Facismo oq é? A grafia correta é fascismo, mas a pergunta interessa menos como teste de ortografia do que como disputa política: quem define o fenômeno também define o que fica invisível nele. Para a enciclopédia, fascismo costuma aparecer como um regime autoritário, nacionalista e violento, associado à Itália de Mussolini e à Alemanha nazista. A definição não está errada, mas é insuficiente para compreender o Brasil. Aqui, o fascismo não surgiu como cópia tropical de um passado europeu; ele se reorganizou nas condições de uma sociedade marcada pela desigualdade, pelo racismo, pela precarização do trabalho, pela concentração dos meios de comunicação e pela incapacidade do Estado burguês de oferecer outra coisa que não austeridade, vigilância e repressão.

O bolsonarismo foi a forma brasileira mais recente dessa reorganização. Não se trata apenas de um conjunto de opiniões conservadoras, nem de uma excentricidade eleitoral produzida por redes sociais. Trata-se de uma política de massas que converte frustrações materiais em ressentimento contra inimigos fabricados, apresenta a violência como solução moral e promete restaurar uma ordem que nunca foi pacífica para a maioria. O fascismo administra a crise capitalista pela mobilização do medo. Em vez de questionar por que milhões trabalham muito e continuam sem segurança, ele ensina a odiar quem está abaixo, quem pensa diferente ou quem reivindica direitos.

Facismo oq é quando a crise social ganha um inimigo conveniente

O fascismo cresce quando a vida social entra em contradição com as promessas oficiais de estabilidade. O trabalhador é informado de que basta esforço para prosperar, mas encontra salários comprimidos, jornadas fragmentadas e serviços públicos deteriorados. O pequeno comerciante recebe a promessa de liberdade econômica, mas enfrenta crédito caro, concorrência concentrada e consumo fraco. O jovem formado descobre que o diploma não garante emprego; o entregador descobre que sua autonomia significa pagar combustível, manutenção e seguro para permanecer disponível ao aplicativo. A ideologia da meritocracia transforma essa insegurança coletiva em culpa individual. O fascismo intervém nesse terreno oferecendo uma explicação simples: a crise não seria produzida pelas relações de propriedade, pela exploração ou pela financeirização, mas por um grupo que supostamente corrompeu a nação.

É nesse ponto que o preconceito deixa de ser apenas uma atitude privada e passa a cumprir uma função política. O ódio contra pessoas negras, mulheres, pessoas LGBT, imigrantes, professores, sindicalistas e beneficiários de políticas sociais organiza a frustração em uma hierarquia de inimigos. A violência é apresentada como limpeza, correção ou defesa. O discurso não diz somente que determinado grupo é inferior; afirma que sua existência ameaça a família, a segurança, a religião ou a propriedade. A destruição de direitos pode então aparecer como proteção da sociedade, e a crueldade como coragem.

Gustave Le Bon, ao escrever sobre a psicologia das multidões, percebeu que a massa política não se move principalmente pela demonstração racional de fatos, mas por imagens, repetições e afetos compartilhados. Sua teoria tem limites e carrega o elitismo de seu tempo, mas ajuda a compreender um mecanismo que o bolsonarismo explorou com eficiência: a fabricação de uma comunidade emocional fundada no medo e na repetição. A mensagem precisa ser simples, reconhecível e constantemente renovada. A acusação contra a urna, a fantasia de fraude, o pânico moral e a ameaça permanente contra um inimigo interno não dependem de provas consistentes. Dependem de circulação contínua, pertencimento e indignação.

O bolsonarismo não foi um acidente das redes

As plataformas digitais deram velocidade a esse processo, mas não o inventaram sozinhas. O algoritmo de recomendação privilegia conteúdos capazes de produzir atenção, conflito e permanência. Uma mentira que provoca pânico pode circular melhor do que uma explicação cuidadosa sobre orçamento, trabalho ou política pública. Isso não significa que cada usuário seja manipulado como um boneco, nem que toda disputa digital seja automaticamente fascista. Significa que a infraestrutura comercial das plataformas favorece a transformação da política em choque permanente, enquanto empresas privadas acumulam dados, definem visibilidades e permanecem opacas para a sociedade.

O bolsonarismo soube operar nessa infraestrutura porque ofereceu mais do que falsidades isoladas. Criou uma narrativa total, na qual problemas diferentes recebiam a mesma causa: professores seriam doutrinadores, universidades seriam focos de subversão, jornalistas seriam inimigos, ministros seriam conspiradores, sindicatos seriam obstáculos e políticas de proteção social seriam privilégios. A desinformação não precisava convencer todos sobre cada afirmação. Bastava corroer a confiança em qualquer fonte capaz de disputar a interpretação do mundo. Quando todos os fatos parecem suspeitos, vence quem controla a emoção mais persistente.

