O que fascismo faz quando encontra uma classe trabalhadora submetida ao abandono, à dívida e à insegurança? Ele não elimina a exploração que produz essa vulnerabilidade. Ao contrário, reorganiza o sofrimento em ressentimento, oferece inimigos visíveis no lugar das causas econômicas e transforma a obediência em promessa de liberdade. No Brasil, o bolsonarismo mostrou que a extrema direita pode converter a precarização do trabalho, a falência dos serviços públicos e a desinformação em uma forma de disciplina social. Seu discurso não representa uma revolta contra o sistema: ele protege as relações que fabricam a revolta e direciona sua violência contra quem está ainda mais desprotegido.

Essa distinção é decisiva porque o fascismo costuma ser apresentado como uma aberração externa à vida ordinária, um surto de irracionalidade que aparece quando multidões enlouquecem. A explicação é confortável para as instituições que pretendem se declarar inocentes. Ela transforma um processo histórico em defeito moral de indivíduos e permite que o capitalismo desapareça da análise. O fascismo, entretanto, não precisa suspender a exploração econômica. Ele pode governar mantendo a propriedade, a desigualdade e a apropriação privada da riqueza, enquanto mobiliza a população contra sindicatos, pobres, professores, jornalistas, imigrantes, movimentos sociais e qualquer forma de organização coletiva capaz de disputar o poder.

O que fascismo oferece ao trabalhador precarizado

O entregador de aplicativo é uma figura concreta dessa contradição. Ele trabalha longas jornadas, assume os custos da motocicleta, do combustível, da manutenção, do seguro e da própria doença, mas aparece na publicidade da plataforma como empreendedor independente. Seu rendimento depende de uma combinação opaca entre demanda, localização, avaliação e decisões algorítmicas. A empresa controla o ritmo e distribui as oportunidades sem reconhecer plenamente o vínculo de subordinação. A liberdade proclamada é, na prática, a obrigação de permanecer disponível para que a renda não desapareça.

Esse trabalhador não precisa de uma aula sobre exploração para sentir que algo está errado. Ele sabe que trabalha muito e que sua remuneração não acompanha o risco. O problema político surge quando a experiência da exploração não encontra uma linguagem coletiva capaz de identificar o capital como seu antagonista. A ideologia da plataforma já chega preparada: o entregador é responsabilizado pelo sucesso, pela queda de renda, pelo acidente e pelo futuro. Se fracassa, fracassou sozinho. A empresa se apresenta como tecnologia neutra e o Estado como intruso que impediria o empreendedor de prosperar.

É nesse terreno que o fascismo pode oferecer uma solução regressiva para uma angústia real. Em vez de organizar os trabalhadores contra o poder econômico que os subordina, promete restaurar uma ordem imaginária fundada em autoridade, punição e pertencimento nacional. O indivíduo precarizado deixa de ser convocado como sujeito de direitos e passa a ser convocado como soldado cultural. Seu sofrimento é reinterpretado como prova de que o país foi roubado por inimigos: a esquerda, as universidades, os sindicatos, os pobres que recebem políticas públicas, as mulheres que reivindicam autonomia ou qualquer grupo apresentado como ameaça à hierarquia tradicional.

Não se trata de afirmar que todo entregador, trabalhador informal ou eleitor de direita seja fascista. Essa generalização apenas repetiria a violência intelectual do próprio discurso fascista, que dissolve diferenças sociais em categorias de inimigos. Trata-se de compreender como uma condição material produz disponibilidade política para respostas autoritárias quando a organização coletiva foi enfraquecida e a vida social passou a ser interpretada como competição entre indivíduos isolados.

Do abandono estatal à autoridade como espetáculo

O abandono estatal não significa simplesmente ausência do Estado. O Estado continua presente quando garante contratos, protege a propriedade, organiza a circulação urbana e permite que plataformas operem transferindo riscos para quem trabalha. Ele se ausenta de direitos sociais e aparece com força na repressão, na cobrança, na vigilância e na defesa da acumulação. Essa combinação é fundamental para compreender a extrema direita brasileira. O trabalhador recebe pouco amparo para viver, mas encontra o Estado pronto para punir sua desordem, controlar seu território e proteger a ordem que o empobrece.

Alysson Mascaro, ao analisar o Estado capitalista, mostra que sua forma jurídica não é um árbitro acima das classes. A igualdade formal entre proprietários de mercadorias convive com a desigualdade material entre quem controla os meios de produção e quem precisa vender sua força de trabalho. O entregador pode aceitar ou recusar uma corrida, assim como o trabalhador assalariado pode, formalmente, aceitar ou recusar um emprego. Mas a necessidade econômica torna essa liberdade uma relação profundamente assimétrica. O discurso fascista se alimenta dessa contradição: promete autoridade contra a insegurança sem tocar nas estruturas que produzem a insegurança.

