Autoritaristas não são apenas indivíduos que gostam de mandar, humilhar ou impor silêncio. No Brasil, eles aparecem como resultado de uma forma social que combina trabalho precarizado, medo econômico, ressentimento político, espetáculo digital e abandono estatal. O bolsonarismo não inventou essa disposição autoritária, mas soube organizá-la, dar-lhe uma linguagem e convertê-la em força política. A multidão que atacou as sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023 não era uma aberração isolada da vida social brasileira. Ela expressava, de maneira brutal e concentrada, uma sociedade acostumada a obedecer no trabalho, a competir na miséria e a tratar o adversário como inimigo absoluto.
A questão decisiva não é descobrir se determinadas pessoas possuem uma personalidade autoritária, como se o problema estivesse encerrado na psicologia individual. A questão é entender quais relações sociais fabricam sujeitos dispostos a aceitar a violência quando ela promete restaurar uma ordem imaginária. O autoritarismo se alimenta da insegurança material, mas também da incapacidade de compreender suas causas. Quando o trabalhador submetido ao algoritmo de uma plataforma culpa outro trabalhador pelo congestionamento, pela queda da renda ou pela disputa por uma entrega, a dominação já conseguiu deslocar o conflito: o explorado passa a enxergar um semelhante como ameaça.
Os autoritaristas são produzidos antes de aparecerem nas ruas
O capitalismo contemporâneo transforma a insegurança em método de governo. O entregador de aplicativo não sabe com antecedência quanto ganhará, não controla a distribuição das corridas, precisa arcar com os custos do veículo e pode ser bloqueado por uma decisão opaca do sistema. O professor submetido a metas, avaliações e contratos instáveis aprende que sua permanência depende de demonstrar produtividade permanente. No call center, a voz é cronometrada, cada pausa pode ser registrada e o corpo inteiro é reduzido a indicadores. Em todos esses casos, a experiência cotidiana ensina uma lição política: quem não atingir a meta será descartado.
Essa pedagogia da ameaça não produz automaticamente consciência coletiva. Ao contrário, pode produzir isolamento, desconfiança e hostilidade contra quem parece ocupar uma posição ainda mais frágil. O trabalhador é responsabilizado por sua própria ruína, enquanto as empresas que controlam o mercado aparecem como simples ferramentas neutras. A ideologia da meritocracia cumpre aí uma função autoritária: transforma relações de exploração em julgamento moral. Se alguém não consegue pagar o aluguel, a culpa seria sua; se o entregador adoece, faltou disciplina; se o professor abandona a escola, faltou vocação. A violência estrutural desaparece e sobra o indivíduo acusado de fracasso.
É nesse terreno que os autoritaristas encontram público. Eles oferecem uma explicação curta para uma vida social incompreensível: o problema está no inimigo, no corrupto, no pobre, no comunista, no imigrante, no professor, no jornalista, no ministro ou em qualquer grupo apresentado como obstáculo à restauração da ordem. A promessa autoritária não é somente repressão. É também uma promessa de simplificação. Ela livra o sujeito da tarefa difícil de compreender a totalidade social e lhe entrega um alvo para a raiva.
Do algoritmo de trabalho ao algoritmo político
O algoritmo de uma plataforma de entrega não precisa declarar uma ideologia para organizar comportamentos. Ele distribui chamadas, calcula trajetos, registra desempenho e estabelece recompensas e punições. Sua autoridade opera por meio de decisões difíceis de contestar, porque o trabalhador não negocia com uma pessoa identificável. A ordem chega como resultado técnico. O bloqueio aparece como procedimento. A redução da renda é apresentada como oscilação do sistema. A técnica, nesse caso, não elimina a dominação: torna a dominação menos visível e mais difícil de enfrentar.
O mesmo princípio pode ser observado na política digital. Plataformas não fabricam sozinhas o bolsonarismo, mas favorecem ambientes nos quais mensagens simples, indignação constante e imagens de inimigos circulam com velocidade. A política deixa de ser uma disputa sobre as condições concretas de trabalho, moradia, saúde e educação e passa a ser consumida como fluxo de estímulos. O usuário é convocado a reagir antes de compreender. A indignação substitui a análise; a repetição substitui a prova; a fidelidade ao grupo substitui a argumentação.
Guy Debord descreveu o espetáculo não como um conjunto de imagens, mas como uma relação social mediada por imagens. Essa formulação ajuda a entender por que a desinformação bolsonarista não depende apenas de convencer cada pessoa de uma mentira específica. Ela reorganiza a experiência social em torno da circulação permanente de cenas, suspeitas e inimigos. A realidade política passa a valer menos pelo que acontece do que pela capacidade de produzir identificação. O autoritarista não precisa verificar todos os fatos: precisa reconhecer quem fala em nome do seu grupo e quem deve ser odiado.