Guy Debord chamou de sociedade do espetáculo a forma social em que a relação entre as pessoas é mediada por imagens e em que a aparência de participação substitui a ação coletiva efetiva. O espetáculo não é apenas televisão, propaganda ou entretenimento; é uma organização da vida na qual a experiência social aparece como algo a ser contemplado, compartilhado e consumido. No bolsonarismo, a política foi convertida em espetáculo de confronto: lives, motociatas, ataques performáticos, frases calculadas para indignar e cenas de masculinidade armada. A política parecia intensa justamente quando os trabalhadores permaneciam afastados das decisões sobre salário, jornada, moradia e riqueza.

A imagem do líder como homem comum, perseguido pelas instituições e capaz de dizer o que os outros não dizem, produziu uma identificação poderosa. O líder fascista não precisa ser coerente; precisa encarnar o ressentimento de sua base. Sua grosseria pode ser lida como autenticidade, sua ignorância como independência e sua agressividade como proteção. A contradição entre o discurso contra o sistema e a defesa de interesses econômicos dominantes desaparece no teatro da transgressão. Enquanto o espetáculo ocupa a superfície, a estrutura continua funcionando: o capital exige disciplina, o Estado protege a propriedade e a precarização aparece como destino inevitável.

O inimigo do fascismo é a classe trabalhadora organizada

Uma leitura liberal costuma identificar o fascismo apenas na ruptura institucional, no golpe ou na presença de grupos paramilitares. Esses elementos importam, mas não esgotam o fenômeno. O fascismo também é uma resposta à possibilidade de organização popular. Ele tenta impedir que trabalhadores reconheçam interesses comuns e transformem sofrimento disperso em reivindicação coletiva. Se o entregador atribui sua exaustão à própria falta de esforço, não questiona a plataforma. Se o professor acredita que o problema da escola é o colega supostamente doutrinador, não enfrenta o subfinanciamento, a intensificação do trabalho e a precarização da carreira. Se o trabalhador de call center culpa sua fragilidade emocional pelas metas impossíveis, a empresa permanece fora do campo de visão.

O caso dos entregadores de aplicativo mostra como essa operação funciona. O trabalhador arca com os instrumentos necessários para produzir, não conhece claramente os critérios que determinam sua remuneração e pode ser bloqueado por uma decisão algorítmica sem defesa efetiva. A plataforma apresenta a relação como parceria entre indivíduos autônomos, mas concentra o controle sobre preços, distribuição das corridas, avaliação e acesso à demanda. A chamada autonomia encobre dependência econômica. Em vez de reconhecer esse conflito como questão de classe, a ideologia dominante o transforma em escolha pessoal: quem não suporta o ritmo deveria procurar outro trabalho.

O fascismo pode incorporar esse mesmo trabalhador sem melhorar suas condições. Ele lhe oferece orgulho, armas simbólicas, ressentimento e pertencimento nacional. Diz que sua humilhação não vem da exploração, mas da existência de minorias protegidas, de jovens que protestam, de funcionários públicos supostamente privilegiados ou de uma conspiração cultural. O trabalhador deixa de se enxergar como parte de uma maioria explorada e passa a se imaginar como soldado de uma ordem ameaçada. A energia que poderia alimentar uma greve é deslocada para a perseguição de inimigos sociais.

Essa é a razão pela qual o fascismo não deve ser confundido com qualquer conservadorismo. O conservador pode desejar preservar instituições e hierarquias existentes; o fascismo mobiliza a crise para radicalizar a defesa da ordem por meios de exceção. Ele promete destruir o sistema enquanto protege seus fundamentos. Sua linguagem pode atacar partidos, tribunais e imprensa, mas raramente atinge de modo consequente os grandes proprietários, o sistema financeiro e as formas privadas de comando sobre o trabalho. A rebeldia fascista é uma rebeldia domesticada pela propriedade.

O Estado aparece como fraco para proteger e forte para punir

A crítica marxista do Estado ajuda a desmontar outra confusão. O Estado não é um árbitro neutro situado acima das classes, embora possa mediar conflitos e conceder direitos sob pressão social. Como forma política do capitalismo, ele garante condições gerais para a reprodução da propriedade e da exploração. Quando políticas públicas fracassam, o Estado é apresentado como ausente; quando se trata de punir pobres, controlar territórios e proteger contratos, ele reaparece com força. O fascismo explora essa contradição prometendo um Estado simultaneamente absoluto e seletivo: absoluto contra o inimigo interno, seletivo na proteção dos interesses econômicos dominantes.

