A pós-verdade não designa simplesmente a mentira espalhada nas redes sociais, nem a incapacidade de distinguir um fato de uma opinião. O conceito nomeia uma forma política em que a experiência emocional, a identidade de grupo e a desconfiança nas instituições passam a valer mais do que a verificação pública dos acontecimentos. No Brasil, essa forma encontrou terreno fértil na combinação entre abandono estatal, desigualdade, plataformas digitais e extrema direita. As enchentes do Rio Grande do Sul, em 2024, expuseram esse mecanismo com uma nitidez brutal: enquanto pessoas perdiam suas casas, animais, documentos e meios de vida, a disputa política se deslocava para vídeos, boatos e narrativas sobre quem estaria ajudando, quem estaria impedindo a ajuda e quem teria responsabilidade pela catástrofe.

A questão não é que os atingidos fossem incapazes de reconhecer a realidade. Ao contrário: quem estava submerso, abrigado às pressas ou procurando familiares possuía uma experiência concreta do desastre. O problema é que essa experiência, atravessada por medo e insegurança, foi disputada por aparelhos de comunicação capazes de transformar acontecimentos parciais em explicações totais. A pós-verdade prospera quando a verdade factual chega tarde, de modo fragmentado e mediada por instituições desacreditadas, enquanto a mentira aparece imediatamente, com personagens definidos, culpados convenientes e uma comunidade imaginária de crentes.

A catástrofe como laboratório da pós-verdade

Durante as enchentes gaúchas, circularam nas redes sociais conteúdos falsos ou enganosos sobre a atuação do poder público, o destino de doações, a presença de voluntários, a situação de abrigos e a suposta retenção de mantimentos. Não é necessário inventariar cada boato para compreender sua função. A desinformação não precisava convencer todos os habitantes do estado de uma única versão. Bastava produzir dúvida, retardar decisões, atacar mediadores confiáveis e organizar a percepção do desastre em torno de uma guerra política.

Esse funcionamento é diferente do jornalismo errado ou da informação incompleta. A mentira casual pode resultar de negligência; a pós-verdade é uma forma de disputa social. Ela seleciona imagens verdadeiras, recorta declarações, combina fatos isolados com acusações sem prova e os apresenta como confirmação de uma narrativa já desejada. Um vídeo de uma estrada bloqueada pode ser utilizado para afirmar que o governo impede a entrada de doações, ainda que o bloqueio tenha outra causa. Uma reclamação legítima sobre a lentidão de uma operação pode ser convertida em prova de abandono deliberado. Uma ação de solidariedade pode ser transformada em propaganda partidária. A realidade não desaparece: ela é rearranjada para funcionar como munição.

As enchentes também revelaram a fragilidade das fronteiras entre ajuda humanitária e espetáculo político. Voluntários, influenciadores, empresários, militares, prefeitos e parlamentares passaram a disputar visibilidade em meio à emergência. A presença de câmeras não apenas registrava a catástrofe; ela reorganizava a própria forma de agir. O gesto que não circula parece não existir, enquanto a imagem que circula pode valer mais do que a efetividade da ação. Nesse ambiente, o sofrimento concreto se converte em conteúdo, e o conteúdo se converte em capital político.

Quando a experiência perde a capacidade de formar verdade comum

A pós-verdade não aparece porque as pessoas deixaram de ter contato com o mundo material. Ela aparece quando a experiência material já não consegue produzir, por si só, uma interpretação comum. O trabalhador que vê a água invadir sua casa sabe que a enchente existe, mas não necessariamente sabe por que os alertas falharam, quais obras foram interrompidas, como funcionam os planos de contingência ou quais órgãos dividem responsabilidades. Essa distância entre o acontecimento vivido e sua explicação política abre espaço para narrativas prontas.

É nesse ponto que a desinformação se alimenta do abandono estatal. Quando serviços públicos são insuficientes, quando a prevenção não é explicada, quando a assistência depende de campanhas improvisadas e quando as autoridades se comunicam de maneira contraditória, a população não recebe apenas menos proteção. Recebe também menos instrumentos para interpretar o que ocorreu. O Estado capitalista não é uma instância neutra situada acima dos conflitos sociais; como mostra Alysson Mascaro, ele organiza juridicamente e politicamente as relações de uma sociedade fundada na mercadoria e na desigualdade. Seu abandono não é um acidente exterior ao sistema. Ele expressa prioridades econômicas, formas de gestão e limites estruturais da proteção pública.