A técnica digital intensifica esse processo porque permite personalizar a obediência. No trabalho, cada sujeito recebe uma meta, uma avaliação e uma punição. Na política, cada sujeito recebe conteúdos compatíveis com seus medos e ressentimentos. A mesma sociedade que administra o trabalhador por métricas administra o cidadão por estímulos. O controle não exige uma ordem única para todos; pode funcionar pela adaptação contínua da mensagem a cada indivíduo. A aparência de escolha convive com uma arquitetura que orienta a percepção.
O 8 de janeiro e a fantasia de uma ordem sem conflito
Os ataques de 8 de janeiro revelaram uma característica central do autoritarismo brasileiro: sua pretensão de defender a ordem por meio da destruição das formas institucionais existentes. A cena dos prédios depredados parecia contraditória apenas para quem imagina o autoritarismo como simples disciplina. A ordem autoritária não é a preservação neutra das instituições. É a construção de uma autoridade acima do conflito social, capaz de definir quem pertence ao povo e quem deve ser eliminado da comunidade política.
Os participantes foram mobilizados por uma narrativa segundo a qual a derrota eleitoral não poderia ser aceita porque o adversário não seria um adversário, mas uma ameaça existencial. A eleição deixou de ser um procedimento de disputa entre forças sociais e foi apresentada como uma batalha entre bem e mal. Nesse enquadramento, a violência passa a ser interpretada como defesa. O golpe se apresenta como salvação; a destruição, como limpeza; a intervenção militar, como remédio contra uma suposta conspiração.
Gustave Le Bon observou, em sua análise das multidões, que a massa pode ser conduzida por imagens e fórmulas que simplificam a realidade. Sua contribuição não deve ser usada para tratar a multidão como irracional por natureza, muito menos para absolver as estruturas que a mobilizam. O ponto é outro: em uma multidão organizada por símbolos fortes, a complexidade social é comprimida em palavras de ordem. No bolsonarismo, pátria, família, Deus e liberdade foram combinados com acusações contra instituições e grupos sociais. A fórmula não explicava o país, mas oferecia pertencimento e direção à frustração.
Essa multidão não surgiu de uma falha moral repentina. Ela foi preparada por anos de desinformação, por uma cultura política que naturaliza a violência policial, por relações de trabalho que premiam a submissão e por um sistema econômico que produz abandono enquanto celebra o empreendedorismo individual. A extrema direita encontra força quando a experiência concreta da precariedade não se converte em organização dos trabalhadores. Sem uma linguagem coletiva para nomear a exploração, o ressentimento pode ser capturado por quem promete punir os supostos responsáveis pelo sofrimento.
O abandono estatal não é ausência de poder
Há uma contradição aparente no discurso autoritário: ele denuncia o Estado quando o Estado oferece direitos, mas exige sua força máxima quando se trata de controlar pobres, trabalhadores e dissidentes. O entregador sem proteção social encontra um Estado ausente na doença, na velhice e no acidente, mas pode encontrá-lo rapidamente na fiscalização, na repressão e na criminalização da pobreza. A ausência de políticas públicas não significa ausência de governo. Significa uma forma seletiva de presença estatal.
Alysson Mascaro permite compreender esse movimento ao mostrar que o Estado não está fora das relações capitalistas como árbitro imparcial. A forma estatal organiza juridicamente uma sociedade fundada na mercadoria e na exploração do trabalho. Ela garante direitos gerais, mas também preserva as condições que fazem esses direitos conviverem com a desigualdade material. Quando a empresa de plataforma trata o entregador como parceiro autônomo, o direito pode aparecer como linguagem de liberdade enquanto a relação econômica mantém dependência e subordinação.
O autoritarismo cresce nesse intervalo entre a promessa formal de cidadania e a experiência concreta de desamparo. O trabalhador é juridicamente livre, mas precisa aceitar condições que não controla para sobreviver. É cidadão perante a lei, mas enfrenta filas, serviços insuficientes e insegurança habitacional. É convocado a votar como igual, mas sua capacidade de influir na política é atravessada por renda, tempo, informação e poder econômico. A extrema direita transforma essa frustração em suspeita contra a democracia, sem tocar nas estruturas econômicas que a produzem.
Por isso, a resposta ao autoritarismo não pode se limitar a defender instituições de forma abstrata. É necessário perguntar que democracia é experimentada por quem trabalha doze horas em uma motocicleta, por quem vive de contrato temporário ou por quem tem sua avaliação definida por uma máquina. A defesa da democracia precisa alcançar o local de trabalho, a distribuição da renda, o acesso à moradia, a proteção social e o direito efetivo de organização. Caso contrário, a democracia será defendida como ritual enquanto a vida cotidiana continua ensinando a obediência.
O autoritarista no cotidiano do trabalho
O autoritarista não aparece somente no palanque ou na manifestação. Ele também pode ser encontrado no gerente que converte a exaustão da equipe em prova de comprometimento, no influenciador que vende enriquecimento individual como virtude, no supervisor que denuncia qualquer solidariedade como improdutividade e no trabalhador que repete contra os colegas a linguagem de quem o explora. Isso não significa igualar todas essas condutas ao fascismo organizado. Significa reconhecer que o autoritarismo possui uma dimensão cotidiana, formada por pequenas práticas de vigilância, humilhação e punição.