Durante a crise sanitária, trabalhadores de entrega foram tratados como essenciais enquanto permaneciam expostos, sem a proteção correspondente ao risco. A sociedade precisava que a comida, o remédio e outros produtos circulassem, mas o custo dessa circulação foi empurrado para os corpos dos entregadores. O reconhecimento simbólico de sua importância não se converteu automaticamente em poder de negociação. Quando esses trabalhadores organizaram mobilizações e reivindicaram melhores condições, a ação coletiva apareceu como problema para a normalidade econômica. A palavra empreendedor, nesse contexto, funcionou como uma forma de impedir que a condição de classe fosse reconhecida.

O bolsonarismo ocupou o espaço aberto por essa contradição com uma política de espetáculo. Em Guy Debord, o espetáculo não é apenas um conjunto de imagens falsas, mas uma relação social mediada por imagens. A autoridade política passou a ser consumida como cena: o líder que fala sem mediação, ofende adversários, performa masculinidade, exibe armas, ridiculariza especialistas e transforma a própria ignorância em autenticidade. O espetáculo substitui a política como elaboração comum por uma identificação afetiva com o chefe. O trabalhador deixa de se reconhecer em uma coletividade organizada e passa a se reconhecer no personagem que encena sua raiva.

Essa performance tem uma função material. Enquanto a atenção está concentrada no gesto do líder e na guerra cultural diária, desaparecem as decisões econômicas que definem a jornada, o salário, a aposentadoria, o preço dos serviços e a proteção social. A política é reduzida à fidelidade. Quem questiona o chefe não é um adversário com interesses divergentes, mas um traidor. A crítica é interpretada como agressão ao grupo. O espetáculo fascista cria uma comunidade imaginária precisamente quando as comunidades concretas do trabalho, do bairro e da política foram fragilizadas.

O fascismo e a fabricação do inimigo

Le Bon descreveu a multidão como um espaço em que a sugestão, o contágio emocional e a simplificação podem substituir a deliberação individual. É preciso usar essa referência com cuidado: a multidão não é naturalmente irracional, nem a ação coletiva deve ser confundida com manipulação. O ponto útil está em compreender que a massa política pode ser produzida por imagens, palavras de ordem e afetos compartilhados. No bolsonarismo, redes digitais, igrejas, grupos de mensagem e eventos presenciais formaram circuitos de repetição nos quais uma afirmação não precisava ser demonstrada para produzir efeito. Bastava funcionar como sinal de pertencimento.

A desinformação não é apenas mentira espalhada por pessoas mal informadas. Ela é uma técnica de reorganização da realidade. Uma acusação contra urnas, universidades ou políticas de proteção social não precisa persuadir todos os seus receptores; basta instalar suspeita permanente e tornar impossível qualquer confiança comum. Quando cada fonte é classificada previamente como inimiga, a prova perde importância. O líder fornece a interpretação, e a comunidade fornece a confirmação. A verdade deixa de ser uma relação com os fatos e passa a ser aquilo que preserva a lealdade do grupo.

O inimigo fascista é especialmente útil porque pode ser simultaneamente difuso e concreto. Difuso, porque serve para explicar tudo: a inflação, o desemprego, a violência, a perda de status, a frustração pessoal e a crise institucional. Concreto, porque pode ser apontado no corpo de alguém: uma pessoa negra em um bairro valorizado, uma mulher que ocupa um espaço de autoridade, um professor que contesta a moral dominante, um sem-terra, um militante, um imigrante ou um trabalhador que se organiza. A abstração econômica da exploração é substituída pela visibilidade social do inimigo.

Marx ajuda a nomear o que desaparece nessa operação. O trabalhador não se relaciona apenas com um patrão particular ou com uma plataforma específica; ele está inserido em relações sociais nas quais sua força de trabalho é comprada para produzir valor e ampliar a acumulação. A aparência cotidiana, porém, apresenta o salário como pagamento justo, o aplicativo como intermediário técnico e a pobreza como falha individual. O fascismo não destrói essa aparência. Ele a protege, acrescentando uma narrativa de guerra moral para impedir que a exploração seja reconhecida como relação de classe.

A técnica que administra a obediência

O algoritmo de trabalho é uma das formas contemporâneas dessa administração. Ele não precisa ordenar como um supervisor visível. Basta calcular pontuações, definir prioridades, oferecer bônus, bloquear contas, reorganizar rotas e modificar a remuneração. O trabalhador aprende a antecipar a avaliação da máquina. A vigilância é incorporada ao comportamento. Cada entrega deve ser rápida, cada recusa pode parecer perigosa, cada pausa precisa ser justificada diante da necessidade de manter a renda.

Heidegger pensou a técnica moderna como um modo de revelar o mundo em que tudo aparece como recurso disponível. No capitalismo de plataforma, essa lógica alcança o tempo e o corpo do trabalhador. A cidade vira mapa de demanda, a espera vira tempo improdutivo, a atenção vira dado, a reputação vira pontuação e a pessoa vira unidade operacional. O entregador é tratado como recurso móvel; o cliente, como fluxo de consumo; a rua, como infraestrutura de circulação. A técnica não é apenas uma ferramenta usada por uma relação social já pronta. Ela reorganiza a experiência para tornar a exploração mais difícil de perceber.

