A polarização política brasileira não é apenas uma briga entre opiniões diferentes, nem um efeito inevitável das redes sociais. Ela é a forma política que assumem conflitos materiais profundos: desemprego, endividamento, precarização, racismo, abandono estatal e disputa pelo controle do Estado. As plataformas digitais aceleram e monetizam esse conflito, mas não o inventam. Quando um entregador de aplicativo, um professor exausto ou uma trabalhadora de call center aderem a discursos radicalizados, não estão simplesmente sendo enganados por uma tela: estão reagindo, de maneira frequentemente contraditória e manipulada, a uma vida organizada pela insegurança. A polarização política se torna funcional ao capitalismo quando transforma sofrimento social em guerra moral entre indivíduos e impede que a exploração seja reconhecida como problema coletivo.
A polarização política tem uma base material
O discurso dominante trata a polarização como falha de civilidade. Jornalistas, comentaristas e especialistas de ocasião lamentam o excesso de emoção, recomendam moderação e apresentam os polos como se fossem equivalentes. Essa leitura esvazia a realidade. Não existe equilíbrio abstrato entre quem defende direitos sociais e quem deseja destruir sindicatos, entre quem denuncia a violência de Estado e quem celebra a eliminação física do adversário, entre quem reivindica democracia e quem tenta submetê-la à tutela militar. A crítica à falsa equivalência não significa negar que diferentes grupos possam cometer erros ou reproduzir autoritarismo. Significa reconhecer que a polarização brasileira tem uma assimetria concreta: de um lado, a disputa por proteção social e direitos; de outro, a defesa de privilégios, da ordem proprietária e da repressão contra os grupos que ameaçam essa ordem.
O trabalhador que perde renda, vê o aluguel consumir quase todo o salário e recebe uma cobrança automática do banco não vive uma crise meramente psicológica. A insegurança é produzida por relações sociais específicas. A empresa reduz custos, terceiriza funções, substitui contratos por prestação de serviço e transfere o risco ao indivíduo. O Estado, em vez de garantir direitos, frequentemente administra a escassez e oferece políticas públicas descontínuas. A ideologia da culpa individual aparece então como explicação pronta: quem não prosperou não se esforçou, quem está endividado foi irresponsável, quem depende de auxílio é parasita. A polarização se alimenta dessa frustração, mas a desloca para alvos mais fáceis: pobres, migrantes, mulheres, pessoas negras, servidores públicos, professores ou militantes de esquerda.
Do conflito social à guerra moral
A passagem da exploração econômica para a guerra moral é uma operação ideológica. Em vez de perguntar quem se apropria da riqueza produzida, o debate público passa a discutir quem representa a família, a nação, Deus ou os “cidadãos de bem”. A desigualdade é convertida em diferença de caráter. O empresário que demite para elevar a margem de lucro aparece como empreendedor corajoso; o trabalhador que reivindica melhores condições aparece como ameaça à economia. O jovem periférico abordado pela polícia é tratado como suspeito antes de qualquer investigação; o proprietário armado é apresentado como defensor da liberdade. Nessa inversão, o conflito de classes não desaparece: ele é mascarado por uma linguagem moral que protege a classe dominante.
Marx descreveu a ideologia não como uma simples mentira inventada por indivíduos mal-intencionados, mas como uma forma social que faz relações históricas parecerem naturais. A polarização opera nesse terreno. O mercado aparece como destino, a propriedade privada como extensão da liberdade, a hierarquia empresarial como consequência do mérito e a desigualdade como resultado de escolhas pessoais. Quando essas aparências são ameaçadas, a reação costuma assumir tom de guerra cultural. A defesa de direitos trabalhistas passa a ser chamada de “privilégio”, enquanto a preservação de privilégios econômicos se apresenta como defesa da liberdade individual.
