A expressão extrema-direita costuma aparecer como uma classificação distante, própria de manuais de ciência política ou de verbetes escolares. No Brasil, porém, ela ganhou corpo em cenas concretas: pessoas acampadas diante de quartéis, empresários financiando bloqueios de estradas, mensagens convocando uma ruptura institucional e uma multidão destruindo prédios públicos em Brasília em 8 de janeiro de 2023. Não se trata apenas de uma opinião conservadora mais intensa. Trata-se de uma forma de organizar o medo, o ressentimento e a violência para proteger hierarquias sociais ameaçadas.
A disputa sobre escrever “extrema-direita” ou “extrema direita” é secundária diante do problema político que a expressão nomeia. A grafia com hífen funciona como unidade semântica quando falamos de uma corrente política específica; o essencial, contudo, é não deixar que a classificação esconda o seu funcionamento. A extrema-direita brasileira não surgiu porque milhões de pessoas subitamente abandonaram a racionalidade. Ela se formou sobre contradições reais do capitalismo, capturadas por uma ideologia que oferece inimigos imaginários e soluções autoritárias para problemas produzidos por relações sociais concretas.
A extrema-direita cresce onde a insegurança vira explicação moral
O trabalhador submetido a jornadas extensas, salário insuficiente e serviços públicos precários experimenta uma insegurança objetiva. O entregador que passa o dia sobre uma motocicleta, sem garantia de renda e submetido à avaliação de um aplicativo, não está inventando sua instabilidade. A professora que enfrenta salas superlotadas, baixos salários e violência cotidiana tampouco está expressando apenas uma irritação individual. O operador de call center controlado por metas, pausas e scripts vive uma forma de desgaste que não desaparece quando recebe uma mensagem motivacional da empresa.
O problema é que a extrema-direita não explica essa insegurança pela propriedade, pela exploração ou pela concentração de poder econômico. Ela desloca a causa para o vizinho, o imigrante, o pobre que recebe uma política social, o movimento negro, o sindicato, a universidade, a imprensa ou qualquer pessoa identificada como inimiga da ordem. A exploração permanece invisível; o ressentimento encontra um alvo disponível. A ideologia funciona precisamente porque parte de uma experiência verdadeira e oferece uma interpretação falsa sobre sua origem.
Marx mostrou que o capitalismo produz relações sociais nas quais os próprios trabalhadores aparecem como responsáveis por condições que não controlam. O desempregado é acusado de não se esforçar o suficiente; o endividado é tratado como irresponsável; o entregador é chamado de empreendedor; a professora é responsabilizada pelo fracasso de uma escola abandonada pelo Estado. A extrema-direita aproveita essa inversão e a radicaliza. Em vez de perguntar por que a vida se tornou tão insegura, pergunta quem merece ser punido por essa insegurança.
Essa operação também explica por que o discurso extremista pode conquistar setores populares sem defender seus interesses materiais. A promessa de autoridade oferece uma compensação simbólica para a perda de controle sobre a própria vida. Se o trabalhador não consegue negociar com a plataforma, ao menos pode imaginar que recuperará dignidade humilhando um grupo considerado inferior. Se não participa das decisões econômicas, pode ser convocado a defender uma pátria abstrata, uma família idealizada e uma ordem social que nunca lhe pertenceu plenamente.
O caso brasileiro: do ressentimento digital à tentativa de ruptura
O bolsonarismo não inventou a desigualdade brasileira, o racismo, o autoritarismo policial ou a nostalgia da ditadura. Ele articulou esses elementos em uma linguagem política adaptada às redes sociais, aos grupos de mensagem e à crise de representação. Sua força esteve em transformar acontecimentos diferentes em uma narrativa única: o país estaria sendo roubado por inimigos internos, a democracia seria uma fraude, a imprensa conspiraria contra o povo e a violência estatal seria a única resposta possível.
O 8 de janeiro tornou visível o ponto de chegada dessa lógica. A depredação das sedes dos Três Poderes não foi um protesto espontâneo que perdeu o controle por acidente. Houve mobilização, deslocamento de pessoas, produção de palavras de ordem e uma crença compartilhada de que a derrota eleitoral poderia ser anulada pela pressão das ruas e pela intervenção militar. A destruição dos prédios foi a forma material de uma recusa: a extrema-direita não aceitava que a soberania popular pudesse contrariar o líder que apresentava como encarnação da nação.
É importante não reduzir o episódio à imagem dos vândalos que quebraram vidraças. Essa redução transforma um projeto político em desordem policial. O acontecimento expressou uma cadeia de responsabilidades que envolve liderança, financiamento, propaganda e tolerância institucional. Também revelou como a defesa da democracia não pode se limitar à celebração abstrata de ritos eleitorais. Democracia exige impedir que forças organizadas usem recursos econômicos, máquinas de desinformação e estruturas do Estado para destruir as condições da disputa democrática.
