Significa fascismo mais do que explicar uma ditadura, enumerar símbolos autoritários ou procurar um líder que grite contra a democracia. A questão decisiva é compreender como uma sociedade atravessada por exploração, medo e abandono transforma a própria frustração em força política contra os explorados. No Brasil, o bolsonarismo não inventou a precarização, a violência estatal ou o ressentimento antipopular. Ele lhes deu uma linguagem, um inimigo e uma promessa de restauração da autoridade. O fascismo aparece quando a crise produz mobilização de massas em defesa da ordem que produz a crise.
Essa definição desloca o debate dos gestos caricaturais para as relações sociais. O fascista não é simplesmente alguém mal-educado, violento ou conservador. Também não basta chamar de fascismo todo governo repressivo, toda mentira ou qualquer discurso de direita. O fascismo é uma forma específica de reação política: mobiliza setores socialmente desorganizados, especialmente camadas intermediárias empobrecidas e trabalhadores submetidos à insegurança, para atacar organizações populares, minorias e direitos sociais enquanto preserva as estruturas econômicas que geram a insegurança. Sua revolta é real, mas seu alvo é desviado.
O que significa fascismo na crise do trabalho
A crise do trabalho é o terreno material dessa operação. O entregador que passa doze horas na rua, subordinado a um aplicativo que pode reduzir sua remuneração ou bloquear sua conta sem negociação, não vive apenas uma dificuldade financeira individual. Ele vive uma relação de exploração que aparece como liberdade de escolha. O professor contratado temporariamente, pressionado por metas, relatórios e salas superlotadas, tampouco enfrenta um problema de falta de esforço. O operador de call center submetido a monitoramento contínuo, scripts e avaliações automáticas não é incapaz de administrar a própria vida: sua autonomia foi incorporada como fonte de produtividade.
Quando essas experiências não encontram organização coletiva capaz de nomear sua causa, elas podem ser convertidas em ressentimento. O trabalhador passa a enxergar o colega como concorrente, o imigrante como ameaça, o beneficiário de política social como privilegiado, o servidor público como parasita e o professor como doutrinador. A exploração desaparece do campo de visão. O patrão, a plataforma, o banco e o Estado que desmonta serviços públicos deixam de ser responsáveis pela vida degradada. A raiva permanece, mas é direcionada horizontalmente, contra quem está igualmente submetido à precariedade.
O fascismo oferece uma saída imaginária para essa impotência: em vez de poder coletivo sobre o trabalho e a riqueza, oferece disciplina; em vez de segurança social, oferece punição; em vez de igualdade, oferece a fantasia de superioridade nacional, racial, sexual ou moral. Ele diz ao sujeito precarizado que sua vida não foi destruída pela exploração, mas pela presença de um inimigo interno que precisa ser expulso. A desigualdade é preservada e, ao mesmo tempo, apresentada como recompensa natural aos obedientes.
Fascismo não é apenas autoritarismo de Estado
O Estado é central para o fascismo, mas não como uma máquina externa que simplesmente cai sobre uma sociedade passiva. O Estado organiza juridicamente as relações de classe, garante a propriedade, administra a força de trabalho e define quais vidas podem ser protegidas ou abandonadas. Em momentos de crise, a promessa fascista é fortalecer esse Estado contra os conflitos sociais, mas não contra o capital. Ela pretende esmagar a capacidade de organização dos trabalhadores e ampliar a autoridade repressiva, enquanto apresenta a subordinação econômica como ordem natural.
É por isso que o discurso fascista pode defender o Estado forte e, ao mesmo tempo, atacar políticas públicas, sindicatos, universidades e direitos trabalhistas. Não há contradição quando se distingue Estado social de Estado coercitivo. O primeiro é denunciado como desperdício, privilégio ou comunismo; o segundo é reivindicado para vigiar, prender, matar e impor disciplina. A austeridade desprotege, e o aparato policial administra as consequências dessa desproteção. A violência que resulta desse processo é depois usada para justificar ainda mais violência.
No Brasil, essa combinação possui raízes profundas. A escravidão, o racismo estrutural, a concentração fundiária, a militarização das periferias e a tradição de golpes formaram uma sociedade em que a autoridade frequentemente significa proteção para os proprietários e ameaça para os pobres. O bolsonarismo não precisou importar integralmente um modelo europeu dos anos 1930. Rearticulou elementos locais: o culto às armas, a nostalgia da ditadura, o anticomunismo imaginário, o moralismo religioso, o racismo, o ódio aos movimentos sociais e a defesa de uma política econômica favorável ao capital.