Plataformas não criam o ódio, mas organizam sua circulação
As redes sociais não são praças públicas neutras. São empresas que extraem dados, monitoram comportamentos e organizam a visibilidade das mensagens segundo critérios comerciais. O algoritmo de plataforma não precisa ter uma opinião política própria para favorecer a polarização. Basta que premie conteúdos capazes de gerar retenção, reação, compartilhamento e retorno frequente à tela. A indignação cumpre essa função com eficiência. Uma explicação cuidadosa sobre orçamento público disputa atenção em desvantagem com um vídeo que acusa professores de doutrinação ou afirma que uma conspiração ameaça a família.
Esse mecanismo não transforma automaticamente cada usuário em extremista. O que ele faz é construir um ambiente em que a comunicação mais agressiva possui vantagem competitiva. A mensagem política deixa de ser apenas argumento e passa a ser unidade de circulação. O corte de vídeo, a frase indignada, a montagem humilhante e o inimigo da semana são formatos adaptados à economia da atenção. A plataforma mede o comportamento do usuário, testa conteúdos e ajusta a entrega. A polarização, desse modo, é simultaneamente fenômeno ideológico e modelo de negócio.
A tecnologia também fragmenta a experiência comum. Pessoas que vivem no mesmo bairro, enfrentam o mesmo transporte precário e dependem dos mesmos serviços públicos podem receber explicações completamente diferentes para problemas idênticos. Uma vê a precarização como efeito de políticas econômicas; outra recebe diariamente a narrativa de que tudo se deve à corrupção, ao comunismo ou a um grupo racial. A infraestrutura digital não elimina a realidade compartilhada, mas dificulta que ela seja reconhecida como compartilhada.
Le Bon, Debord e a multidão conectada
Gustave Le Bon analisou a psicologia das multidões destacando como o indivíduo, inserido em uma massa, pode abandonar a deliberação reflexiva e responder a imagens, repetições e símbolos. Sua teoria não deve ser usada para chamar o povo de irracional por natureza. Seu valor está em mostrar que a ação coletiva pode ser conduzida por afetos e identificações, especialmente quando a experiência social é condensada em palavras de ordem. No ambiente digital, essa dinâmica é industrializada: a multidão não precisa ocupar uma praça para existir, pois pode ser formada, segmentada e reativada por notificações, grupos de mensagem e campanhas coordenadas.
Debord ajuda a compreender outra dimensão. Na sociedade do espetáculo, a relação entre as pessoas é mediada por imagens. A política passa a ser consumida como cena: o candidato que performa virilidade, o influenciador que humilha o adversário, a multidão que repete um slogan, a live que transforma governo em espetáculo permanente. A imagem não apenas representa o poder; ela organiza a percepção do poder. O cidadão é convocado a torcer, compartilhar e atacar, mas raramente a decidir sobre as condições concretas de sua existência.
O bolsonarismo explorou essa forma espetacular da política com extraordinária eficiência. Sua força não esteve apenas em propostas econômicas ou institucionais, muitas vezes contraditórias. Esteve na produção contínua de uma identidade ameaçada: o cidadão de bem contra o comunista, o homem armado contra o “sistema”, a família tradicional contra uma suposta destruição moral. Essa identidade transforma derrota em perseguição e crítica em prova de que a conspiração existe. A falsidade não precisa convencer todos; precisa manter uma comunidade mobilizada contra um inimigo permanente.
O bolsonarismo e a administração da insegurança
O bolsonarismo não pode ser reduzido a uma aberração externa à sociedade brasileira. Ele combina ressentimentos reais com respostas autoritárias. Cresce onde a vida social é marcada por medo, insegurança e perda de perspectivas, mas oferece uma saída regressiva: mais polícia, mais armas, mais punição, menos direitos e um líder apresentado como encarnação da vontade popular. Ao mesmo tempo, preserva os interesses econômicos que produzem a insegurança. A promessa de proteção não alcança o salário, a jornada, o aluguel ou o acesso à saúde; alcança sobretudo a definição de inimigos.