As investigações e responsabilizações posteriores foram necessárias porque a impunidade ensinaria que uma derrota eleitoral pode ser contestada pela força. Ao mesmo tempo, a defesa do Estado de Direito não deve ser confundida com autorização para perseguição política arbitrária. A resposta democrática precisa individualizar responsabilidades, respeitar o devido processo e alcançar quem organizou e financiou a violência, não apenas quem foi filmado dentro dos edifícios. Punir executores sem investigar mandantes produziria uma justiça incompleta e preservaria a infraestrutura do autoritarismo.
Não é apenas radicalismo: é uma política de classe
Chamar a extrema-direita de “radical” pode ser insuficiente porque a palavra sugere apenas intensidade. Uma pessoa pode sustentar uma opinião radical sobre costumes sem defender a destruição de direitos políticos. A extrema-direita, em sentido histórico e social, combina nacionalismo excludente, culto à autoridade, hostilidade à igualdade, militarização da política e construção de inimigos internos. Seu radicalismo não está somente no tom; está no projeto de reorganizar a sociedade por meio da obediência e da exclusão.
Isso não significa que todo eleitor bolsonarista seja fascista ou que toda pessoa conservadora pertença à extrema-direita. A política concreta é mais contraditória do que seus rótulos. Há eleitores que votaram em Bolsonaro por medo da violência, por rejeição ao Partido dos Trabalhadores, por convicção religiosa ou por desinformação, sem desejar uma ruptura institucional. Mas uma análise crítica não pode tratar essas motivações como equivalentes ao projeto conduzido pela liderança. O fato de uma base ser heterogênea não torna neutra a direção política que a organiza.
A questão de classe aparece justamente nessa diferença entre o discurso e os interesses. A extrema-direita promete defender o trabalhador, mas costuma rejeitar sindicatos, direitos coletivos e políticas de redistribuição que ampliem o poder de barganha popular. Exalta o mérito individual enquanto aceita a concentração de riqueza. Denuncia privilégios públicos, mas raramente enfrenta os privilégios econômicos que permitem a grandes grupos controlar mercados, crédito, comunicação e infraestrutura. A “liberdade” que oferece é, frequentemente, a liberdade do empregador para contratar sem direitos e da plataforma para controlar sem transparência.
O trabalhador é convidado a imaginar que sua autonomia consiste em não depender de políticas públicas, mesmo quando depende delas para estudar, tratar a saúde, circular e se aposentar. A extrema-direita transforma direitos em favores e solidariedade em suspeita. O Bolsa Família, as cotas, as universidades públicas, a fiscalização trabalhista e a proteção ambiental são apresentados como obstáculos à meritocracia, quando na verdade enfrentam desigualdades produzidas por uma sociedade em que ponto de partida, raça, gênero e patrimônio definem oportunidades muito antes do esforço individual.
O algoritmo não criou o fascismo, mas ampliou sua circulação
As plataformas digitais não são a causa única da extrema-direita, mas modificaram sua capacidade de recrutamento. Seus algoritmos favorecem conteúdos que provocam reação, permanência e compartilhamento. Uma mensagem cuidadosa sobre política pública disputa atenção em condições desiguais com uma acusação de traição, um vídeo de humilhação ou uma teoria conspiratória. A economia da atenção converte indignação em ativo comercial, e a extrema-direita aprendeu a operar essa infraestrutura com eficiência.
Guy Debord descreveu a sociedade do espetáculo como uma relação social mediada por imagens. Nas redes, a política aparece cada vez mais como circulação de cenas, inimigos e performances de autenticidade. O líder que grita, ofende e desafia instituições parece mais “verdadeiro” do que aquele que explica um orçamento ou negocia uma política pública. A aparência de espontaneidade encobre uma indústria de produção de conteúdo, impulsionamento, grupos coordenados e monetização.
A tecnologia, nesse caso, não é uma força neutra que simplesmente distribui opiniões. Ela organiza visibilidade, hierarquiza assuntos e recompensa determinados comportamentos. O mesmo trabalhador submetido ao controle algorítmico no emprego pode ser capturado por um controle algorítmico da atenção em casa. Durante o dia, o aplicativo calcula sua produtividade; à noite, a plataforma calcula sua propensão a clicar, comentar e permanecer. A alienação atravessa o trabalho e o consumo de informação.
