Sociedade polarizada é aquela em que conflitos políticos, sociais e culturais passam a ser organizados como uma disputa entre dois campos apresentados como incompatíveis e moralmente irreconciliáveis. O conceito não significa simplesmente que as pessoas discordam, nem que uma população possui opiniões diferentes sobre eleições, costumes ou políticas públicas. A polarização se torna social quando a divergência é convertida em identidade, suspeita e hostilidade permanente: o adversário deixa de ser alguém com outra posição e passa a ser tratado como ameaça à existência do próprio grupo. No Brasil, essa forma de conflito ganhou força ao transformar desigualdade, crise econômica, medo e ressentimento em uma guerra moral cuja expressão mais agressiva foi o bolsonarismo.
Essa resposta, porém, ainda é insuficiente se ficar no nível da psicologia individual. Uma sociedade não se polariza apenas porque seus cidadãos se tornaram mais intolerantes ou porque as redes sociais espalham mensagens falsas. A polarização é produzida por relações materiais, instituições, meios de comunicação e tecnologias que disputam a direção do descontentamento. Ela oferece uma explicação simples para uma realidade difícil: em vez de perguntar quem controla a riqueza, por que o trabalho se tornou instável ou como o Estado distribui proteção e abandono, a multidão é convocada a escolher um inimigo. O conflito real continua existindo, mas muda de nome e de endereço.
O significado de uma sociedade dividida em campos inimigos
Em uma democracia, divergência e conflito são inevitáveis. Trabalhadores, empresários, movimentos sociais, partidos e comunidades possuem interesses diferentes, e a política deveria tornar esses interesses visíveis e disputáveis. A polarização reacionária faz o movimento oposto: ela apaga a estrutura dos conflitos e reduz tudo a uma batalha entre pessoas de bem e inimigos internos. A disputa deixa de ser sobre salário, jornada, moradia, saúde ou poder econômico e passa a ser encenada como confronto entre valores absolutos.
Isso explica por que a expressão “sociedade polarizada” pode ser usada de maneira superficial. Dizer que a sociedade está dividida não esclarece quem se beneficia dessa divisão. Um entregador que trabalha muitas horas para alcançar uma renda incerta e um proprietário de plataforma não ocupam a mesma posição social apenas porque podem votar no mesmo candidato. Uma professora submetida a metas, avaliações e contratos precários não enfrenta o mesmo problema que o gestor responsável por cortar custos, ainda que ambos compartilhem uma preocupação com a educação. A polarização pode reunir pessoas desiguais no mesmo campo simbólico e esconder a relação material que as separa.
O ponto decisivo é que a polarização não elimina a luta de classes; ela a desloca para uma linguagem que torna sua existência menos perceptível. O trabalhador precarizado é levado a imaginar que seu principal inimigo é o servidor público, o imigrante, o militante de esquerda, a universidade, o artista ou uma suposta conspiração moral. Enquanto isso, a propriedade dos meios de produção, a concentração de plataformas e a apropriação privada dos ganhos de produtividade aparecem como assuntos técnicos, inevitáveis ou distantes da vida cotidiana.
Da desigualdade material à guerra cultural
O capitalismo produz insegurança e, ao mesmo tempo, oferece explicações ideológicas para ela. O desemprego, a inflação, o endividamento e a perda de direitos não aparecem espontaneamente como efeitos de relações econômicas. Eles são interpretados por discursos que podem apontar para a exploração ou desviá-la para culpados convenientes. A ideologia não precisa convencer todos de uma mentira completa; basta organizar a experiência de modo que a causa social do sofrimento pareça individual, cultural ou moral.
É nesse ponto que a meritocracia se conecta à polarização. Se cada indivíduo é responsabilizado pelo lugar que ocupa, o fracasso deixa de ser associado à estrutura do trabalho e passa a ser atribuído à preguiça, à incompetência ou à falta de disciplina. O trabalhador sem estabilidade é pressionado a acreditar que precisa administrar melhor sua própria vida, enquanto o capital permanece protegido por contratos, crédito, propriedade e influência estatal. Quando essa narrativa entra em crise, o ressentimento pode ser direcionado contra aqueles que recebem alguma política de proteção, e não contra a ordem que produz a insegurança geral.