Essa operação foi visível na mobilização que culminou nos ataques de 8 de janeiro. A frustração eleitoral foi convertida em narrativa de fraude, a derrota em prova de roubo e a violência em suposta defesa da democracia. O movimento não surgiu de uma desinformação isolada, mas de uma cadeia de instituições, influenciadores, agentes econômicos e autoridades que normalizaram a suspeita contra o processo eleitoral e a intervenção militar. A polarização foi levada ao ponto em que o adversário deixou de ser um concorrente e passou a ser tratado como corpo estranho a ser eliminado.
Isso não significa que toda crítica ao governo, ao Supremo Tribunal Federal ou ao sistema eleitoral seja bolsonarista. A crítica democrática é legítima e necessária. O problema está em substituir a disputa pública por uma teoria conspiratória que transforma qualquer resultado desfavorável em fraude e qualquer limite institucional em tirania. A democracia liberal já convive com desigualdades profundas, mas o fascismo procura eliminar até a possibilidade de conflito regulado, apresentando a violência contra o inimigo como restauração da ordem.
Trabalho precarizado e subjetividade polarizada
A polarização também entra no local de trabalho. O entregador submetido ao algoritmo de trabalho recebe uma pontuação, uma rota, uma tarifa e uma ameaça silenciosa de bloqueio. Não conhece plenamente os critérios que determinam sua remuneração, mas é responsabilizado por cada atraso. O aplicativo apresenta a relação de exploração como autonomia: ele seria seu próprio chefe, embora não controle o preço, a demanda, a distribuição dos pedidos nem as regras de acesso à plataforma. Quando esse trabalhador expressa revolta, a empresa oferece um discurso de empreendedorismo; quando procura um sindicato, é acusado de querer destruir oportunidades.
Em call centers, a gestão acompanha tempo de atendimento, pausas, metas e avaliações. A voz precisa demonstrar cordialidade enquanto o corpo absorve a pressão. No trabalho docente, plataformas e sistemas de avaliação prometem eficiência, mas muitas vezes transformam o ensino em cumprimento de indicadores. A produtividade aparece como medida universal, mesmo quando o objeto do trabalho é cuidar, ensinar, escutar ou resolver problemas complexos. O trabalhador é induzido a competir com colegas por reconhecimento escasso e a interpretar o próprio esgotamento como insuficiência pessoal.
Essa forma de gestão produz uma subjetividade adequada à polarização. O indivíduo isolado, responsabilizado por seu fracasso e submetido à avaliação constante busca reconhecimento em comunidades de identidade. Se não encontra organização coletiva para compreender sua condição, pode encontrar um grupo digital que oferece pertencimento imediato. O ressentimento dirigido contra o colega, o servidor público ou o beneficiário de uma política social substitui a solidariedade de classe. A empresa permanece invisível enquanto trabalhadores precarizados discutem entre si quem merece ou não merece proteção.
Estado, direito e os limites da neutralidade
A polarização não ocorre fora do Estado. O Estado organiza a concorrência, reconhece contratos, protege a propriedade e define os limites da exploração. Como demonstra Alysson Mascaro em sua crítica marxista do direito, a forma jurídica apresenta indivíduos como sujeitos livres e iguais, embora estejam colocados em posições econômicas radicalmente desiguais. O entregador e a plataforma podem aparecer formalmente como parceiros contratantes, mas essa igualdade jurídica não explica quem controla a infraestrutura, fixa os preços e pode bloquear o acesso à renda.
O mesmo vale para o discurso institucional de neutralidade. Ao tratar extrema direita e esquerda organizada como dois excessos simétricos, o Estado e a mídia podem esconder a estrutura que permite a reprodução de ambos os conflitos. A repressão costuma ser mais rápida contra a greve, a ocupação e a manifestação popular do que contra a violência política de grupos proprietários. A neutralidade abstrata, nesse caso, não elimina a desigualdade: ela a administra com a aparência de imparcialidade.