O fascismo pode se combinar com essa técnica porque ambos recusam a autonomia como prática coletiva. O aplicativo quer um trabalhador disponível, isolado e mensurável. A política fascista quer um cidadão mobilizado, obediente e emocionalmente dependente do comando. Um administra a conduta pela métrica; o outro administra a conduta pela lealdade. Um promete eficiência; o outro promete ordem. Quando se encontram, a subordinação econômica pode ser celebrada como disciplina, e a ausência de direitos pode ser apresentada como prova de virilidade e responsabilidade individual.

Essa combinação também explica por que a extrema direita pode se apropriar de uma linguagem antissistema sem ameaçar o sistema econômico. O trabalhador é estimulado a desconfiar de instituições, mas não do proprietário da plataforma. É incentivado a odiar burocratas, mas não a questionar a transferência de riscos para sua própria vida. É chamado a rejeitar o Estado quando reivindica direitos e a exigir sua força quando pede repressão. A crítica é permitida desde que não alcance a relação de exploração.

Não é o caos contra a ordem, mas uma ordem produzindo caos

O fascismo costuma se apresentar como resposta ao caos. Seu vocabulário promete segurança, família, autoridade e nação. No entanto, a ordem que oferece não supera a desorganização social: ela a distribui de modo desigual. A insegurança permanece para os trabalhadores, enquanto a segurança jurídica e patrimonial é preservada para os proprietários. A violência cotidiana não desaparece; muda de direção e ganha legitimidade política.

No Brasil, essa promessa encontra uma história de desigualdade racial, concentração de terra, autoritarismo institucional e cidadania limitada. A ordem nunca foi neutra. Para parcelas da população, o Estado sempre apareceu prioritariamente como polícia, tribunal, dívida e ameaça. A novidade do bolsonarismo não está em inventar a violência social, mas em transformá-la em identidade política de massas, articulando ressentimentos antigos com a crise contemporânea do trabalho e com os mecanismos digitais de circulação de informação.

O trabalhador precarizado é colocado diante de uma escolha falsa. De um lado, a exploração apresentada como liberdade empreendedora. De outro, o Estado social apresentado como privilégio de vagabundos ou como ameaça comunista. Nesse enquadramento, qualquer reivindicação coletiva parece uma tentativa de tirar do indivíduo aquilo que ele conquistou sozinho. A ideologia funciona porque se apoia em uma experiência verdadeira: muitas pessoas foram abandonadas e aprenderam a sobreviver sem contar com instituições. O erro está em converter a necessidade de autonomia em hostilidade contra direitos universais.

A resposta não pode ser apenas denunciar a irracionalidade dos fascistas ou corrigir factualmente cada mentira. A checagem é necessária, mas insuficiente quando a desinformação oferece pertencimento e a verdade institucional aparece associada a décadas de abandono. Também não basta pedir moderação discursiva a quem construiu uma máquina política baseada na agressão. O enfrentamento precisa disputar as condições materiais e simbólicas que tornam a extrema direita plausível.

A saída começa pela organização do trabalho

Se o fascismo converte isolamento em obediência, a resistência precisa converter experiências dispersas em organização. Isso significa reconhecer o entregador como trabalhador, não como empreendedor de si mesmo; garantir direitos independentemente do formato jurídico do contrato; criar mecanismos de negociação coletiva com as plataformas; limitar a opacidade dos algoritmos; responsabilizar empresas por acidentes e custos de operação; e reconstruir serviços públicos capazes de reduzir a dependência individual de mercados predatórios.

Essas medidas não são apenas reformas administrativas. Elas disputam a interpretação da vida social. Um trabalhador que pode interromper a jornada sem perder toda a renda, que participa de uma organização coletiva e que tem acesso a proteção social não está menos livre por depender de regras públicas. Está menos submetido à chantagem econômica. A liberdade concreta não é a possibilidade abstrata de escolher entre aceitar uma corrida miserável e ficar sem dinheiro. É o poder social de recusar a exploração sem ser lançado imediatamente à fome.

A luta antifascista, nesse sentido, não pode ser separada da luta de classes. Ela não se resume à defesa formal das instituições contra seus inimigos declarados, porque instituições que preservam abandono, desigualdade e violência também alimentam a revolta capturada pela extrema direita. Defender a democracia exige ampliar a capacidade material de participação, organização e recusa. Exige retirar o trabalho da condição de destino individual e recolocá-lo como relação social e política.

O fascismo não chega sempre anunciando a destruição do capitalismo. Muitas vezes chega prometendo proteger o trabalhador contra um mundo que o próprio capitalismo tornou inseguro. Seu segredo é oferecer punição no lugar de proteção, identidade no lugar de solidariedade e obediência no lugar de poder. O bolsonarismo foi eficaz porque soube transformar a precariedade em ressentimento e o ressentimento em espetáculo. A tarefa da esquerda é interromper essa conversão: mostrar quem lucra com o abandono, reconstruir vínculos coletivos e fazer da experiência concreta do trabalho uma base de organização, não um combustível para a guerra contra os próprios explorados.