Isso não autoriza a conclusão confortável de que bastaria regular as redes para extinguir a extrema-direita. A desinformação prospera porque encontra frustrações materiais, descrédito institucional e desigualdades profundas. Mas também é um erro tratar as plataformas como simples espaços de liberdade de expressão. Quando empresas privadas decidem quais conteúdos ganham alcance e obtêm lucro com a escalada da hostilidade, a discussão precisa incluir responsabilidade econômica e poder social. Combater a extrema-direita exige democratizar a comunicação, fortalecer a educação crítica e enfrentar a concentração da infraestrutura digital.
O Estado não é neutro diante do autoritarismo
A tradição liberal gosta de imaginar o Estado como árbitro externo aos conflitos sociais. Alysson Mascaro, ao analisar o Estado no capitalismo, mostra por que essa aparência é insuficiente: o Estado apresenta-se como forma geral e impessoal, mas organiza juridicamente relações sociais marcadas pela desigualdade. Isso não quer dizer que todas as instituições sejam idênticas ou que a democracia seja uma fraude sem diferença entre governos. Quer dizer que a disputa pelo Estado é decisiva e que suas formas concretas podem ampliar direitos ou proteger privilégios.
Essa distinção é necessária para avaliar o governo Lula sem ingenuidade. Um governo de coalizão, submetido ao Congresso, ao mercado financeiro e a limites estruturais, não pode realizar sozinho uma transformação socialista. Também pode cometer erros, negociar com forças conservadoras e frustrar expectativas populares. Essas críticas são legítimas. O que não é legítimo é transformar suas limitações em argumento para igualá-lo ao projeto bolsonarista de ataque às instituições, enfraquecimento de direitos e normalização da violência política.
Desde o retorno de Lula ao governo, políticas sociais, programas de transferência de renda, valorização do salário mínimo, retomada de investimentos públicos e reconstrução de estruturas de proteção passaram a disputar espaço com a lógica de abandono que a extrema-direita apresenta como normalidade. A reconstrução de políticas públicas não resolve a exploração nem elimina a desigualdade, mas cria condições materiais para que a população não seja entregue à caridade privada, à precarização e ao discurso do ódio.
A objeção de que defender a reeleição de Lula seria apenas “torcida partidária” confunde neutralidade com análise. Quando uma força política ameaça a ordem democrática e outra, com todas as suas limitações, preserva eleições, direitos sociais e capacidade de ação estatal, não há razão crítica para fingir equivalência. Apoiar Lula não significa suspender a crítica ao governo. Significa reconhecer que a disputa eleitoral ocorre entre projetos diferentes e que a derrota da extrema-direita é uma condição para ampliar, e não abandonar, a luta por mudanças mais profundas.
A democracia precisa disputar a vida concreta
A extrema-direita não será derrotada apenas com advertências morais contra o preconceito. Ela precisa ser enfrentada no terreno em que recruta: o da insegurança cotidiana. Um entregador não deixará de ouvir promessas autoritárias porque alguém lhe ensinou que democracia é um valor abstrato. Ele precisa encontrar proteção trabalhista, remuneração digna, previdência, organização coletiva e transparência no funcionamento dos aplicativos. A defesa democrática se torna material quando reduz a vulnerabilidade que transforma qualquer inimigo inventado em explicação sedutora.
O mesmo vale para a periferia submetida à violência, para o professor sem condições de trabalho e para o jovem que alterna desemprego, bicos e endividamento. A extrema-direita oferece autoridade porque o Estado aparece, para essas pessoas, ora como ausência, ora como punição. A resposta não pode ser apenas pedir confiança nas instituições. É preciso fazer com que instituições públicas sejam percebidas como instrumentos de direitos, e não somente como polícia, burocracia ou cobrança.
O governo Lula deve ser cobrado por essa tarefa, mas também deve ser defendido contra a falsa equivalência que favorece o autoritarismo. Ampliar emprego protegido, recuperar políticas sociais, fortalecer a educação pública, regular plataformas, combater o racismo e garantir responsabilização pelos ataques à democracia são medidas inseparáveis. A disputa contra a extrema-direita não termina na eleição; começa por retirar das mãos dela o monopólio aparente sobre a revolta.
A questão, no fim, não é escolher entre a grafia com hífen e a grafia sem hífen. É decidir se a expressão será usada como rótulo vazio ou como instrumento de compreensão. No Brasil, a extrema-direita é um projeto que transforma sofrimento social em ódio político, ódio político em obediência e obediência em defesa de privilégios. O 8 de janeiro mostrou sua disposição de ir até a ruptura. A resposta democrática precisa ir além da indignação: deve reconstruir direitos, disputar a consciência social e impedir que o medo seja novamente organizado contra a maioria.
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