O resultado é uma aliança instável entre grupos que sofrem com a mesma deterioração social, mas interpretam suas causas de maneiras opostas. O entregador que rejeita direitos trabalhistas porque teme perder a flexibilidade não está fora da exploração; está expressando uma consciência formada pela própria forma contemporânea de exploração. A plataforma apresenta a ausência de vínculo como liberdade, transfere custos ao trabalhador e transforma a sobrevivência em empreendimento pessoal. A polarização ajuda a preservar essa situação quando transforma a reivindicação coletiva por direitos em ameaça à autonomia individual.
O mesmo mecanismo aparece no call center. A atendente submetida a roteiro, monitoramento, avaliação contínua e cobrança por produtividade pode ser estimulada a enxergar a colega como concorrente, alguém que precisa superar para manter o posto ou alcançar uma pequena bonificação. O conflito horizontal ocupa o espaço que poderia ser ocupado pela pergunta sobre quem define as metas, quem controla os dados e quem se apropria do resultado do trabalho. A empresa aparece como árbitra neutra, embora organize a competição que fragmenta as trabalhadoras.
Multidão, espetáculo e fabricação do inimigo
Gustave Le Bon observou, em sua análise da psicologia das multidões, que a reunião de indivíduos pode produzir comportamentos e certezas que não existiriam da mesma forma isoladamente. Sua obra não oferece uma teoria crítica suficiente do capitalismo e possui limites políticos evidentes, mas ajuda a compreender um fenômeno: na multidão, a repetição de imagens, palavras de ordem e sinais de pertencimento pode valer mais do que a verificação dos fatos. A emoção compartilhada reduz a complexidade e reforça a sensação de que o grupo possui uma verdade imediata.
Guy Debord levou essa questão para o centro da sociedade capitalista ao definir o espetáculo não como simples conjunto de imagens, mas como uma relação social mediada por imagens. O espetáculo não apenas distrai a população da realidade; ele organiza a realidade percebida. A vida política se torna uma sucessão de cenas, inimigos, escândalos e gestos de autenticidade. A política é consumida como narrativa, e a capacidade de intervenção coletiva é substituída pela identificação com personagens.
O bolsonarismo compreendeu essa dinâmica ao produzir uma comunidade política baseada na repetição de ameaças. Comunismo imaginário, fraude eleitoral, destruição da família, censura, perseguição religiosa e corrupção total foram combinados em uma narrativa de cerco. O fato de essas ameaças serem contraditórias entre si não as tornava menos funcionais. Seu objetivo não era oferecer uma explicação consistente para cada problema, mas manter o grupo em estado de alerta e obediência. A dúvida era apresentada como traição; a crítica, como cumplicidade com o inimigo.
O espetáculo bolsonarista não nasceu apenas das redes. Ele se apoiou em meios de comunicação tradicionais, grupos religiosos, empresários, agentes do Estado e redes organizadas de circulação de mensagens. A tecnologia ampliou a velocidade e a segmentação, mas a fabricação política do medo depende também de interesses concretos. Não se deve atribuir ao algoritmo uma autonomia mágica, como se ele tivesse inventado sozinho a ideologia. Plataformas são empresas que lucram com atenção, dados e permanência; seus sistemas favorecem aquilo que aumenta circulação e reação, dentro de uma estrutura comercial.
O algoritmo transforma conflito em comportamento
As plataformas digitais não apenas distribuem opiniões já formadas. Elas classificam usuários, testam conteúdos, medem reações e reorganizam a visibilidade de acordo com objetivos econômicos. A pessoa recebe uma sequência personalizada de estímulos que parece espontânea, mas é resultado de uma operação técnica sobre seus dados. O conteúdo que provoca indignação, medo ou sensação de pertencimento tende a ocupar mais espaço porque produz interação. A polarização, nesse ambiente, torna-se uma forma rentável de administrar atenção.
Isso não quer dizer que todo usuário seja manipulado da mesma maneira ou que as pessoas não tenham responsabilidade por suas escolhas. Quer dizer que a escolha ocorre dentro de uma infraestrutura que hierarquiza o que aparece, o que desaparece e o que retorna repetidamente. A experiência subjetiva de liberdade é compatível com uma arquitetura que conduz comportamentos. Martin Heidegger, ao pensar a técnica moderna, mostrou que a técnica não é apenas um conjunto neutro de ferramentas disponíveis para fins humanos. Ela enquadra o mundo como reserva calculável. Nas plataformas, opiniões, relações e afetos também se tornam recursos mensuráveis, classificados e exploráveis.
