O que o fascismo defende não se resume a um governo autoritário, a um líder agressivo ou a uma coleção de símbolos nacionais. O fascismo defende uma ordem social fundada na hierarquia, na propriedade privada, na disciplina do trabalho e na destruição organizada da solidariedade de classe. Ele apresenta essa ordem como salvação da pátria, mas seu resultado concreto é proteger aqueles que controlam a riqueza enquanto transforma a revolta dos explorados em ódio contra inimigos escolhidos. No Brasil, o bolsonarismo atualizou essa operação ao combinar militarização, religião, desinformação, culto ao chefe e defesa radical da autoridade patronal.

Essa definição desloca o problema. Em vez de procurar o fascismo apenas em discursos explicitamente racistas ou em movimentos que pretendem abolir eleições, é preciso observá-lo na política cotidiana da exploração. Ele aparece quando o entregador é tratado como empreendedor porque possui uma motocicleta financiada; quando o professor é responsabilizado pela ruína da escola pública; quando o trabalhador de call center é reduzido a uma voz monitorada por metas; quando a pobreza é convertida em prova de fracasso individual. O fascismo não elimina necessariamente as instituições liberais. Ele pode utilizar eleições, tribunais, redes sociais e parlamentos para consolidar uma sociedade em que a igualdade formal já não limite a violência material.

O que o fascismo defende contra a luta de classes

A primeira coisa que o fascismo defende é a negação da luta de classes. Não porque as classes desapareçam, mas porque sua existência precisa ser ocultada. Patrões e empregados são apresentados como partes de um mesmo corpo nacional, com interesses supostamente comuns. O conflito entre quem controla os meios de produção e quem precisa vender sua força de trabalho é recoberto pelo vocabulário da colaboração, da família e da pátria. A empresa vira comunidade; o patrão vira líder; a obediência vira lealdade.

Essa promessa de unidade não é uma conciliação real. Ela exige que a classe trabalhadora renuncie à própria autonomia. Se o empregado reivindica salário, tempo livre ou proteção, é acusado de prejudicar a economia. Se o entregador organiza um breque, é chamado de criminoso, manipulado ou ingrato. Se professores paralisam suas atividades, são descritos como doutrinadores que abandonaram as crianças. A unidade nacional só funciona quando a reivindicação dos de baixo é interpretada como ameaça ao conjunto da sociedade.

Marx mostrou que a relação salarial não é uma troca entre indivíduos livres em condições equivalentes. O trabalhador vende sua força de trabalho porque, separado dos meios de produção, precisa encontrar quem compre sua capacidade de trabalhar. A forma jurídica do contrato esconde essa dependência. O fascismo se aproveita dessa aparência de liberdade para aprofundá-la: cada pessoa deve enxergar sua posição social como resultado de mérito, disciplina ou falha moral, nunca como efeito de uma estrutura de propriedade.

Por isso, o fascismo pode vestir a linguagem do empreendedorismo. O entregador não seria um trabalhador submetido ao algoritmo, mas um pequeno empresário responsável por seu próprio destino. O motorista não enfrentaria uma relação assimétrica com a plataforma, mas escolheria livremente seus horários. O professor precarizado não seria vítima de uma política de desmonte, mas um profissional incapaz de se adaptar. A ideologia converte dependência em autonomia imaginária e, depois, pune quem não consegue prosperar dentro dela.

A hierarquia como resposta à precarização

O fascismo defende a hierarquia porque precisa oferecer uma resposta falsa ao sofrimento produzido pelo capitalismo. O trabalhador precarizado experimenta instabilidade, perda de controle sobre o tempo, medo do desemprego e ausência de futuro previsível. A política fascista não enfrenta essas causas. Ela oferece uma compensação subjetiva: se a pessoa não pode dominar seu trabalho, sua renda ou sua própria vida, poderá ao menos imaginar que pertence a uma comunidade superior e que tem autoridade sobre alguém considerado inferior.