O bolsonarismo e a fabricação do inimigo
O bolsonarismo converteu frustrações materiais em guerra cultural. A precariedade dos serviços públicos foi atribuída a professores, artistas, universidades, pessoas LGBT, movimentos de moradia e partidos de esquerda. A corrupção foi apresentada como essência da política, mas a crítica raramente alcançava a estrutura de financiamento empresarial, a dívida, a concentração econômica ou a apropriação privada do orçamento. O inimigo precisava ser visível, cotidiano e vulnerável. A pessoa que recebe auxílio, o jovem negro da periferia ou a mulher que reivindica autonomia ofereciam alvos mais convenientes do que o capital financeiro.
A desinformação não funcionou apenas porque muitas pessoas foram enganadas por mensagens falsas. Ela funcionou porque encontrou uma sociedade fragmentada, sem confiança em instituições e submetida à insegurança permanente. A mensagem conspiratória dá forma simples a uma experiência confusa. Se o trabalho não garante futuro, se o hospital não atende, se a escola não consegue oferecer condições mínimas e se a política parece distante, a narrativa fascista afirma que tudo isso resulta de uma conspiração conduzida por inimigos moralmente inferiores. A mentira não elimina a realidade; ela captura a realidade e a reorganiza em favor da reação.
Gustave Le Bon, ao tratar da psicologia das multidões, identificou como a massa pode ser mobilizada por imagens, repetições e afirmações simples, mas sua teoria não deve ser usada para culpar irracionalmente o povo. A multidão não surge do nada nem é naturalmente estúpida. Ela é produzida por condições sociais concretas. O fascismo explora a dissolução dos vínculos coletivos e substitui a organização consciente por identificação emocional com o líder. A bandeira, o uniforme, o bordão e a ameaça permanente fabricam uma unidade imaginária onde existem interesses de classe profundamente desiguais.
O líder aparece como encarnação da vontade popular precisamente quando os indivíduos perderam capacidade de agir juntos. Ele fala em nome do povo, mas despolitiza o povo. A multidão não decide sobre a produção, o orçamento ou o trabalho; apenas aclama, compartilha, denuncia e exige punição. A política é reduzida a uma disputa moral entre cidadãos de bem e inimigos da nação. Essa redução é funcional ao capital porque impede que o conflito seja dirigido contra a propriedade e contra a apropriação privada da riqueza.
A disciplina do trabalho como promessa de liberdade
O fascismo pode se apresentar como defesa da liberdade, desde que liberdade signifique ausência de direitos para quem trabalha. A liberdade do entregador é descrita como possibilidade de escolher quando conectar o aplicativo, embora ele dependa de tarifas incertas, avaliações opacas e longas jornadas. A liberdade do trabalhador informal é celebrada porque ele não tem patrão visível, ainda que esteja subordinado a plataformas, intermediários e credores. A liberdade empresarial, por outro lado, aparece como direito concreto de demitir, terceirizar, vigiar e reduzir custos.
Essa linguagem se torna autoritária quando transforma a resistência à exploração em desvio moral. Quem não aceita qualquer salário é preguiçoso. Quem reivindica jornada menor não tem compromisso. Quem adoece é fraco. Quem se organiza é inimigo da empresa ou da pátria. O fascismo radicaliza essa lógica ao converter a obediência profissional em virtude nacional. O trabalhador ideal é aquele que não questiona, não interrompe a produção e aceita a própria substituibilidade como prova de mérito.
A técnica contemporânea amplia essa disciplina. O algoritmo de trabalho distribui pedidos, calcula desempenho, define prioridade e pode punir sem explicação. A plataforma se apresenta como simples intermediária, enquanto exerce funções de comando. Quando o trabalhador critica essa relação, o discurso empresarial responde com a fantasia do empreendedor de si mesmo. O fascismo acrescenta uma dimensão política: exige que o sujeito precarizado não apenas suporte a exploração, mas odeie aqueles que denunciam sua existência. A submissão passa a ser vivida como identidade e orgulho.
Há uma afinidade entre a gestão algorítmica e o imaginário fascista, embora não sejam a mesma coisa. O algoritmo fragmenta, classifica e individualiza; o fascismo mobiliza, uniformiza e hierarquiza. Um transforma a exploração em pontuação, o outro transforma a frustração em ódio coletivo. Ambos podem se combinar quando a sociedade aceita que pessoas sejam reduzidas a perfis, índices de produtividade, suspeitas e categorias de risco. A administração automática da vida prepara o terreno para que a violência seja percebida como procedimento técnico e não como decisão política.