O trabalhador de aplicativo experimenta esse enquadramento de forma direta. O algoritmo distribui chamadas, calcula trajetos, registra recusas, mede tempo e organiza avaliações. O entregador não encontra um chefe visível em cada esquina, mas continua submetido a uma forma de comando. A gestão algorítmica apresenta decisões empresariais como resultados automáticos, como se não houvesse interesses por trás do preço da corrida, da punição ou da prioridade concedida a determinado usuário. A mesma sociedade que governa o trabalho por métricas governa o debate público por métricas de alcance e engajamento.
Há uma continuidade entre a avaliação do trabalhador e a avaliação da opinião. Em ambos os casos, uma atividade complexa é reduzida a indicadores que parecem objetivos. A plataforma diz medir desempenho; a rede diz medir relevância. O entregador se torna uma pontuação e o cidadão se torna um perfil de consumo político. A vida social é fragmentada em sinais processáveis, e a administração desses sinais fica concentrada em empresas que não são controladas democraticamente. A polarização é, assim, também uma forma de gestão: ela separa, classifica e direciona populações.
A polarização brasileira tem história e classe
Seria um erro tratar a polarização brasileira como importação de uma guerra cultural estrangeira ou como simples resultado de temperamentos nacionais. Ela se desenvolveu sobre uma história de desigualdade extrema, racismo, concentração fundiária, violência policial e acesso desigual aos direitos. A democracia brasileira nunca deixou de conviver com formas de exclusão política e econômica. O discurso polarizador encontrou terreno em uma sociedade na qual uma parte da população é protegida pelo Estado e outra conhece o Estado sobretudo por sua ausência, sua coerção ou sua burocracia.
A categoria de abandono estatal ajuda a entender essa experiência. Para moradores das periferias, o Estado pode aparecer simultaneamente como falta de escola, saúde, transporte e saneamento, e como presença policial permanente. Quando a política institucional não entrega proteção social, abre-se espaço para explicações que prometem ordem imediata. A extrema direita se apresenta como força contra o caos, mas raramente questiona as condições econômicas que produzem o abandono. Ela promete autoridade onde seria necessário garantir direitos.
Em momentos de crise, a insegurança material é convertida em ressentimento cultural. A pessoa que não consegue atendimento médico, que perdeu o emprego ou que vê seu bairro sem infraestrutura pode ser conduzida a acreditar que o problema é a existência de direitos para outros grupos. O racismo, o machismo e a LGBTfobia funcionam como linguagens de distribuição imaginária do privilégio: oferecem ao sujeito precarizado a sensação de que ainda possui superioridade sobre alguém. Essa compensação simbólica não melhora sua vida, mas pode torná-lo defensor da ordem que o explora.
A análise de Alysson Mascaro sobre o Estado permite avançar além da ideia de que as instituições são árbitras neutras entre indivíduos. No capitalismo, o Estado garante condições gerais para a reprodução das relações de mercado, ainda que também seja pressionado por lutas sociais e possa estabelecer direitos. A polarização frequentemente esconde esse caráter ao representar o Estado como entidade capturada apenas por um grupo moralmente perverso. O problema deixa de ser a forma social que organiza propriedade e trabalho e passa a ser a identidade de quem ocupa temporariamente o governo.
Essa personalização foi central no bolsonarismo. O conflito foi concentrado na figura de Jair Bolsonaro e em seus adversários, como se a substituição de pessoas pudesse resolver uma estrutura feita de interesses econômicos, militares, religiosos e empresariais. O ex-presidente foi apresentado por seus apoiadores como homem comum contra o sistema, embora sua trajetória política e seu governo tenham operado dentro de relações estatais e capitalistas bem concretas. A imagem do outsider serviu para canalizar revolta sem transformar suas bases sociais.
Nem toda polarização é igual
Recusar a falsa neutralidade não significa negar que existam diferentes formas de polarização. Há uma polarização entre projetos que disputam direitos, distribuição de renda e participação popular, e há uma polarização que fabrica inimigos para bloquear qualquer transformação social. Colocar essas formas no mesmo plano, em nome de uma suposta moderação, protege o campo reacionário. Quem defende a ampliação de direitos não ocupa a mesma posição histórica de quem mobiliza racismo, mentira e violência para preservar hierarquias.