Depois da tragédia, a disputa pela responsabilidade costuma ser apresentada como um confronto entre versões equivalentes. De um lado, estaria quem culpa exclusivamente governos locais; de outro, quem culpa exclusivamente o governo federal. Essa simetria é confortável para quem não deseja investigar a cadeia concreta de decisões. A prevenção de desastres, a fiscalização ambiental, o planejamento urbano, a manutenção de estruturas, a comunicação de riscos e a resposta emergencial envolvem responsabilidades distribuídas. A crítica material exige reconstruir essa cadeia, não substituí-la por um vilão produzido para consumo rápido.

A extrema direita, entretanto, não precisa dessa reconstrução. Sua vantagem é converter complexidade em ressentimento. Se o Estado falhou, a explicação pode ser apresentada como uma conspiração contra cidadãos honestos. Se a ajuda pública demorou, a causa pode ser atribuída a uma suposta perseguição ideológica. Se organizações sociais atuaram, sua presença pode ser denunciada como oportunismo. A narrativa não precisa ser coerente em todos os detalhes. Precisa apenas confirmar a sensação de que existe um inimigo e de que o grupo certo foi traído.

A pós-verdade como tecnologia de mobilização

Gustave Le Bon descreveu a multidão como um espaço em que indivíduos submetidos à sugestão e à circulação afetiva podem abandonar a ponderação isolada e aderir a imagens comuns. Sua psicologia das multidões, embora marcada por limites históricos e políticos, ajuda a compreender uma dimensão atual da política digital: a mensagem viral não busca convencer por demonstração, mas criar uma atmosfera. A indignação, o medo e o orgulho de grupo funcionam como provas emocionais. Quem compartilha não está necessariamente afirmando que examinou todos os fatos; está sinalizando pertencimento.

As plataformas digitais industrializam essa dinâmica. Seus algoritmos não são simples ferramentas neutras que distribuem informação conforme a relevância pública. Eles organizam visibilidade segundo padrões de atenção, retenção e interação. Conteúdos que provocam raiva, humilhação ou pânico tendem a produzir mais resposta do que explicações cautelosas. Uma análise sobre responsabilidades administrativas precisa de contexto; uma acusação contra um inimigo exige apenas uma frase, uma imagem e um sentimento. A arquitetura comercial da plataforma transforma a instabilidade emocional em valor econômico.

A técnica, nesse caso, não é apenas o aparelho usado para espalhar uma mensagem. Heidegger compreendeu a técnica moderna como uma forma de enquadramento que apresenta o mundo como reserva disponível, algo a ser calculado, ordenado e mobilizado. Nas plataformas, acontecimentos, relações e sofrimentos são convertidos em unidades de atenção. A enchente aparece como sequência de imagens; a vítima, como personagem; o voluntário, como marca; a disputa política, como métrica de engajamento. O desastre deixa de ser somente uma emergência social e passa a ser também um estoque de conteúdo.

Essa conversão explica por que a correção posterior raramente desfaz o dano. A informação falsa já cumpriu sua tarefa ao produzir suspeita e organizar afetos. Uma nota de esclarecimento pode corrigir o conteúdo, mas não recompõe automaticamente a confiança destruída. A plataforma não recompensa a compreensão do processo histórico; recompensa a circulação do fragmento mais capaz de capturar atenção. A verdade chega como explicação tardia, enquanto a mentira chega como acontecimento.

Da mentira eleitoral à administração permanente do ressentimento

O bolsonarismo aperfeiçoou no Brasil uma linguagem política baseada na suspeita sistemática. O adversário não é apenas alguém que defende outra política; é um inimigo interno, um agente de corrupção moral, um conspirador contra a família, a religião, a propriedade ou a nação. A desinformação funciona, nesse quadro, como uma infraestrutura de identidade. O apoiador não precisa verificar cada alegação porque a fonte já está incluída em uma comunidade de confiança, enquanto qualquer instituição externa é previamente considerada suspeita.

Essa lógica esteve presente na campanha contra as urnas eletrônicas, nas mentiras sobre vacinas e na fabricação de pânicos morais. Mas seria um erro tratar a desinformação apenas como técnica eleitoral. Ela é também uma maneira de governar a percepção cotidiana. Ao manter a base social em estado de alerta, a extrema direita produz uma mobilização permanente, na qual toda decisão pública pode ser interpretada como ataque e toda crítica como perseguição. O ressentimento deixa de ser reação episódica e se torna ambiente político.