A raça, o gênero, a sexualidade, a nacionalidade e a posição religiosa tornam-se recursos para fabricar essa superioridade. O homem branco ressentido pode ser convocado a se sentir soberano em casa, na rua ou nas redes, ainda que seja explorado no emprego. A família patriarcal aparece como modelo natural de comando. O pobre disciplinado é valorizado enquanto aceita sua posição; o pobre que protesta é transformado em ameaça. A desigualdade econômica permanece intacta, mas recebe uma compensação simbólica distribuída de modo desigual.

É nesse ponto que a psicologia das massas de Gustave Le Bon ajuda a compreender a política fascista, desde que não seja usada como desculpa para desprezar as multidões. Le Bon observou como a massa pode ser mobilizada por imagens, fórmulas simples e contágio emocional, reduzindo a distância entre crença e prova. O fascismo não convence apenas por argumentos. Ele produz uma atmosfera em que a repetição de um inimigo, uma bandeira ou uma ameaça cria a sensação de verdade. A multidão não é uma massa irracional por natureza; ela é organizada por aparelhos, discursos e interesses materiais.

Nas redes bolsonaristas, a ameaça comunista, a fantasia de fraude eleitoral, o medo de uma conspiração global e o ataque permanente a professores, jornalistas e instituições cumprem essa função. A desinformação não precisa ser consistente. Ela precisa manter o grupo em estado de mobilização, indignação e vigilância. Cada contradição é reinterpretada como prova de que o inimigo é ainda mais poderoso. A mentira se torna um mecanismo de pertencimento.

O que o fascismo defende no trabalho brasileiro

No trabalho brasileiro, essa política aparece como defesa da autoridade patronal contra qualquer limite. A reforma, a terceirização e a informalidade são narradas como liberdade de escolha, embora ampliem a insegurança de quem depende da renda mensal. A jornada extensa é apresentada como virtude; o descanso, como preguiça; o direito, como privilégio. O trabalhador deve agradecer por qualquer oportunidade, mesmo quando a oportunidade é receber por tarefa, arcar com os instrumentos de trabalho e permanecer disponível sem garantia de remuneração.

O caso dos entregadores de aplicativo é revelador. Eles enfrentam custos de combustível, manutenção, seguro, alimentação e risco de acidente, enquanto a plataforma controla a distribuição das corridas, a visibilidade do trabalhador e, em muitos casos, sua avaliação. A empresa aparece como simples intermediária tecnológica. O algoritmo parece neutro, embora organize uma relação econômica concreta: de um lado, uma plataforma que concentra dados, infraestrutura e poder de decisão; de outro, trabalhadores isolados, concorrendo entre si por chamadas.

Quando entregadores realizaram mobilizações como o breque dos apps, suas reivindicações expuseram o que a propaganda da autonomia escondia. Não se tratava de uma revolta contra a tecnologia, mas contra a transferência dos riscos empresariais para o trabalhador. O fascismo responde a esse tipo de conflito exaltando a ordem e criminalizando a organização. O trabalhador deve ser livre para aceitar qualquer condição, mas não para interromper coletivamente o fluxo que sustenta a rentabilidade da plataforma.

A técnica, aqui, não é apenas uma ferramenta. Heidegger mostrou que a técnica moderna tende a revelar o mundo como estoque disponível, como algo que pode ser calculado, extraído e mobilizado. No capitalismo de plataforma, essa disposição alcança o próprio trabalhador. Seu corpo vira disponibilidade, sua rota vira dado, sua atenção vira indicador e seu tempo vira unidade mensurável. O discurso fascista não questiona essa transformação. Ao contrário, celebra-a quando exige produtividade total, resposta imediata e submissão a métricas.

A empresa algorítmica pode parecer menos autoritária do que uma fábrica com supervisor visível, mas o controle não desaparece porque se tornou estatístico. Ele se distribui por notificações, bloqueios, avaliações, incentivos variáveis e rankings. O trabalhador recebe a ordem como sugestão personalizada. A coerção é apresentada como informação. O fascismo encontra nessa forma de gestão um terreno fértil, porque sua política também prefere que a obediência seja sentida como escolha individual.

Estado forte para quem?