Conflitos sociais intensos podem ser democraticamente produtivos quando tornam visíveis interesses que a ordem dominante tenta ocultar. Uma greve que opõe trabalhadores e patrões não é equivalente a uma campanha que atribui a crise econômica a uma minoria. O primeiro conflito explicita uma relação de exploração e pode produzir organização coletiva; o segundo desloca o sofrimento para um alvo mais vulnerável. A questão não é eliminar o conflito, mas compreender sua direção, seus sujeitos e seus efeitos materiais.
Também é necessário separar polarização política de radicalização popular. Quando trabalhadores, mulheres negras, comunidades periféricas ou povos indígenas reivindicam direitos, a imprensa e as elites frequentemente descrevem o conflito como extremismo. A ordem social prefere uma população fragmentada, silenciosa e administrável. Chamar toda contestação de polarização serve para transformar a defesa de interesses populares em problema de convivência, enquanto a violência estrutural permanece normalizada.
Como romper a máquina polarizadora
Não existe saída individual para uma polarização produzida por relações sociais. A recomendação de consumir menos redes, conversar com quem pensa diferente ou verificar informações pode ter utilidade limitada, mas não enfrenta a infraestrutura econômica do problema. A crítica da desinformação precisa alcançar quem lucra com sua circulação, quem controla os dados, quem decide os critérios de visibilidade e quem possui recursos para produzir campanhas permanentes. Sem essa dimensão, a responsabilidade recai outra vez sobre o usuário isolado.
A ruptura começa pela reconstrução de vínculos coletivos capazes de relacionar experiências que o espetáculo separa. O entregador, a professora, a atendente de call center e o trabalhador do comércio podem ser apresentados como grupos com interesses incompatíveis, embora enfrentem a mesma pressão por produtividade, disponibilidade e redução de custos. A organização sindical, os movimentos por moradia, as associações comunitárias e as cooperativas não são apenas instrumentos de reivindicação; são espaços nos quais a experiência privada do sofrimento pode ser reconhecida como problema social.
Essa reconstrução exige disputar a tecnologia, não simplesmente rejeitá-la. Plataformas de trabalho devem ser submetidas a regras de transparência, direitos trabalhistas e controle público sobre decisões automatizadas. Redes sociais precisam enfrentar a concentração econômica, a exploração de dados pessoais e a opacidade de seus sistemas de recomendação. A técnica pode servir à cooperação, mas isso depende de quem a controla, para qual finalidade e sob quais relações de propriedade. Não há solução tecnológica para uma dominação que é social, mas há disputa política sobre a forma tecnológica dessa dominação.
A educação política também não pode se limitar a ensinar boas maneiras no debate. É preciso compreender como salário, jornada, propriedade, dívida, racismo, gênero e Estado atravessam a experiência cotidiana. A pessoa que identifica a origem social do próprio sofrimento fica menos disponível para explicações conspiratórias que apontam para inimigos convenientes. A crítica não elimina a emoção; ela disputa o sentido da emoção. A raiva pode ser dirigida contra os mais vulneráveis ou convertida em organização contra as estruturas que produzem a precariedade.
O significado de sociedade polarizada, afinal, não está na simples existência de dois lados. Está na forma como uma sociedade capitalista converte antagonismos materiais em identidades hostis, administra a atenção por meio de imagens e oferece inimigos no lugar de explicações. A polarização reacionária não é um desvio acidental da democracia: é uma maneira de preservar a ordem quando suas promessas já não convencem. Ela permite que a desigualdade permaneça enquanto todos são convocados a lutar pela definição moral do país.
Superar esse quadro não exige conciliação abstrata nem uma neutralidade que coloque opressores e oprimidos na mesma balança. Exige deslocar o centro do debate: da guerra de perfis para as relações de trabalho, do escândalo diário para a propriedade dos meios de comunicação, da culpa individual para a estrutura social, do inimigo imaginário para o poder efetivo. Quando a vida coletiva volta a ser compreendida a partir da exploração e da possibilidade de organização, a polarização deixa de parecer destino nacional e reaparece como aquilo que é: uma forma histórica de dominação que pode ser enfrentada.
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