Sociedade de controle é o nome dado por Gilles Deleuze a uma forma de poder que não precisa manter os indivíduos apenas atrás dos muros da fábrica, da escola, do quartel, do hospital ou da prisão. Em vez de controlar por longos períodos de confinamento, ela opera de modo contínuo, móvel e conectado: registra comportamentos, calcula desempenhos, distribui acessos, impõe metas e ajusta recompensas ou punições em tempo real. Não se trata de uma vigilância externa ocasional, mas de uma gestão permanente da vida social, hoje intensificada por plataformas digitais, bancos de dados e algoritmos.

Da disciplina ao controle

Deleuze formulou o conceito no texto Post-scriptum sobre as sociedades de controle, publicado em 1990, dialogando diretamente com Michel Foucault. Foucault havia analisado as sociedades disciplinares, consolidadas entre os séculos XVIII e XX, nas quais instituições como escola, fábrica, exército, hospital e prisão moldavam corpos considerados úteis e obedientes. Cada espaço tinha suas regras, seus horários, sua hierarquia e seus mecanismos de vigilância.

Na fábrica disciplinar, por exemplo, o trabalhador entrava, cumpria uma jornada delimitada sob supervisão e saía. Na escola, passava por séries, provas e diplomas; no quartel, por treinamento e comando; na prisão, por isolamento e correção. A disciplina organizava indivíduos em espaços fechados e os submetia a uma sequência de etapas.

Para Deleuze, esse modelo não desaparece, mas entra em transformação. O controle é mais flexível e penetrante: a formação vira aprendizado permanente; o emprego estável dá lugar à avaliação incessante; a fábrica tende a ser substituída pela empresa, que administra concorrência, desempenho e motivação. Em vez da assinatura que identifica o indivíduo em uma instituição, ganha centralidade a senha, o código de acesso, o perfil e a pontuação que autorizam ou bloqueiam circulação, crédito, trabalho e consumo.

Como o controle opera

A palavra decisiva em Deleuze é modulação. A disciplina moldava segundo uma forma relativamente estável; o controle modula sem cessar, alterando exigências conforme dados, metas e cálculos. Não basta terminar o expediente: é preciso manter disponibilidade, produtividade e boa avaliação. Não basta possuir uma qualificação: é preciso atualizar-se continuamente para não se tornar descartável.

As tecnologias digitais ampliam essa lógica porque transformam atividades cotidianas em dados rastreáveis. Cliques, deslocamentos, compras, conversas, entregas, avaliações e tempos de resposta podem ser convertidos em perfis e previsões. Isso não significa que toda tecnologia seja, por si, instrumento de dominação. O problema é quem controla a infraestrutura, os dados e os critérios de decisão: sob o capitalismo, são grandes empresas e instituições estatais que usam essas informações para administrar mercados, consumidores e força de trabalho.

O controle também age por meio da aparência de liberdade. O trabalhador pode escolher quando se conectar, o consumidor pode personalizar sua experiência, o usuário pode aceitar termos de uso. Mas essa liberdade vem cercada por condições que ele não definiu. Quem recusa compartilhar dados pode perder acesso; quem não responde rápido pode cair no ranking; quem não atinge a meta pode ser removido de uma plataforma. A coerção deixa de se apresentar apenas como ordem direta e passa a funcionar como arquitetura invisível de opções.

Trabalho e plataformas no Brasil

No Brasil, a sociedade de controle aparece de forma especialmente nítida na uberização do trabalho. Um entregador de aplicativo não encontra necessariamente um chefe presencial dando ordens, mas é conduzido por um sistema que define chamadas, calcula rotas, monitora localização, mede aceitação de pedidos e recolhe avaliações de clientes. A plataforma pode mudar tarifas, critérios de distribuição de corridas ou regras de bloqueio sem negociação coletiva efetiva. O algoritmo não elimina a chefia: ele a torna opaca, automática e difícil de contestar.

No call center, a situação combina disciplina e controle. Há supervisão, pausas cronometradas e scripts, elementos clássicos do confinamento fabril. Ao mesmo tempo, sistemas registram duração das chamadas, tempo entre atendimentos, avaliações e indicadores individuais. O trabalhador é reduzido a métricas que parecem objetivas, embora expressem metas comerciais e cortes de custos definidos pela empresa.

Também o professor, sobretudo nas redes privadas e em modalidades remotas, pode ser submetido a plataformas que registram presença, atividades, desempenho de turmas e cumprimento de conteúdos. A promessa de inovação pedagógica pode esconder a padronização do ensino, a intensificação do trabalho e a transferência de tarefas administrativas para quem ensina. A tecnologia, nesse caso, não é neutra: ela pode servir à cooperação e ao conhecimento, mas, subordinada à rentabilidade, torna-se instrumento de vigilância e redução de autonomia.

Controle, alienação e crítica

O conceito ajuda a compreender por que a vigilância contemporânea não se resume a câmeras ou espionagem estatal. Ela atravessa o consumo, o trabalho, a comunicação e a subjetividade. O indivíduo é incentivado a se perceber como empresa de si mesmo: deve gerir sua imagem, melhorar sua performance, acumular avaliações e converter cada capacidade em valor de mercado. A alienação se aprofunda porque até a iniciativa pessoal e o desejo de autonomia são capturados como combustível da acumulação.

Mas a sociedade de controle não é um destino tecnológico inevitável. Seus mecanismos dependem de relações capitalistas concretas: propriedade privada das plataformas, concentração de dados, precarização do trabalho e enfraquecimento da organização coletiva. A crítica não consiste em idealizar um retorno às antigas instituições disciplinares, igualmente opressivas, mas em disputar controle social sobre a técnica, proteção efetiva de dados, transparência algorítmica e, sobretudo, formas coletivas de organização capazes de enfrentar o poder das empresas que administram a vida por códigos.