Isso não autoriza uma rejeição simplista das instituições. Direitos constitucionais, eleições, liberdade de organização e garantias judiciais são conquistas que precisam ser defendidas contra o fascismo e também ampliadas contra seus limites sociais. A questão é compreender que nenhuma instituição é autossuficiente. A democracia política perde substância quando a maioria não controla as condições econômicas que determinam sua vida. O voto pode trocar governos, mas não dissolve automaticamente a exploração que sustenta o poder econômico.
Por que a falsa equivalência fortalece a direita
A imprensa costuma apresentar a polarização como uma doença produzida igualmente por todos os lados. Essa fórmula parece equilibrada, mas produz um efeito político definido. Ao colocar movimentos que reivindicam direitos no mesmo plano de grupos que defendem golpes, racismo ou eliminação de adversários, a falsa equivalência desarma a crítica à extrema direita. O problema deixa de ser a defesa de projetos autoritários e passa a ser o excesso de paixão no debate.
A direita radical compreende essa operação. Pode provocar, mentir e ameaçar, sabendo que depois será descrita apenas como “um dos polos”. O debate se desloca do conteúdo para o tom. A greve vira radicalismo; o ataque às instituições vira opinião controversa. A exigência de moderação recai sobre quem denuncia a violência, não necessariamente sobre quem a pratica. Esse padrão não é acidente linguístico: corresponde a uma estrutura de poder em que a ordem existente é considerada normal e qualquer tentativa de transformá-la aparece como extremismo.
Superar a polarização sem apagar o conflito
A resposta progressista não pode ser a nostalgia de um consenso que nunca existiu. O consenso social brasileiro sempre foi atravessado por escravidão, racismo, exploração, patriarcado e concentração de riqueza. O que se chama de harmonia muitas vezes foi apenas o silêncio imposto aos explorados. Superar a polarização destrutiva não significa reconciliar trabalhadores e grupos que desejam retirar seus direitos em nome de uma unidade nacional abstrata. Significa deslocar o conflito para seu terreno real: a disputa pela riqueza, pelo tempo, pela moradia, pela informação e pelo controle democrático das instituições.
Isso exige reconstruir formas coletivas de interpretação e ação. Sindicatos, associações de bairro, movimentos de moradia, organizações negras, coletivos de trabalhadores de plataforma e espaços públicos de formação podem interromper o isolamento produzido pelo mercado. Não se trata de substituir uma bolha digital por outra, mas de criar vínculos em que a experiência seja discutida para além do algoritmo. O entregador não precisa apenas de uma mensagem que confirme sua raiva; precisa reconhecer que sua situação individual é parte de uma relação de classe e que a organização pode alterar essa relação.
Também é necessário disputar a tecnologia. Transparência algorítmica, proteção de dados, regulação das plataformas e direitos trabalhistas são insuficientes quando tratados como ajustes técnicos isolados, mas constituem campos concretos de luta. A plataforma não pode ser vista como simples ferramenta neutra, porque sua arquitetura incorpora decisões sobre propriedade, vigilância e distribuição de renda. Democratizar a comunicação implica enfrentar a concentração da mídia, responsabilizar empresas por práticas de manipulação e garantir infraestrutura pública que não esteja subordinada exclusivamente ao lucro.
A polarização política não será dissolvida por apelos à gentileza nem por campanhas que recomendam ouvir o outro lado sem perguntar quem paga o preço da desigualdade. Ela só pode ser transformada quando o sofrimento deixa de ser administrado como ressentimento individual e passa a ser elaborado como conflito coletivo. A extrema direita oferece pertencimento por meio do ódio; a esquerda precisa oferecer organização, direitos e uma explicação material do mundo. Não para eliminar o conflito, mas para impedir que a energia social produzida pela exploração seja capturada por aqueles que lucram com a divisão dos explorados.
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