Outra resposta à pergunta sobre o que o fascismo defende está no Estado. O fascismo proclama um Estado forte, mas a força estatal não é neutra nem dirigida contra toda forma de poder privado. Na prática, trata-se de um Estado forte para reprimir, vigiar e disciplinar os trabalhadores, e fraco para proteger direitos sociais diante do mercado. A defesa da autoridade não significa limitar o capital. Significa ampliar a capacidade de impor a ordem capitalista quando o consenso se rompe.

Alysson Mascaro, ao analisar o Estado capitalista, mostra que ele não é simplesmente um instrumento ocasional de um grupo de indivíduos ricos. Sua própria forma jurídica e institucional organiza a separação entre economia e política, apresentando como universais relações sociais marcadas pela desigualdade. O fascismo radicaliza essa forma quando reduz os espaços de mediação, deslegitima direitos e faz da exceção uma técnica permanente de governo. A legalidade continua existindo, mas pode ser mobilizada seletivamente contra os inimigos definidos pelo poder.

Isso esclarece a diferença entre autoritarismo genérico e fascismo. Um governo autoritário pode suspender liberdades para preservar uma ordem. O fascismo, além disso, mobiliza setores da sociedade para participar ativamente da perseguição, da denúncia e da violência. Ele não quer apenas cidadãos obedientes; quer militantes da obediência. A família, a igreja, a escola, o quartel e as redes sociais são chamados a reproduzir o comando em todos os espaços.

No bolsonarismo, a defesa da polícia, das armas e da intervenção militar foi articulada a uma pedagogia social da ameaça. A violência aparece como linguagem legítima para restaurar uma ordem imaginada. Ao mesmo tempo, a destruição de políticas públicas é vendida como combate à corrupção, ao desperdício ou à dependência. O Estado deve ser punitivo com o pobre, permissivo com o proprietário e reverente diante das forças econômicas que se apresentam como modernização.

O espetáculo da nação contra a vida real

Guy Debord definiu o espetáculo não como simples conjunto de imagens, mas como uma relação social mediada por imagens. Essa formulação permite entender por que o fascismo precisa de bandeiras, vídeos, cerimônias, inimigos e cenas de virilidade. O espetáculo transforma uma relação social em identificação emocional. Em vez de discutir quem controla a riqueza, a sociedade passa a discutir quem ama mais a pátria, quem é fiel ao líder e quem merece ser expulso da comunidade.

A nação, nesse teatro, funciona como sujeito aparente. Ela parece falar por todos, mas sua voz é produzida a partir de interesses particulares. O empresário que exige menos direitos fala em nome do país. O banqueiro que se beneficia da austeridade fala em nome da responsabilidade. O proprietário que teme a organização popular fala em nome da liberdade. O trabalhador é convidado a defender uma abstração nacional contra seus próprios interesses materiais.

A dimensão espetacular não é um adorno do fascismo. Ela é necessária porque o fascismo precisa encobrir sua contradição central: promete soberania popular enquanto concentra poder; exalta o trabalhador enquanto enfraquece sua proteção; denuncia elites políticas enquanto preserva hierarquias econômicas. A imagem do líder incorruptível, do cidadão armado ou do empreendedor vitorioso ocupa o lugar da análise sobre salário, jornada, propriedade e exploração.

Por isso, combater o fascismo exige mais do que corrigir informações falsas ou denunciar a falta de civilidade de seus seguidores. A disputa precisa alcançar as condições que tornam sua promessa atraente. Um trabalhador submetido a dívidas, desemprego, abandono estatal e competição permanente não será libertado apenas por uma aula sobre tolerância. Sem organização coletiva e sem direitos materiais, a defesa abstrata da democracia pode parecer distante diante da promessa concreta de proteção, reconhecimento e vingança.

A falsa rebeldia fascista

O fascismo também se apresenta como rebeldia contra o sistema. Essa aparência é um de seus recursos mais eficazes. O líder pode falar contra a política profissional, contra a imprensa, contra universidades e contra organismos internacionais enquanto mantém intocadas as relações econômicas que produzem a precariedade. A revolta é direcionada para cima no discurso e para baixo na prática.