Alysson Mascaro mostra que o direito e o Estado modernos não são instrumentos externos ao capitalismo, disponíveis de maneira indiferente para qualquer projeto social. Eles organizam a relação entre indivíduos formalmente livres em uma sociedade fundada na mercadoria e na exploração do trabalho. A promessa fascista de autoridade acima da política pode ocultar justamente essa estrutura. Quando o líder afirma que vai governar sem mediações, em nome do povo real, ele não elimina os conflitos de classe; apenas tenta bloquear suas formas organizadas de expressão. A exceção vira método de governo, e a lei passa a ser aplicada como arma contra os indesejáveis.

Foi isso que o 8 de janeiro revelou de maneira concentrada. A invasão e a depredação das sedes dos poderes da República não foram uma simples manifestação de descontentamento eleitoral, nem uma explosão espontânea sem direção política. Aquele episódio condensou a recusa de uma parte organizada da extrema direita em aceitar limites institucionais quando o resultado eleitoral contrariou seu projeto. A mobilização não se reduzia aos indivíduos que quebraram vidraças; dependia de redes de financiamento, acampamentos, circulação de mensagens, proteção política e uma narrativa anterior de ilegitimidade das urnas. A violência apareceu como continuação prática de uma guerra de versões.

O ataque não foi revolucionário. Não pretendia entregar o poder aos trabalhadores, abolir a propriedade privada ou socializar a riqueza. Sua finalidade era restaurar uma ordem autoritária contra a decisão eleitoral e contra qualquer possibilidade de participação popular que escapasse ao comando da extrema direita. Quebrar prédios públicos pode parecer radical, mas defender a submissão social ao capital e às hierarquias de classe é a forma mais reacionária de radicalismo. O fascismo não quer superar a sociedade que produz a crise; quer discipliná-la com mais brutalidade.

A resposta antifascista não pode ser apenas institucional

A defesa das instituições democráticas é necessária, sobretudo diante de uma extrema direita que ameaça eleições, direitos e organizações populares. Mas ela é insuficiente quando se limita à celebração abstrata da normalidade jurídica. A democracia burguesa pode proteger liberdades formais e, ao mesmo tempo, conservar a concentração econômica, a desigualdade racial e a exploração no trabalho. Se a democracia não alcançar o cotidiano material, o fascismo continuará encontrando trabalhadores cansados, endividados e ressentidos para recrutar.

Não basta dizer que a mentira é perigosa; é preciso enfrentar as condições que tornam a mentira politicamente sedutora. O entregador necessita de direitos e poder coletivo sobre o trabalho, não apenas de campanhas contra fake news. O professor precisa de carreira, salário e autonomia, não somente de defesa retórica da escola. O trabalhador do call center precisa de limites para metas e vigilância, não de discursos sobre resiliência. A população periférica precisa de serviços públicos, moradia e segurança que não sejam confundidos com ocupação policial. Sem essa base material, a disputa contra o fascismo fica reduzida a uma defesa moral das instituições que tantas vezes abandonaram os mesmos grupos depois de exigir seus votos.

A organização popular é o antídoto porque modifica a experiência individual da crise. Na greve, no sindicato, no movimento de moradia, na associação de trabalhadores de aplicativo e na luta antirracista, a culpa privada pode ser convertida em compreensão coletiva. A pessoa deixa de perguntar por que não conseguiu vencer sozinha e começa a perguntar quem se beneficia de sua derrota. Essa mudança não é apenas pedagógica; ela altera a correlação de forças. O fascismo precisa de indivíduos isolados, conectados por ressentimento e subordinados a uma figura salvadora. A política emancipatória depende de sujeitos capazes de decidir juntos.

O fascismo brasileiro não é uma doença estrangeira que desaparece com a derrota de um candidato. Ele é uma possibilidade recorrente de uma sociedade que combina capitalismo dependente, desigualdade extrema, racismo estrutural e precarização da vida. Enquanto a crise for administrada por cortes sociais, endividamento e punição dos pobres, haverá terreno para quem transformar abandono em ódio. Enquanto a política for convertida em espetáculo e a tecnologia permanecer sob comando de empresas que lucram com a polarização, a desinformação continuará produzindo pertencimento autoritário.

A pergunta sobre o que é fascismo só se torna politicamente útil quando deixa de procurar um monstro distante e reconhece a engrenagem cotidiana que o alimenta. Ele está na promessa de que um chefe forte resolverá conflitos que exigem organização coletiva; na defesa de que alguns trabalhadores merecem direitos e outros merecem castigo; na substituição da crítica à exploração por guerra cultural; na ideia de que segurança significa submissão. Nomear essa engrenagem é o primeiro gesto de ruptura, mas não o último. A derrota do fascismo exige retirar das mãos do ressentimento a energia produzida pela crise e devolvê-la à luta dos que vivem do próprio trabalho.