A empresa contemporânea frequentemente apresenta a chefia como liderança, a cobrança como feedback e a disponibilidade permanente como paixão pelo trabalho. A linguagem suaviza a coerção. O trabalhador deve sorrir enquanto aceita metas impossíveis, agradecer enquanto perde direitos e considerar oportunidade aquilo que antes seria reconhecido como exploração. Essa conversão semântica é ideológica porque modifica o modo como a violência é percebida. O comando deixa de parecer comando quando é embalado como desenvolvimento pessoal.
Heidegger ajuda a compreender a dimensão mais profunda da técnica quando mostra que ela não é apenas um conjunto de ferramentas, mas uma forma de revelar o mundo. Sob a racionalidade técnica dominante, pessoas aparecem como recursos, dados, perfis de risco e unidades de desempenho. O entregador é uma localização em movimento; o professor, um índice; o atendente, uma duração média; o desempregado, um currículo a ser filtrado. Quando o ser humano é revelado prioritariamente como recurso calculável, a eliminação dos que não rendem parece uma decisão funcional, não uma violência social.
A autoritarização da vida nasce também dessa redução. Quanto mais as pessoas são avaliadas como objetos substituíveis, mais fácil se torna aceitar que algumas sejam descartadas. O fascismo apenas radicaliza uma lógica que o capitalismo já dissemina em escala cotidiana: a ideia de que o valor de uma vida depende de sua utilidade para a acumulação. O discurso autoritário acrescenta a essa lógica um componente afetivo e nacionalista. Ele promete que alguns serão protegidos, desde que outros sejam excluídos.
Contra a fábrica de autoritaristas
Combater os autoritaristas não é simplesmente pedir civilidade a quem foi formado pela violência social. Também não é acreditar que a circulação de informações corretas, sozinha, dissolverá o problema. A disputa precisa atingir as condições que transformam insegurança em ressentimento e isolamento em ódio. Isso envolve reconstruir direitos trabalhistas, enfrentar a opacidade dos algoritmos, reconhecer o vínculo real entre plataformas e trabalhadores, ampliar a proteção social e fortalecer organizações coletivas capazes de disputar o sentido da experiência cotidiana.
O trabalhador não deixa de ser autoritário porque recebe uma aula sobre tolerância. Ele pode começar a romper com essa disposição quando encontra uma explicação material para sua vida e uma forma coletiva de agir sobre ela. Uma greve de entregadores, uma organização no call center, a defesa de uma escola pública ou a luta por moradia produzem algo que a propaganda autoritária tenta destruir: a percepção de que problemas individuais têm causas comuns e podem ser enfrentados por sujeitos comuns.
Essa reconstrução é difícil porque o capitalismo contemporâneo fragmenta o trabalho e privatiza o sofrimento. Cada pessoa é convocada a administrar sozinha riscos que são socialmente produzidos. O aplicativo transforma colegas em concorrentes; a meritocracia transforma vítimas em culpados; a propaganda política transforma adversários em inimigos. Romper esse circuito exige restituir nomes às relações escondidas. A renda baixa não é falta de esforço individual quando uma empresa controla o acesso às corridas. O esgotamento não é fracasso moral quando a organização do trabalho exige disponibilidade contínua.
Os autoritaristas prosperam quando a sociedade não oferece uma saída coletiva para a angústia. A esquerda perde terreno quando responde ao ressentimento apenas com reprovação moral, como se bastasse declarar que determinados eleitores são ignorantes, maus ou irracionais. É preciso enfrentar o autoritarismo sem adotar sua linguagem e sem aceitar seus alvos. Isso significa deslocar a raiva da base social para as relações que a exploram, sem transformar o trabalhador capturado pela extrema direita em inimigo irrecuperável.
O bolsonarismo continuará sendo uma ameaça enquanto as condições que o alimentaram permanecerem intactas. A derrota eleitoral de uma liderança não dissolve a precarização, o poder das plataformas, a concentração da mídia, a violência estatal nem o sentimento de abandono. O autoritarismo pode trocar de rosto, de slogan e de uniforme. Sua permanência depende da capacidade de transformar sofrimento sem explicação em obediência, e obediência sem futuro em agressão contra os mais vulneráveis.
Os autoritaristas, enfim, não são um acidente externo à sociedade brasileira. São uma possibilidade produzida dentro dela, reforçada por relações de trabalho hierárquicas, por tecnologias de controle e por uma política que administra a desigualdade enquanto promete liberdade. Enfrentá-los exige mais do que proteger prédios públicos ou denunciar mentiras nas redes. Exige desmontar a fábrica social que ensina milhões de pessoas a aceitar o mando, a vigiar o vizinho e a desejar a punição do outro. Sem essa transformação, a democracia continuará formalmente de pé enquanto o autoritarismo se reproduz na vida que existe atrás de suas portas.
Comentários
Seja o primeiro a comentar.
Deixe um comentário
Seu comentário será publicado após aprovação.