Guy Debord chamou de espetáculo a organização social em que a relação entre as pessoas é mediada por imagens. O espetáculo não consiste apenas em televisão, publicidade ou propaganda explícita. Ele é uma forma de vida em que o que aparece adquire primazia sobre o que é vivido, e em que a representação se separa da capacidade coletiva de agir sobre a realidade. Nas redes, a catástrofe espetacularizada produz a sensação de participação sem necessariamente produzir organização. Compartilhar uma denúncia pode substituir a construção de uma reivindicação; exibir indignação pode substituir a investigação das causas.

Isso não significa desprezar a comunicação digital ou opor uma suposta pureza da vida real às redes. As plataformas também serviram para localizar pessoas, organizar resgates e arrecadar recursos durante as enchentes. A questão é outra: a mesma infraestrutura que permite coordenação solidária é apropriada por interesses que transformam a urgência em disputa de audiência. A tecnologia não determina sozinha o resultado, mas opera dentro de relações sociais concretas. Sob o capitalismo de plataforma, solidariedade e manipulação podem circular pelo mesmo canal, com a diferença de que a manipulação costuma ser mais rentável para o sistema de atenção.

O trabalhador precarizado como alvo e transmissor

A pós-verdade encontra uma base especialmente vulnerável entre trabalhadores submetidos à precarização. O entregador de aplicativo que atravessa a cidade durante uma emergência conhece a distância entre a propaganda da autonomia e a realidade da dependência algorítmica. Ele pode ser apresentado como empreendedor, herói ou cidadão livre, mas precisa aceitar tarifas, riscos e jornadas definidos por uma plataforma que não reconhece plenamente sua relação de trabalho. Sua experiência de insegurança é real; o que a disputa política faz é oferecer uma explicação para ela.

Em vez de mostrar como a acumulação se apoia na transferência de riscos para o trabalhador, a ideologia pode atribuir a precariedade a inimigos culturais: sindicatos, universidades, servidores, imigrantes, movimentos sociais ou políticas de proteção. O mesmo trabalhador que sofre com a ausência de direitos é convocado a defender a empresa que o remunera de maneira instável. A pós-verdade não precisa negar a exploração; pode reinterpretá-la como prova de que qualquer regulação seria uma ameaça à liberdade.

Algo semelhante ocorre com professores, atendentes de call center e trabalhadores submetidos a metas. A experiência de exaustão é concreta, mas suas causas são individualizadas. O trabalhador é incentivado a acreditar que não prosperou por falta de disciplina, enquanto o sistema apresenta a própria exploração como oportunidade. Quando esse trabalhador encontra uma narrativa conspiratória, ela pode oferecer uma explicação emocionalmente mais satisfatória do que a análise da estrutura. Não é preciso que a narrativa seja verdadeira; basta que forneça pertencimento e um alvo para a raiva.

Marx chamou de fetichismo da mercadoria a inversão pela qual relações sociais entre pessoas aparecem como relações entre coisas. Nas plataformas, essa inversão se atualiza quando a nota, a taxa dinâmica, o índice de produtividade ou o alcance de uma publicação parecem possuir vida própria. O algoritmo aparece como autoridade técnica, embora condense decisões empresariais e relações de poder. A pós-verdade prospera nesse terreno porque a opacidade material do sistema já impede que muitos reconheçam quem decide, quem lucra e quem suporta o custo.

O Estado desacreditado e a oportunidade autoritária

Quando o Estado abandona, mas continua exigindo obediência, sua legitimidade se deteriora. A extrema direita não cria essa contradição do nada; ela a captura. Promete uma autoridade sem mediação, uma liderança capaz de falar diretamente ao povo e resolver tudo pela força da vontade. O líder aparece como antídoto para instituições lentas, procedimentos técnicos e conflitos sociais. A desinformação é o idioma adequado dessa promessa porque transforma o debate público em uma sucessão de decisões emocionais.

O autoritarismo se apresenta, então, como remédio para a confusão que ele próprio intensifica. Primeiro, destrói referências compartilhadas ao atacar imprensa, ciência, universidades, servidores e organizações coletivas. Depois, oferece a figura do líder como única fonte confiável. A consequência é a substituição da política por lealdade. Não importa mais se uma medida funciona; importa se ela demonstra fidelidade ao grupo. A catástrofe deixa de ser oportunidade para reorganizar a prevenção e passa a ser teste de devoção partidária.