Essa rebeldia não deve ser confundida com crítica anticapitalista. A crítica anticapitalista procura revelar a propriedade, a exploração e a concentração de poder. O fascismo faz o contrário: personaliza problemas estruturais e oferece bodes expiatórios. O desemprego vira culpa de imigrantes; a crise da escola vira culpa de professores; a violência vira culpa de direitos humanos; a insatisfação social vira culpa de minorias ou de supostos inimigos internos. O capital desaparece do diagnóstico.

Daí a convivência entre discurso antissistema e defesa radical do mercado. O fascista pode atacar bancos específicos, empresários considerados inimigos ou políticos corruptos, mas não questiona a dominação da propriedade privada sobre a vida social. Sua crítica é moral e conspiratória, não estrutural. Ela exige a substituição de alguns ocupantes do poder sem transformar as relações que permitem a exploração.

No Brasil, a palavra “povo” foi muitas vezes mobilizada pelo bolsonarismo para designar uma comunidade imaginária de cidadãos de bem. Essa comunidade não inclui quem protesta, quem recebe políticas sociais sem submissão, quem defende direitos reprodutivos, quem denuncia racismo ou quem reivindica terra e moradia. O povo fascista é seletivo: inclui os obedientes e exclui aqueles cuja existência questiona a hierarquia naturalizada.

O fascismo não é inevitável, mas sua base material é real

Reconhecer a base material do fascismo não significa tratá-lo como destino inevitável. Significa recusar a explicação confortável segundo a qual tudo seria efeito da ignorância, da maldade individual ou da manipulação de eleitores ingênuos. O fascismo cresce quando a vida social é organizada por crises recorrentes, insegurança e isolamento, enquanto as instituições democráticas não conseguem oferecer proteção nem participação efetiva.

A resposta de esquerda não pode ser apenas pedir moderação aos trabalhadores. É preciso reconstruir a capacidade coletiva de agir: sindicatos, movimentos de entregadores, associações de bairro, organização estudantil, defesa dos serviços públicos e formas cooperativas de controle da produção. A democracia só se torna material quando alcança o local de trabalho, a distribuição da renda, o tempo de descanso e o poder sobre os dados que organizam a vida.

O fascismo defende a ordem porque teme essa possibilidade. Defende o líder porque teme a organização autônoma. Defende a propriedade porque teme que a riqueza seja submetida à decisão coletiva. Defende a disciplina porque teme trabalhadores capazes de interromper o funcionamento normal da exploração. Sua promessa de liberdade é a liberdade do proprietário para comandar e a liberdade do trabalhador para escolher entre obedecer e passar necessidade.

A tarefa crítica consiste em desmontar essa promessa sem abandonar a disputa pelo desejo de segurança, reconhecimento e pertencimento. Segurança não pode significar polícia acima da lei, mas direito ao trabalho protegido, à moradia, à saúde e ao descanso. Reconhecimento não pode depender da humilhação de um grupo mais vulnerável. Pertencimento não pode ser fabricado pela exclusão de quem diverge. Quando essas necessidades são apropriadas pela extrema direita, o problema não se resolve com condenações morais; resolve-se retirando-as do monopólio fascista por meio de organização e igualdade.

O fascismo não chega oferecendo apenas violência. Ele oferece uma interpretação da violência cotidiana: diz ao trabalhador que sua insegurança tem um culpado visível, que sua humilhação pode ser convertida em autoridade e que sua impotência pode ser compensada pela submissão a um chefe. A esquerda precisa responder mostrando que a fonte da impotência não está no vizinho pobre, no professor, no imigrante ou na minoria, mas em relações sociais que concentram decisão e riqueza.

Quando um entregador interrompe a plataforma, quando trabalhadores recusam a competição que os separa, quando uma escola se organiza contra o abandono e quando a periferia transforma sofrimento em reivindicação coletiva, a lógica fascista é contrariada em sua raiz. O trabalhador deixa de ser consumidor de ressentimento e passa a ser sujeito político. É essa passagem que o fascismo tenta impedir: a passagem da revolta isolada à consciência comum, da obediência à organização, da hierarquia naturalizada à luta por emancipação.