados por desempenho, inovação e disponibilidade enquanto enfrentam salas superlotadas, contratos instáveis e falta de recursos. A política educacional que transforma tudo em meta acaba punindo quem trabalha na ponta pela desigualdade que deveria enfrentar. O estudante é incentivado a imaginar que seu futuro depende exclusivamente de sua disciplina, embora o mercado ofereça empregos cada vez mais inseguros. A educação deixa de ser apresentada como direito coletivo e passa a funcionar como investimento individual em uma competição cujo resultado já é profundamente desigual.
O espetáculo fabrica a massa e depois culpa a multidão
Guy Debord descreveu o espetáculo não como simples excesso de imagens, mas como uma relação social mediada por imagens. O bolsonarismo compreendeu essa dinâmica ao converter a política em fluxo permanente de vídeos, frases, inimigos e cerimônias de pertencimento. A imagem do líder, a bandeira, o gesto de indignação e a transmissão em tempo real produzem a sensação de participação sem entregar poder efetivo aos participantes. A pessoa conectada se sente parte de uma comunidade soberana, embora sua ação política seja guiada por conteúdos selecionados, repetidos e monetizados.
Le Bon, ao analisar a psicologia das multidões, observou como a massa pode ser conduzida por imagens simples, afirmações repetidas e contágio emocional. Sua obra carrega limites e não deve ser usada para tratar o povo como irracional por natureza. Ainda assim, seu conceito ajuda a perceber o mecanismo de uma política que substitui argumento por identificação. A multidão bolsonarista não foi apenas enganada por mensagens falsas; foi integrada por uma liturgia de medo e revanche. Cada mentira confirmava a identidade do grupo, e cada refutação externa era interpretada como prova de perseguição. A crença sobrevivia porque cumpria uma função social: oferecer pertencimento a sujeitos isolados e ressentidos.
O espetáculo autoritário precisa dessa massa e, ao mesmo tempo, a despreza. Convoca pessoas comuns para defender a pátria, mas reserva as decisões aos líderes, empresários, operadores digitais e aparelhos partidários. Pede sacrifício aos outros enquanto preserva os privilégios de quem comanda. Quando a mobilização produz violência, a multidão é apresentada como desvio irracional; quando produz votos, é celebrada como voz autêntica do povo. Essa oscilação revela a função política do povo na extrema direita: presença numerosa para legitimar o comando, nunca sujeito coletivo capaz de decidir sobre a riqueza e o trabalho.
A técnica não é neutra quando administra a necessidade
Heidegger mostrou que a técnica moderna não deve ser compreendida apenas como um conjunto de ferramentas. Ela organiza uma maneira de revelar o mundo, tratando seres e processos como recursos disponíveis. No capitalismo digital, essa lógica aparece quando cada atividade humana é convertida em dado, pontuação, tempo produtivo ou oportunidade de extração. O trabalhador torna-se disponibilidade; o passageiro, mercado; o aluno, desempenho; o cidadão, perfil comportamental. A autoridade técnica parece superior à política porque fala em nome da eficiência, mas essa eficiência sempre responde a uma finalidade social determinada.
Não é o algoritmo, isoladamente, que decide explorar. São empresas e instituições que escolhem o que medir, o que premiar e o que ignorar. Quando uma plataforma calcula a rota sem considerar o risco de assalto, a segurança foi subordinada ao custo. Quando uma empresa acompanha a produtividade minuto a minuto, o descanso foi subordinado ao rendimento. Quando um governo usa sistemas de reconhecimento e policiamento sobre territórios racializados, a tecnologia pode ampliar uma suspeita social já existente. A técnica torna-se autoritária quando elimina a possibilidade de contestação e apresenta suas decisões como inevitáveis.
A promessa de neutralidade tecnológica tem ainda um efeito político: desarma a linguagem da reivindicação. Contra um chefe, o trabalhador pode identificar uma ordem; contra um algoritmo, recebe uma justificativa técnica. Contra uma política pública, pode apontar um projeto; contra um painel de indicadores, encontra uma suposta necessidade objetiva. O poder se esconde atrás de interfaces. A tarefa crítica é revelar que toda interface possui proprietários, regras, interesses e consequências distribuídas de modo desigual.
Romper a autoridade não é trocar um chefe por outro
Uma crítica consequente das formas autoritárias não pode se limitar a defender boas maneiras institucionais. Democracia não é apenas votar a cada quatro anos e esperar que a vida cotidiana permaneça submetida ao comando privado. Se a maioria trabalha sem controlar o tempo, o ritmo e o produto de sua atividade, a liberdade política encontra um limite material. Se o entregador não pode participar das decisões da plataforma, se o professor não tem condições de definir o trabalho pedagógico, se a população periférica é governada pela suspeita policial, a cidadania formal permanece incompleta.
Isso não significa abandonar as garantias jurídicas ou desprezar as instituições. O combate ao golpismo, à violência política e à desinformação exige investigação, responsabilização e proteção democrática. Mas a defesa dessas garantias precisa alcançar o terreno no qual a autoridade autoritária se reproduz todos os dias. É necessário reconhecer direitos trabalhistas para quem trabalha por plataforma, limitar formas abusivas de vigilância, garantir transparência e contestação em decisões automatizadas, fortalecer sindicatos e serviços públicos e impedir que a austeridade seja usada para naturalizar o abandono. A democracia se fortalece quando as pessoas conquistam poder sobre as condições concretas da própria existência.
As autoritárias não desaparecerão quando um líder for derrotado nas urnas. Elas continuarão presentes em cada relação que exige obediência sem oferecer participação, em cada tecnologia que classifica sem permitir contestação e em cada discurso que transforma sofrimento social em culpa individual. O bolsonarismo tornou visível uma disposição autoritária que já circulava por empresas, igrejas, polícias, redes e famílias políticas. Enfrentá-la exige mais que desmentir uma notícia falsa: exige desmontar as estruturas que produzem impotência e depois oferecem o autoritarismo como remédio.
A alternativa não é uma autoridade mais simpática, nem uma gestão eficiente da submissão. É a construção de formas coletivas de decisão capazes de limitar o poder do capital sobre o tempo, o corpo e a imaginação. Enquanto a sociedade continuar organizada para que poucos comandem e muitos apenas se adaptem, a ordem será apresentada como liberdade e a revolta será desviada contra os mais vulneráveis. A crítica começa quando recusamos essa troca. O autoritarismo não deve ser combatido somente no instante em que invade um prédio público; deve ser enfrentado onde ele aprende, diariamente, a chamar exploração de normalidade.
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