Essa operação também protege interesses econômicos. Se a discussão se concentra em quem publicou o vídeo mais indignado, desaparecem as perguntas sobre orçamento, planejamento urbano, ocupação de áreas de risco, privatização de serviços, manutenção de estruturas e condições de trabalho. A política da pós-verdade não é apenas irracional; ela é seletiva. Pode ser extremamente eficiente ao ocultar relações de propriedade e responsabilidade. A confusão pública não impede a acumulação privada. Muitas vezes, é uma de suas condições.

Não basta checar fatos

A checagem de fatos é necessária, mas insuficiente. Ela corrige afirmações e ajuda a impedir que falsidades circulem sem contestação. Porém, não alcança sozinha as condições sociais que tornam a mentira crível. Desmentir que uma doação foi bloqueada não responde, por si só, por que a população acredita que o Estado seria capaz de abandonar deliberadamente uma região. Informar o funcionamento de uma operação não recompõe a confiança de quem passou dias sem notícias de familiares. A verdade factual precisa ser acompanhada de instituições que produzam experiência verificável de proteção.

Combater a pós-verdade exige reconstruir mediações coletivas. Sindicatos, associações de moradores, escolas, universidades, movimentos sociais e serviços públicos podem produzir formas de conhecimento que não dependam exclusivamente da lógica da viralização. A transparência sobre decisões, responsabilidades e recursos não é uma concessão estética; é uma condição de controle democrático. Sem canais públicos de informação, a plataforma ocupará o espaço vazio com aquilo que melhor monetiza a atenção.

Também é preciso enfrentar o poder econômico das empresas digitais. Não basta pedir que usuários sejam mais responsáveis enquanto plataformas lucram com conteúdos que ampliam hostilidade e pânico. A discussão envolve governança algorítmica, proteção de dados, responsabilização empresarial, auditoria independente e direito coletivo à informação. O problema não é apenas o usuário que compartilha uma mentira, mas o sistema que identifica a mentira como conteúdo rentável, oferece sua distribuição e transforma a reação em mercadoria.

A crítica deve, ao mesmo tempo, recusar a fantasia de que existiria uma autoridade técnica capaz de decidir sozinha o que a sociedade pode saber. A verdade pública não será restaurada por um algoritmo oficial nem por um Ministério da Verdade digital. Ela depende de conflito social organizado, investigação aberta e capacidade de trabalhadores e comunidades participarem da produção das explicações que orientam suas vidas. O antídoto para a manipulação não é a passividade diante de especialistas; é o fortalecimento das formas coletivas de conhecimento e decisão.

A verdade precisa voltar a ter uma base material

A enchente não foi uma narrativa. O medo de quem perdeu a casa não foi uma opinião. A demora de um resgate, a falta de abrigo adequado, a perda de documentos e a interrupção do trabalho são fatos inscritos em corpos, territórios e relações econômicas. O que a pós-verdade faz é separar esses fatos de suas causas, reorganizando-os em imagens que podem ser vendidas como indignação política. Ela não elimina o mundo; impede que o mundo vivido se transforme em consciência comum.

É por isso que a luta contra a desinformação não pode ser reduzida a uma batalha moral entre pessoas esclarecidas e pessoas manipuladas. Essa divisão apenas reforça o desprezo de classe que a extrema direita sabe explorar. Quem acredita em um boato pode estar expressando uma experiência real de abandono, ainda que a explicação oferecida seja falsa. A tarefa crítica consiste em preservar a experiência e disputar sua interpretação. O medo não deve ser ridicularizado; deve ser conectado às relações que o produzem.

A verdade pública só se fortalece quando deixa de ser uma informação isolada e se torna prática social. Uma comunidade capaz de acompanhar obras, cobrar autoridades, organizar trabalhadores, fiscalizar plataformas e produzir seus próprios registros possui mais recursos contra a manipulação. A resposta à pós-verdade não é exigir confiança abstrata nas instituições existentes, mas transformar as condições que fazem a mentira parecer mais confiável do que o Estado, a imprensa ou a ciência.

Enquanto a vida social for marcada por trabalho precário, serviços insuficientes, desigualdade territorial e plataformas que premiam a indignação, a desinformação continuará encontrando matéria-prima. A extrema direita seguirá oferecendo culpados instantâneos para problemas produzidos por relações históricas e econômicas. Romper esse circuito exige mais do que corrigir o vídeo falso do dia. Exige disputar quem controla a produção da realidade, quem tem direito a explicá-la e quem será obrigado a responder por ela.