O espetáculo da autoridade
Guy Debord mostrou que o espetáculo não é apenas um conjunto de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. Essa formulação ajuda a entender a política fascista nas redes. A autoridade não precisa resolver a vida material para parecer poderosa; precisa produzir cenas permanentes de força. Um discurso agressivo, uma motociata, uma ameaça contra instituições, uma arma exibida ou um confronto fabricado podem funcionar como prova visual de que o líder não se submete às regras comuns.
O espetáculo substitui a capacidade de governar pela capacidade de ocupar a atenção. Enquanto a renda se concentra e os serviços se deterioram, a política oferece guerra permanente contra um inimigo mutável. Cada escândalo engendra outro, cada mentira exige uma mentira adicional, e a indignação impede a sedimentação da experiência. O público não é convocado a compreender o mecanismo social que o prejudica, mas a reagir imediatamente ao estímulo mais recente.
Essa forma de mobilização é particularmente eficaz em um ambiente de trabalho exaustivo. Quem passa o dia alternando entregas, metas, telas e deslocamentos dispõe de pouco tempo e energia para participar de organizações coletivas. A conexão permanente não produz necessariamente comunidade; pode produzir isolamento acompanhado. Milhares compartilham a mesma indignação, mas continuam separados, competindo por renda e reconhecimento. O espetáculo oferece a sensação de pertencimento que a vida concreta negou, sem alterar a relação que produz a solidão.
Contra o fascismo, não basta defender a normalidade
A defesa abstrata da democracia é insuficiente quando a democracia existente convive com desemprego, fome, racismo, violência policial e trabalho sem direitos. Se a esquerda responde ao fascismo apenas pedindo respeito às instituições, deixa intacta a experiência social que alimenta o ressentimento. O trabalhador que enfrenta a plataforma, a escola abandonada, o transporte caro e a ameaça de despejo não pode ser convencido apenas por uma celebração formal da legalidade. Ele precisa encontrar na ação política uma forma concreta de recuperar poder sobre a própria vida.
Isso não significa aceitar a explicação fascista da crise. Significa disputar suas causas no terreno material. A defesa de direitos trabalhistas, a redução da jornada, a proteção social, a organização dos entregadores, o fortalecimento dos serviços públicos e o combate ao racismo não são pautas separadas da luta contra o autoritarismo. São formas de impedir que a precariedade seja convertida em ódio contra os de baixo. Sem solidariedade organizada, a indignação continuará disponível para quem promete punir em nome da ordem.
Também é necessário recusar a imagem de que o fascismo é uma anomalia produzida por indivíduos irracionais. Ele emerge de uma sociedade capitalista em crise, quando as classes dominantes não conseguem oferecer integração social e as organizações populares não conseguem transformar o sofrimento em projeto coletivo. A reação fascista apresenta-se então como solução radical, mas conserva a propriedade, a exploração e a hierarquia. Sua novidade está em convocar os próprios prejudicados a defenderem, com entusiasmo, as condições de seu prejuízo.
O fascismo se combate retirando da extrema direita o monopólio da revolta. Isso exige nomear o patrão onde aparece o aplicativo, a classe onde aparece a moralidade, o interesse econômico onde aparece a guerra cultural e a violência de Estado onde aparece a promessa de segurança. O ressentimento não precisa ser tratado como destino psicológico nem como defeito individual. Ele pode ser reorganizado em consciência de classe, desde que a crítica abandone a superfície dos símbolos e alcance a vida material.
Quando alguém pergunta o que significa fascismo, a resposta mais rigorosa não está em uma lista de características congeladas. Significa uma política de crise que mobiliza o medo social para restaurar a autoridade, destruir solidariedades e proteger a ordem capitalista sob a aparência de rebelião. No Brasil, essa política encontrou no bolsonarismo sua forma recente e encontrou no trabalho precarizado uma de suas principais matérias-primas. A alternativa não é trocar um líder por outro enquanto a exploração permanece. É transformar a experiência dispersa da injustiça em força coletiva capaz de enfrentar os que lucram com ela.
Comentários
Seja o primeiro a comentar.
Deixe um comentário
Seu comentário será publicado após aprovação.